IGREJA PEREGRINA – DOIS ANOS DE SÍNODO COM BISPOS E LEIGOS

Francisco concretiza o seu Programa pontifical no Caminho sinodal universal (10.2021 a 10.2023)

António Justo

No dizer do Papa Francisco, o objectivo do Caminho Sinodal é oferecer a todos os crentes a oportunidade de “se ouvirem uns aos outros e ao Espírito Santo”. O lema do programa é “Para uma igreja sinodal (1): comunhão, participação e missão”, os temas do sínodo são abertos.

O Caminho Sinodal tem início em outubro de 2021 e tem três fases, terminando com a assembleia episcopal em outubro de 2023. As três fases são: uma a nível diocesana, que durará até abril de 2022, seguida de uma continental e de uma universal. “A Igreja de Deus é chamada em conjunto para um sínodo” e todos os crentes são chamados a participar no desenvolvimento da Igreja.

O plano original de Roma era convocar um sínodo de bispos, mas o Papa quis envolver não só os bispos, mas também leigos e igrejas locais, pelo que o empreendimento se torna numa viagem sinodal mundial com a duração de dois anos. Haverá muito trabalho a fazer a nível de paróquias, episcopados nacionais e regionais e a nível mundial.

A posição do Pontífice é clara e abrangente, não só para a sociedade religiosa como também para a sociedade política-civil; para Francisco “O verdadeiro poder é serviço” numa “Igreja pobre e para os pobres”, onde “O nome de Deus é Misericórdia”! Por isso anima, quem tem cargos de chefia, a só justificarem o seu poder social se este acontece em serviço dos outros; por isso recomenda: “sede pastores com o cheiro das ovelhas”. O papa quis iniciar com o seu pontificado um novo rumo para a história dentro e fora da Igreja e pretende uma maneira de ser igreja mais Jesuína!

Isto terá como consequência o distanciamento do exagero na ocupação e preocupação com a “ordem moral” para se centrar no seguimento-vivência de Jesus Cristo.

Francisco trouxe para a Igreja uma nova maneira de discurso social; este discurso possibilita novas formas de se estar em sociedade, ao dar maior espaço à expressão das minorias sociais que começam a ter mais influência no Poder e a condicionar também o abuso dele! A relação entre sociedade, conhecimento e discurso é cada vez mais estreita e determinante. O Método da controvérsia jesuítica é hoje muito importante na procura de soluções para o nosso tempo (2).

Com a ideia do caminho sinodal para clérigos e leigos o papa concretiza o seu plano de que o clero e todo o cristão se torne serviço à humanidade.  Todos terão de se definir e pensar primeiramente a partir de um nós, num sair de si mesmo para se encontrar na comunidade e assim se poder reencontrar verdadeiramente consigo mesmo (à imagem do protótipo Jesus Cristo).  Assim, no entender de Francisco, a igreja peregrina, mais que olhar para o caminho, deverá olhar para os que estão “à margem do caminho” e devolver-lhes a dignidade (aos “Cristos” abandonados)!

A Igreja encontra-se num empasse de ajustamento entre secularidade e religião e está envolvida num discurso entre o espírito do tempo (zeitgeist) de séculos anteriores e o espírito do tempo de hoje! Deste modo encontra-se perante a missão de redefinir também tarefas e funções entre leigos e clérigos.

Certamente, semelhante ao que aconteceu com a preparação do Vaticano II, que envolveu o mundo inteiro na sua preparação, a nível de clérigos e peritos, desta vez, a caminhada da igreja é de clérigos e de leigos num peregrinar intensivo de maneira a possibilitar muita coisa nova na Igreja e na sociedade, culminando no Sínodo dos bispos em 2023. Talvez o salto quântico a nível de clero se venha a manifestar num diaconado aberto não só a homens, mas também a mulheres, em igrejas regionais!

O caminho, de abertura aos sinais dos tempos, apontado pelo Concílio Vaticano II é programa dado a Revelação também se dar e acontecer na História. Deus continua a peregrinar na Igreja e no tempo através da pessoa e dos povos.

O movimento de desconstrução da cultura ocidental, querido pela política progressista, preocupa muitos “conservadores„ que temem que o mesmo fenómeno leve a uma correspondente desconstrução da tradição católica. É uma questão delicada num momento em que se pretende reinterpretar o passado e ultrapassar uma interpretação meramente linear da cultura/doutrina/história, de modo a surgirem da sua complexidade novas expressões da verdade.

Na Igreja tem-se, por vezes, observado “conservadores” e “progressistas” em disputa com pouca margem para a presença do amor divino que é inclusivo. Cristianismo é passado, presente e futuro por isso não seria cristão usar-se um tempo contra o outro.

O catolicismo é, prototipicamente, global e aberto à universalidade e, como tal, reconhece que as diferentes pessoas e povos se encontram em diferentes estados de consciência, sendo, por isso, difícil a tarefa de criar espaço de expressão geral para todos (tradicionalismos, modernismos e de teologias alternativas (3). Inferno, céu e virgindade não são mais considerados meios de educação…

As ondas do mar também avançam e recuam, doutro modo teríamos um mar podre! A diferença, por vezes discordante, pode transformar-se em foco de vida/desenvolvimento e como tal ser aceite desde que cada parte se mantenha no caminho do Mestre sem querer que o próprio caminho se torne no caminho dos outros. Jesus não deixou mandamento, deixou-se a si mesmo (Eu sou o caminho, a verdade e a vida!). Agora estamos na hora do Papa Francisco e este é o presente que prepara certamente a transição de forma harmónica porque no próximo conclave outros passarão o fogo do espírito a uma nova tocha (4)!

O objectivo é recuperar a confiança, introduzir reformas no clero, na moralidade sexual da igreja e no papel das mulheres na igreja. O Papa Francisco encorajou o movimento reformador alemão, mas também advertiu para os perigos de adaptação ao espírito do tempo.

O espírito de abertura só o será se também o for em relação à tradição dos antepassados. O trabalho do Papa Francisco tem sido exemplar num momento da História mundial bastante controverso devido às grandes mudanças sistémicas a nível geopolítico, de concorrências interculturais e do processo renovador em via na igreja católica (5).

António CD Justo

Teólogo

Pegadas do Tempo

  • (1)   A Igreja alemã já procurou exercitar um caminho próprio com a sua iniciativa da Via sinodal! O Papa ao adaptar este caminho para a Igreja universal demonstra verdadeiro empenho na tarefa da renovação eclesial. O Papa valorizou assim o processo de reforma em via na Igreja Alemã (com a sua “Via Sinodal”) ao adoptá-lo para a Igreja universal, embora ele seja cada vez mais controverso entre os fiéis e o clero na Alemanha. O clero de vivência mais conservadora encontra-se preocupado e também vê com olhos críticos a publicação do Motu Proprio Traditionis custodes, do Sumo Pontífice Francisco publicado a 16.07.2021 (1).
  • (2)   Método da Controvérsia como instrumento impulsionador do desenvolvimento: https://www.triplov.com/letras/Antonio-Justo/2015/metodo-jesuita.htm
  • (3)   A Igreja tem lugar para todos, para tradicionalistas e progressistas (para usar dois termos seculares dado em termos eclesiológicos talvez fosse mais apropriado falar de petrinos e de joaninos, ou seja, igreja Petrina e Joanina como expressão da mesma Igreja), todos em diálogo inclusivo, sem ninguém a desdizer de alguém. Cada um de nós é processo e a sociedade e a Igreja também o são e, como tal, seria natural que o que ontem se via e sentia de uma maneira se possa ver e sentir hoje de maneira diferente sem, contudo, se deixar de ser católico. Deixemo-nos de perfilagem seja atrás de Bento XVI/João Paulo II ou de Francisco; em vez de traçar perfis será melhor seguirmos o perfil de toda a realidade (processo temporal e espiritual: na amálgama do natural e espiritual) resumida em Jesus Cristo (nele a natureza torna-se transparente!). Nele mais que a escrita interessa a relação que é Pessoa.
  • (4)   A igreja não pode ingressar numa forma de discurso antagónico de tipo mundano (político) equacionado num espírito dialético meramente mental e consequentemente adverso entre progressistas e tradicionalistas como quer o espírito do tempo. O espírito de abertura só o será se também o for em relação à tradição dos antepassados.
  • (5)   Além das exigências em torno da moral sexual católica, do celibato e da ordenação de mulheres, tem havido abusos na celebração da missa em latim e arbitrariedades na aplicação do rito da missa atual. Depois de ler o Motu Próprio do Papa Francisco penso que, atendendo à objeção do abuso de caracter ideológico com a missa tem latim, a posição do Pontífice é muito ponderada e até possibilitadora de alguma excepção! Motu Próprio do Sumo Pontífice Francisco de 16.07.2021: https://press.vatican.va/content/salastampa/es/bollettino/pubblico/2021/07/16/motu.html .O Papa tem vindo a preparar o caminho: https://www.triplov.com/letras/Antonio-Justo/index.htm ;

