MILITARIZAÇÃO EM CURSO EM UNIVERSIDADES ALEMÃS

Kassel na sombra do Aço e o silêncio da cláusula da paz

Há cidades cuja geografia é marcada pelo rio, pela serra ou pelo mar. Kassel, no coração da Alemanha, também tem o rio Fulda, mas nela vê-se a marca da cinza. Quem percorre as suas ruas da cidade baixa, mesmo nas manhãs mais límpidas, sente um peso na terra um eco subterrâneo de 1943, quando 75% da cidade ruíram sob o fogo dos Aliados, pagando o preço de ser, já nessa altura, um bastião da indústria bélica. Hoje, as chaminés da Rheinmetall e da KNDS Deutschland não fumegam pólvora, mas exalam o aço frio dos tanques e das munições que a Europa novamente reclama. E é precisamente nesta cidade, tão linda e com tantos parques, onde a História parece ter-se esquecido de sarar, que se trava uma batalha silenciosa, mas fundamental, pelo futuro da razão académica.

Em causa está a revogação da chamada «Zivilkausel», a cláusula civil de paz, na Universidade de Kassel. Setenta instituições de ensino superior alemãs subscreveram, outrora, o compromisso de que a investigação científica se consagraria, exclusivamente, a fins pacíficos. Kassel era uma dessas vozes éticas no deserto do progresso técnico. Contudo, a nova vaga de rearmamento que varre a Alemanha, esse Zeitenwende que tantos aplaudem como necessidade geopolítica, ameaça agora transformar os laboratórios em extensões dos quartéis. A ciência, que deveria ser o farol da humanidade, corre o risco de se tornar a bússola da artilharia.

O problema não reside na pureza abstrata da investigação, sabemos que o conhecimento é, por natureza, ambivalente e que os frutos da física podem alimentar hospitais ou mísseis. A questão crucial é a intencionalidade e a influência. Quando a maior concentração de indústria armamentista do país se instala à porta da universidade, abolir a cláusula de paz não é um gesto de transparência; é um convite aberto para que o dinheiro sujo da guerra dite as prioridades científicas. E a tragédia anuncia-se em dois atos: em primeiro lugar, os fundos públicos, que deveriam nutrir o espírito crítico e a coesão social, poderiam ser desviados para financiar a morte. Em segundo lugar, e mais sinistro, a universidade deixaria de ser o templo do debate para se tornar o escritório de projetos das multinacionais do aço.

Perante este cenário, o Senado da Universidade hesita. Composto por apenas três estudantes, nove professores, três académicos e dois administrativos, este órgão reflete um desequilíbrio de poder gritante, a voz dos que aprendem é abafada pelos que já decidiram. Após três horas de discussão, o Conselho Académico adiou a decisão. Mas o adiamento, longe de ser uma vitória, cheira a tática de dilação. A sugestão de criar uma comissão de ética é, no limite, uma manobra burocrática, uma cortina de fumo para ganhar tempo e esvaziar a resistência que, entretanto, se ergue com cartazes e gritos do lado de fora do campus. A ASTA, representação estudantil, apela a uma votação geral, um gesto democrático que a razão louva, mas que a urgência do momento condena – porque, enquanto se contam votos, os canhões continuam a ser forjados.

Mas o que está em jogo transcende as fronteiras do estado do Hesse. A Alemanha, pela sua força económica e moral, é um modelo. E quando a Alemanha se militariza, todo o continente estremece. Países como Portugal, situados na margem atlântica, sentem a pressão tectónica deste rearmamento. Num país que deveria semear o espírito social, a cultura de paz e a resiliência comunitária, a onda belicista germânica ameaça impor uma lógica de subalternidade: “Se a Alemanha se rearma, nós também temos de o fazer.” Mas esta é uma falácia perigosa. A Europa não precisa de mais exércitos; precisa de mais pedagogia. Precisa de dominar a arte da diplomacia e da fraternidade, em vez de competir na corrida ao armamento.

A vontade militar e o delírio belicista avançam a passos largos na sociedade germânica, infiltrando o discurso político, a imprensa e agora a academia. Para onde caminha a Alemanha dos nobres poetas e dos pensadores? Mas as universidades devem ser os baluartes contra essa maré. Criar espaços de guerra dentro dos muros onde se cultiva o saber é uma contradição tão absurda como cultivar espinhos num jardim de flores. O exército já tem os seus quartéis onde pode ter os seus laboratórios; a ciência deve ter os seus laboratórios de paz.

A memória de Kassel, essa cidade arrasada até aos alicerces, deve servir de advertência. Os fantasmas de 1943 não pedem vingança; pedem memória. Revogar a cláusula de paz agora, quando o dinheiro manda e a Europa rearma, não é apenas um precedente perigoso para outras universidades que observam este caso; é uma traição àqueles que, sobre os escombros, juraram que nunca mais.

Apelamos, pois, à razão e ao coração de cada cidadão europeu. A razão diz-nos que a investigação civil e a ética não são obstáculos ao progresso, mas a sua única garantia de sustentabilidade. O coração diz-nos que os jovens que hoje protestam em Kassel são a consciência viva de um continente que já se despedaçou duas vezes. Não os deixemos sós. Que a Europa não se deixe cegar pelo brilho efémero do aço. Que a cláusula de paz não seja um papel rasgado ao vento, mas o alicerce sobre o qual construímos, finalmente, uma cultura de paz duradoura. Porque, se a universidade deixar de ser o lugar onde se sonha com um mundo melhor, quem o fará por nós?

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

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O ECLIPSE DAS COISAS NUMA LINGUAGEM ALHEADORA DA EXPERIÊNCIA

Quem muda o vocabulário muda a própria forma de ser e de estar no mundo

Ao observarmos a evolução da linguagem nas sociedades europeias, sobretudo a partir das últimas décadas do século XX, torna-se evidente que muitas palavras perderam parte da sua densidade semântica e da sua capacidade de remeter diretamente para a experiência concreta da realidade. Não se trata apenas da natural evolução das línguas, um fenómeno inevitável e estudado pela Linguística, mas também da crescente tendência para simplificar, uniformizar e abstrair o vocabulário utilizado no ensino, na comunicação pública e nos meios digitais. Este fenómeno além de plurifacetado revela-se atrevido ao querer reduzir a gramática a uma questão de discussão de emancipação, de género ou de wokismo cego.

