A quinta-feira que transcende o calendário
Há uma festa que a terra não ousaria inventar sozinha. É a Festa do Corpo de Deus. Nela, o Deus de Jesus Cristo, que os sábios dizem incriado e une Céu e Terra, revela-se de modo inesperado: tem corpo. Não um corpo cativo da matéria, mas a matéria redimida de ser apenas matéria. Ele é o alfa e o ómega do universo, o princípio onde tudo começa e o fim para onde tudo caminha, mas no meio do tempo faz-se pão.
Neste dia, as procissões deslizam pelas estradas do mundo como veias abertas de um corpo imenso. O povo caminha e cada passo é uma peregrinação silenciosa: as pessoas são peregrinos no seu próprio corpo, descobrindo que a carne não é prisão, mas véu luminoso. Há festa. Há cântico. Há pó nas sandálias e incenso no ar. E a rua, que tantos julgam território do poder, do comércio, da indiferença, torna-se templo sem muros.
Eis o sentido escondido, quase herético na sua simplicidade: a fé não se recolhe nas sacristias. Ela sai à rua e ocupa o que é de todos. Mostra que o sagrado não pede licença aos donos do mundo. A rua pertence ao corpo que ora, ao passo que louva, à terra que beija a hóstia que passa.
Corpus Christi é a festa da transubstanciação. Mas cuidado: não apenas do pão. O milagre que ali se anuncia é maior: toda a matéria é capaz de Deus. O vinho, o trigo, a água, o barro, a carne ferida e a alegria súbita, tudo pode tornar-se presença. A transubstanciação é um sinal e um mistério que envolve a vida inteira. É o céu que desce à terra sem a anular. É o espírito que abraça a matéria sem a negar. É a unidade entre o que vemos e o que esperamos, entre o que tocamos e o que nos toca para sempre.
Assim, o Corpo de Cristo não é uma ideia. É uma realidade que incorpora céu e terra, espírito e matéria. E quem caminha na procissão, mesmo sem saber, ensaia o gesto universal: a fraternidade que ainda não aprendemos, a união que o mundo despedaçou, o pão que será sempre partilhado, à maneira do gesto de Jesus na memorável quinta feira no jardim das oliveiras!
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo