CIMEIRA DA NATO EM MADRID UM MARCO HISTÓRICO DA HEGEMONIA GLOBAL DOS EUA

Ponto de viragem na Europa: Venceu a Posição anglo-saxónica

Um Ocidente desafiado por valores e interesses russos e chineses ou desafiador destes, com o Novo Conceito Estratégico da NATO em Madrid (28-30.06.2022), afirma-se na mesma estratégia de confrontação que tem fomentado as guerras da história ocidental ao longo do seu passado. Uma estratégia construída numa doutrina dogmática com valores suportes de interesses económicos e estratégicos, vem apenas dar continuidade aos pressupostos de autoafirmação perante outros povos em vez de se iniciar uma nova cultura de valores baseados na paz, no respeito e na complementaridade cultural global.

Vivemos no rescaldo de imperialismos e de colonialismos históricos, uma época em que o imperialismo anglo-saxónico se debate com o imperialismo Chinês surgente e com o imperialismo russo que se sente assediado e a virar-se para Ásia. A força asiática revela-se tão forte que amedronta os USA e a Europa e os leva a uma parceria ímpar, como é de concluir das resoluções tomadas na cimeira da NATO em Madrid.

Tanto a Rússia como a Europa vivem a angústia do cisma do cristianismo de 1054 (Constantinopla e Roma e a tensão catolicismo-ortodoxia-protestantismo) e, hoje, como outrora, temos um ocidente indeciso onde o colonialismo anglo-saxónico ganha a dianteira através da afirmação da NATO. A nível mental temos um ocidente dividido entre o latino e o anglo-saxónico; vivemos, dentro da cultura europeia, uma certa discrepância que mundialmente se observa de maneira especial entre o Norte e o Sul global. O capitalismo protestante afirmou-se contra o Catolicismo, tendo emigrado para a América de onde volta em plena força. A China e a Rússia ameaçam a hegemonia dominante dos USA e a NATO ameaça o surgir de novas hegemonias.

Num momento trágico da história europeia, a cimeira da NATO em Madrid constitui um marco histórico a favor da hegemonia dos USA no Mundo. Do resultado da guerra na Ucrânia e do comportamento da China dependerão novos alinhamentos no desenrolar da política mundial; também por isso a consequência será uma prolongada guerra na Ucrânia. A Cimeira de Madrid revogou os seus propósitos estratégicos aprovados na Cimeira de Lisboa em 2010 onde se aspirava uma „verdadeira parceria estratégica”(1) com a Rússia.

Na cimeira de Madrid a China passa a fazer parte dos “desafios sistémicos”;  na realidade a ameaça comunista que se afirmava nos inícios do séc. XX contra o Ocidente é agora transferida para a China e para a Rússia tida como a “a ameaça mais significativa e direta à segurança dos aliados”(2).

As atividades dos USA na sociedade ucraniana dos últimos 20 anos viram-se coroadas na Cimeira de Madrid, ao considerar a Rússia como inimiga declarada e como tal incombinável com a “Europa”. Esta cimeira, em relação à de Lisboa implica uma grande perda para a Europa impedindo-a de se reconciliar entre si (forças da ortodoxia, do catolicismo, e do protestantismo) e de, com o tempo, estabelecer uma parceria com a Rússia no sentido da construção da “casa europeia”. Ganhou a posição anglo-saxónica sem deixar alternativa política para a Europa.

Os objectivos da NATO não são apenas de natureza militar como refere o artigo 49: “A OTAN é indispensável para a segurança euro-atlântica. Garante a nossa paz, liberdade e prosperidade. Como aliados, continuaremos unidos para defender nossa segurança, valores, e estilo de vida democrático”. Além disso alarga o seu raio de acção não só ao Atlântico, mas a todo o mundo: “O nosso novo Conceito Estratégico reafirma que o principal objectivo da OTAN é assegurar a nossa colectiva defesa, com base numa abordagem de 360 graus.” No ponto 11 nomeia explicitamente a África como centro de possível intervenção: “Conflito, fragilidade e instabilidade na África e no Oriente Médio afetam diretamente nossa segurança e a segurança dos nossos parceiros”.