Um exemplo que parece inocente e foi efetivado em Portugal  é a alteração da terminologia gramatical que levou à substituição da designação tradicional “substantivo” pela categoria mais genérica de “nome” em diversos documentos pedagógicos. A alteração começou com a introdução da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), aprovada pela Portaria n.º 1488/2004, de 24 de dezembro, consolidada depois no Dicionário Terminológico. Embora esta mudança tenha sido justificada por razões de simplificação didática e para aproximar a terminologia escolar aos modelos linguísticos contemporâneos, ela revela-se como demasiadamente “inocente” ao seguir agendas globais sem ter em consideração a preocupação expressa por George Orwell!  Contudo ela suscita uma questão mais ampla: até que ponto a simplificação da linguagem pode contribuir para um enfraquecimento da relação entre as palavras e a realidade que elas designam? E até que ponto com a linguagem se muda o substrato do humano, ao termos em conta a preocupação expressa por George Orwell?

As palavras não são meros sinais convencionais. Desde Aristóteles, para quem o ser humano é um animal dotado de logos, até Martin Heidegger, que afirmava que “a linguagem é a casa do Ser”, numerosos pensadores entenderam que é através da linguagem que vivemos e habitamos o mundo. Quando uma palavra conserva a sua ligação à experiência concreta, ela transporta memória, cultura e formas de perceber a realidade. Quando essa ligação se enfraquece, corre-se o risco de substituir a riqueza da experiência por categorias cada vez mais abstratas.

É precisamente este perigo que George Orwell denunciou no célebre ensaio Politics and the English Language. A degradação da linguagem não é apenas um sintoma porque pode ser usado como instrumento de empobrecimento do pensamento. Como escreveu: “Se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento.” A simplificação excessiva ou a manipulação das palavras acaba por limitar a própria capacidade de pensar criticamente.

Este processo favorece um progressivo desenraizamento da pessoa. Simone Weil também adverte para a perda da ligação às coisas concretas ao falar de enraizamento (L’Enracinement, 1949), ao escrever que “o enraizamento é talvez a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana”.  O indivíduo deixa de encontrar na linguagem uma mediação entre si e o mundo vivido para se mover predominantemente no universo das ideias abstratas, dos conceitos funcionais e das classificações convencionais. A realidade ou objeto torna-se menos algo que se experimenta e mais algo que se interpreta através de sistemas previamente construídos.

Esta tendência é reforçada pela crescente mediação tecnológica. As crianças que descobrem o mundo sobretudo através dos ecrãs adquirem vastas competências digitais, mas veem reduzidas as oportunidades de contacto direto com a realidade física: tocar, cheirar, explorar, subir, cair, observar lentamente os ritmos da natureza. Diversos estudos em Psicologia do Desenvolvimento confirmam que a experiência sensório-motora constitui uma base essencial da aprendizagem.

Já nos anos 80, Neil Postman advertia que toda a tecnologia altera a ecologia da cultura. Em Amusing Ourselves to Death mostrou como uma sociedade dominada pelos meios audiovisuais tende a privilegiar o entretenimento sobre a reflexão, fazendo com que a imagem substitua progressivamente a experiência e a argumentação. O problema não reside na tecnologia em si, mas na forma como esta redefine silenciosamente os nossos hábitos de pensar.

Por seu lado, Marshall McLuhan sintetizou esta transformação na célebre fórmula: “O meio é a mensagem.” O meio através do qual conhecemos o mundo não é neutro porque modifica a própria estrutura da perceção e da consciência. Quando a experiência passa a ser predominantemente mediada pelos ecrãs, também o modo de compreender a realidade acaba por se transformar.

Poder-se-ia dizer, metaforicamente, que os antigos caminhos vivos, ladeados pela diversidade da vegetação e pela imprevisibilidade da natureza, vão sendo substituídos pelo asfalto das vias cuidadosamente projetadas. Nestas estradas prevalecem sinais convencionais definidos por arquitetos dos sistemas sociais, económicos e tecnológicos. Pouco a pouco, habituamo-nos mais a interpretar símbolos do que a observar diretamente as coisas. Deste modo o acesso à vida “real” decai ao construir a máscara da realidade já não a partir da experiência e da observação do objecto para se tornar na máscara da máscara.

Forma-se assim aquilo que poderíamos designar por um “eclipse das coisas”. As realidades concretas cedem lugar às suas representações; a experiência é substituída pela mediação; o objeto pela imagem; a presença pelo fluxo contínuo de informação. Ora, quando as coisas desaparecem do horizonte da experiência, também a memória tende a enfraquecer-se, pois a memória humana alimenta-se da vivência concreta, dos lugares, dos gestos e dos encontros.

Esta preocupação que aqui apresento aproxima-se da reflexão de Hannah Arendt sobre a perda do “mundo comum” e que muito me impressionou aquando de estudante. Em The Human Condition, Arendt lembra que a realidade humana nasce de um mundo partilhado de coisas, obras e experiências concretas. Quando esse mundo é substituído por construções abstratas ou por realidades inteiramente mediadas, enfraquecem-se igualmente os vínculos que sustentam a vida política, a memória histórica e a responsabilidade comum.

As consequências deste fenómeno ultrapassam, por isso, o domínio da linguagem. Afetam a própria compreensão do ser humano e da sociedade. Uma transformação profunda da relação entre linguagem, experiência e memória conduz inevitavelmente ao aparecimento de uma nova antropologia e de uma nova sociologia, nas quais a identidade pessoal se constrói cada vez mais através das redes simbólicas, dos algoritmos e das mediações digitais, e cada vez menos através da experiência direta da realidade vivida e deste modo devasta certamente o humanismo.

O que observamos no mundo que nos circunda é preocupante contudo, importa evitar leituras simplistas. A abstração constitui igualmente uma das grandes conquistas da inteligência humana e permitiu o extraordinário desenvolvimento das ciências, da filosofia e da técnica. O desafio consiste em preservar o equilíbrio entre a capacidade de abstrair e a permanência da ligação às coisas concretas. Uma linguagem que perde completamente as suas raízes na experiência empobrece o pensamento e uma experiência sem linguagem perde a possibilidade de ser compreendida e transmitida.

Talvez uma das tarefas culturais mais importantes do nosso tempo seja precisamente restaurar esse equilíbrio: devolver às palavras a sua espessura humana e reencontrar, através delas, a presença das coisas, da memória e da realidade que lhes dá sentido. Porque, em última análise, não é apenas o vocabulário que muda, o que muda é a própria forma de existir e de estar no mundo.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©

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LABORATÓRIO DO CAOS

Na oficina da loucura, se sei o que sei,
é porque o chão me dói nos pés.

Fabricam-se as febres em série,
com prazos e gráficos de venda;
a dor vem em cápsula, a miséria
tem selo de marca e contenda.
“Toma esta vacina, que é nova!
Esquece o que o velho sabia:
que o suor é que cura, que a prova
da vida é sujar-se de dia.”

Trocaram o nome das coisas:
à coragem chamaram “risco”,
à virtude, “cheiro de rosas”,
mas rosas de um cesto turístico.
A criança, de olhar na trama,
já não sabe o que o vento sussurra;
perdeu a palavra que a chama
e a imagem que aterra e segura.

