A REDESCOBERTA DE CABO VERDE PELO FUTEBOL

A história tem destas coisas inteligentes que é nunca se deixar encerrar numa só narrativa, por vezes confinada pelos grandes. Para ser verdadeiramente fiel à cronologia e a uma consciência sempre reavivada, a História serve-se, também da FIFA para mostrar o mundo na perspectiva de um outro jogo. Foi assim com a Islândia, redescoberta no Europeu de 2016 e no Mundial de 2018, e depois compensada com uma vaga de turismo que transformou o país. Agora, chegou a hora de Cabo Verde.

No dia 13 de outubro de 2025, os “Tubarões Azuis” escreveram a página mais bonita da sua história desportiva. Ao vencer o Essuatíni por 3-0, no Estádio Nacional da Cidade da Praia, a seleção cabo-verdiana garantiu, pela primeira vez, um lugar no Campeonato do Mundo da FIFA. Com golos de Livramento, Semedo e Stopira, o país insular liderou o Grupo D das eliminatórias africanas, superando a favorita Camarões. Uma conquista ainda mais notável se considerarmos que Cabo Verde, com os seus cerca de 525 mil habitantes, se torna, depois da Islândia, o país menos populoso de sempre a marcar presença num Mundial. O governo local declarou até tolerância de ponto para que todo o país pudesse apoiar os seus heróis.

Este feito desportivo ecoa, de forma poética, a própria história do arquipélago. Cabo Verde foi descoberto em 1460 por Diogo Gomes e António da Noli, ao serviço do Infante D. Henrique. Quando chegaram, as ilhas estavam habitadas apenas por aves e vegetação selvagem, sem qualquer indício de presença humana anterior. A primeira ilha a ser descoberta foi a de Santiago, e em 1462 teve início o povoamento, com a fundação da Ribeira Grande, hoje Cidade Velha, a primeira cidade europeia nos trópicos. Durante séculos, o arquipélago foi um ponto estratégico nas rotas do Atlântico, mas permaneceu, durante muito tempo, uma realidade distante no imaginário global.

O paralelismo com a Islândia é inevitável. Tal como os islandeses, os cabo-verdianos provaram que a grandeza não se mede pelo tamanho do território ou pela população, mas pela força da vontade e pela união de um povo. A Islândia foi redescoberta no campeonato das nações e depois foi recompensada com muito turismo; o mesmo haverá de contar-se para Cabo Verde.

Agora que o futebol recolocou Cabo Verde no mapa do mundo, é tempo de olhar para os seus filhos que, tal como os navegadores de outrora, partiram à procura de um futuro melhor. A comunidade cabo-verdiana em Portugal é uma das mais expressivas e antigas, com cerca de 48 mil residentes legais só com nacionalidade cabo-verdiana, um número que ultrapassa largamente os 100 mil se contarmos os naturalizados e descendentes. A impressão que muitos têm dos cabo-verdianos em Portugal é que são pessoas ordeiras e religiosas, trabalhando elas como empregadas domésticas e nos lares de idosos, e eles nas obras. No entanto, a realidade que muitos enfrentam é dura pois as dificuldades no acesso à habitação, exploração laboral e a incerteza de viver em situação irregular.

Cabo Verde, no que toca à emigração, manifesta grandes semelhanças com Portugal. Como país também de imigrantes, que acolhe cada vez mais cidadãos da África Ocidental, Europa e Ásia, Portugal teria, em consciência, o dever de beneficiar e privilegiar os migrantes das antigas colónias/províncias ultramarinas, promovendo mais construções que lhes facilite o viver. Afinal, a língua e a história comum são pontes que não podem ser ignoradas e, a partir da multipolaridade da mesma língua, até poderia ser o incentivo para se formar dos países lusófonos um novo polo num mundo geopolítico que se está a orquestrar.

Portugal tem de mostrar inteligência nas prioridades que coloca, mesmo em relação à imigração e não se deixar levar por políticas meramente económicas de Bruxelas. Naturalmente, a acentuação da prioridade da imigração para migrantes que provenham de países lusófonos seria um passo lógico e humano. Parabéns aos cabo-verdianos que mostram o progresso em que se encontram empenhados, também no futebol. Que a redescoberta de Cabo Verde pelo desporto seja o prenúncio de uma redescoberta mais profunda, a descoberta de um povo que, tal como a sua seleção, merece um lugar de destaque no palco do mundo.

