A Glória do Passado converte-se em Afronta à Moleza e Vazio da Vida moderna
A História é injusta para com os contributos portugueses para o património universal, devido ao seu processo de apagamento. Neste aspecto, ela descreve os factos através de generalizações e de apropriação, atribuindo-os, nas narrativas culturais, a supraestruturas ou a potências que apenas mais tarde se afirmaram. Processo semelhante ocorre na Cultura: aquilo que é pensado pela generalidade e até por indivíduos criativos, acaba concentrado num ou noutro autor que, por ter tido o privilégio de pensar e reproduzir o espírito da sua época, serve de porta-voz e pioneiro para o conjunto da sociedade. Em geral, dá-se o apagamento do particular para se afirmar uma identidade maior. (Também hoje em Portugal, como consequência do wokismo, se assiste ao apagamento de Camões em favor do “espírito da época”!)
- Os Pioneiros da Navegação e das Descobertas desconhecidos
Portugal foi a primeira potência global, tendo a sua ciência náutica e coragem permitido criar mapas do mundo antes de qualquer outra nação europeia. Senão lembremos:
– Austrália: Os Mapas de Dieppe (década de 1540) mostram a costa australiana com nomes portugueses dois séculos antes de Capitão Cook, embora a teoria da descoberta portuguesa da Austrália seja um tema de contínuo debate histórico.
– Canadá: Antes de Jacques Cartier, os irmãos Corte-Real (Gaspar e Miguel) exploraram a costa da Terra Nova no início do século XVI, financiados pela Coroa portuguesa.
– Labrador: A península do Labrador foi representada em mapa e nomeada em homenagem a João Fernandes Lavrador, um navegador português que a avistou em 1492.
– Tibete: Foi um português, o jesuíta Bento de Góis, que provou em 1602 que o Cataio a que se referia Marco Polo era a China, sendo o primeiro europeu a cruzar os Himalaias e a chegar ao Tibete por terra.
-Brasil: Pedro Álvares Cabral reivindicou oficialmente o Brasil para Portugal em 1500, sendo este o pilar sul-americano do império.
– Caminho Marítimo para a Índia: Vasco da Gama ligou a Europa ao Oriente por mar em 1498, criando a base do comércio global durante séculos.
– Cabo da Boa Esperança: Bartolomeu Dias dobrou o extremo sul de África em 1488, prova de que era possível navegar do Atlântico para o Índico e um marco crucial para a viagem de Vasco da Gama.
– Circum-Navegação: Fernão de Magalhães liderou a primeira expedição a circum-navegar o globo (embora a serviço da Coroa de Castela), sendo o seu génio náutico o grande motor da viagem (1).
– Nilo Azul: O jesuíta Pedro Páez (1564 -1622) nascido em Madrid foi o primeiro a chegar à nascente do Nilo Azul, em 1618 – 150 anos antes do escocês James Bruce, que mais tarde tentaria apagá-lo dos registos. Páez passou toda a sua vida missionária sob o Padroado Português do Oriente, atuando na Índia e na Etiópia. É também autor da obra História da Etiópia, escrita em português, na qual descreveu, pioneiramente, as fontes do Nilo Azul.
– Os portugueses chegariam ainda a Oman (1508), à Malásia (1511), a Timor (1512), à China (1513) e ao Japão (1543). Deram o nome de “Ilha Formosa” a Taiwan por volta de 1544 tendo iniciado o comércio com o Japão em 1543. Os portugueses, eram chamados de “bárbaros do sul” e trouxeram espingardas, pólvora e seda crua da China, mudando as táticas de guerra japonesas.
- Cartografia e Apagamento histórico de um Império visual
O domínio português do mundo concretizava-se na ciência náutica que falava o português, através de mapas riquíssimos que demarcavam e documentavam o nosso poder e direitos. Contudo, como é próprio da História e dos regimes absorventes e generalistas, prefere-se muitas vezes falar de “cartografia europeia” em vez de cartografia portuguesa. Numa época em que se arquiteta a globalização, o fenómeno tende a acentuar-se, isto é, a despersonalizar e a descontextualizar, porque é mais conveniente para o sistema que pretende afirmar-se através do abstrato.
Mapas como “Cartografia Europeia“: De facto, os mapas mundi do século XVI, como o de Lopo Homem (1565), são muitas vezes referidos como ‘europeus’, diluindo a sua origem portuguesa. Estes mapas, com a sua toponímia e bandeiras portuguesas, são a representação física de um império visualmente português, não “europeu”. É um facto que Portugal se adiantou à Europa das potências de então porque estas se encontravam ainda demasiadamente ocupadas com elas mesmas e em processos de guerra. Portugal, profundamente católico pensou por primeiro em termos geoestratégicos.
Bandeiras escondidas: A escola cartográfica portuguesa, com figuras como Lopo Homem, Pedro Reinel e Jorge Reinel, era uma das mais avançadas do mundo, com exclusividade para a Coroa, mas o seu trabalho foi incorporado em narrativas mais generalizadas.
- Tecnologia e Inovação eram as ferramentas do Império
Por detrás da expansão global esteve uma revolução tecnológica portuguesa, movida pela nossa tecnologia expressa na Caravela. O uso do astrolábio permitia aos navegadores determinar a latitude, medir o tempo e orientar-se no mar.
A Caravela, desenvolvida pelos portugueses no século XV, foi a embarcação ideal para a exploração. Rápida, fácil de manobrar e capaz de navegar contra o vento, era a ferramenta tecnológica que permitia avançar por mares desconhecidos enquanto outras nações usavam navios pesados e lentos. O empreendimento dos portugueses com a escola de sagres, do infante D. Henrique reunia o saber da época e era patrocinada pela ordem de Cristo (templários).
- Diplomacia e Geopolítica na Divisão do Mundo
A capacidade diplomática portuguesa foi tão decisiva como a capacidade militar.
– Tratado de Tordesilhas: Este tratado de 1494 entre Portugal e Espanha foi um acto de política nacional inteligente: Portugal, de forma inovadora, usou a diplomacia para garantir, a sul e a leste, o domínio exclusivo de uma vasta área do globo, que incluía África, o Brasil e o Oriente.
Conclusão: Um Legado de “Primeiras Vezes”
A tendência de rotular as conquistas como “europeias” é uma imprecisão histórica; em vez disso poderia referir-se o legado dos templários reunido na Ordem de Cristo. Os feitos aqui assinalados, das caravelas aos mapas, do Brasil ao Japão, demonstram que foram os portugueses os primeiros a criar um verdadeiro império global, movidos por tecnologia própria, financiamento régio e da ordem de Cristo e a coragem sustentada pela fé dos seus navegadores.
Este texto não tem por objetivo menosprezar a história de outros povos, mas sim devolver a Portugal o crédito pela sua conquista mais singular e significativa de ter sido a primeira potência global a estruturar, representar geograficamente, ligar e transformar o mundo. Este legado geopolítico português foi transferido, com a independência das «colónias» portuguesas, para as esferas de domínio da União Soviética (de caráter ideológico) e dos Estados Unidos (de caráter imperialista).
Hoje que somos dominados pelo globalismo e pelo consumismo, o texto poderá parecer demasiadamente patriótico
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
(1) Os portugueses chegariam ainda a Oman (1508), à Malásia (1511), a Timor (1512), à China (1513) e ao Japão (1543). Deram o nome de “Ilha Formosa” a Taiwan por volta de 1544 tendo iniciado o comércio com o Japão em 1543. Os portugueses, eram chamados de “bárbaros do sul” e trouxeram espingardas, pólvora e seda crua da China, mudando as táticas de guerra japonesas.