O CORDEIRO DE DEUS

O Cordeiro desceu às imperfeições,
às fendas da matéria e da memória,
e teceu, de fragmentos e ilusões,
o fio luminoso de outra história.

Não com lã intacta, mas com o quebrado,
cada nó, cada falha, cada ferida,
tece o que nunca foi, nem foi sonhado:
a ponte sobre a noite da descida.

E quando o fio rompe, no mesmo instante
o Cordeiro reúne os cacos dispersos;
a luz não vem de fora, vem do antes
que se fez frágil para abrir universos.

Assim o fio desce, sobe, e ensina
que a tecelagem é comunhão de estrada:
quem tece com o outro não termina,
porque a mão que dá nó fica entrelaçada.

António da Cunha Duarte Justo

Social:
Pin Share

A LUZ QUE ROMPE O ESCURO

No peso do silêncio, irrompe a luz,
nem suave, nem tímida, nem rogada,
espada que desfaz o véu da noite e o reduz
ao clarão da aurora inaugurada.

O Cordeiro desceu às imperfeições,
às fendas da matéria e da memória,
e teceu de fragmentos e ilusões
o fio luminoso de outra história.

As mulheres andavam sob o pranto,
e ao buscar entre as pedras o sepulcro,
encontraram o vazio, o aberto espanto,
o silêncio em flor, não o lúgubre.

O que procuravam não estava lá.
E nesse nada ergueu-se o Tudo eterno,
o Aleluia que dorme no amanhã
despertou como pássaro do inverno.

A cruz, pelo que consta, é peso que cansa,
Mas o crente conhece o seu segredo,
Ela é sorriso oferecido à ofensa
é braços abertos onde havia o medo.

É raio de sol em feridas estranhas,
é caminho onde os muros se desfazem,
são raízes que florescem nas entranhas,
do solo onde as dores se refazem.

Cruz minha não carregues o peso dos avós,
não herdes a culpa que não semeaste
és livre, foste livre, és entre nós
o ser que no Amor libertaste.

Do teu gesto, apenas corresponsável,
colhes teu fruto, limpas tua fonte.
O passado já não pesa, é uma aresta
que o vento da Páscoa leva ao horizonte.

E a Boa Nova, Evangelho, ressoa
para o crente que inclina a fronte à fé,
e para o peregrino que não ouve
credo algum, mas sente o que os olhos veem:

que a vida dada por sepultada
volta como flor depois da neve,
que a esperança não morre asfixiada,
que o Amor, quando é Amor, jamais se deve.

Não estamos sozinhos nesta viagem.
O anseio mais fundo do peito humano
encontrou no vazio a sua imagem,
o Homem novo, protótipo soberano.

Cultura da paz, aurora de outra era,
onde a bondade é lei e a graça é norma,
Jesus Cristo, a grande primavera
é o talho do Homem na sua melhor forma.

A todo o humano de boa vontade,
cristão ou não, crente ou caminhante,
que esta luz te encontre com suavidade
e faça de ti alguém sempre ressurgente.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

Social:
Pin Share

BOAS FESTAS E UMA FELIZ PÁSCOA

A Páscoa é Acontecimento e uma Mensagem às Pessoas de Boa Vontade

A luz da Páscoa não teme as trevas porque entra nelas e transforma-as em claridade.
O Cordeiro de Deus toma sobre si as imperfeições da humanidade e da própria natureza, e convida-nos à reconciliação com tudo e com todos na aceitação humilde do real, como renascidos no espírito de Deus.

Reconhecer o espírito de Jesus Cristo é transformarmo-nos e transformarmos o mundo.
Ele rompe os laços da morte e através do Evangelho, da  boa nova, anuncia que a vida plena ressurgiu num tempo novo, propício a fundar uma nova cultura,  a cultura da paz e do Homem novo, cujo protótipo é Jesus Cristo.

É no silêncio mais pesado e nos lugares mais desanimados que irrompe a luz.
Depois da noite tenebrosa do caminho do Calvário, as mulheres que procuravam o corpo encontraram o vazio e esse vazio deu lugar àquela manhã de Aleluia, onde a amizade e a bondade renascem. É chegada a hora do tempo de reconciliação.
O que procuravam já não estava lá e, a partir desse instante, a flor da esperança espalhou o seu aroma: Não estamos sozinhos. O anseio mais profundo do coração humano encontrou a sua realização.