 

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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O EMPATE DE CABO VERDE/ESPANHA QUE ABALOU ATLANTA

A Alma feminina no Coração do Futebol masculino e o Aviso a Portugal a reflectir a Lusofonia

Por António da Cunha Duarte Justo

O cronómetro do Mundial de Atlanta parecia ter engolido a lógica. Quando o árbitro apitou, o painel electrónico gritava um zero a zero que não era apenas um resultado, mas um terramoto sísmico no Olimpo do futebol. A Espanha, colosso de títulos e dona de uma posse de bola hipnótica, saiu de campo engolida pelo silêncio; do outro lado, Cabo Verde, essa nação de 500 mil almas e 64.º lugar no ranking FIFA, celebrava o maior sucesso da sua história desportiva.

Este empate não pode ser reduzido a uma anedota estatística, pelo significado que tem. Ele é, na realidade, um poema épico, um manifesto e, acima de tudo, um aviso cerrado a Portugal.

Enquanto as grandes nações, intoxicadas pelo “direito divino” de vencer, se transformam em vítimas da sua própria megalomania falhada, consumindo treinadores e atirando culpas ao vento, as pequenas nações ensinam a lição mais pura do desporto e Portugal é mestre nisto. O treinador cabo-verdiano, Pedro Leitão Brito, resumiu essa filosofia imortal antes do apito inicial ao dizer: «Não viemos aqui apenas para participar, viemos aqui para nos medirmos». E mediram-se, mostrando criatividade, ritmo e uma alma indomável que suplantara o medo. Cabo Verde não jogou com a obsessão do resultado; jogou com a arte de existir (aquele desejo natural do arbusto de também ele poder ser bafejado pelos raios do sol que brilha nas árvores grandes.

Este é o retrato do “Golias” moderno: Alemanha e Espanha, presas na armadura do favoritismo, esquecem-se que o futebol é feito de pés, mas vive de corações. Se o triunfo fácil corrompe, a luta pode dignificar. Um Cabo Verde feliz é um Cabo Verde unido.

A Oração de Curação e o Princípio feminino do Desporto

A noite de Atlanta ainda nos trouxe uma outra lição, ainda mais profunda, nos arredores do campo onde a Alemanha vencia Curação com soberania (1-7). Para os olhos do mundo, uma goleada, mas para a memória do coração e para os olhos do mundo foi uma pequena rebelião. Os jogadores de Curação perderam no marcador, mas venceram na eternidade.

No seu jogo aconteceu o sublime. Após o apito final, o alemão Felix Nmecha, autor do primeiro golo germânico na competição, não se dirigiu ao túnel para celebrar. Em vez disso, reuniu-se com os adversários de Curação, e junto com alguns, ergueram os braços e rezaram juntos. Ao fazê-lo, Nmecha proferiu palavras que deveriam ser inscrevidas nos portões de cada estádio do mundo: «No jogo somos adversários e, depois, todos cristãos e irmãos. Queremos futebol com visão!»

Eis onde o texto pretende chegar: Felix Nmecha, naquele gesto, não praticou apenas desporto masculino, a força, a penetração, a estratégia bélica do ataque e defesa. Ele juntou o princípio masculino da luta e da competição ao princípio feminino que habita a alma do jogo: a comunhão, a empatia, a religação espiritual e a memória afetiva. A mistura ajuda a vida e, sem dúvida, o bom viver.

E isto, até porque, o futebol, tal como a vida, é um grande teatro. Antes de a peça começar, os actores cruzam-se nos bastidores; carregam consigo a alma do povo, e essa alma é profundamente feminina. Ela é o útero onde germina a criatividade, a intuição que antecipa o passe, a ternura que transforma o rival em irmão. Quando o corpo (masculino) e o espírito (feminino) se alinham, as forças multiplicam-se. Os jogadores de Cabo Verde e Curação não corriam apenas com músculos; corriam com o sentimento profundo das suas diásporas, espalhadas pelo mundo.