A ideia e os valores cristãos acompanhantes dos descobrimentos é agora substituída pela ideia secular militar dos valores comuns à NATO:” Nós somos unidos por valores comuns: liberdade individual, direitos humanos, democracia e o Estado de direito” (3).

O ponto 13 da declaração da OTAN poderia interpretar-se como um aviso à Rússia e à China de não expandirem a sua influência no espaço asiático; o documento justifica, já de início uma possível intervenção em Taiwan caso a China tente anexá-lo: “As ambições declaradas e políticas coercitivas da República Popular da China (RPC) desafiam nossos interesses, segurança e valores… O aprofundamento estratégico parceria entre a República Popular da China e a Federação Russa e suas tentativas de reforço mútuo para minar a ordem internacional baseada em regras vão contra os nossos valores e interesses”.

Biden tinha razão ao dizer: “Putin receberá a Natoização da Europa”.  Os políticos europeus deixaram-se arrastar para a guerra negligenciando a obrigação de trabalhar em benefício da Europa e das suas populações; em vez disso meteram-se numa guerra que não é sua e sobrecarrega as populações com encargos insuportáveis.

O trajecto da História tem sido determinado pela concorrência e afirmação de poderes; na lógica do poder só o futuro poderá avaliar concretamente das decisões agora tomadas pela NATO.  O Ocidente tem grande responsabilidade no sentido de não se dar início a uma cultura de maior humanização da política e da sociedade. Por enquanto a relação entre povos é determinada pela luta por assegurar o próprio domínio em zonas ricas em matérias primas.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

 

(1) A cimeira da NATO em Lisboa 2010 (Para o século XXI: https://comum.rcaap.pt/bitstream/10400.26/3026/1/NeD126_MarcoPaulinoSerronha.pdf ); Cimeira OTAN Lisboa 2010, Declaração da Cimeira:  https://nato.diplo.de/blob/2203126/38d0c13f9d99ed20d9f08ed84d2d09cc/erklaerung-der-staats–und-regierungschefs-2010-lissabon-data.pdf

(2)Nato 2022 Straategic Concept: https://www.nato.int/nato_static_fl2014/assets/pdf/2022/6/pdf/290622-strategic-concept.pdf

(3) Tradução de alguns pontos do Conceito Estratégico NATO 2022, que considero importantes:

A ligação transatlântica entre as nossas nações é indispensável à nossa segurança. Nós somos unidos por valores comuns: liberdade individual, direitos humanos, democracia e o Estado de direito. Continuamos firmemente comprometidos com os objectivos e princípios do Carta das Nações Unidas e do Tratado do Atlântico Norte.

3 A nossa capacidade de dissuadir e defender é a espinha dorsal desse compromisso.

4 A OTAN continuará a cumprir três tarefas fundamentais: dissuasão e defesa; prevenção de crises

e gestão; e segurança cooperativa.

5 Aumentaremos a nossa resiliência individual e colectiva e a nossa vantagem tecnológica.

Estes esforços são fundamentais para cumprir as tarefas essenciais da Aliança. Promoveremos o bem

governação e integração das alterações climáticas, segurança humana e as Mulheres, Paz,

e Segurança em todas as nossas tarefas. Continuaremos a promover a igualdade de género

como reflexo dos nossos valores.

8 No Extremo Norte, a sua capacidade de perturbar os aliados reforços e liberdade de navegação através do Atlântico Norte é estratégico desafio à Aliança. A formação militar de Moscovo, inclusive no Báltico, Black

e regiões do Mar Mediterrâneo, juntamente com a sua integração militar com a Bielorrússia, desafiam nossa segurança e interesses

11  Conflito, fragilidade e instabilidade na África e no Oriente Médio afetam diretamente nossa

segurança e a segurança dos nossos parceiros.

13  As ambições declaradas e políticas coercitivas da República Popular da China (RPC) desafiam nossos interesses, segurança e valores… O aprofundamento estratégico parceria entre a República Popular da China e a Federação Russa e suas tentativas de reforço mútuo para minar a ordem internacional baseada em regras vão contra os nossos valores e interesses.

