382 MILHÕES DE EUROS POR ANO

O preço (oculto) da influência sobre os nossos políticos na União Europeia

Todos pagamos, nas contas do supermercado e na factura da luz, para que os interesses de 173 gigantes empresariais falem mais alto do que a vontade dos cidadãos dentro das instituições europeias. E o pior é que os números conhecidos são apenas a ponta do icebergue.

Imagine que sempre que compra um telemóvel, abastece o carro ou paga a electricidade, uma pequena fatia desse dinheiro, retirada do seu bolso sem que se aperceba, é canalizada para Bruxelas e Estrasburgo. O objectivo não é defender os interesses das populações, mas sim onvencer os deputados e comissários europeus a aprovar leis favoráveis a grandes grupos económicos, muitas vezes contra o interesse público.

Esta não é uma teoria da conspiração, mas sim a realidade dos números revelados pelas organizações sem fins lucrativos LobbyControl e Corporate Europe Observatory.

Segundo a mais recente análise, 173 empresas dos setores tecnológico, financeiro, energético e químico declararam, oficialmente, gastar mais de um milhão de euros cada uma por ano em atividades de lobby junto das instituições da União Europeia. O total ultrapassa os 382 milhões de euros anuais, um aumento de 27 milhões face ao ano anterior.

E atenção: estes são apenas os valores declarados, ou seja, aqueles que as empresas decidem tornar públicos. Ficam de fora os lobbies ideológicos, os grupos de pressão com interesses obscuros e todas as despesas de influência que flutuam nas sombras do processo decisório europeu.

O paradoxo da democracia

O que significa este valor, na prática? Significa que pagamos duas vezes: uma, quando consumimos os produtos destas empresas (porque o lobby é um custo operacional, incorporado no preço final); outra, quando as leis que deveriam proteger a saúde pública, o ambiente ou a justiça fiscal são desvirtuadas para servir quotas de lucro.

Os nossos representantes, os deputados ao Parlamento Europeu, são bombardeados por documentos, emendas pré-escritas, jantares, estudos “científicos” encomendados e promessas de futuros empregos. Em contrapartida, os cidadãos têm, quando muito, o direito a uma petição online ou a uma reunião de cinco minutos com um assessor.

Não é que os políticos sejam, na sua maioria, corruptos. É que o sistema está estruturalmente viciado porque quem tem mais recursos para pagar equipas de advogados, economistas e ex-comissários acaba por ter um lugar permanente à mesa das negociações. O cidadão comum, esse, fica à porta.

Aos olhos da inteligência e do coração

Do ponto de vista racional, o problema é claro porque 382 milhões de euros por ano são um investimento e como qualquer investimento, espera-se um retorno. As empresas não gastam esse dinheiro por filantropia; gastam-no porque ele lhes garante derrapagens regulatórias, isenções fiscais, subsídios disfarçados e atrasos em leis ambientais ou de proteção do consumidor. O retorno para elas é medido em milhares de milhões. Para nós, é medido em ar poluído, alimentos menos seguros, contas mais caras e democracia esvaziada.

Do ponto de vista emocional, a reação deveria ser indignação, mas não uma indignação paralisante; deveria ser uma indignação que nos leve a perguntar:

– Quantas diretivas sobre transparência falharam porque os lobbies as diluíram?
– Quantos acordos comerciais incluíram cláusulas secretas favoráveis a grandes empresas?
– Porque é que um lobista da indústria química tem acesso vitalício ao edifício Berlaymont, enquanto um cidadão com uma preocupação legítima tem de marcar visita com três meses de antecedência?

O que podemos fazer?

A primeira atitude a tomar é não normalizar nem deixar passar. Saber que 382 milhões de euros por ano são gastos para nos influenciar é o primeiro passo para exigir mudanças concretas:
– Registo público obrigatório e detalhado de todas as reuniões entre lobistas e decisores políticos (incluindo os “borrões” nas agendas).
– Proibição do financiamento privado de viagens e estágios de deputados e assistentes.
– Período de nojo (cooling-off) alargado para comissários e eurodeputados que transitem para o sector privado.
– Sanções efetivas para declarações falsas ou omissões.

A democracia europeia não está à venda, mas andam a tentar comprá-la, a prestações, com o nosso próprio dinheiro.
Urge maior preocupação com a transparência e a integridade do processo democrático na União Europeia.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

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PARABÉNS, PORTUGAL

Diferença no trato ao cliente entre LIDL e ALDI em Portugal e na Alemanha

Enquanto as grandes cadeias de supermercados europeias apostam na padronização de serviços, um olhar atento revela diferenças profundas entre a mesma empresa em dois países. Há um contraste de atitude entre a Alemanha e Portugal no que toca à forma como cadeias como o LIDL e o ALDI tratam os seus clientes.

O contraste que vai das casas de banho ao tratamento da dignidade humana é sintomático de atitudes desumanizadas e desaferidas. Quer-se economia virada para as pessoas ou só para o lucro?