O Apelo à Lusofonia: Uma Matriz masculino-feminina

E Portugal com os estados lusófonos não podem perder-se na encruzilhada histórica. Só juntos poderão tornar-se num polo relevante no xadrez geopolítico  multipolar a desenhar-se.

Cabo Verde não empatou com a Espanha por acaso. Foi um sinal dos tempos, um espelho levantado à antiga metrópole. Portugal tem vivido encostado ao “Mamon” da União Europeia, de olhos postos na tecnocracia, na burocracia e no euro, enquanto os seus irmãos lusófonos navegam desgarrados no Atlântico e no Índico, e nós nos esquecemos da nossa missão histórica comum.

A Lusofonia não pode ser apenas uma linha geográfica ou um passado comum. Deve ser uma matriz social nova, onde o espírito masculino e o espírito feminino se fundem na ânsia de formar uma nação de corações unidos. É tempo de Portugal olhar para Cabo Verde e ver não um parceiro ao lado, mas um parceiro de alma e com a mesma alma. É tempo de perceber que, tal como no futebol, o talento brota quando os olhos da sociedade se viram para os seus talentos, independentemente do tamanho do país.

Que o empate em Atlanta sirva de epifania e que a oração ecuménica de Nmecha sirva de rito de passagem. Precisamos de um futebol com visão, mas também de uma política com alma. Abandonemos a megalomania estéril das grandes potências e abracemos a riqueza da pequenez unida. Corpo e alma, masculino e feminino, Portugal e a sua diáspora, Portugal e os países seus irmãos, todos unidos no mesmo ritmo crioulo.

E viva a LUSOFONIA! Que ela seja a nação de afetos conectados na mesma língua, que transcende os resultados e onde cada empate é uma vitória do espírito humano.

Pegadas do Tempo

 

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NA BRUMA DA ALVORADA LUSÓFONA

Trago no peito muitas pátrias,
e cada uma chora um dialecto.
Mas a língua que as reúne
é a humidade amorosa do nevoeiro.

E quando volto à mesmidade
depois da circunstância me ter sido inteira,
sinto aquela névoa portuguesa
que impregna a realidade de saliva e de poeira.

Nesse nevoeiro, as casas perdem bicos,
as ruas dissolvem-se em lembrança.
E eu entendo que não sou só aquilo que decido,
mas também o que a distância me alcança.

Não sou só o carácter claro,
não sou só o jeito poético de ser.
Sou o “entre” a linha que não vês
e que me ensina a não me esquecer.

Eis o que resiste ao esquecimento:
não um nome, não uma data,
mas esta humidade de madrugada
onde muitas almas são uma só estrada.

Neste mar sem nome que a todos nomeia,
do Brasil a Angola, Moçambique a Portugal,
no espelho da bruma, cada um se rodeia
a ser plural, mas sendo o mesmo afinal.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

5 de Maio 2012, dia da Lusofonia

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MOINHOS DO MAL

Eles atearam a discórdia na praça,
fizeram do verbo uma lança e uma couraça.
“De que lado estás?”, grita o vento anónimo,
e o homem esquece que o bem é unânime.

Há moinhos que moem a noite e o dia,
mas não fazem farinha de melodia;
moem o medo, moem a cor emprestada,
e devolvem ao povo uma alma fechada.

Não tragas água, companheiro cego,
para a roda que gira no mesmo sítio.
O ódio que atiras no rosto do amigo
é o mesmo que guardas no teu abrigo.

Racismo não é branco, nem preto, nem verme:
é o espelho partido onde o tolo se afirma.
Olha para dentro, não aches que é tarde,
e tira o carimbo que a nuvem te guarda.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

(Num dia de insónias depois de um plenário do
Conselho de Estrangeiros, 1998)

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HUMANISMO SEM TRINCHEIRAS

Puseram-te um selo na testa,
disseram: “Tu és o que arde”.
E tu, com a mão direita em festa,
cuspiste na outra face da tarde.

Mas o óleo que escorre da língua
não apaga o fogo interior.
Cada trincheira é uma míngua
que prende o mais sábio ao pior.

Não há cruzada sem cruz,
nem herói sem sombra no chão.
Despe a armadura de luz,
reconhece o teu próprio vulcão.

Pois o bem e o mal são gémeos
no ventre de cada existir.
E ser tolerante é não ter medo
de no outro o mesmo sentir.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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