15  O ciberespaço é sempre contestado. Atores malignos procuram degradar a nossa infraestrutura, interferir em nossos serviços governamentais, extrair inteligência, roubar propriedade intelectual e impedir as nossas atividades militares

20 Empregaremos ferramentas militares e não militares em proporção, forma coerente e integrada de responder a todas as ameaças à nossa segurança da forma, tempo e no domínio de nossa escolha.

49 “A OTAN é indispensável para a segurança euro-atlântica. Garante a nossa paz, liberdade e prosperidade. Como aliados, continuaremos unidos para defender nossa segurança, valores, e estilo de vida democrático”.

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

7 comentários em “CIMEIRA DA NATO EM MADRID UM MARCO HISTÓRICO DA HEGEMONIA GLOBAL DOS EUA”

  1. Estamos manifestamente em posições diferentes, quanto à ESTRATÉGIA POLÍTICA global .
    Continuas a meter no mesmo saco O OCIDENTE e A FEDERAÇÃO RUSSA. Constato que não privilegias as Democracias em relação às Ditaduras…Sem liberdade, as sociedades são rebanhos, com uns quantos a ir para o matadouro, meu caro Justo. Foi assim antes … há muitos, muitos anos!
    Bem quanto à GUERRA e À PAZ aprendemos em jovens que os Romanos defendiam que quem quer a Paz prepara-se para a Guerra ( Si vis Pacem, para Bellum )! Somos herdeiros da Civilização Greco-Romana…ou não ?!
    A Europa ( e a “tua” Alemanha ) esqueceu-se disso e de outras coisas…Como Portugal, discute tudo, mas esquece-se do essencial e agora ai ai ai ! Pois é , mas isso é matéria vasta e complexa , onde se inclui também a Democracia e que poderemos abordar também. Agora fico-me por aqui, longe das tuas posições sobre a NATO, O OCIDENTE E A RÚSSIA!
    Um abraço

  2. O facto de tentar apresentar a questão não só sob a perspectiva unipolar americana como geralmente é apresentada, e de pretender apontar para uma reflexão da questão geoestratégica sob uma perspectiva europeia e global, não significa que deixe de privilegiar a democracia! Como bem sabes a História e factos históricos são demasiado complexos para os analisarmos em termos pontuais ou de adeptos.
    Penso que vivemos num período demasiadamente orientado por accionismos e velocidade a que faltam análises sob as diferentes perspectivas; compreendo isso porque vivemos um momento da história em que outros actores se querem intrometer activamente no seu desenvolvimento e orientação, o que se torna numa ameaça à nossa rotina, ao nosso sistema, à nossa qualidade de vida e também aos nossos valores. Quanto a valores e organização temos os nossos pilares herdados dos Gregos, Romanos e judeo-cristianismo! Creio que uma visão europeia da crise geoestratégica deveria ter mais em conta o factor cristianismo (ideal e geograficamente).
    Depois de ter lido a declaração da Cimeira de Madrid, fiquei chocado pelo facto de a NATO se expressar num tom demasiado imperialista que acho muito natural da perspectiva americana mas menos da Europa. O que fiz foi procurar apresentá-la comentando um ou outro ponto: o texto é muito importante. Como continuo a não encontrar uma perspectiva de reflexão europeia sobre o seu papel a desempenhar no mundo limito-me a reflectir um pouco sobre o assunto!
    Também não encontro uma reflexão portuguesa sobre o assunto; penso que aquele Portugal que nos séculos XV e XVI se adiantou à Europa deveria ter hoje uma palavra específica a dizer/reflectir numa perspectiva não só atlântica e de poder mas que ousasse envolver as várias culturas e civilizações.
    Quanto ao ( Si vis Pacem, para Bellum) sei que essa é a posição subjacente ao poder. Mas o que mais me entristece é constatar que essa frase dá razão ao poder e, na consequência, perdido é quem não se mete debaixo do guarda-chuva dos mais poderosos.
    Com o meu texto não desejei tomar posição mas reflectir um pouco sobre o assunto.
    Um grande abraço