A alegria cristã reconhece que, no sofrimento, o Amor venceu a morte. A cruz pode tornar-se oportunidade, porque é o tempo de entremeio e tornar-se caminho. É sorriso que se oferece a quem nos fere e deste modo o raio de sol que cura feridas antigas, como o sol pode tirar as manchas na roupa posta a corar. A alegria cristã é mão estendida que abre veredas onde antes havia muros opacos.

A cruz de Cristo Salvador não é exagero: é a certeza de que o passado já não pesa, mesmo aquela cruz que pudéssemos ter recebido por herança.
O crente sabe que é apenas corresponsável pelos seus próprios actos  e não precisa de prestar contas a ninguém pelo que os antepassados fizeram. Somos seres libertos, libertados e libertadores, porque a própria cruz, no espírito de Cristo  assumida, pode tornar-se corredentora.

A Páscoa, como outras celebrações, fala aos cristãos directamente; mas fala também aos não cristãos, por analogias, imagens e parábolas válidas para toda a humanidade.

Boas festas a todos  e que a Luz ressuscitada habite em cada coração de boa vontade.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

Social:
Pin Share

LAVA-PÉS NA ÚLTIMA SEIA NA NOITE DE QUINTAFEIRA EM JERUSALÉM

Jesus ensina que o verdadeiro senhor se faz servo

Na noite em que se consuma o mistério da sua entrega, Jesus de Nazaré realiza um gesto inaudito: levanta-se da mesa, tira o manto, cinge-se com uma toalha e começa a lavar os pés aos discípulos. O verdadeiro Senhor torna-Se servo dos outros. Assistir e ajudar: eis o centro da renovação, que depende apenas da boa vontade de cada coração.

Pedro resiste, por humildade mal compreendida. Mas Jesus ensina: amar é abraçar, é inclinar-se sobre o outro, desde que o outro o permita. Com o exemplo, o Mestre resume a sua máxima: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.” Nesse gesto, Ele resume todo o caminho do humano e da humanidade.

N’Ele se unem o céu e a terra. A cruz, que se avizinha, não é um palco de derrota: é a árvore da vida, assim como a árvore do paraíso terreno foi a árvore do conhecimento. No humano, encontramos ao mesmo tempo o Cristo abandonado e o Cristo ressuscitado. E n’Ele está presente o Deus que não abandona, mesmo quando as circunstâncias parecem gritar o contrário.

À mesa, porém, acompanha-O também Judas,  mais interessado na realização de ideologias políticas do que na comunhão do amor. Judas torna-se símbolo daqueles que, em nome de uma pretensa verdade, procuram desmontar o que existe apenas para se instalarem nos andores da idolatria egocentrista.

Jesus veio superar os dualismos e os maniqueísmos que, ainda hoje, persistem nos seguidores de Judas: todos os que trabalham para outros senhores, movidos por um coração tóxico que nunca é construtivo. O lava-pés permanece, pois, como antídoto e memória: a grandeza está em servir, não em dominar.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

Social:
Pin Share

A VIVER COM O FADO

O Companheiro inseparável de Sombra e Luz que o Destino nos deu

Se olharmos para a natureza com olhos atentos, descobrimos que nela tudo tende para a luz. Uma semente não germina antes de a terra estar pronta. Um rio não rompe a rocha pela força brusca, mas pela persistência silenciosa de um fluxo que encontra o seu caminho. O inverno não se apressa para que a primavera chegue mais cedo. Cada estação carrega o seu tempo, e o que não amadureceu no outono permanece como folha seca, não como falha, mas como matéria que a nova estação transformará em adubo.

Há, porém, plantas e pessoas, que foram geradas nos primeiros anos de vida em lugares sombrios. O seu desenvolvimento parece ficar condicionado à sombra originária durante toda a existência, por muito sol exterior que tardiamente apareça. Até parece que cada um de nós paga tributo pelo agir dos artífices que nos formaram.  Isso não é culpa, não é desculpa, nem é dívida, é apenas a circunstância. Tentar compreender a diferença entre culpa e circunstância é já o primeiro passo de um caminho mais consciente.

Na vida, há padrões de sofrimento que parecem querer acompanhar-nos sob roupagens diferentes. O mesmo conflito relacional repete-se em pessoas distintas, em contextos distintos, com uma persistência que desconcerta. Numa autoanálise purgativa, surge inevitavelmente a pergunta: pode este bloqueio existencial ser superado? Pode o fado ser vencido?

