CARTAZES FORA DAS ÁRVORES

Na minha cidade é caso pensado,
Não cobre a folhagem o papel colado.
Não por respeito à Democracia,
Nem à vontade que à urna guia.

É só respeito, singular razão!
À vertical, silente declaração
Da árvore antiga, de raiz segura,
Mais pura que qualquer candidatura.

Prendem os rostos, as promessas feitas,
Às lanternas, aos postes das avenidas,
Onde a luz pública, fria, dá respostas
Às frases gastas, às propostas batidas.

E assim a cidade, no seu jeito rude,
Mostra um decoro de estranha virtude:
As árvores livres, intactas nos troncos,
Os homens, presos em seus próprios concursos.

E vemos, nós, nesta opção bizarra,
Que a política é questão de casca (sem moral),
E o respeito, quando à árvore se vota,
É porque a outra raiz já está rota.

Assim caminha a urbe, nesta dança:
A política busca a semelhança
Do poste liso, da coluna vazia…
Pois a árvore tem outra genealogia.

E no outono, quando caem as folhas,
Não arrastam votos nem siglas enroscadas.
Caem em silêncio, leves, naturais,
Enquanto os cartazes, nos ferros metálicos,
Gritam ao vento seus mundos esquecidos.

António CD Justo

Pegadas do Tempo

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QUANDO O ESTADO ESCOLHE QUEM PODE FALAR

O programa “Parlamento dos Jovens” ao incluir exclusão deseduca

Um Estado que, no seu exercício de pedagogia democrática, escolhe quem pode falar, não ensina democracia: ensina o seu próprio monopólio.

O programa “Parlamento dos Jovens”, promovido pela Assembleia da República, é apresentado como uma escola de cidadania e um exercício democrático exemplar. No entanto, como vi noticiado no Aveiro TV (1) e investiguei, ao excluir sistematicamente os alunos do ensino privado (que, importa recordar, integram o serviço público de educação, ainda que não estatal), revela uma contradição profunda. Esta não é uma mera falha organizacional, é, pelo contrário, o sintoma de uma cultura política enraizada de cunho ideológico.

Trata-se da perpetuação de um republicanismo jacobino, herdeiro de uma visão em que o Estado não é um garantidor neutro de direitos, mas sim o proprietário exclusivo da esfera pública e do conceito de “interesse nacional”. Nesta lógica, o que é não-estatal é visto como menos legítimo, menos puro, menos “público”. A agressividade com que, por vezes, se nega ou diminui o papel do ensino privado cooperativo e confessional não é acidental: é uma afirmação ideológica de poder. O azedume que se observa na discussão pública contra o Ensino Particular é sintoma da formatação eficiente de “pedreiros” da sociedade e de invejas não assumidas! 

Se o objetivo é realmente formar jovens democratas, como pode um programa parlamentar começar por violar o princípio fundamental da igualdade? Ao criar dois escalões de alunos, os que têm voz por estudarem em escolas do Estado e os que são silenciados por estudarem em escolas privadas, ensina-se, na prática, que a democracia é seletiva. Ensina que a representação pode ter critérios de exclusão e que o Estado pode, ele próprio, ser parcial.

Enquanto esta segregação persistir, o “Parlamento dos Jovens” será pouco mais do que uma encenação político-cívica. Útil para formatações e discursos políticos sobre a participação, mas profundamente injusta e formativa de uma ideia distorcida de sociedade: uma onde o Estado reconhece apenas os cidadãos que educa diretamente, e não todos aqueles a quem deve servir igualmente.

O Parlamento dos Jovens conta com 1.158 inscrições, de escolas dos 22 círculos do continente e das regiões autónomas.

A Iniciativa da Assembleia da República dirige-se aos jovens dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e do ensino secundário, de escolas do ensino público (1).

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1) https://app.parlamento.pt/webjovem2015/documentos/ApresentProgramaPJ2014-2015.pdf

https://www.aveirotv.tv/2026/02/06/parlamento-dos-jovens-a-democracia-onde-os-alunos-do-privado-nao-contam/

Inscrições em parlamento.jovens@ar.parlamento.pt

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ORAÇÃO COMO MODERNA MANEIRA DE MANIFESTAÇÃO!

Oração Pacífica é reconhecida como direito na Alemanha e Áustria, em contraste com a repressão no Reino Unido

Tribunais na Alemanha e na Áustria emitiram decisões históricas afirmando que a oração pacífica em espaços públicos é um direito fundamental, protegido pela liberdade de reunião, expressão e religião. As decisões anularam tentativas das autoridades de proibir vigílias de oração perto de clínicas de aborto, rejeitando a ideia de que certas áreas “sensíveis” podem suspender esses direitos. De facto, o que é permitido a nível de ideia política também o tem de ser em questões religiosas.

Na Áustria uma ordem de  proibição policial de uma vigília do grupo “Juventude pela Vida” foi anulada. O tribunal declarou que a oração pacífica é uma reunião legítima e não pode ser excluída do espaço público por motivos religiosos.