  3. Caríssimo Justo,
    sou da tua opinião que os políticos europeus se meteram numa guerra que não é nossa e sobrecarrega as populações com encargos insuportáveis!~
    O material bélico é dispendiosíssimo, as sanções energéticas prejudicam-nos…

  4. Cara M. Manuela,
    Meteram-se activa e abertamente numa alhada sem pensar nem reflectir nas consequências nem em como sair dela!
    Primeiro rejeitaram a ideia da construção de uma “casa comum”(Europa de Lisboa a Moscovo), depois investiram na instabilização da Ucrânia julgando que a Rússia também não tem interesses imperialistas como eles; depoi Putin deu o aviso em 2007 em Munique na cimeira da NATO que não aceitava o domínio de um só bloco sobre o mundo; em 2014 os USA, Reino Unido, etc. apoiaram o derrubamento do governo pró-russia instalando um governo nacionalista pro NATO, EU. A guerra civil sacrifica 17.000 cidadãos sem que o mundo se interesse. Entretanto foi eleito Selensky através de manipulações e campanhas nacionalistas; em Fevereiro 2022 Putin reage de maneira exagerada e agora somos os meninos bonitos da festa que hipocritamente manipulou o povo ucraniano e agora quer mostrar-se ao mundo como seu defensor! Uma tragédia ridícula e hipócrita da qual sairá o povo ucraniano sacrificado, não os oligarcas como Selensky, uma marioneta da NATO.
    Sei que quem terá razão é quem tem o poder mas isso não me impede de procurar que se aja racionalmente e não de maneira emocional como os políticos têm feito! É trágico quando os incendiários são considerados os bombeiros! Não defendo a Rússia mas também não defendo a América, ambos metidos num negócio sangrento e sujo e os membros da Nato agindo infantilmente como ajudantes só preocupados com as suas vestes de acólitos!
    Abraço