Na Alemanha, o dinheiro fala mais alto enquanto em Portugal, as pessoas ainda contam

O exemplo mais gritante está num serviço básico, quase primário, como a disponibilização de casas de banho para clientes. Em Portugal, as lojas do LIDL e do ALDI disponibilizam, regra geral, sanitários acessíveis a quem está a fazer as suas compras. Na Alemanha, país de origem de ambas as cadeias, o mesmo não acontece. As casas de banho são, na sua maioria, exclusivas para funcionários, fechadas ao público.

Consequências indignas

A realidade é chocante: Na Alemanha não é raro ver-se atrás dos prédios das empresas excrementos de pessoas que não tiveram outro remédio senão correr para trás do edifício. Isto é corroborado por relatos de motoristas de entregas, idosos e pessoas com problemas de saúde que, ao não encontrarem um local digno durante o percurso de compras, vêem-se forçados a situações degradantes.

A lógica alemã é pragmaticamente financeira: abrir uma casa de banho ao público implica custos de limpeza, manutenção, segurança e maior desgaste das instalações. É um custo sem retorno direto e por isso, elimina-se. Portugal, país com menores recursos económicos, opta por manter esse serviço, não por lucro, mas por uma questão de atenção à pessoa.

Precisa-se de uma economia e comércio mais virados para as pessoas e não tanto para o lucro!

Eficiência versus humanidade

Especialistas em comportamento organizacional notam que a Alemanha construiu o seu sucesso económico sobre pilares de eficiência, custos controlados e produtividade. Isso gerou riqueza, mas também frieza institucional. Portugal, com uma cultura de proximidade e menor pressão de produtividade, mantém ainda resquícios de uma economia de base relacional.

A diferença não é de menosprezar. “É um termómetro da alma de um país”, diz a socióloga Marta Figueiredo. “Uma empresa que fecha a porta da casa de banho a um cliente está a dizer-lhe: O que me interessa é o seu dinheiro, não a sua necessidade.”

Parabéns a Portugal… mas sem euforia

Parabéns Portugal pela diferença positiva, mas tem cautela e fica alerta. A pressão para adoptar modelos de gestão internacionais, a crise da habitação, o aumento do custo de vida e a crescente precariedade podem levar a que, num futuro próximo, os supermercados portugueses sigam o exemplo alemão, cortando nos bens de humanidade para poupar uns cêntimos; o problema maior virá  da influência da Alemanha na Europa, que, de momento, se encontra exasperada.

A questão que fica é se queremos mesmo tornar-nos num país onde se nega uma casa de banho a quem precisa? Isso mostraria que se olha para as pessoas como meros consumidores! Resta ao cidadão/consumidor exigir que se pode ser eficiente e humano! A sociedade precisa de pessoas que olham, comparam e querem um mundo mais justo e não só mais rico.

LIDL e ALDI em Portugal parecem dispostos a manterem as casas de banho abertas ao público. Na Alemanha, as empresas quando questionadas remetem para a legislação local, que não obriga a esse serviço. Tal resposta revela a pobreza humana de ambas as partes.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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CAMÕES NA AGONIA FESTIVA

Em contrapasso desta data em que o político dança vamos carpir o outro lado da nação:

CAMÕES NA AGONIA FESTIVA

Morreu Camões na data desta festa
e a pátria, em folhas de jornal, embalsama
o peito onde ardeu D. Sebastião.
Cheira a sardinha, a incenso, a pão sem alma,
pois o corpo da nação, em agonia,
dança a valsa dos discursos vazios
sobre um caixão de luz e nostalgia.

As caravelas do poder são barcos
de abutres em redor, o deus Mamon
chama de Bruxelas, e os seus arcos
de ouro queimam a cruz, a espada, o Livro.
Os heróis que o poeta fez de espanto
secaram nas veias dos que nos governam,
e as vagas das revoluções, no pranto,
levaram a nossa face para o Tártaro.

Mas há cinzas que pulsam: uma brasa
debate-se com o fantasma surdo
do poder cadáver que não casa
com o ritmo do povo. No mais fundo
da escrava geradora, há um grito de mar:
“Já fomos mar, não vamos ajoelhar.”

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
10 de Junho de 2021

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EDUCAÇÃO SEXUAL SÓ COM O CONSENTIMENTO DOS PAIS

A batalha pelo poder trava-se, antes de tudo, no campo da sexualidade e da informação

Nas escolas italianas, a educação sexual só poderá ser ministrada no futuro com o consentimento expresso dos pais. A nova legislação reflete uma crescente resistência à ingerência do Estado em matérias consideradas da responsabilidade primária das famílias.

Nos jardins de infância e nas escolas primárias, a educação sexual fica mesmo proibida. A lei entrará em vigor durante as férias de verão e tem suscitado um amplo debate público.

