O céu não precisa de gritar para ser bonito
Vamos combinar uma coisa: fogos de artifício são bonitos e sempre foram. Desde que um chinês qualquer, há mil anos, teve a brilhante ideia de enfiar pólvora num cano de bambu, a humanidade olha para o céu e suspira. Que magia e que cores! É aquele momento em que todos param, olham para cima e se sentem, por um segundo, num videoclip dos anos 80.
Mas há um pequeno problema, vizinhos. Na verdade, há vários e todos eles fazem Fch… pum.
Para nós, o céu é um palco, mas para o cão do lado, é o apocalipse
Comecemos pelos nossos amigos de quatro patas. Um cão ouve até quatro vezes melhor do que nós. O que para si é um “pum” simpático, para o seu labrador é um trovão do Juízo Final a explodir dentro do crânio. Enquanto você diz “oh, que lindo”, o cão sente: “é agora, vou-me esconder atrás da máquina de lavar e rezar aos donos da ração”. Não é bonito porque é um inferno de pânico, baba e arritmia canina. Causa pânico e stress mortal a cães, gatos, aves e animais selvagens.
E não são só os bichos. Há os bebés a acordar em pânico. Os idosos com o coração frágil. Os veteranos de guerra para quem um estampido não é festa, é uma reexperiência traumática. E os 20% da população mundial que é hipersensível e que, durante meia hora, sente cada rebentamento como uma agulha nos nervos. Por isso, quando dizemos “é tradição”, estamos a dizer: “o seu desconforto é o preço da minha nostalgia”. E isso é, pelos vistos, um bocado feio.
Tradição não tem de ser sinónimo de martírio acústico
Antigamente, os foguetes serviam para afastar maus espíritos e anunciar festas numa altura em que ninguém tinha relógio. Nesse tempo fazia sentido. Mas antigamente também se sangravam os doentes com sanguessugas e acreditava-se que tomar banho fazia mal. A humanidade evolui e a sensibilidade cresce também. E hoje sabemos que o que afasta os maus espíritos não é o barulho, mas sim a empatia.
Por isso, a pergunta é simples: podemos manter a festa sem a tortura? Claro que podemos. E a boa notícia é que a tecnologia já resolveu isto há anos, só ainda não chegou aos ouvidos da tia que compra rojões de pólvora no hipermercado para encantar o seu neto.
Alternativas? Há-as a montes e são fixes
Imagine o seguinte: noite de Passagem de Ano. Em vez de uma saraivada de explosões que faz os bombeiros correrem e os cavalos terem ataques cardíacos, temos projeções laser no céu. Lemas e fotos de luz, ou constelações feitas a pedido e até o rosto dos noivos a sobrevoar silenciosamente a aldeia enquanto os convidados bebem champanhe sem ter de gritar “ooh” por cima dos Fch… pum! Isto não é só possível, é mais bonito, mais limpo e mais poético.
E nos casamentos? Em vez do tradicional “susto de pólvora” depois do “sim” ou do corte do bolo, que tal uma chuva de luzes silenciosas a desenhar corações, ou um balão com imagens do casal a flutuar? A emoção não perde nada e ganha até requinte. E os convidados não passam a noite a proteger o copo de cinzas e estilhaços nem os vizinhos a meterem tampões nos ouvidos.
Até a polícia e os bombeiros estão de saco cheio e com razão
Em Berlim, o sindicato da polícia já pediu a proibição dos foguetes no espaço privado. Porquê? Não é só por causa do lixo, que é uma vergonha, diga-se, nem da poluição do ar, que torna as zonas ambientais uma anedota fiada. É porque, em noites de loucura, as bombas são usadas como armas contra agentes e bombeiros. Mais de três milhões de pessoas assinaram abaixo-assinados contra o barulho infernal. Três milhões, não são três gatos-pingados num fórum de donos de caninos.
O sofrimento dos animais não é um detalhe! É uma emergência silenciosa que acontece todas as vezes que uma pessoa decide que o seu momento de prazer vale mais do que a sanidade de um ser vivo.
Não queremos proibir, mas queremos que a tradição se vista de novo
Ninguém aqui quer ser o “chato da festa que acabou com os foguetes”. Não se trata de apagar o património cultural. Trata-se de vesti-lo com a roupa do nosso tempo. Temos exemplos de como se pega num baile medieval e se faz um festival de luzes. A tradição não morre por deixar de magoar. Morre quando se recusa a desenvolver.
As empresas que produzem foguetes sabem fazer silêncio. Têm a tecnologia e o know-how para isso. O que lhes falta é a motivação. Se a procura mudar, a oferta muda e se deixarmos de comprar barulho e passarmos a comprar beleza, o mercado adapta-se num instante.
E se não se adaptar? Bem, aí a proibição virá naturalmente. Porque a lei, mais cedo ou mais tarde, acompanha o bom senso. E o bom senso, hoje, diz: ninguém precisa de acordar 90% do bairro para celebrar.
Conclusão
Nós, humanos, temos o superpoder de reinventar o que amamos. Já transformámos o fogo numa lareira, o chumbo em letra de imprensa, e as músicas do Tony Carreira em melodias ringtones. Também podemos transformar um estouro num encanto.
Na próxima festa, escolha a luz sem o som. Olhe para o céu e para o seu cão a dormir sossegado ao seu lado. A festa será igualmente bonita e todos dormirão melhor.