Na Alemanha a polícia tentou criar uma “zona de segurança” de 100 metros. O tribunal, com apoio da ADF International, derrubou a restrição.

Estas decisões contrastam com o Reino Unido adota uma postura repressiva, criminalizando a mesma conduta. Aí Isabel Vaughan-Spruce (Birmingham) enfrenta novamente acusações criminais por orar em silêncio na via pública, mesmo após vencer um caso anterior e receber indenização por prisões injustas. Adam Smith-Connor (Bournemouth), tornou-se a primeira pessoa condenada na história britânica moderna por seus pensamentos durante uma oração silenciosa, com base numa regulamentação local que proíbe a “expressão de opinião” sobre o aborto. Ele está a fazer recurso da condenação.
As decisões na Alemanha e Áustria são uma mensagem clara à Europa: espaços públicos não são monopólio de uma única visão de mundo, e autoridades não podem banir cidadãos pacíficos por discordarem de sua expressão religiosa. O Reino Unido autoproclama-se livre, mas contradiz-se quando persegue juridicamente atos silenciosos de fé. A defesa legal dos casos britânicos é coordenada por grupos que argumentam que uma sociedade verdadeiramente livre deve proteger o direito de viver a fé publicamente e defender pacificamente as próprias convicções.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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FOTOGRAFIA DA FERIDA

Há um número que me ocupa:
Dois milhões de carentes em terra lusa
a viver sob o fio da navalha.
Isto não é estatística, é um grito de ausências,
uma planta de barracas na alma da cidade.
Sinto, em ondas sucessivas,
o grande mar da pobreza invadir-me o espírito,
salgar de impotência cada respiração.

Dizem que existe um peso de ouro
que traça a fronteira final
entre a pessoa e a coisa (1).
Aquém dele, o mundo desaba em objecto.
E há um outro peso, menor (2),
que se renova com cada lua:
é a medida mensal do humano,
o limiar abaixo do qual
a vida perde o seu nome
e só a sombra gatinha.

Eu leio os relatórios frios,
os gráficos que sobem como paredes de sepultura,
e em mim cresce um verme,
um verme existencial que rói o alicerce
da fé na democracia.

Pergunto ao vento, que a todos toca por igual:
Como esperar brandura de uma balança
Onde um prato, leve como uma pena (3),
Pesa mais que o suspiro de milhões?
Onde mãos tão poucas seguram a espiga inteira,
onde o trabalho já não liberta,
mas condena à miséria disfarçada?

Vejo a política, esquerda e direita (4),
a discutir a margem do rio
enquanto milhões de seres humanos
se afogam no centro da corrente.

Sinto a solidão da criança, na barraca dos números,
a reforma que não chega ao fim do mês,
a mulher em que a dor coletiva mais toca.
E pergunto, na minha cela de homem confortável e atormentado:
Somos, de facto, lobos uns dos outros?
Fomos nós que desenhámos esta linha,
esta grande fronteira que divide os povos em dois:
os que têm, e os que são o terço ausente da própria vida?

Há uma inércia nos sistemas, um peso morto,
que faz da compaixão um discurso vazio
da misericórdia um luxo teórico
e do bem-comum um negócio político.
E eu, aqui, com as ondas deste mar dentro de mim,
não consigo mais distinguir
a minha tristeza da tristeza do mundo.

Que fazer com este fogo que não aquece,
com esta consciência que não levanta paredes,
mas as derruba sobre o próprio peito?
Escrevo então e grito em versos a náusea geral.
Faço da poesia a trincheira frágil
onde planto a pergunta que não cala:

Quando declararemos, juntos,
a única guerra santa digna do nome,
não contra um povo, não por uma visão de mundo,
mas contra a fria, persistente, intolerável
normalização da falta?

Talvez o verme que me corrói
seja a semente de algo que ainda não nasceu.
Talvez a dor que partilho neste papel
seja com a tua uma pedra de uma ponte.
Uma ponte feita não de cimento, mas de olhares,
não de decretos, mas de braços por fim arregaçados.

Se estas palavras te tocam,
é porque a ferida é uma só.
E a cura, se é que há cura,
começa no reconhecimento
silencioso e devastador
de que nenhum de nós é livre
enquanto um de nós viver
na sombra da injustiça.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo ©:

(1) As despesas médias familiares em Portugal rondam os 2.900, mas milhões sobrevivem com entre 1.200 e 2.000 euros, dependendo do lugar do país onde calhou nascer.  O limite para se poder viver seriam 1.378€

(2) Cerca de 1,76 milhões de pessoas vivem com menos de 632€ por mês.

(3) A nível mundial a tragédia ainda é pior! Cerca de 1,6% da população mundial possui quase 48% da riqueza global, enquanto mais de 40% da população detém apenas 0,6%. Os 10% mais ricos possuem cerca de 76-85% da riqueza. A maior parte da humanidade (quase 70%) possui menos de 8.400 a 8.500 euros (10 000 dólares americanos). Os 10% mais ricos possuem cerca de 76% da riqueza total. A maior parte da população mundial (quase 70%) possui menos de 8.400 euros.