Carl Jung dizia que aquilo que não é conscientizado tende a ser vivido como destino. Outros psicólogos acrescentam que enquanto não compreendermos o chamamento contido naquela situação, enquanto não lhe dermos um sentido que nos transforme, a vida repeti-lo-á, com a paciência de quem espera que um filho aprenda uma lição não pela punição, mas pela maturação. O chamamento não se impõe, apenas aguarda. Tem uma paciência que ultrapassa largamente a nossa.

É a mesma pergunta que ressoa desde os tempos primordiais: Adão, onde estás? Não um julgamento, mas um convite a situar-se, à relação, à presença, ao enraizamento. Um chamamento à inteireza que, como na natureza, se manifesta através da inter-relação de tudo com todos.

O sintoma, seja ele uma dificuldade externa ou um sofrimento interno, não é um inimigo a eliminar, mas um mensageiro a interrogar. O incómodo que se repete é muitas vezes o sinal da nossa própria surdez, da nossa pressa, do ainda não termos ouvido o chamamento, o que há muito nos chama. As situações que persistem meses ou anos são, com frequência, aquelas que contêm o material do nosso próprio amadurecimento. A pergunta produtiva não é “de quem é a culpa?”, mas sim: O que é que esta situação persistente me está a pedir que eu veja em mim mesmo? Que parte de mim ainda não escutei? Que crescimento está à espera?

Seria erro culpar-se ou culpar alguém pelo sofrimento que se traz. A sombra que nos acompanha vem do facto de sermos seres situados num mundo feito de situações interligadas. Por vezes, ela tem origem numa ferida antiga, o mau olhado em criança por quem, em vez de amar, criticou e deste modo ensinou a pessoa a fugir de si mesma, a não se sentir em casa no seu próprio ser, porque quando dela precisava, outros a invadiram. Esta fuga de si, disfarçada de combate ao exterior, é o que tantos escritos políticos e críticos escondem: o combate às próprias sombras projetadas lá fora, onde é mais fácil reconhecê-las do que acolhê-las dentro.

No fado português encontra-se algo desta tensão: no queixume lamenta-se um chamamento e a dor de ainda o não ter integrado. Mas a dificuldade do fado e de qualquer forma de lamentação que se fecha sobre si mesma é que não distingue entre uma dor repetida porque não integrada, uma estrutura externa que precisa de ser abandonada, ou uma ferida que precisa de cura antes de poder ser compreendida. As mágoas que se levam ao lavadouro público, aos amigos que confirmam a queixa ou aos autores que tudo justificam, acabam por ser apenas espelhos que devolvem a mesma imagem sem a transformar. Confirmam o fado em vez de apontar para o chamamento.

A natureza oferece-nos o critério: quando estamos verdadeiramente a escutar o chamamento, há uma sensação de alinhamento, mesmo que dolorosa. Quando estamos apenas a repetir o mesmo padrão sem crescimento, há exaustão sem fruto. As flores que a árvore produz, se se mantiverem na sombra das negatividades, aguardam o tempo propício para dar fruto. A árvore não acelera o seu crescimento porque o agricultor tem pressa. Há uma altura para plantar, uma altura para lavrar, uma altura para deixar o solo em pousio.

Num desenvolvimento humano orientado para a paz e nem toda a repetição é chamamento, importa dizê-lo com clareza, a autorreflexão não é um exercício de autocastigo, mas de escuta. Na tradição cristã, este apelo vai além da relação dialética eu-tu, porque nos convida a entrar na lógica relacional do nós, da compaixão e da sintonia, onde já não há castigo nem autocastigo, mas a vivência de um mundo inteiro a sofrer em nós e do sofrimento da germinação da flor a emergir o fruto, a ressurreição.

Os problemas não são fracassos. São chamamentos a ver o que ainda temos para compreender em nós, para que os outros deixem de ser superfícies de projeção das nossas sombras.

Talvez a tenacidade exasperante dos nossos bloqueios seja apenas o inverno que insiste até que finalmente preparemos a terra para a primavera. Uma primavera que não podemos apressar, mas que também não podemos eternamente adiar.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo Social
©Pegadas do Tempo

Social:
Pin Share