Vivemos tempos grávidos de espera. Basta ligar os noticiários ou olhar para dentro de nós mesmos para percebermos que todos esperamos por algo. Uns esperam pela paz, outros, movidos por interesses ou desilusões, esperam pela guerra; há ainda aqueles que apenas aspiram à vitória, independentemente dos custos que ela exija e outros que esperam simplesmente pela oportunidade da vida.
Esta constatação revela algo incómodo: a esperança e a fé são forças poderosas, mas nem sempre são inocentes. Quem detém o poder sabe disso há séculos. Impérios e governantes aprenderam a instrumentalizar a esperança para acalmar os ânimos, a confiança para unir os povos e o significado para criar lealdades. Há, assim, uma esperança que adormece e uma esperança que desperta; uma fé que consola e enfraquece, e outra que assegura a dignidade e assume a responsabilidade.
A primeira beneficia os cínicos e a segunda torna-se perigosa para quem está no poder.
A dupla face da fé
Ao longo da história, a fé religiosa desempenhou papéis aparentemente contraditórios. Houve momentos em que foi a grande estabilizadora das ordens sociais existentes, na Europa medieval, no mundo islâmico e nas sociedades influenciadas pelo confucionismo. Nesses contextos, a fé ajudou a consolidar estruturas, oferecendo sentido, coesão e a criar grandes civilizações.
Mas houve também momentos em que a mesma fé desencadeou dinamismos revolucionários. A Reforma Protestante abalou impérios inteiros. No século XX, movimentos de libertação inspirados em convicções religiosas enfrentaram regimes opressores, do totalitarismo à escravatura e à injustiça estrutural.
O que pode explicar esta dualidade? A resposta reside numa dialética interna à própria fé; dado ela se dirigir a um padrão superior a qualquer poder concreto, o seu efeito prático depende da atitude de quem gere ou governa. Enquanto o poder se mostra compatível com esse padrão, de justiça, dignidade e verdade, a fé tende a ordenar e consolidar, mas quando o poder viola esse padrão de forma flagrante, a mesma fé pode transformar-se numa força crítica, silenciosa ou mesmo rebelde. A maneira como a sociedade está a ser dirigida leva a crer na necessidade de um acentuar da força crítica.
Assim, a fé não clama constantemente por mudança ou por revolução. A fé não se reduz a uma lufada de vento que ocasionalmente passa; a fé age como uma força contrária discreta: relativiza as pretensões absolutas do dinheiro, do Estado ou da ideologia, sem recorrer imediatamente à violência. O seu papel não é tanto derrubar, mas impedir que o poder se torne absoluto. Ela é um fogo santo que lembra o brasido a resplandecer uma fragrância de incenso a acalentar a vida.
O dilema do indivíduo
E é aqui que surge o grande dilema da vida individual. A mudança desejada, aquela que tornará o mundo mais justo, chega quase sempre tarde demais para quem mais precisa dela. E isto porque o indivíduo não vive no futuro idealizado, mas no presente, envolto nas estruturas de poder e das circunstâncias que o moldam e até , por vezes, o subordinam.
Entre a esperança e a realidade abre-se um espaço de cansaço, subordinação e, por vezes, resignação. Se a esperança se fixar unicamente no “grande acontecimento” futuro, corremos o risco de permanecer paralisados numa eterna espera.
Mas há uma alternativa: compreender a esperança como liberdade interior. Quando assim entendida, algo muda profundamente. O indivíduo continua envolvido nas estruturas do mundo, sujeito às suas pressões e circunstâncias, mas já não é totalmente controlado por elas. Mantém um espaço de integridade que o poder não consegue colonizar.
A história ensina-nos que as transformações profundas raramente surgem de revoluções permanentes. As transformações profundas emergem, sobretudo, de mudanças graduais na consciência, nas relações humanas e nos pressupostos culturais. Essas mudanças ocorrem de forma discreta, muitas vezes impulsionadas por pessoas que vivem nesse “meio-termo”, nem totalmente conformadas, nem em permanente insurgência. Aceitam a vida e o viver com naturalidade, mas sempre com a lanterna da intuição que orienta no lusco-fusco do acontecer.
A lentidão que protege
Há aqui uma assimetria fundamental que cria uma tensão a suportar-se: o poder age imediatamente; a esperança age lentamente. Essa lentidão é, ao mesmo tempo, uma fraqueza e uma força. É uma fraqueza porque não responde na mesma velocidade da opressão. Mas é uma força precisamente porque, ao não ser idêntica ao poder, não é totalmente controlável por ele.
A questão decisiva, então, não é se o mundo e as coias que desejamos chegará a tempo, porque, para muitos, ele nunca chegará a tempo. A questão verdadeira é outra: enquanto esse mundo não chega, conseguirá a pessoa humana preservar a sua dignidade no âmbito individual?
Essa é a tensão constante que atravessa a natureza humana e a história. Viver nessa tensão não é fácil. Exige uma fé que não se deixa reduzir a consolo barato, e uma esperança que não se refugia na pura espera. Exige a capacidade de estar no mundo sem se render ao que ele tem de desumano e de agir sem a ilusão de que a solução ou a salvação virá apenas de um grande acontecimento.
A fé e a esperança completam-se na caridade, entendida não como mera generosidade, mas como o compromisso de tratar cada ser humano como um fim em si mesmo, independentemente do ritmo das transformações históricas e das implicações do dia-a-dia, numa atitude soberana na imagem da do Cristo no deserto ao encarar as tentações a partir da distância dos 40 dias.
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Social-pedagogo
Pegadas do Tempo