POR QUE NÃO CONVOCAR UMA GUERRA CONTRA A POBREZA?

A democracia alemã sangra pela chaga que não consegue fechar: a pobreza no coração da sua própria riqueza

Na Alemanha, um dos países mais ricos da Europa, uma chaga silenciosa corrói os alicerces da democracia; ela tem um nome envergonhado e chama-se pobreza.  Não se trata apenas de números, mas de milhões de vidas confinadas a uma fronteira invisível que divide a sociedade ao meio. Em 2025, cerca de 13,3 milhões de pessoas (16,1% da população) estavam em risco de pobreza. Um número que, quando ampliado para incluir a exclusão social e a privação material, salta para mais de 17 milhões, pouco mais de 21% dos alemães. São pais solteiros, desempregados, reformados e pessoas que vivem sós, formando um exército de invisíveis no coração da prosperidade europeia.

O Limiar da Luta Diária

Segundo o Gabinete Federal de Estatística, um em cada seis alemães vive sob a ameaça da pobreza. O critério é técnico, mas a realidade é crua porque significa ter um rendimento inferior a 60% da média nacional. Em 2024, isso significava para uma pessoa solteira sobreviver com menos de 1.378 euros líquidos por mês. Para uma família com dois filhos, o limiar era de 3.036 euros.

No entanto, mesmo quem recebe 1.500 euros mensais vive frequentemente no fio da navalha. Em muitas cidades, esse valor garante pouco mais que a mera subsistência, sem margem para imprevistos, muito menos para participar plenamente na vida social. E os números mais alarmantes vêm de onde a sociedade menos espera: entre os reformados. Cerca de 3,54 milhões de pessoas com mais de 65 anos viviam abaixo do limiar da pobreza em 2024, uma taxa de 19,6% que não para de crescer. Para quem vive sozinho, a taxa é de 30,8%; para os pais solteiros, de 28,7%.

A Contradição das Prioridades

Perante isto, seria natural e lógica a pergunta: onde estão os recursos para uma guerra decisiva contra este inimigo interno? A política parece paralisada, e os esforços do Estado frequentemente esbarram em prioridades contraditórias. Governos mobilizam somas astronómicas para conflitos externos, mas depois, invocando a contenção orçamental, desmontam peça a peça o estado social que serve de rede de segurança a esses milhões. A injustiça que se combate longe espelha-se, amplificada, dentro de portas. Não será altura de os governos se ocuparem primeiramente da injustiça no seio do seu próprio povo e daquela que a sua exploração de outros povos perpetua?

Um Problema Global com Raiz Local

A chaga alemã é um microcosmo de uma doença global. A distribuição de riqueza no mundo é obscenamente desigual: cerca de 1,6% da população detém quase metade da riqueza global, enquanto os 40% mais pobres partilham apenas 0,6%. Esta desigualdade, que condena cerca de 3,77 mil milhões de pessoas à pobreza e à insegurança alimentar, não é um acidente geográfico distante. É um sistema do qual as nações ricas são parte integrante.

A pobreza na Alemanha não é, portanto, apenas uma falha estatística ou um azar individual. É uma falha democrática e sistémica. É a negação do princípio de que a terra, o Estado e os seus benefícios são para todos. Quando uma fatia tão significativa da população é sistematicamente excluída da prosperidade e da participação social, a própria ideia de comunidade desmorona-se.

A questão que se impõe não é técnica, mas moral e política, diria, existencial. Perante a mobilização que outros tipos de guerra geram, por que não declarar uma guerra total contra a pobreza? Uma guerra que não exija tanques, mas políticas ousadas de redistribuição, investimento social, educação e habitação digna. Uma guerra cujo campo de batalha sejam os subúrbios esquecidos, as casas dos reformados e as cozinhas das famílias monoparentais. Ou será que cada um anda a tratar apenas da sua vidinha?

A democracia alemã, e todas as democracias dignas desse nome, serão julgadas não pela força do seu exército, mas pela determinação com que lutam para erradicar esta fronteira interna que divide, humilha e empobrece a todos, no fim do dia.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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ADEUS À VIDA ATRAVÉS DE SUICÍDIOS

Para além dos Números da Escuridão que se espalha na Sociedade europeia

As estatísticas oficiais chegam frias, compostas por colunas de números que resumem tragédias individuais a dados comparáveis. No entanto, por trás de cada cifra, há um rosto, uma história e um sofrimento que chegou a um limite insustentável. Os recentes dados sobre suicídio na Alemanha e em Portugal não são apenas indicadores de saúde pública; são um espelho inquietante de mal-estares sociais profundos, um testemunho de dor coletiva que exige mais do que uma leitura passiva.

Na Alemanha, o ano de 2025 registrou 10.304 suicídios até setembro, um número que se mantém persistente e elevado, espelhando os 10.372 do ano anterior. Porém, a estabilidade do total esconde mudanças perturbadoras na sua composição: observa-se um aumento significativo entre as mulheres e entre pessoas com mais de 65 anos. Paralelamente, os números do suicídio assistido institucionalmente revelam outra faceta desta realidade complexa: em 2025, 1.287 pessoas recorreram a essa via. Os motivos declarados pintam um quadro de desespero multifacetado: 32% alegavam sofrer de múltiplas doenças simultaneamente, 25% citavam uma “falta de vontade de viver”, seguindo-se doenças oncológicas (15,6%) e neurológicas (13,5%). Notavelmente, a percentagem de mulheres foi superior em todas as faixas etárias nesta modalidade também, sugerindo um padrão de sofrimento que merece análise específica.

Ao cruzar os dados alemães com a realidade portuguesa, encontramos preocupações comuns travestidas de contextos nacionais. Em Portugal, média de três suicídios por dia mantém-se como uma ferida social constante. Mais alarmante ainda é a posição do país entre os que registram das maiores taxas de mortalidade por suicídio em jovens da União Europeia nos últimos 20 anos. Esta é uma geração que, apesar de hiperconectada, parece enfrentar uma epidemia de solidão, pressão e fragilidade psicológica sem precedentes.

Estes números, no seu conjunto, funcionam como um atestado de pobreza em misericórdia e em laços sociais. Refletem uma sociedade que, apesar de todo o desenvolvimento tecnológico e material, está a falhar em cuidar da saúde mental e emocional dos seus cidadãos. Há uma cruel ironia quando, em muitos orçamentos nacionais, o empenhamento militar e a segurança física superam, em larga escala, os investimentos em saúde mental, apoio social e redes comunitárias de sustentação. A vida, na sua vulnerabilidade, parece ser menos prioritária.

Além disso, a normalização e institucionalização da morte assistida, embora responda a um debate ético legítimo sobre autonomia e sofrimento terminal, não pode ser dissociada deste contexto mais amplo. Corremos o risco de ver a morte transformar-se, para alguns, num “modelo de negócio” ou numa solução logística, em vez de um último recurso absolutamente excecional num continuum de cuidados paliativos físicos, psicológicos e espirituais de excelência. O perigo é que a “saída” seja mais facilmente disponibilizada e financiada do que a “esperança”, esta última exigindo políticas públicas mais responsáveis, desestigmatização da velhice e uma rede de apoio verdadeiramente presente.

O que estes dados gritam, em silêncio, é a urgência de uma mudança de vida e de paradigma!

Antes de tudo seria necessário questionar a toda a sociedade sobre o sentido da vida individual, social e pública que a política e as diversas instituições transmitem. Depois seria de implementar planos nacionais de prevenção do suicídio com metas claras, recursos humanos e financeiros adequados, e campanhas de sensibilização que cheguem a todos, especialmente a idosos e jovens.
Urge também falar abertamente sobre sofrimento psicológico, depressão e ideação suicida, sem tabus, é o primeiro passo para que as pessoas peçam ajuda.
Depois, fortalecer os serviços de saúde mental no Serviço Nacional de Saúde, os apoios sociais municipais e as organizações não-governamentais que atuam na primeira linha.
O aumento entre os mais velhos aponta para a solidão, doenças incapacitantes e um sentimento de ser um fardo. Programas de acompanhamento, visitas e integração social são vitais.
Os jovens são aquela parte dos cidadãos que parece ausente de uma política que mereça o nome de humana. Os jovens precisam de mais espaço na sociedade além de ser necessário criar espaços de escuta não julgadora nas escolas, universidades e comunidades, e garantir acesso rápido a psicólogos. Criar perspectivas profissionais torna-se prioritário.

