Entrevista cedida ao jornal “O Diabo”

No dia 10 de Junho, Dia de Portugal, o semanário “O Diabo” publicou uma entrevista feita a algumas pessoas. Aqui reproduzo as respostas que dei nessa entrevista.

Seguem-se as perguntas colocadas pela jornalista Dra. Isabel Guerreiro:

1 – O que representa hoje ser-se português e ser Portugal?

2 – A Língua portuguesa — a maior herança da nossa história — tem tido o devido respeito

por parte da classe política?

3 – Que novo projecto colectivo precisa o País para restituir o ânimo aos portugueses?

Respostas:

1 – O ser de Portugal terá de continuar a basear-se na consciência de que a suavidade é mais forte do que a dureza. A grandeza de Portugal veio-lhe da consciência de ser povo e duma missão a realizar na história.

Portugal tem uma população simples que se pode admirar em todo o mundo. Desse povo são feitos os nossos futebolistas que dão lições ao mundo. O que falta a Portugal, a nível político e social, são os treinadores. Uma elite fraca e presunçosa enfraquece uma nação inteira. Há que interromper a fase da “desistência cívica” em curso, doutra maneira repetiremos de época para época os mesmos erros.

Desde que a nossa sociedade se atrelou às ideologias estrangeiras, optando por um espírito mais dualista francês contra o ideário português que é integral monista e universal, portanto, mais alemão, Portugal tem patinado.

2 – O novo regime fez o erro de sacrificar as províncias ultramarinas e mostrar-se-ia bruto se em nome duma inovação e duma mudança leviana continuasse a sacrificar o que tem de mais sagrado que é a sua cultura e a sua língua. Precisamos de um Portugal moderno mas português.

Num tempo em que se reconhece a importância dos biótopos naturais é retrógrado não investir mais na cultura e na língua. A língua é a alma dum povo, se bem que com diferentes lealdades. A alma portuguesa é global e inter-cultural o que pressupõe um espírito aberto mas seguro.

Precisa-se duma outra escola orientada para a criatividade e para as potencialidades humanas.

Salazar dizia: “ O que honra o trabalho do professor é o sucesso do aluno”. Para isso precisa-se duma atmosfera que dignifique a personalidade dos professores e dos alunos. Os ministérios não podem continuar a ganhar medalhas à custa do desrespeito dos seus servidores! Todos trabalham para todos. O povo, cada um é Portugal.

3 – No seu livro “Viagens na minha Terra”, Garrett faz uma descrição modelo da situação e dos problemas do Portugal de sempre. Nos protagonistas da narrativa, Carlos, símbolo dos progressistas e Joaninha, símbolo dos tradicionalistas, temos uma boa diagnose aplicável à actualidade sobre a situação dos partidos e da cultura portuguesa num Portugal que teima continuar irreconciliável.

A nação encontra-se bloqueada desde o século XIX. Um projecto colectivo pressuporia, primeiro que tudo, uma reforma das mentalidades. Uma sociedade em que a ideologia suplanta a cultura continuará a ser um Estado partidário e não um Estado nação.

Portugal precisa duma administração moderna, plural e sem medo no serviço do cidadão. A democracia merece mais e melhor. Precisa de ter nela as cores do arco-íris. A panorâmica política portuguesa é demasiado rubra e um pouco avessa ao povo e à cultura portuguesa.

Depois de 30 anos, já vai sendo tempo de ultrapassar a exacerbação socialista. Foi a incompetência republicana que justificou o Estado Novo. É necessário construir uma nova mentalidade baseada nos valores que deram o ser a Portugal mas na abertura aos novos desafios, às novas estratégias e à inovação. Os emigrantes provam, no estrangeiro, que são capazes, tal como se vê, também na eficiência dos jogadores do futebol português.

O que Portugal precisa é de dirigentes à altura e duma revolução cultural contínua. As revoluções portuguesas depois de 1383-1385 têm sido milho para os pardais.

Portugal precisa duma consciência de nação e de povo e não de classes. Um Portugal de “irmãos”, de “camaradas”, de “companheiros” e de “compadres” tem sido insuficiente e prejudicial para o povo e para a Nação.!…

Não podemos continuar a sofrer a História, é preciso resistir e tornar-se responsavelmente activo. A simples mudança não é argumento nem fundamenta uma política séria! Precisamos dum Portugal muito variado, no qual todos tenham um lugar importante e se possam realizar razoavelmente. Olhe-se o futuro não com o olhar da esquerda ou da direita mas com o olhar de Portugal, com os olhos de todos os portugueses.

António da Cunha Duarte Justo

antoniocunhajusto@googlemail.com

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

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