A “Amazónia em Roma” https://antonio-justo.eu/?p=5584  já foi um grande passo no sentido do Caminho sinodal! A encíclica ecológica: https://antonio-justo.eu/?p=3191

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Publicado por

António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

5 comentários em “IGREJA PEREGRINA – DOIS ANOS DE SÍNODO COM BISPOS E LEIGOS”

  1. Que importante é conhecer os passos do Caminho Sinodal traçado pelo Papa Francisco, que importante é conhecer o
    o seu desenvolvimento, percurso e objectivos:
    “O verdadeiro poder é serviço”,
    “Igreja pobre e para pobres”,
    “O nome de Deus é Misericórdia”.
    São pontos marcantes neste caminho que o mundo espera e precisa,
    são grandes os objectivos e todas as etapas contam para a construção de um mundo melhor.
    Retenho a frase:
    “O espírito de abertura só o será, se também o for em relação à tradição dos antepassados ”
    A partilha destes conhecimentos é enriquecedora.
    Muito obrigada!

  2. Obrigado, António Justo !
    Um curto comentário : Sou contra o uso de palavras tais como SÍNODO, SINODAL ( Caminho…) porque não são perceptíveis para a maioria !
    Um abraço

  3. Caro amigo,
    obrigado pela justa posição e por me esclareceres e dares oportunidade a responder!
    Naturalmente certos conceitos não são talvez os melhores para o povo; especialmente num povo em que processos teológico-pastorais talvez se encontrem demasiadamente reservados ao clero e em que talvez o episcopado se iniba um pouco em generalizar a discussão (do caminho sinodal) devido a circunstâncias próprias do laicado português. As acentuações da Igreja hoje terão de enveredar, em Pastoral, por novos caminhos, tornar-se mais Jesuína e menos moralista (menos pedagogia e fixação no sexo para se tornar menos rotina e mais espiritualidade (dirigida não só ao coração mas também ao intelecto) e informação doutrinal). O Papa Francisco está também ele empenhado no processo do caminho sinodal, como referi no artigo. Naturalmente que Francisco aguenta com uma crítica um pouco em surdina por parte de alguns bispos!

    O caminho sinodal ou via sinodal começou na Alemanha em 2018 e foi criado pelo episcopado alemão em 2019; nele se iniciava um processo de debate estruturado entre o Comité Central dos Católicos Alemães (representantes dos leigos) e os bispos alemães, uma espécie de diálogo de todo o povo de Deus (em termos políticos poder-se-ia dizer, um diálogo “democrático”). Este processo depois alargou-se tornando-se, em certos meios, controverso, devido a exigências demasiadamente “emancipatórias!