Respeitar a vida vai além da consideração teórica, de discursos ocasionais ou aplicação de instrumentos sem vida. Exige ação concreta, compaixão institucionalizada e uma coragem social para colocar o bem-estar emocional dos cidadãos no centro das prioridades. Cada número nestas estatísticas era uma pessoa que, em seu desespero, viu a escuridão superar a luz. Cabe a nós, como sociedade, acender mais faróis, construir mais pontes e garantir que ninguém tenha de enfrentar essa escuridão sozinho. O adeus à vida pode e deve ser prevenido com um olhar mais atento, uma mão estendida a tempo e um compromisso coletivo inabalável com a dignidade de cada existência.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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A NUVEM E O ALTIFALANTE

Enquanto os do Olimpo (1) se alimentam da claridade que fabricam, os da Névoa navegam na bruma que lhes deixam e ambos, sem o saber, são reflexo um do outro: o poder feito mito, o povo feito abstração, numa dança onde o alto e o baixo são dois movimentos do mesmo rio parado.

No alto do Olimpo moderno, não há partidos. Há o Poder, que é uno, coerente, invisível como o ar e pesado como o granizo. Os que lá vivem, acima das nuvens, compartilham um sol constante. A sua missão é ordenar a massa informe que vagueia sob a tempestade.

Lá em baixo, a Nuvem é permanente. Chuva e desolação são o clima da existência entre altas e baixas pressões. Os cidadãos da névoa alimentam-se das palavras que caem dos altifalantes; de palavras filtradas, processadas, transformadas em pão papoila para a indecisão. Dizem-lhes que os ventos tóxicos são necessários, que sem eles, o caos devoraria tudo. E eles acreditam, porque o medo é o condimento de todas as suas refeições.

Dois pés gigantes, um chamado Conservador e o outro Progressista avançam inabaláveis o caminho da História; os dois caminham sobre a nuvem, alternando passos. Quando um tropeça, a voz do Olimpo explica: “O sistema é complexo”. E segue, pisando um pouco mais forte.

Um dia, um homem da névoa, de nome O Ouvinte, cansou-se de mastigar palavreado. Olhou para as instituições corroídas, para a política sem alma, macha e abusadora, e perguntou em voz baixa: “E se o bem não estiver em nenhum dos pés que nos esmaga?”

A pergunta circulou como um sopro raro. Alguém lembrou as palavras de um pensador chamado Bento: “A política é a arte do possível. O critério não é a opinião, mas a consciência”. Um outro citou Seabra: “Aqui não há verdades finais, só consensos. E consenso pressupõe compromisso com o adversário”.

Compreenderam então: a política não é religião. Não se faz catequese. É um bem menor, um instrumento (em que os adversários espelham o próprio mal no outro, afirmando o bem partido). Aceitá-la como tal era o primeiro passo para a renovar. Não se tratava de derrubar o Olimpo, missão impossível, mas de parar de olhar para ele como fonte de salvação. O bem devia ser o objetivo do Estado e do povo, mas não propriedade de quem fala do alto.

A nuvem não se dissipou, mas dentro dela, começaram a surgir pequenas frestas de claridade. Não era o sol dos deuses, era uma luz própria, feita de consciência crítica que vinha da soberania da pessoa. E nessa luz, mesmo fraca, vislumbraram uma democracia que não fosse apenas dois pés a caminhar, mas muitas mãos a construir.

António da Cunha Duarte Justo

©  Pegadas do Tempo

(1) O Monte Olimpo, o pico mais alto da Grécia, era na mitologia o lar sagrado dos doze deuses olímpicos, liderados por Júpiter . O seu cume, envolto em nuvens, simbolizava o centro divino do poder e do governo do universo, um “lugar onde reina a felicidade” que influenciava profundamente o cotidiano e a espiritualidade dos gregos.
Ao longo da história, é possível observar que pequenas elites, em diversas sociedades e instituições, procuraram criar o seu próprio “Olimpo”, um panteão simbólico de poder e distinção.
No entanto, para além das alegorias que construímos, importa reconhecer que tanto na natureza como na sociedade a realidade é feita de montes e vales.
Mais do que ilustrar a matriz intrínseca da sociedade, esta imagem alerta-nos para a estrutura estratificada da vida coletiva e convida a uma vigilância crítica em relação aos pretensos “deuses” que habitam as modernas capitais “olímpicas”, de Washington a Pequim, de Bruxelas a Moscovo e cuja influência ecoa e se espalha pelo planeta.