E os maus espíritos? Esses, sem barulho para se esconderem, acabam por se evaporar na primeira constelação de laser.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
(1) Escrevo isto por uma questão de sensibilidade e de higiene pública e também porque já levei com foguetes na varanda e restos de cartuxos na piscina e desde então prefiro um bom espetáculo de luzes e um cão sem tiques nervosos!
MARAVILHOSA A SUA PUBLICAÇÃO ! OBRIGADA
http://www.pyropitch.com ja dispomos de fogo de artifício silencioso ha 3 anos luto por isso com fábricantes e fornecedores e finalmente este ano em Abril chegou começamos usar esperamos cada vez mais pessoas adotem usar mais este material.
Vitor Lopes , alegra-me ouvir isto de um profissional da arte pirotécnica e que se encontra no activo! Esperemos que a consciência popular se torne mais sensível e empática no que toca ao problema do ruído.
Muito obrigada por mais uma tão oportuna e pertinente reflexão.
Há muito que queria fazer esse pedido de alerta junto das entidades locais.
Partilho convosco o teor do email que enviei à junta de freguesia, câmara municipal e paróquia,
na esperança que mais alguém o queira igualmente fazer.
“Exmos. Senhores,
Venho por este meio apresentar uma proposta que visa conciliar a preservação das nossas tradições festivas com a proteção do bem-estar da população, dos animais e da biodiversidade local.
O fogo de artifício constitui um elemento apreciado em muitas celebrações. Contudo, existe atualmente um conhecimento científico crescente sobre os efeitos negativos do ruído intenso e súbito associado aos foguetes tradicionais.
Entre os grupos afetados encontram-se:
Bebés e crianças pequenas;
Pessoas idosas;
Pessoas com perturbações do espectro do autismo, ansiedade ou stress pós-traumático;
Animais domésticos, especialmente cães e gatos;
Fauna selvagem, incluindo aves em período de reprodução e nidificação.
Estudos científicos têm demonstrado que os espetáculos de fogo de artifício podem provocar comportamentos de fuga, desorientação e elevado stress em diversas espécies de aves, particularmente durante a noite. Em épocas de nidificação, estas perturbações podem comprometer o sucesso reprodutivo, ao levar ao abandono temporário de ninhos, ovos ou crias.
Tendo em consideração estes impactos, proponho que seja avaliada a adoção das seguintes medidas:
Utilização preferencial de fogo de artifício de baixo ruído;
Redução da duração dos espetáculos pirotécnicos;
Realização dos espetáculos em horários limitados e previamente divulgados;
Evitar lançamentos próximos de áreas ambientalmente sensíveis, parques, linhas de água e locais conhecidos de nidificação;
Considerar alternativas complementares, como espetáculos de luzes ou drones, quando tecnicamente viável.
Esta proposta não pretende eliminar as festividades nem desvalorizar as tradições locais. Pelo contrário, procura adaptá-las às actuais preocupações de bem-estar animal, saúde pública e conservação da natureza, permitindo que mais pessoas possam usufruir das celebrações sem sofrer consequências negativas evitáveis.
Agradeço a atenção dispensada e coloco-me à disposição para colaborar na reflexão sobre possíveis soluções que conciliem tradição, inclusão e responsabilidade ambiental.
Com os melhores cumprimentos,”
Manuela Silva, parabéns também pelo envolvimento. Estou com a associação UTUPIA a organizar uma petição, que já tenho preparada, mas a que falta o assentimento da presidência, para ser enviada a particulares e entidades públicas.
António Cunha Duarte Justo, estarei presente.
Amigo António, é impressionante como convergem as nossas sensibilidades.
O fogo de artificio é uma espécie de arma demolidora da paz que vivemos aqui. E tenho um Border Collie que tem ataques de pânico sempre que a câmara desperdiça o dinheiro dos contribuintes num apocalipse de ruído.
No outro texto, o António escreve sobre um assunto que tenho tentado fazer passar no Jornal por várias vezes: as elites ocidentais estão propositadamente a empobrecer espiritual e materialmente as massas.
O primeiro artigo sai na segunda-feira, o segundo sai na quarta. Eu depois envio os links.
Muito obrigado por tudo, inclusivamente por me resgatar da solidão em que muitas vezes penso que se encontram os meus pontos de vista
Abraço, sincero e grato.
Obrigado por tua tão bela mensagem.
A tua terra é um dos lugares onde Portugal ainda tem muito de original (quando era estudante de filosofia em Lisboa cheguei a ir à praia da Arrábida) e percebo bem como os fogos de artifício rasgam essa paz de forma violenta. O sofrimento do teu Border Collie diz tudo, os animais não mentem sobre o que é genuinamente perturbador. Há qualquer coisa de profundamente irónico em celebrar com o que, para tantos, é puro terror.
Quanto ao tema das elites e do empobrecimento deliberado das massas, é um daqueles assuntos que parece tabu precisamente porque toca em algo real; por isso os jornais em geral não tocam esse assunto directamente porque tudo se sente comprometido, penso eu. O facto de teres tentado fazê-lo passar várias vezes diz muito sobre a tua persistência, e sobre a resistência que ideias desconfortáveis encontram mesmo em espaços que se pretendem abertos. Fico com genuína curiosidade pelos artigos publicados.
A solidão que descreves no final, reconheço-a e identifico-me com ela; causa alegria uma pessoa não se sentir só num mundo por vezes tão fingidor e hipócrita que desvia a sociedade para os seus interesses. Há um cansaço particular em ver com clareza coisas que a maioria prefere não ver. Somos um pequeno antídoto a isso. Creio que a palavra “sal da terra” é antes de tudo uma exigência embora por vezes amarga.
Um abraço igualmente sincero e grato,