A nuvem é loja de engodos;
a chuva, produto embalado.
E andamos, sisudos e lixados,
de guarda-chuva ao lado,
sem ver que o Sol, esse é real,
queima a pele, a mentira, o sinal.

Mas a indústria do medo prefere
que o vírus venha primeiro,
para que a cura que oferece
nos torne um rebanho inteiro
de almas sem norte, sem tino,
cretinos de rosto limpo,
que ignoram que o seu destino
é mais que todo o guião impresso.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

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PARA UMA CULTURA DO ENCONTRO ROMPER A INÉRCIA

Como resgatar o Humano da Fragmentação

Do hiperindividualismo à consciência integral do “Eu-Tu-Nós
O empenho em tal causa terá de ser de envergadura civilizacional se não se quer que a civilização se dissolva na inércia. A tarefa começa pela necessidade urgente de uma síntese global que resgate o ser humano ocidental da fragmentação do hiperindividualismo contemporâneo. Para tal seria de encarar a necessidade de uma grande síntese epistemológica e antropológica para salvar a humanidade da sua própria fragmentação.

Temos de proceder a uma leitura histórica cirúrgica. O processo de emancipação individual, que teve no Protestantismo e no Iluminismo os seus motores iniciais, libertou o homem de tutelas medievais, mas, ao ser capturado pelas estruturas económicas e técnicas da modernidade, degenerou no hiperindividualismo e na atomização social. O ego hipertrofiado tornou-se o consumidor perfeito para um sistema que precisa de indivíduos isolados, previsíveis e dependentes de “máscaras” mercantis. Se o indivíduo se esvaziou do seu âmago, da sua mesmidade, as civilizações correm agora o mesmo risco de implodirem por falta de consistência espiritual interna, fechando-se em pequenos nichos de sobrevivência identitária.

A urgência da síntese numa matriz integradora global

A tarefa competiria aos intelectuais, filósofos e líderes espirituais do Ocidente e do Oriente; não se trata da criação de uma nova ideologia política, mas sim de uma Meta-Matriz Relacional (1). A criação de uma matriz conceptual e formativa transcultural, que sirva de base para as relações internacionais e para a educação dos povos, é, depois do reencontro da própria cultura com os seus fundamentos orgânicos, o desafio do nosso século. Uma síntese que assente no reconhecimento de que somos todos “caminheiros na procura e na construção da Verdade”, operando em três eixos fundamentais:

  1. A dialética do humano: Masculinidade e Feminilidade

A desestruturação do mundo atual decorre também da perda de equilíbrio entre as energias arquetípicas do masculino e do feminino, como tenho apresentado  em Pegadas do Tempo: www.antónio-justo.eu. A sociedade técnico-secular hipertrofiou o “masculino tóxico/mecânico” (a conquista, a exploração, a categorização, o controlo e a descrição fria) e marginalizou o “feminino essencial” (a intuição, o acolhimento, a ressonância, o cuidado e a relação por presença). Integrar ambas as dimensões na matriz formativa dos povos é devolver à humanidade a sua totalidade psicológica e existencial. Não há “Nós” inteiro sem a harmonia destas duas polaridades (2).

  1. A reconciliação do Ser: Materialidade e Espiritualidade

O Ocidente secularizado cometeu o erro trágico de decretar o divórcio entre o corpo e a alma, entre o progresso técnico (materialidade) e a profundidade mística (espiritualidade). A síntese proposta exige que a espiritualidade deixe de ser vista como um “anacronismo” ou um “hábito privado”, passando a ser reconhecida como a infraestrutura invisível que dá qualidade e limite ético à ação material. O Oriente tem aqui um papel pedagógico fundamental com as suas filosofias da imanência e da unidade entre mente e matéria (3).

  1. O horizonte teandro-político: Povo expressão do divino

Esta expressão evoca a intuição profunda de que a comunidade humana (o Povo), quando autoconsciente e unida na ressonância, manifesta a própria presença do Sagrado na Terra. Deus não como um monarca exterior que dita dogmas e preconceitos através de uma casta institucional, mas Deus como a força motriz, o “Movente” intemporal que se atualiza na comunhão sincera e sem máscaras entre os seres humanos. Formar os povos neste sentido é educá-los para a sacralidade da relação social (4).

O desafio da implementação na prática

O grande obstáculo a esta visão utópica (no sentido mais nobre de um ideal orientador) é que as estruturas que hoje governam o mundo, financeiras, tecnológicas e burocráticas, prosperam precisamente na ausência de síntese. Elas alimentam-se do preconceito, da divisão e da ilusão de certeza para manter o controlo. Por isso, essa matriz pedagógica global talvez tenha de começar a ser escrita e vivida a partir da base, através de redes transnacionais de pensadores e criadores que, se recusam a aceitar a falência qualitativa da nossa civilização (5).

Estratégias e possíveis abordagens:

As fórmulas do dogmatismo eclesial e do maniqueísmo secular seriam ultrapassadas ao repensar-se o Mistério da Trindade (1=3) e (3=1) e da Encarnação para lá de impostações religiosas ou seculares e devolvê-las ao seu estatuto de matrizes lógicas e existenciais:

– A Trindade como Antídotos ao Maniqueísmo – O pensamento trinitário quebra o binarismo (dualismo). Mostra que a identidade não se faz pela exclusão do outro, mas pela relação de reciprocidade. O Pai, o Filho e o Espírito Santo não competem; coexistem numa dinâmica de doação mútua (perichoresis) onde a unidade preserva a diversidade. Secularizar a Trindade significa criar uma sociedade onde o “Nós” não esmaga o “Eu” nem o “Tu”, mas os potencia (possibilita a sustentabilidade perene da cultura).

– A Encarnação como Reconciliação Matéria-Espírito – Em Cristo, o divino não anula o humano; a carne (matéria) torna-se o veículo do Espírito. Ao esquecer isto, o Ocidente secular hipertrofiou a matéria (o consumo, a técnica) e desintegrou o sentido (um reino simbolizado na estátua de Nabucodonosor, rei da Babilónia, com pés de barro, isto é, símbolo da vida pública  com políticos sem virtude, carentes de méritos e sem valores intrínsecos: um colosso sem alma que não pode resistir ao embate que a espera).

O novo “momento Beneditino” e o encontro de caminheiros

Uma estratégia que reinterpretasse o espírito original de São Bento para o século XXI poderia tornar-se numa cirurgia historicamente oportuna. De facto, quando o Império Romano colapsou no caos e no maniqueísmo bárbaro, foram os mosteiros beneditinos que preservaram a cultura, criaram novos modelos agrícolas e fundaram comunidades de paz baseadas no equilíbrio entre o trabalho material e a contemplação (Ora et Labora).