  5. Nunca foi meu hábito discutir publicamente política, menos ainda política partidária, por razões óbvias. Abri uma exceção quando escrevi uma longa resposta ao artigo do A. Justo aqui publicado no dia artigo de 7 de maio deste ano e que considerei claramente putinesco. Preferi não o publicar. Agora excecionalmente apenas um curto comentário porque volto a discordar profundamente do artigo CIMEIRA DA NATO EM MADRID UM MARCO HISTÓRICO DA HEGEMONIA GLOBAL DOS EUA e que acabo de ler esta manhã.
    1. Penso que é óbvia e muitíssimo grave para a Europa ocidental a dependência da Rússia ao nível energético e de tal modo que condiciona as políticas ocidentais e limita a soberania de vários Estados, enfraquecendo-os e possibilitando dependências políticas da Rússia.
    Penso também que é óbvia e muitíssimo grave para a Europa a proximidade com uma potência militar designadamente a maior potencia militar nuclear – a Rússia.
    Penso também que é óbvio e muitíssimo grave para a Europa ocidental o que foi e tem sido a prática bélica bárbara e selvagem da Rússia. Exemplo claro é o massacre de civis e destruição sistemática de estruturas civis na Geórgia, Chechénia, Síria, Lughansk-Donetz-Crimeia e agora na Ucrânia. Já nem falo do que foi a sua prática nos Gulags siberianos e massacres dos seus próprios cidadãos nos tempos da URSS e ainda o terror pela fome ou Holodomor praticado em 1932/33 precisamente contra o povo ucraniano matando cerca de 4 milhões à fome.
    Atira-se para o inferno o Batalhão de Azov – cuja existência compreendo porque se trata de defender a sua pátria (Ucrânia) desde as anexações de Lugansk-Donetz-Crimeia. Mas para que o barco navegue adormecido, omite-se qualquer referência aos grupos nazis criados e treinados pela e na Rússia e atuam contra a Ucrânia e a que alguns apelidam de exército privado do presidente (Putin): o Grupo Vagner que, na defesa dos interesses russos, tem atuado militarmente no Mali, Sudão, Líbia, República Centro Africana, Moçambique e Síria; a Liga Imperial Russa e ainda o Grupo Rusich cujos membros se divertem a cortar orelhas e mutilar corpos e cujo líder há tempos declarava que se deliciava com o cheiro da carne humana queimada.
    Faz-se uma listagem de questionamentos quase todos apenas sobre uma parte do conflito. E da outra parte, para equilibrar o barco?
    Estranhei muitíssimo e vituperei a confissão da Merkel quando desvendou há dias que dos contactos frequentes que teve com Putin sempre teve o sentimento de que este queria destruir a Europa ocidental. É caso para lhe perguntar: partilhou esse temor com os colegas ocidentais da UE? E os restantes países da NATO? Preparou a Alemanha militarmente para o dissuadir? Porque tornou a Alemanha completamente dependente da Rússia no abastecimento energético, piorando a situação? Porque deixou Putin à vontade, isto é, porque no fundo, no fundo colaborou com Putin? Mesmo depois da intimidação, provocação e humilhação da cena do encontro entre Merkel e Putin divertido com um enorme cão negro na sala, sabendo que ela tinha pavor dos cães. Nunca me entusiasmou o consulado Merkel e menos ainda depois desta revelação.
    Podemos dizer que a Rússia nunca soube o que é uma democracia, um estado de direito, o que são os direitos humanos (apesar de Bregnev ter assinado a Ata de Helsínquia) e o que é o respeito pela liberdade individual. Sempre foi czarista, ditatorial, belicista e insaciável na conquista de territórios vizinhos sem respeito pelo direito internacional e sempre com presos e assassinatos políticos dentro e fora. Vejam a sua extensão territorial e a série de guerras em que se meteu. Só na última grande guerra embolsou 11% do território da Finlândia e toda a zona de Kalininegrado. Gorbachev foi uma curta e corajosa, mas falhada tentativa. Putin, chamado por Yelsin, hesitou, mas depois de consolidado o seu poder, voltou ao curso normal da história czarista russa. Vê-se pela sua prática política.
    Em jeito de à parte, recordo e penso que nunca consegui explicar e menos ainda justificar a uma delegação russa (cá e em Moscovo) o que era a independência judicial e muito menos a regulação da magistratura judicial por uma entidade independente do Governo – o Conselho Superior da Magistratura.
    Claro que é grandiosa a cultura russa a todos os níveis, designadamente da literatura, música, dança, arquitetura…Basta visitar S. Petersburgo, mais do que Moscovo, e entrar nas catedrais ortodoxas, palácios, museus…Fascinante, como fascinante é a cultura ucraniana (só conheço a zona de Kyev onde estive em serviço).
    2. Por outro lado, a Europa é dependente militarmente dos Estados Unidos da América. Historicamente, como sabemos, a América (norte, centro e sul) sofreu forte intervenção dos estados europeus com os descobrimentos e a colonização europeia durante três ou quatro séculos, relações que ainda perduram depois da independência dos vários estados americanos. São extensões culturais da Europa até por efeito de emigações maciças de europeus refugiados religiosos, políticos e simples emigrantes económicos. Nada mais natural a continuação e reforço do relacionamento Europa-América aos vários níveis. E a fortiori quando do lado leste da Europa ocidental tem sido constante a pressão expansionista e os tradicionais regimes iliberais. Nada mais natural, por isso, que a ligação atlântica se tenha estreitado, designadamente ao nível militar, para apoio mútuo como suporte de sobrevivência, convivência e de desenvolvimento económico, cultural, social e político, sobretudo da Europa.
    Os Estados Unidos salvaram a Europa já por duas vezes e sempre a pedido da Europa. Até para pôr ordem no conflito dos Balcãs, na chamada guerra da Bósnia, a Europa teve de pedir a intervenção americana no governo Clinton. Foram, aliás, os Estados Unidos que, no final da II Guerra Mundial, contiveram os soviéticos para lá da cortina de Ferro impedindo o seu avanço para o ocidente. Foram os americanos que lançaram o Plano Marshall e ajudaram a reconstruir a Europa devastada. E foram os americanos que, com as suas bases militares na Europa, a defenderam durante todo o período da guerra fria e atualmente. Infelizmente precisamos da cobertura militar americana.