Os defensores da medida argumentam que os pais são os primeiros responsáveis pela educação dos filhos e que questões relacionadas com a sexualidade, os valores morais e a identidade pessoal não devem ser impostos por programas estatais sem o conhecimento e a concordância das famílias. Segundo esta perspetiva, a escola deve complementar, e não substituir, a missão educativa dos pais.

Os críticos, por sua vez, receiam que a restrição possa limitar o acesso dos jovens a informações importantes para o seu desenvolvimento e para a prevenção de comportamentos de risco.

O debate entre conservadores e progressistas centra-se assim, em grande medida, na questão de saber a quem cabe a responsabilidade primordial pela educação e formação dos jovens: o direito dos pais a orientar a educação dos filhos ou ceder a responsabilidade ao Estado.

Enquanto os setores mais conservadores tendem a defender a primazia dos direitos da pessoa, da família e das instituições da sociedade civil, os setores progressistas atribuem ao Estado o papel da promoção de valores, direitos e políticas educativas.

Quem molda a compreensão da sexualidade e orienta o fluxo da informação dispõe das duas alavancas mais profundas do poder político-social. Isto porque a sexualidade regula a vida privada e a informação regula a vida pública: o poder procura ter ambas na sua mão.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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O GLOBALISMO ESTÁ A INVERTER O CRESCIMENTO

Globalismo é o poder que, dissolvendo o orgânico, desconstrói a pessoa e as sociedades na exacta medida da sua inversão.

Há uma patologia oculta no coração do globalismo contemporâneo: a inversão da direção natural do crescimento humano. Toda a civilização que floresceu organicamente construiu-se de baixo para cima, da aldeia à pólis, da família à nação, do indivíduo à humanidade. O que hoje nos é proposto não é crescimento, é engenharia, desconstrução e desnaturação.

O globalismo vigente, na sua expressão mais acabada, pressupõe que o mundo possa ser administrado como um mercado. Não é uma tese nova, é o velho sonho da gestão total, o pesadelo que Tocqueville antecipou como “despotismo suave”: um poder imenso e tutelar que não destrói radicalmente, mas que impede. Impede que nasçam coisas novas. Impede que os povos se reconheçam a si mesmos, impede que o indivíduo se torne pessoa soberana e consciente. Os governantes são transformados em meros administradores, aplicadores de agendas e directrizes e os parlamentos reduzidos a instrumentos do “sim, senhor”!

O corpo social orgânico não nasce de cima; germina nas raízes. Quando se inverte esta ordem, não se obtém uma comunidade, obtém-se uma clientela.

A aliança estranha que governa este projeto é a do capitalismo liberalista com o dirigismo socialista: dois absolutismos que partilham, no fundo, o mesmo desprezo pelo particular, pelo local, pelo irredutível da pessoa humana. Um vende; o outro formata. Juntos, produzem o consumidor ideal: dependente, vigiado, e convencido de que escolhe livremente.

O instrumento invisível desta nova governação é o algoritmo. É orwelliano não por ser brutal até porque a brutalidade seria reconhecível, resistível, mas por ser amável, personalizado, inconsciente de si mesmo, torna-se estratégico na metodologia de produzir “cidadãos” serviçais. O algoritmo não censura com decreto, mas silencia por omissão e pela intervenção de instituições políticas nele para que as redes sociais não questionem o arco do poder. Não proíbe, mas também não mostra. Assim se constrói a ortodoxia prepotente: não pela força, mas pela curvatura do espaço em que o pensamento se pode mover.

A questão demográfica expõe a contradição mais crua do sistema. A queda da natalidade, fenómeno profundamente ligado à precariedade existencial, ao adiamento do sentido, à mercantilização das relações, é respondida com importação humana. Como se uma pessoa descontextualizada, arrancada à sua terra por necessidade e não por vocação, pudesse substituir a continuidade cultural de um povo. Não se trata aqui de xenofobia, trata-se de reconhecer que nenhum ser humano é produto substituível.

A resposta que as populações têm dado e que a nomenclatura europeia classifica precipitadamente de “extremismo”, é, na sua essência, um grito de reconhecimento. O extremismo não nasce do nada; nasce sempre como resposta a outro extremismo, o de uma governação que deixou de reconhecer o seu povo como sujeito e o trata como objeto de gestão. Os partidos que hoje assustam as elites são o espelho incómodo do que essas elites criaram.

A saída não está na condenação da realidade, mas sim na sua compreensão. Compreender exige o que os Gregos chamavam gnóthi seautón: conhece-te a ti mesmo. Cada nação, cada cultura, cada pessoa que sente este mal-estar difuso tem de reconhecer em si mesma a origem de todo o mal e de todo o bem. Não para se absolver, mas para se tornar capaz de agir.

A alternativa ao globalismo que desumaniza não é o fechamento que empobrece, é a construção de uma ordem verdadeiramente subsidiária, onde o universal se edifica a partir do particular, e não contra ele. Onde se constroem fábricas nos países de origem em vez de explorar a pobreza alheia. Onde a democracia não é formato, mas sim substância viva.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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