Teríamos um Neo-Monasticismo Ecuménico e Intercomunitário de cariz secular e espiritual, com um eixo de caracter vertical seguindo a Via Mística Transcultural como tecto. Enquanto o Ocidente acentuaria o valor do Eu (Trindade/Encarnacão) o Oriente expressaria o valor do Todo (Budismo/Vazio Interdependente). Deste modo abdicar-se-ia da matriz de pensamento maniqueísta dos opostos rivais legitimadores de uma cultura da guerra para se ultrapassar o binarismo/dualismo e passar-se à fórmula trínia de uma cultura de paz de avanço em espiral.

Teríamos, por um lado, grupos seculares e religiosos em co-presença. Haveria a criação de espaços que funcionem como laboratórios de uma nova síntese, onde crentes e não-crentes se sintonizam através da via mística (inclusiva) que, por natureza, despoja o ser humano de dogmas e preconceitos, permitindo o encontro direto com o “Movente” e por outro lado teríamos o casamento do ocidente com o oriente em que o passo do Ocidente consistiria em caminhar em direção ao Oriente através da mística, reaprendendo a dissolver o ego inflacionado na teia da interdependência universal (o conceito budista de Pratītyasamutpāda ou o Tao) e o passo do Oriente seria caminhar em direção ao Ocidente assimilando a valorização ontológica da pessoa individual, não como um átomo isolado da sociedade de consumo, mas como um nó sagrado, único e irrepetível na rede da existência com o protótipo relacional trinitário.

Esta caminhada comum do Cristianismo e do Budismo não visa fundi-los numa religião universal cinzenta, mas sim usá-los como espelhos mútuos para corrigir os excessos e cegueiras de cada civilização.

Na minha página virtual Pegadas do Tempo, tal como neste ensaio, procuro fomentar momentos de reflexão e análise que sirvam de estímulo à ponderação urgente de que carecemos, neste tempo em que a cultura da concorrência ameaça devorar o que o humano tem de mais genuíno. Numa perspetiva de construção de uma cultura universal de paz, poderíamos, cada qual no seu contexto, ir elaborando e desenhando a arquitetura operacional de que a nossa civilização necessita para não sucumbir à mecanização existencial. O momento axial que atravessamos pede a visão de um pragmatismo profético. O grande desafio da era da Inteligência Artificial e da hiperconexão virtual não se resolve com mais isolamento nem com o apego a formalidades políticas e pastorais estéreis, mas sim com o entrelaçamento de comunidades em redes descentralizadas que gerem experiências reais de comunhão. Constatamos como as instituições falham e como a “Palavra”, enquanto energia mistério, pode ser encarnada hoje através de vetores cruciais:

  1. A descentralização e os novos rituais na era da IA

Se a IA automatiza a lógica, a eficiência e a descrição abstrata, o que resta para o Homem é a capacidade de presença, o mistério e o vínculo afetivo. Os conventos físicos tradicionais servem a poucos, mas o modelo de “redes descentralizadas” permite que o espírito comunitário se propague em capilares pela sociedade.

– A Palavra como Energia: A Palavra aqui não é o “discurso” ou o dogma dogmático, mas a força geradora de realidades (o Logos: a “Palavra” no processo de ser encarnada).

– Novos Rituais: Precisamos de dinâmicas virtuais e físicas que funcionem como portos de abrigo contra o ruído. Não se tratam de rituais de “sacristia”, de “lojas”, de centrais partidárias, nem de fóruns político-económicos intergovernamentais, mas sim de momentos estruturados de paragem, escuta e partilha autêntica, que as pessoas possam levar consigo para o seu quotidiano. Quanto à sua orgânica, creio que um modelo de maior abrangência global poderia ser elaborado com as devidas adaptações, inspirando-se na estrutura da Igreja católica que, apesar do seu carácter piramidal, contempla o momento democrático e a valorização das dimensões regionais.

  1. A arte e o desporto como liturgias encarnadas

Urge focar a ação cultural e religiosa nas artes, filmes, teatro espontâneo, concertos, etc., onde a mensagem esteja em primeiro plano, e não o intérprete! Tal implicaria uma autêntica revolução pedagógica, mas uma revolução que valeria a pena experimentar, moldada pelas necessidades e potencialidades de cada comunidade. Imagine-se, nas igrejas e sacristias, sessões de teatro de improvisação onde se pudesse desenvolver uma catarse de carácter psicológica, espiritual e física, na qual o indivíduo e o grupo, em interação, expressassem o divino e o humano, a amargura e a alegria de viver, numa autêntica expressão litúrgica de cura e redenção.

Este teatro improvisado, longe de ser mero entretenimento, constituir-se-ia como um espaço de vulnerabilidade sagrada. O ensaio, a falha, o gesto inesperado, tudo isso se tornaria matéria litúrgica, porque aí, mais do que em qualquer rito perfeitamente coreografado, se revela o humano tal como ele é: imperfeito, em busca, aberto ao sopro do Espírito. O “palco” da igreja deixaria de ser um lugar de distância entre clero e fiéis para se tornar um círculo onde todos são, ao mesmo tempo, atores e espectadores da Graça. O que está em jogo não é a qualidade estética da representação, mas a verdade da encarnação, o Verbo que se faz carne, de novo, em cada gesto partilhado.

Uma expressão de cura humana integral, não alicerçada em definições de pertença, mas num carácter simultaneamente corporal e espiritual, pressupõe o Esvaziamento do Ego (Kenosis). Esta Kenosis não é um mero apagamento niilista, mas antes uma expansão por esvaziamento: o artista, ao recolher-se, não diminui, torna-se antes uma membrana permeável por onde o divino e o humano trocam respirações.

Quando o actor ou o músico se apaga em favor da obra, a arte converte-se num canal para a ressonância trinitária e pressupõe, além disso, uma espiritualidade isenta do excessivo odor a velas e das habituais vénias ao Zeitgeist. A ressonância trinitária não é um conceito abstrato; é a vibração concreta de uma relação que se estabelece no intervalo entre a nota e o silêncio, entre o gesto e a pausa, entre o eu e o Tu.

O esvaziamento do ego, nesse contexto, é o único gesto que permite à comunidade e não ao intérprete tornar-se protagonista da cura. Como na improvisação teatral, aqui o “palco” não é o lugar do virtuoso, mas o lugar do servidor da obra. E a obra, por sua vez, não pertence ao artista, nem ao público, nem sequer à Igreja como instituição: ela pertence ao encontro (corpo místico de Cristo) esse instante fugidio (a ressoar em cada um) em que o corpo, o espírito e o Mistério coabitam sem mediações desnecessárias. É nessa nudez ritual que a redenção deixa de ser doutrina e se faz carne, novamente, em cada respiração de vivência partilhada.