    Já por duas vezes andei pela Normandia. Em longo silêncio perante milhares de sepulturas simples, rezei e agradeci a generosidade dos militares norte americanos que deram vida pela libertação dos europeus. Devo-lhes a continuação da Europa livre e democrática em que vivo.
    Perante estas contínuas ameaças, em 1949 a América do Norte e quase toda a Europa ocidental fundaram uma estrutura formal de natureza político-militar para sua defesa e sobrevivência. A NATO tem sido eficaz porque dissuasora e de tal modo que nenhum dos seus estados membros foi diretamente atacado nestes últimos 70 anos.
    António Justo questionou há tempos porque é que a NATO não interveio no conflito da Guiné Bissau (presumo que durante a guerrilha interna que levo à sua independência). Simplesmente porque nenhum Estado estrangeiro atacou Portugal e também porque para a NATO as possessões ultramarinas não integravam o território dos respetivos Estados colonizadores. Veja-se o caso da guerra das Malvinas que, apesar de invadidas pela Argentina, a NATO não interveio. Também não interveio em nenhum dos casos de guerrilha interna das antigas colónias europeias que levaram à sua independência, na altura subordinados ao princípio em voga da autodeterminação dos povos e sob os auspícios da ONU em pleno exercício.
    Desde sempre que tem havido contestação contra a NATO e instalação de suas bases militares em vários estados europeus. Essas contestações sempre foram normais vindas donde sempre vieram: dos partidos comunistas e outros marxistas leninistas e dos inefáveis Conselhos para a Paz. Sempre contra a guerra, mas só quando eram ou são atores os Estados Unidos, porque da URSS era tudo sacrossanto. É a mesma visão jeronimamente cândida quando se trata de condenar a agressão russa: somos pela paz! Somos pela paz! Mas se intervenção militar é americana, logo se levantam as condenações. O preconceito anti-americano. Mau só porque é americano!
    Por mim, que sempre fui um pacifista, sou contra todas as guerras, mas defendo com unhas e dentes a guerra justa ou, melhor dito, “a legítima defesa pela força das armas”, designadamente no caso presente da Ucrânia. As suas autoridades têm o “direito e o dever de impor aos cidadãos as obrigações necessárias à defesa nacional” (ver parág. 2309/2310 da obra magistral Catecismo da Igreja Católica com cerca de 700 páginas).
    Penso que só por distração foi escrito “A ideia e os valores cristãos acompanhantes dos descobrimentos é agora substituída pela ideia secular militar dos valores comuns à NATO:” Nós somos unidos por valores comuns: liberdade individual, direitos humanos, democracia e o Estado de direito”.
    Só que esses valores apontados como definidores da NATO são valores cristãos e integram a cultura cristã ocidental porque integram a própria mensagem evangélica. Tais valores não substituem os valores cristãos que seguiram nos barcos e marinheiros dos descobrimentos. A justiça, o direito, a liberdade, o respeito pelas ideias do outro dominaram a pregação de Jesus Cristo. Sinto-me agradado por a NATO defender também estes valores. Ou serão abomináveis só porque defendidos pela NATO? Claro que infelizmente a leitura e a narrativa de cada um dos valores depende dos interesses de cada um, como sempre.
    Não busco a perfeição na Ucrânia, em Zelensky e na Nato, mas muito menos na Rússia e em Putin. Mário Soares, com o seu habitual feeling político, advertiu: este homem (Putin) é perigoso!
    Do meu catecismo constam como valores inalienáveis esses mesmos: liberdade, direitos humanos, democracia e o Estado de direito. Acrescento também: solidariedade, igualdade e transcendência. Tudo o que seja para defesa e promoção da dignidade da pessoa humana. E ainda como qualificativos essenciais de que me orgulho: católico, apostólico e romano.
    De longe, mesmo de muito longe prefiro ser livre e viver livre à sombra americana – porque a Europa em que vivo não é hoje potência militar dissuasora – do que ser oligarca na Rússia ou ter de viver num sovkhoz, ou num kolkhos ou num gulag qualquer das profundezas siberianas. Li aquilo que passou num só dia o Ivan Denisovich. E as coisas na Rússia não têm tempo.
    Não me repugna viver sob a guarda da NATO vitalizada pela potência americana. Até Jesus Cristo nasceu, viveu e morreu num país sob a proteção militar do imperialismo de Roma! Bem melhor, aliás, do que sob a proteção da Babilónia ou do Egipto que escravizou e deportou todos os judeus.
    Volto a discordar de Os políticos europeus deixaram-se arrastar para a guerra negligenciando a obrigação de trabalhar em benefício da Europa e das suas populações; em vez disso meteram-se numa guerra que não é sua e sobrecarrega as populações com encargos insuportáveis. Há aquilo que se chama solidariedade entre os povos. Perante uma gritante violação do direito internacional à nossa porta e perante as intenções claras de Putin rever a história, redesenhar uma nova geopolítica invasora e querer restaurar o antigo império soviético não restava outra solução à Europa senão ajudar a Ucrânia de todas as formas e feitios. Para eu poder viver livre vou ter de ajudar o vizinho na luta e barrar aí o caminho ao inimigo comum. Porque a seguir vai Polónia, vão os Bálticos e vão os Balcãs. Ontem mesmo a Duma já falou no regresso do Alasca à Rússia mãe apesar de ter vendido esse território aos EUA. Defender a Europa dos horrores putinescos é defender e beneficiar a sua população mesmo que com elevados custos. Não o fazer é proclamar: Putin faz o que quiseres! Isto é ser putinesco claro.
    Nada fazer é ingenuidade! E eu não quero ser ingénuo nem à força. Nunca fui colonizável ideologicamente, muito menos aos 77 anos.
    Termino aqui, em princípio, o meu comentário até porque entendo que este espaço é para outras coisas.
    Em AAS