    Se falo de caminho sinodal, para um público lusófono é porque pensava que este processo eclesial se encontrava também em processo já avançado entre fiéis e episcopado português e era comum à opinião pública, como é na Alemanha e na Áustria e creio que na América Latina (cf. https://antonio-justo.eu/?p=5584 que penso vir daí a ideia do Caminho sinodal).
    Não estou muito dentro do que acontece em Portugal. (Nestas férias, que aproveito para cuidar um pouco de minha mãe, é que noto a depravação em que é induzido o povo português em grande parte dos programas populares de TV: apelo ao sexo, a uma expressão feminina superficial e a conversas que levam o povo a tornar-se cada vez mais na mesma!)
    Como disse, Sinodalidade é um processo, que está em via há anos e em que fiéis e clero se empenham por atualizar a igreja no sentido de a tornar menos clerical, com alguns extremismos, como é natural, em muitos movimentos quando passam ao aspecto reivindicativo de caracter político. O bispo e o sínodo mais que precisar de se rodear de conselheiros como é costume em política, terão de se rodear de grupos com práticas de espiritualidades diferentes. O principal obreiro não é a opinião, mas o Espírito Santo. Aqui torna-se óbvia a discussão sobre a questão do discernimento!
    Creio que neste link:
    https://www.google.de/search?q=Amaz%C3%B3nia…+Ant%C3%B3nio+da+Cunha+Duarte+Justo&ei=0jFSYbKkKM6LlwSkp7iwAw&start=10&sa=N&ved=2ahUKEwiy1fKFh6DzAhXOxYUKHaQTDjYQ8tMDegQIAhA5&biw=1280&bih=539&dpr=1.5
    ou em https://abemdanacao.blogs.sapo.pt/tag/%22ant%C3%B3nio+justo%22 se encontra algum texto em que me refiro ao assunto.

    Caro amigo, desculpa o meu alongamento, dando a impressão de estar a ensinar o Pai Nosso ao Vigário.
    Um grande abraço

  4. Caro Amigo Justo,

    Li a tua interessante informação sobre o tal Caminho Sinodal e , pronto, é realmente urgente que a Igreja se prepare para dar respostas que o mundo de hoje aguarda.Na minha modestíssima opinião o desafio é tremendo, porque não são questões menores , como a verdadeira tradução do PAI NOSSO, que interessam, são as questões de fundo da nossa amada RELIGIÃO! Dou-te de novo um exemplo : a “ressurreição dos mortos“ i.e dos corpos, porque é que há-de ser uma questão de Fé ?? Mas, se não acreditarmos na ressurreição dos corpos, também não podemos acreditar na ressurreição das Almas, porque essas não morrem, ou morrem? E não te dou mais exemplos, comezinhos, relacionados com o Inferno ( com o Lúcifer…), o Purgatório ou o Céu…!
    Encaremos as pessoas, as realidades d´hoje e os problemas filosóficos, controversos há centenas de anos, sem recurso desnecessário a tantos DOGMAS ! O Santo Agostinho que “falava” com Deus a toda a hora também se enganou…

  5. Caro amigo,
    Obrigado pela tua fundada reflexão. Sim, a ressurreição é essencial para a nossa fé. Jesus e Jesus Cristo é caminho verdade e vida, a sua Pessoa é que importa. Muitas das questões que se colocam são próprias da nossa racionalidade causal e o JC ultrapassa-as. O mundanismo e a ideologia da nossa época procura reduzir tudo ao fio lógico e ao utilitário oportuno, daí certas questões serem colocadas não só porque oportunas mas também porque, muitas vezes, ao serviço dos senhores do mundo e de seus acólitos.
    O nosso mundo encontra-se numa mudança que se poderia dizer axial. Daí tudo ser questionado. O próprio conceito de democracia partidária já implica em si um certo relativismo e uma certa inclinação para o politeísmo. O Caminho Sinodal torna-se em alguns aspectos problemático, por isso, dado a verdade não ser partidária e enquanto vamos abrindo o nosso espírito para novas experiências e circunstâncias, vai-se reduzindo o espírito e o âmbito de outras perspectivas. Falta o cultivo da intuição.
    A tua observação é muito oportuna, atendendo ao programa provindo de uma experiência profunda da realidade e qu Jesus expressou no “Não “… não só para não seres julgado mas também porque ao fazê-lo definitivamente está-se a demonstrar que nada se compreendeu da realidade humana.
    Os exercícios intelectuais das ciências humanas das ciência naturais mais não são que um treino para nos ir mantendo em forma e possibilitar um desenvolvimento quantitativo!
    Deus gosta certamente de ver o jogo do nosso pensar e agir na certeza que Ele é que estabelece, não só, as regras do jogo.
    Muito do que consideramos importante não mais são que muletas para irmos andando!
    Um grande abraco para ti e para os confrades

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