O que o mundo hoje precisa é de uma espiritualidade sem cheiro a velas e sem vénias ao Zeitgeist: Os centros paroquiais e culturais já têm a logística e o espaço físico. Falta-lhes libertarem-se das exterioridades formais para oferecerem o que o mundo pede: espaços de silêncio, de encenação da vida, de partilha pós-concorrência. O desporto e a arte, vividos de forma comunitária, tornam-se a nova mística encarnada. A espiritualidade autêntica não se confunde com a encenação piedosa (rituais sentimentais, as parafernálias devocionais) nem com o servilismo às modas intelectuais ou políticas do momento, sejam elas o ativismo superficial, o tecnoutopismo ou o relativismo estéril que nos amarra a todos à pia onde todos se servem da “lavagem” (restos de comida) pública. Essa espiritualidade despojada exige uma ascese de atenção que corresponde a estar no mundo sem lhe prestar vassalagem, a habitar a tradição sem a mumificar e a acolher o novo sem se render ao fetiche da novidade.

  1. A Fenomenologia das Fórmulas básicas e o Impacto político

O indivíduo isolado é politicamente impotente e facilmente engolido pelas orgânicas burocráticas da modernidade, facto este que se observa cada vez mais consumado nas novas formas de estar na polis. Para recuperar a voz, as pessoas  têm de se organizar em grupos e assim se formar uma nova antropologia e uma nova sociologia. Para isso precisa-se:

– Consciencialização antropológica: Cada cultura esconde fórmulas básicas de sabedoria (como a Trindade no Ocidente ou o Vazio Interdependente no Oriente). Fazer uma fenomenologia dessas fórmulas significa traduzi-las em matrizes de comportamento em que se afirme a cooperação em vez de maniqueísmo e a inclusão em vez da exclusão.

– Para lá de Hans Küng: O projeto Ethos Global de Hans Küng lançou as bases teóricas para uma ética planetária partilhada. O passo seguinte, exige porém  que os governantes e o clero apliquem isto na organização prática mas como virtude e não como conteúdos abstratos como pretendem forças que se encontram por trás de agendas políticas. As instituições não podem ser núcleos fechados (guetos de certezas) nem balões ao sabor das águas do politicamente correto; têm de se enredar com outros grupos para criar massa crítica e impacto político-social.

Criar Plataformas de Polinização cruzada

Como resposta à urgência de curar a fratura maniqueísta da nossa sociedade pressupõe-se criar-se uma estratégia de dupla via que transforma a paróquia e a sede partidária de espaços de trincheira ideológica em verdadeiras plataformas de polinização cruzada.

Ao criar eventos culturais abertos em paralelo com os religiosos, a paróquia deixa de ser um “gueto de crentes” e passa a ser a ágora da comunidade de cunho católico. O segredo está em fazer com que o crente e o laico se encontrem não para debater dogmas, mas para comungar de uma experiência humana partilhada que se expressa em ações conjuntas.

A Arte com Conteúdo Integral como Terceiro Elemento

Para que este convívio aconteça sem desdém mútuo, a arte com conteúdo integral funciona como o lubrificante existencial perfeito.

O Laico entra no espaço atraído pela beleza, pela música ou pelo teatro, sem o medo de ser doutrinado ou de encontrar o “cheiro a sacristia”.

O Crente sai da sua zona de conforto e aprende a ver a manifestação do Mistério e da Palavra também fora das fórmulas litúrgicas tradicionais.

O Encontro dá-se na ressonância da mensagem da obra. A arte integral toca no âmago do ser, onde as máscaras do “ateu” ou do “católico” caem, restando apenas dois caminheiros perante o belo.

A Despolarização dos Partidos Políticos

Ao estender esta lógica aos centros nevrálgicos dos partidos políticos, as consequências revelam-se igualmente profundas. Hoje configurados como fábricas de ideologia e de competição agressiva, se estes organismos passarem a fomentar práticas abertas e não apenas doutrinas fechadas, a política poderá recuperar a sua dimensão antropológica primordial: a de serviço ao “Nós”.

Imagine-se uma sede partidária que abra as suas portas a dinâmicas de teatro espontâneo, a serviços de diaconia como nas paróquias, a projetos de ecologia local ou a debates artísticos desprovidos de fins eleitorais. Ao fazê-lo, ela abdica do papel de “ator dominante” para se focar na mensagem e na comunidade. Cria-se, assim, nesses espaços, a prática do exercício cívico como virtude e não já como mera defesa de interesses sectoriais ou de captura do poder.

Esta convivência prática, horizontal e desarmada constitui o único antídoto eficaz contra o desaparecimento do indivíduo na orgânica mecânica do nosso tempo. Ela é a encarnação viva de uma cultura de paz em substituição da cultura de competição.

Mas onde reside, afinal, o círculo vicioso que paralisa as instituições contemporâneas? Estará no medo de perder a identidade ou na incapacidade de gerir a pluralidade? Na verdade, ele emerge da trágica aliança entre o receio da descaracterização, a gestão da “miséria” institucional, a inércia burocrática e a tendência humana para se refugiar em guetos de identificação fácil. Esta equação complexa revela por que razão a transição para uma consciência integral (Eu-Tu-Nós) constitui um desafio hercúleo e plurivalente. Enquanto as direções se limitarem a administrar a miséria, seja a escassez de recursos, a perda de sócios ou a debandada de militantes, a sua visão encolhe. O foco desloca-se, então, da missão e do horizonte do bem comum para a mera sobrevivência orgânica.

A Patologia do Clientelismo Institucional

Este refúgio na rotina não é inócuo; ele germina e perpetua verdadeiros ecossistemas de clientela, cuja dinâmica se revela em três movimentos complementares e devastadores.

O primeiro é o circuito fechado. As paróquias e os partidos políticos, ao enclausurarem-se na sua própria lógica, passam a produzir conteúdos, linguagens e rituais feitos à medida exclusiva dos seus habitués. Toda a sua energia criativa e comunicacional é canalizada para confortar a clientela fiel, assegurando a sua lealdade a qualquer custo. Contudo, esta sintonia fina com o interior tem um preço exorbitante: o alheamento total em relação ao resto do mundo, que deixa de ser interpelado para ser meramente ignorado.

O segundo movimento é o consolo das máscaras. A rotineira clientela, prisioneira deste ciclo, aceita de bom grado a máscara institucional — sejam as exterioridades formais do rito religioso, sejam a cartilha ideológica do partido. Esta adesão não nasce, porém, de uma convicção profunda, mas da necessidade visceral de se agarrar a uma ilusão de pertença e de certeza num mundo cada vez mais fluido e desconcertante. A máscara funciona como um bálsamo que anestesia a angústia da desorientação.