  6. Parabéns, JSantos, por tão lúcida e clara exposição que apresenta a lógica da nossa perspectiva ocidental.
    Apesar disso permito-me uma explicação. Também eu não sou adepto dos que dizem que quem vive enganado, vive bem! Também eu me sinto católico, europeu e como tal espero mais da Europa do que da Rússia ou da Ucrânia. O facto de apresentar as falhas do Ocidente neste conflito e de acentuar as perspectivas que poderiam contribuir para a explicação e compreensão (e não aprovação!) do que acontece por parte da Rússia não tem a intenção de apoiar putinistas nem de subornar Bidinistas (Angustia-me ver como na população em geral se fomenta a violência e a incompreensão)! A preocupação de apresentar, paralelamente ao que geralmente nos é apresentado, a perspectiva do adversário, nasce precisamente dos valores que recebemos na nossa tradição cristã. O próprio Papa que condena o atuar de Putin também não poupa a NATO. Também por isso alguns o acusam de anticapitalista e de comunista!
    É verdade que apenas apresento questionamentos sobretudo sobre uma parte do conflito precisamente no sentido de “equilibrar o barco”, dado a outra parte já apresentar sobretudo a sua apologética!
    Também creio que a Rússia tem ainda muito de aprender em questões de democracia e independência judicial; para isso teria sido também necessário um pouco mais de paciência da nossa parte (No princípio também Putin tinha enveredado nesse sentido!).
    O que tenho apresentado engloba-se num contexto contra a diabolização de Putin (ou de que pessoa for) e que tem sido cultivada nos nossos Media; engloba-se num contexto de lutas a acontecer na Ucrânia entre os dois blocos há dezenas de anos e de que o mundo pouco tomou notícia (guerra civil); engloba-se num sonho de ver o mundo cristão unido para poder dar resposta às afrontas materialistas e da visão da pessoa apenas sob o aspecto de funcionalidade utilitarista. Penso que os conflitos intercivilizacionais a realizarem-se no futuro serão entre o mundo do norte (Europa Ocidental, América. Austrália, Nova Zelândia e por afinidade o mundo ortodoxo, a América do Sul) e o mundo das civilizações asiáticas e a islâmica. Naturalmente se a tese se mostrar errada todo o sistema falha!
    Atendendo à possível ameaça nuclear que nos pode esperar acreditei sempre ser possível uma solução através de conversações e fazer tudo nesse sentido. De uma posição absolutista (do tudo ou nada) da Rússia e de uma posição absolutista da NATO (ter de ganhar) só poderá haver o pior a esperar.
    Nos anos noventa segui com muito entusiasmo e esperança a “parceria para a paz” (1994) entre a NATO e a Federação Russa e continuo a manter a esperança de outros tempos na expectativa da construcção de uma casa europeia comum (o que não significaria a exclusão dos USA). Como sinal do papel único da Rússia na arquitectura de segurança euro-atlântica, a NATO e a Rússia (com Boris Jelzin) assinaram em Paris o Acto Fundador sobre Relações Mútuas, Cooperação e Segurança em 1997, ao abrigo do qual foi criado o Conselho Conjunto Permanente NATO-Rússia. Em Outubro de 2021, o Secretário-Geral da OTAN Jens Stoltenberg anunciou a expulsão de oito representantes russos e a limitação do pessoal a dez membros, considerando os representantes russos como espiões. Independente das motivações imediatas para a expulsão, ela é o resultado de uma luta de interesses e falhanços entre a geoestratégia da Rússia e dos USA em terreno ucraniano. O acordo de associação entre a União Europeia e a Ucrânia não incluiu a Rússia, apesar de ter afectado directamente os interesses da Rússia, incluindo ter uma parceria com a UE e com a Ucrânia. Com a invasão russa a 24 de Fevereiro Putim cometeu uma acto bárbaro, ilegal e também suicida desviando também as atenções do que verdadeiramente se passava na guerra civil ucraniana apoiada directamente pela Rússia e indirectamente pelos USA!
    A frase “A ideia e os valores cristãos acompanhantes dos descobrimentos é agora substituída pela ideia secular militar dos valores comuns à NATO:” Nós somos unidos por valores comuns: liberdade individual, direitos humanos, democracia e o Estado de direito” precisa realmente de ser contextuada no sentido de que a política se aproveita, em nome de valores, poder ter um pretexto para fazer guerra (como depreendo da leitura do documento). Neste sentido seria interessante uma leitura e comentário relativo ao texto “Novo Conceito Estratégico da NATO em Madrid” (https://antonio-justo.eu/?p=7672 ), a que me referi num ou noutro ponto!
    Repito, o facto de tentar apresentar aspectos que parecem defender a lógica do adversário não quer isso dizer que seja putinista ou defensor do comunismo, pelo contrário, apenas procuro reflectir alto, embora esteja consciente que possa conduzir a equívocos quando constato reacções muito positivas vindas do Brasil ou da esquerda.
    Estou-te muito agradecido, pelo que tão bem apresentaste e testemunhaste! Da discussão surge mais luz!