 

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LÁ NO OLIMPO ACIMA DAS NÚVENS

No Olimpo das elites não há partidos,
só o poder, espelho de si mesmo,
interesses como colunas, firmes,
varrendo diferenças ao abismo.

Identidade e missão: pôr ordem
nas massas sem rosto, desalmadas,
nutridas pelo medo que goteja
dos altifalantes da casa dos deuses.

Acima das nuvens, sol perpétuo.
Abaixo, o povo come tempo:
chuva, desolação, névoa espessa,
enquanto os ventos tóxicos sopram
a moral ocasional, veneno doce
que defende do caos, dizem.

Dois pés para andar: um conservador,
outro progressista e o sistema
explica as suas falhas na complexidade.
A política, sem alma, é só macho
a abusar do corpo da cidade.

Que fazer? Não identificar o bem
com sigla ou cor. O bem é objetivo
do Estado e do povo. Mas como medi-lo?
Não é consenso, nem opinião privada:
é consciência. Arte do possível,
onde não há verdades finais,
só consensos feitos de compromisso.

Política não é catequese.
É um bem menor, que aceitamos
para, com espírito crítico, renovar.

António CD Justo

Pegadas do Tempo

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TOMÁS DE AQUINO E O CONHECIMENTO

O teólogo e filósofo Tomás de Aquino, que viveu há 800 anos, ensinou:
«O máximo que o ser humano pode alcançar no conhecimento de Deus é saber que não conhece Deus».

Esta afirmação não é uma rendição da razão, mas a sua mais elevada realização. Tomás de Aquino, mestre do pensamento sistemático, dedicou a vida a ordenar o conhecimento divino e humano e, no cume da sua obra, reconheceu o Mistério inapreensível. A verdade última não é possuída, mas aproximada; não é esgotada pelo conceito, mas acolhida com humildade intelectual ou religiosa na experiência mística no mais íntimo da pessoa.

Este reconhecimento da limitação do conhecimento humano é, paradoxalmente, o que nos liberta para uma compreensão mais profunda: o que pensamos é pouco em relação ao que se vive. A experiência humana, com os seus sofrimentos, buscas e epifanias, muitas vezes ultrapassa os limites da linguagem e da doutrina. E é nessa dimensão experiencial que a necessidade da existência de Deus se revela, não como mera conclusão lógica, mas como encontro, experiência, sentido e fundamento para a existência.

As religiões, quando fiéis à sua essência, não devem servir de muros de separação, mas de escolas de respeito: respeito por Deus, pelas religiões e pelas crenças. Esse respeito nasce precisamente da humildade tomista, se ninguém esgota o conhecimento do Divino, ninguém pode monopolizar a sua voz. Cada tradição espiritual torna-se assim uma linguagem possível para dialogar com o Inefável, e cada crente, um peregrino em busca de sentido.

Hoje, num tempo de ruído, dogmatismos e abismos narrativos, a herança de Tomás de Aquino ressoa com urgência. De facto, o diálogo genuíno começa quando admitimos os limites do nosso próprio entendimento. A fé não se opõe à razão, mas convida-a a transcender-se. O respeito pelas crenças alheias não é relativismo, mas reconhecimento da dignidade da busca espiritual do outro.

Assim, construir pontes, entre fé e ciência, entre mundivisões e tradições, entre certezas e dúvidas, exige aquela atitude tomista de busca humilde, onde a pergunta vivida vale mais do que a resposta prepotente.

A atitude de reverência perante o Mistério e de respeito perante o outro é uma característica fundamental do ser humano e da humanidade. Sem ela, fechamo-nos em ilhas de arrogância. Com ela, mesmo na diferença, reconhecemo-nos como caminhantes à procura da mesma Luz.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

 

 

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