Da conjugação destes dois fatores emerge o terceiro movimento que se expressa no desdém pelo exterior. Instaura-se um fosso intransponível: quem está dentro olha para fora com desdém ou receio, encarando a alteridade como uma ameaça à sua identidade conquistada a ferros; quem está fora, por seu turno, retribui o olhar com indiferença ou repulsa, vendo naquela instituição um clube obsoleto e surdo. Neste jogo de espelhos distorcidos, a cultura da concorrência e o maniqueísmo politico-ideológico vencem uma vez mais, cimentando a paralisia e inviabilizando qualquer ponte para o diálogo autêntico.

Romper o Enredo da Inércia através de infiltração para o Encontro

Dado que o desafio é plurivalente e as instituições padecem do peso esmagador da inércia, a transformação dificilmente emanará de uma decisão de topo das suas direções administradoras. A mudança estrutural exige, assim, uma abordagem de cissura e infiltração antropológica que atue silenciosamente nos interstícios do poder.

A primeira via é a criação de factos consumados, ou a via prática. Em vez de tentar convencer uma direção paroquial ou partidária a rever a sua visão teórica, o caminho passa por propor pequenos projetos concretos e autónomos, um concerto de conteúdo integral, ações de voluntariado, uma encenação espontânea, um círculo de silêncio, que, valendo-se da logística da instituição, falem uma linguagem universal. Quando a clientela habitual e os novos “caminheiros” se misturam na experiência do belo, o medo da perda de identidade dissolve-se pela evidência da alegria do encontro.

Paralelamente, impõe-se a afirmação de uma identidade aberta, no sentido de uma verdadeira trindade operacional. Importa demonstrar na prática que a matriz trinitária não destrói a identidade, pelo contrário, expande-a. A identidade cristã ou humanista não se perde quando se abre ao diálogo, ao fazê-lo, atualiza-se. O 1 só se realiza plenamente quando descobre que é 3, ou seja, que a sua substância mais íntima é a própria relação com o outro.

Compreender o mecanismo do medo institucional é o primeiro passo para construir as pontes que o contornam. Ora, o poder estruturado na nossa contemporaneidade desenvolveu uma imunidade quase perfeita à mudança orgânica vinda da base. O pragmatismo seletivo transformou a própria sociedade numa vasta rede de clientes. Esta lógica mercantil e de manutenção de privilégios não tolera a osmose com o indivíduo livre; prefere a filtragem e a exclusão para garantir que as engrenagens burocráticas e comerciais continuem a rodar sem sobressaltos. Daí a solidariedade cúmplice entre as instituições: todas têm o indivíduo como suporte, mas todas são solidárias em mantê-lo impotente. Uma cultura que apostasse na pessoa desenvolveria uma escola que ensinasse o aluno a pensar, cultivando um espírito simultaneamente crítico e inclusivo; a instituição, porém, prefere formar indivíduos adaptados e dependentes. Por isso, quando surgem pessoas ou grupos que apresentam conceitos críticos diferentes, a sociedade reage catalogando-os como teorias da conspiração e não como teorias alternativas.

Este mesmo padrão dinâmico, que observamos nas organizações políticas e educacionais, revela-se de forma paradigmática no atual sistema literário e cultural. O sistema editorial contemporâneo já não procura a originalidade do âmago do ser, o “conteúdo integral” ou a qualidade científica; prefere o produto padronizado, os canais de comercialização instalados e os autores que alimentam a mentalidade mercantil do entretenimento rápido ou da ideologia da moda, nomeadamente a literatura que fomenta o politicamente correto ditado pelo sistema (Quem vive do sistema não se insurge e quem está fora dele encontra-se na dependência dele). Desta forma, a autêntica criatividade é asfixiada pela burocracia do mercado e por interesses instalados, revelando que a inércia não se circunscreve à esfera política ou religiosa, mas constitui um fenómeno profundamente cultural. Para que as fissuras sejam verdadeiramente eficazes, terão, pois, de atravessar todos estes estratos, infiltrando-se tanto nos códigos do poder como nos bastidores da produção simbólica.

A Urgência de uma Nova Geração de Líderes e Funcionários

Face à rigidez e à impermeabilidade institucionais, a estratégia terá de se deslocar para a raiz biológica e espiritual das próprias organizações. A formação de uma nova geração de líderes e funcionários, religiosos e não religiosos, emerge como a única via capaz de operar a partir do interior do sistema, precisamente por serem eles os futuros herdeiros das chaves logísticas e do poder instituído.

Para que esta geração não seja corrompida pela inércia burocrática e pelo clientelismo logo à nascença, a sua preparação, em seminários, faculdades de letras, escolas de ciência política, centros de gestão cultural e universidades, teria de assentar em três pilares inovadores:

  1. Uma Pedagogia da Plurivalência que eduque os futuros líderes na capacidade de habitar a dúvida e a complexidade, em vez de os treinar para gerir certezas dogmáticas ou cartilhas partidárias.
  2. Uma Hermenêutica da Complementaridade que ensine a ler as fórmulas basilares das civilizações (como a Trindade, a Encarnação…) como gramáticas de paz e de relação Eu-Tu-Nós, libertando-as do espartilho do maniqueísmo institucional.
  3. A Vocação de Facilitadores, não de Actores formando líderes cujo ego se apague para dar lugar à mensagem e ao espaço de ressonância comunitária, que compreendam que a sua missão não é “administrar a miséria” da clientela, mas abrir as portas à vida encarnada.

Esta lógica formativa deve estender-se, com igual acuidade, às instituições de caráter económico e aos seus funcionários. Para garantir um mínimo de justiça e equilíbrio, seria imperativo estabelecer um teto para os ganhos pessoais, canalizando o excedente para fundações culturais e de beneficência pública, princípio que deveria aplicar-se, de igual modo, aos funcionários políticos. Com efeito, as atuais fundações políticas, tal como concebidas, tendem a estabilizar uma cultura de guerra e rivalidade, em vez de fomentarem uma autêntica cultura da paz.

O Enredamento Silencioso das Novas Lideranças

Dotados de uma visão ecuménica e plurivalente, estes novos guias teriam como primeira tarefa prática subverter a rigidez seletiva precisamente através do enredamento de grupos. Clérigos ou dirigentes com autoridade formal, possuiriam a legitimidade para aceder aos recursos e às redes logísticas atualmente fechadas, colocando-os ao serviço de encontros genuínos, da arte com conteúdo integral e de rituais descentralizados que acolham tanto o crente como o laico. Trata-se, naturalmente, de uma autêntica subversão pacífica exercida a partir das chefias.