  7. Caro António Justo
    Concordo contigo. Também não abençoo totalmente a NATO, porque, após a dissolução da URSS, descontinuou o diálogo com a Rússia apesar de terem celebrado a “parceria para a paz” e o Conselho Conjunto Permanente NATO-Rússia. Recordo-me da bonita ideia da “casa comum europeia”, mas sem consequências de maior. A história passada é demasiado pesada para ambos e as ameaças russas são ruins e desagradáveis. Agora a situação é o que é e não se preveem passos de esperança. A Europa ocidental precisa da NATO.
    Concordo plenamente contigo em que o centro do mundo se deslocou para a Ásia por efeito da ascensão da China, que a Europa vai deixando de ter a importância que teve a todos os níveis, a progressiva islamização da Europa e o conflito latente com o mundo islâmico. Por isso, a Europa precisa do apoio americano.
    Nunca te vi como um comunista ou putinista, realidades bem opostas, aliás, que de comum apenas têm a imposição da ditadura normalmente sangrenta. E se o fosses, teria maleabilidade suficiente para respeitar a tua legitimidade.
    A parte final do meu texto é rigorosamente restrita a comentários políticos meus. Repito: meus. Publiquei um só e ponto final.
    Mas sinceramente gosto de ler os teus textos que publicas na página. Rotulei-os de “Cartas da Alemanha”. Às vezes não concordo, como expus no meu comentário. Não concordei com algumas posições ou reflexões favoráveis ao comportamento de Putin e a que chamei putinescos. Reconheço, porém, o valor e o mérito da diferença. E eu gosto de aprender com os que considero que sabem mais do que eu.

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