(4) O risco de pobreza ou exclusão social em Portugal atingiu 19,7% em 2024, abrangendo cerca de 2,1 milhões de pessoas com destaque para a pobreza infantil e idosos, além de 49,3% dos adultos pobres estarem empregados pelo que o trabalho não garante rendimento digno.
Pobreza Infantil ainda se herda: 40% das crianças pobres vivem em agregados com rendimentos extremamente baixos (inferiores a 422€/mês), concentrando-se nas grandes áreas metropolitanas. Pobreza Monetária: Cerca de 1,76 milhões de pessoas vivem com menos de 632€ por mês.
As mulheres são as mais afectadas, isto é,56% em situação de pobreza são mulheres.
O salário mínimo nacional em Portugal em 2026, é 920€ brutos mensais ou seja 818,80€ depois de  11% de desconto para a Segurança Social .

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POR QUE NÃO CONVOCAR UMA GUERRA CONTRA A POBREZA?

A democracia alemã sangra pela chaga que não consegue fechar: a pobreza no coração da sua própria riqueza

Na Alemanha, um dos países mais ricos da Europa, uma chaga silenciosa corrói os alicerces da democracia; ela tem um nome envergonhado e chama-se pobreza.  Não se trata apenas de números, mas de milhões de vidas confinadas a uma fronteira invisível que divide a sociedade ao meio. Em 2025, cerca de 13,3 milhões de pessoas (16,1% da população) estavam em risco de pobreza. Um número que, quando ampliado para incluir a exclusão social e a privação material, salta para mais de 17 milhões, pouco mais de 21% dos alemães. São pais solteiros, desempregados, reformados e pessoas que vivem sós, formando um exército de invisíveis no coração da prosperidade europeia.

O Limiar da Luta Diária

Segundo o Gabinete Federal de Estatística, um em cada seis alemães vive sob a ameaça da pobreza. O critério é técnico, mas a realidade é crua porque significa ter um rendimento inferior a 60% da média nacional. Em 2024, isso significava para uma pessoa solteira sobreviver com menos de 1.378 euros líquidos por mês. Para uma família com dois filhos, o limiar era de 3.036 euros.

No entanto, mesmo quem recebe 1.500 euros mensais vive frequentemente no fio da navalha. Em muitas cidades, esse valor garante pouco mais que a mera subsistência, sem margem para imprevistos, muito menos para participar plenamente na vida social. E os números mais alarmantes vêm de onde a sociedade menos espera: entre os reformados. Cerca de 3,54 milhões de pessoas com mais de 65 anos viviam abaixo do limiar da pobreza em 2024, uma taxa de 19,6% que não para de crescer. Para quem vive sozinho, a taxa é de 30,8%; para os pais solteiros, de 28,7%.

A Contradição das Prioridades

Perante isto, seria natural e lógica a pergunta: onde estão os recursos para uma guerra decisiva contra este inimigo interno? A política parece paralisada, e os esforços do Estado frequentemente esbarram em prioridades contraditórias. Governos mobilizam somas astronómicas para conflitos externos, mas depois, invocando a contenção orçamental, desmontam peça a peça o estado social que serve de rede de segurança a esses milhões. A injustiça que se combate longe espelha-se, amplificada, dentro de portas. Não será altura de os governos se ocuparem primeiramente da injustiça no seio do seu próprio povo e daquela que a sua exploração de outros povos perpetua?

Um Problema Global com Raiz Local

A chaga alemã é um microcosmo de uma doença global. A distribuição de riqueza no mundo é obscenamente desigual: cerca de 1,6% da população detém quase metade da riqueza global, enquanto os 40% mais pobres partilham apenas 0,6%. Esta desigualdade, que condena cerca de 3,77 mil milhões de pessoas à pobreza e à insegurança alimentar, não é um acidente geográfico distante. É um sistema do qual as nações ricas são parte integrante.

A pobreza na Alemanha não é, portanto, apenas uma falha estatística ou um azar individual. É uma falha democrática e sistémica. É a negação do princípio de que a terra, o Estado e os seus benefícios são para todos. Quando uma fatia tão significativa da população é sistematicamente excluída da prosperidade e da participação social, a própria ideia de comunidade desmorona-se.

A questão que se impõe não é técnica, mas moral e política, diria, existencial. Perante a mobilização que outros tipos de guerra geram, por que não declarar uma guerra total contra a pobreza? Uma guerra que não exija tanques, mas políticas ousadas de redistribuição, investimento social, educação e habitação digna. Uma guerra cujo campo de batalha sejam os subúrbios esquecidos, as casas dos reformados e as cozinhas das famílias monoparentais. Ou será que cada um anda a tratar apenas da sua vidinha?

A democracia alemã, e todas as democracias dignas desse nome, serão julgadas não pela força do seu exército, mas pela determinação com que lutam para erradicar esta fronteira interna que divide, humilha e empobrece a todos, no fim do dia.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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