Uma vez que a fortaleza do poder secular e religioso está blindada contra os cidadãos independentes e os leigos que tentam forçar a entrada, a solução reside em garantir que aqueles que assumem as muralhas já trazem no coração o desejo profundo de as abrir ao mundo. A crença debate-se na cabeça como um produto de mercado; a fé aberta deita raízes no peito e une-nos ao “Movente” sem precisar de explicações.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo ©

(1) A base filosófico-teológica e quântica para essa reconciliação dos opostos já se encontra no chamado mistério da Trindade em  o 1=3 e o 3=1 e no chamado mistério da incarnação em que em Jesus Cristo se mistura em termos de igualdade matéria e espírito servido a sua pessoa  ao mesmo tempo como bússola. A sociedade ocidental relegou essa visão de complementaridade e de inclusão para os conventos e construiu o modelo institucional secular baseado na dinâmica maniqueia, o que levou a sociedade secular a distanciar-se mais ainda dos modelos orientais. Por isso a acentuação da via mística seja um ponto de saída para o problema e um passo em direção de reconciliação com o oriente. O oriente poderia por seu lado dar um passo no sentido de valorização da pessoa em relação à sociedade.

(2) O Ocidente hiper-racionalizou e mecanizou a sociedade (mediante uma hipertrofia de um certo princípio masculino de controlo e segmentação), esquecendo-se da dimensão receptiva, relacional, cíclica e integradora (o princípio feminino), essencial para a ressonância e para o cuidado da vida.

(3) A resposta à crise secular não é o desprezo pelo progresso material ou pela ciência, mas a sua subordinação a um eixo espiritual. A matéria deve ser vista como a manifestação visível do invisível, e a técnica deve servir o âmago do ser, não a sua alienação

(4) Esta perspetiva pedagógica e política transformaria radicalmente as relações de poder. Se a sacralidade (Deus) não estiver apenas isolada num céu distante ou fechada num dogma, mas for reconhecida na própria comunidade humana em movimento (o Povo), o outro deixa de ser um concorrente ou um objeto funcional e passa a ser um co-caminheiro no Mistério (Neste ponto seria necessário acentuar-se o caracter místico do cristianismo se não quisermos tornar-nos em co-cangalheiros da cultura ocidental).

(5) Numa matriz desta natureza, a Verdade deixa de ser uma posse estática de uma cultura, religião ou partido (o que gera o preconceito e o dogmatismo) e passa a ser um horizonte em construção. Os intelectuais e pensadores de hoje teriam a missão de desenhar os programas de formação que equacionem o referido neste ensaio. Seriam programas que não ensinassem certezas ideológicas, mas que educassem os povos para a capacidade de viver com o paradoxo, de escutar o silêncio, de dialogar na diferença e de reconhecer que a nossa linguagem é apenas descritiva e apenas descreve o caminho, enquanto o caminho se faz caminhando juntos. Esta visão ecuménica e integradora seria a vacina contra a barbárie do egoísmo coletivo e individual. É uma utopia necessária para dar consistência às civilizações que ameaçam desmoronar-se sob o peso do seu próprio vazio existencial. O momento histórico em que nos encontramos mereceria relevância axial.

 

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PARÓQUIAS VIVAS

Quando o Sagrado e o Profano se abraçam na Arte, no Desporto e na Comunidade

Vivemos um paradoxo inquietante porque nunca a humanidade esteve tão sedenta de transcendência e, no entanto, nunca as estruturas religiosas tradicionais pareceram tão distantes do pulsar da vida quotidiana. Esta distância, particularmente sentida pelas gerações mais jovens, não decorre de uma rejeição do Mistério, mas, creio, de uma insatisfação crescente com as circunstâncias onde lhes oferecemos esse Mistério. Os jovens não suportam rituais vazios, palavras gastas (que já não interiorizaram nem conhecem devido ao apagamento de palavras em via na sociedade) e estruturas que privilegiam o poder hierárquico e uma tradição tornada formal em detrimento da autenticidade relacional. Urge devolver à paróquia o ADN do “Protótipo JC”, esse Jesus humano e divino que caminhava na poeira dos caminhos, temos de ousar misturar o sagrado e o profano, a liturgia e a vida, a arte e a ascese, sem medo de que o templo se confunda com a praça. O templo tem espaços para a realização mística ritual sacramental e espaços onde o sagrado e o profano se celebrem em inclusão. (Compreende-se o receio dos mais tradicionalistas, face à hostilidade contra o cristianismo e ao fechamento ideológico das organizações. Contudo, o cristão possui o fogo pentecostal e um legado que perdura. O pároco e a comunidade não se devem atemorizar porque a mensagem é de humanidade e confiança e a paróquia é a casa aberta a todos os que, de boa vontade e espírito aberto, procuram a verdade).

  1. Da Pirâmide à Rede (Descentralização estrutural

A primeira grande transformação que se impõe é de cariz estrutural e espiritual. Durante séculos, a paróquia funcionou como uma pirâmide: no topo, o clero; na base, os fiéis expectantes. Esse modelo, que um dia cumpriu a sua função catequética e unificadora, tornou-se, em grande medida, infrutífera para um mundo que respira horizontalidade e conectividade. A descentralização de que falamos não é uma capitulação à anarquia, mas um regresso às origens: a Igreja primitiva era uma teia de comunidades interligadas, onde cada membro contribuía com o seu carisma para o edifício comum.

Imagine-se que, em vez de momentos de culto exclusivamente centrados no altar, as paróquias se transformassem também em laboratórios de comunhão, espaços onde o regionalismo, as culturas locais e as vozes dos leigos fossem verdadeiramente escutadas e integradas. Tal como a Igreja católica, na sua sábia tradição, sempre contemplou o momento democrático e a valorização das dimensões regionais, também nós, ao nível da paróquia, podemos inspirar-nos nesse espírito sinodal. Não se trata de abolir a autoridade, mas de a redimensionar como serviço. Trata-se de criar (paralelamente) redes descentralizadas onde as decisões surjam a partir das necessidades e dos dons reais das comunidades e não apenas dos decretos vindos de cima. O jovem de hoje não quer ser um “espectador” passivo na missa; ele quer ser protagonista da sua fé, mesmo que isso implique uma “sujeira” criativa e uma certa desordem aparente. (Neste sentido ajudaria o espírito que se encontra no sistema preventivo salesiano (1).

  1. A Arte e o Teatro Improvisado como Liturgia de Cura e Catarse (redenção)

Se a estrutura se descentraliza, os conteúdos e as formas de expressão também devem sofrer uma autêntica revolução pedagógica. Urge focar a ação cultural e religiosa nas artes, no cinema, no teatro espontâneo, nos concertos, na pintura ao vivo, mas com uma condição fundamental: que a mensagem esteja em primeiro plano, e não o intérprete! O palco não pode ser um altar para a vaidade do artista, mas um espaço de kenosis, de esvaziamento do ego. Quando o actor ou o músico se apaga em favor da obra, a arte deixa de ser mero entretenimento para se tornar um canal de ressonância trinitária, uma vibração onde o divino e o humano se tocam.

Ousemos imaginar, nas próprias igrejas e sacristias, sessões de teatro de improvisação onde se pudesse desenvolver uma verdadeira catarse de carácter psicológica, espiritual e física. Nesses círculos improvisados, o indivíduo e o grupo, em interação, expressariam o divino e o humano, a amargura e a alegria de viver, numa autêntica expressão litúrgica de cura e redenção. Longe de ser um acto profano, essa improvisação constituir-se-ia como um espaço de vulnerabilidade sagrada. O ensaio, a falha, o gesto inesperado, tudo isso se tornaria matéria litúrgica, porque aí, mais do que em qualquer rito perfeitamente coreografado, se revela o humano tal como ele é: imperfeito, em busca, aberto ao sopro do Espírito também na descoberta dos próprios dons. O “palco” da igreja deixaria de ser um lugar de distância entre clero e fiéis para se tornar um círculo onde todos são, ao mesmo tempo, actores e espetadores da Graça. O que está em jogo não é a qualidade estética da representação, mas a verdade da encarnação, o Verbo que se faz carne, de novo, em cada gesto partilhado.

Ao partirem da aceitação genuína do outro, estes jogos teatrais em que os participantes humanizam cenas bíblicas, usam dilemas psicológicos e vivências existenciais constroem enredos de resolução transformadora. O resultado é um espaço seguro onde sentimentos e recalcamentos se transformam, dando lugar a uma poderosa atmosfera de cura e libertação. (Este “jogos” teatrais também se poderiam integrar na catequese tradicional de maneira a torna-la mais vivida). Naturalmente poderiam para os mais pequenos surgir iniciativas de pintura espontânea e temática, conforme propensões e gostos criarem-se grupos de fotografia, do bom humor, teams de entrevistadores a a pessoas na paróquia com temas específicos em que as elaborações de narrativas seriam expostas na paróquia, etc… (Porque não haver um team que entrevista retornados, imigrantes, doentes em hospital, hospícios e até formas de vida que para alguns pareças esquisitas?…

  1. O Desporto e o Corpo como Liturgia Encarnada

Afastemo-nos, contudo, do espaço físico da igreja por um instante. Quantas vezes relegamos o desporto para o domínio do “mundano” ou do “distração”, quando ele é, potencialmente, um dos mais poderosos veículos de santidade e comunhão? No desporto, o corpo humano é elevado à sua máxima potência: disciplina, sacrifício, trabalho de equipa, celebração da vitória e acolhimento da derrota. O que é a Eucaristia senão um banquete onde nos alimentamos do Corpo de Cristo? E o que é o desporto senão a celebração do corpo que Deus nos deu, tornado templo do Espírito Santo, precisando para tal de ser consciencializado?

Tal como no escutismo também em atividades desportivas há espaço para o desenvolvimento de dons e criatividade.  O corpo atlético é templo do Espírito. O desporto, quando vivido sem a obsessão da fama e da competitividade desumana, é uma liturgia encarnada. Ele exige precisamente aquela kenosis de que falávamos: o atleta que se apaga em prol da equipa; o corredor que se entrega à fadiga para ultrapassar os seus limites; o adversário que, no final da partida, se abraça ao seu oponente num gesto de respeito mútuo. As paróquias e grupos juvenis deveriam abraçar o desporto como espaço de missão, criando torneios, campos de férias e encontros desportivos onde a competição seja um meio de crescimento pessoal e não de exclusão. Não são rituais de sacristia, mas sim momentos estruturados de paragem, escuta, esforço partilhado e autenticidade, que os jovens possam levar consigo para o seu quotidiano.

  1. A Espiritualidade Despojada: Sem Cheiro a Velas Nem Vénias ao Zeitgeist

Para que esta revolução aconteça, é imperativo que a espiritualidade que a acompanha seja despojada de dois pesos mortos: o “cheiro a velas” (o pieguismo devocional, os rituais vazios e a parafernália que substitui o essencial (2) e as “vénias ao Zeitgeist” (o servilismo acrítico às modas políticas, intelectuais ou tecnológicas do momento). Uma espiritualidade autenticamente evangélica não se pode esgotar na encenação piedosa nem no activismo superficial.

Esta espiritualidade exige uma ascese de atenção: estar no mundo sem lhe prestar vassalagem, habitar a tradição sem a mumificar, e acolher o novo sem se render ao fetiche da novidade. É uma espiritualidade de “cura humana integral”, não alicerçada em definições sobretudo de pertença, mas num carácter simultaneamente corporal e espiritual. É a certeza de que o encontro com Deus não acontece apenas nos momentos de recolhimento individual, mas também no embate dos corpos no jogo de futebol, no silêncio que se segue a uma peça de teatro intensa, na partilha da refeição após um ensaio. A cura integral de que a nossa civilização necessita para não sucumbir à mecanização existencial passa pela redescoberta do “nós” em redes descentralizadas que gerem experiências reais de comunhão.

Conclusão: O Protótipo JC em Cada Gesto

O desafio que lanço a cada pároco, catequista e animador juvenil é este: ousem. Ousem transformar a sacristia numa sala de ensaios. Ousem abençoar os campos de desporto como se abençoam os altares. Ousem misturar o sagrado e o profano, porque, para Jesus, o que era “profano” (a mesa do publicano, o toque no leproso, a conversa com a samaritana) tornou-se o lugar privilegiado da Revelação. O “protótipo JC” não se presencializa em templos imaculados e silenciosos, mas na poeira da estrada, no suor do atleta, na lágrima do actor e no abraço do irmão. A Igreja precisa de menos guardiães de museu e mais jardineiros do humano. As famílias são também lugares privilegiados, que se podem tornar em verdadeiros alfobres de espiritualidade. O momento axial em que nos encontramos pede a visão de um pragmatismo profético. Não tenhamos medo de experimentar, de falhar e de recomeçar. A juventude não espera de nós respostas perfeitas, o que espera é autenticidade. E a autenticidade é, afinal, o único caminho para a verdadeira Redenção.

O cristianismo realizado e a realizar-se em Jesus Cristo encerra nos seus mistérios, que são verdadeira fórmulas da realidade, toda a filosofia e mística, desde a Trindade e a Encarnação-Ressurreição até ao «No princípio era a Palavra», o Logos de João e ao «Eu sou o que sou, sou o tornar-se» da sarça ardente no monte Horeb. Tudo isto envolve o peregrinar humano e a própria caminhada do universo.

António da Cunha Duarte Justo

 

António da Cunha Duarte Justo

(1) Sistema preventivo na educação dos jovens: https://antonio-justo.eu/?p=1305

(2) . Deve notar-se que o pieguismo, tal como as especificidades de outros grupos, merece espaço na paróquia, já que o sentido é servir as necessidades individuais em processo. Numa sociedade que, em reação à atual tendência para despersonalizar e desautorizar o indivíduo, se terá de orientar cada vez mais para a formação de agrupamentos, a solução passa por as pessoas se organizarem em grupos para poderem ter visibilidade,  voz e espaço na sociedade.

 

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