PORTUGAL E O NEVOEIRO EUROPEU

Não pergunteis quando deixarão as elites de atraiçoar a alma portuguesa: os avisos de Camões, Garrett e Vieira perderam-se no tempo e o mar ainda espera quem o entenda.

Por António da Cunha Duarte Justo

Vivemos um momento axial da história, um daqueles períodos de viragem em que as placas tectónicas da geopolítica global se movem e reconfiguram o mapa do poder. No entanto, ao olharmos para a Europa atual, o que vemos é um continente imerso num denso nevoeiro cultural e estratégico. Iludida pelo brilho do dinheiro e cega pela obsessão do poder material, que se expressa no “Mamon” dos nossos tempos, a União Europeia parece querer despedir-se de si mesma, esquecendo a sua matriz humanista original e a soberania inalienável da pessoa humana. E Portugal, infelizmente, tem-se deixado arrastar por esta entropia decadente, refugiando-se numa passividade burocrática que atraiçoa a sua vocação histórica de seguir o chamamento universalista contra o Império de Mamon.

Para compreendermos como o nosso país chegou a este estado de esvaziamento, é preciso puxar o fio de uma “meada” literária e profética que há séculos nos avisa sobre este perigo. No século XVI, Luís de Camões encerrou Os Lusíadas com uma admoestação severa aos reis, criticando a cobiça e a burocracia que já então cegavam a nação. No século XVII, o Padre António Vieira desenhou na sua História do Futuro o horizonte do “Quinto Império”, onde resumia um desígnio que não se media pela força das armas, mas pela universalidade do espírito, da língua e do encontro ecuménico. Já no século XIX, Almeida Garrett, no drama Frei Luís de Sousa, encenou a nossa maior tragédia identitária através da figura d’O Romeiro. Ao regressar ao lar e ver que o seu lugar fora ocupado, D. João de Portugal assume-se como “Ninguém”.

Esse “Ninguém” de Garrett tornou-se a metáfora perfeita para o Portugal contemporâneo. A forma atabalhoada e cega como o país se desligou das suas antigas colónias após o 25 de Abril de 1974, ao entregar esses povos e territórios, à pressa, ao xadrez bipolar da Guerra Fria (URSS e EUA), revelou um país que queimara os seus próprios retratos e ignorara os seus profetas. Em vez de fundar uma comunidade transcontinental e horizontal com a Lusofonia, Portugal escolheu “encostar-se” ao redil europeu em troca de fundos estruturais, diluindo a sua singularidade estatal e tornando-se um “Ninguém” institucional na periferia de Bruxelas.

O filósofo Agostinho da Silva, porém, ensinou-nos que a despossessão material de Portugal não tinha de ser uma tragédia, mas sim a condição para a nossa verdadeira libertação. Para Agostinho, numa perspetiva católica, a alma portuguesa realiza-se na renúncia à posse e na celebração da fraternidade. A Lusofonia, hoje com uma língua assumidamente pluricêntrica, é o laboratório dessa nova era.

Mas como pode Portugal reatar um diálogo sério e consequente com este Sul Global?

A resposta exige uma decisão decisiva e audaz nas instâncias europeias. Portugal só recuperará a sua relevância internacional se assumir na União Europeia uma posição autenticamente europeia, no seu pleno significado geográfico e cultural: uma visão que inclua a Rússia e promova uma política de irmandade continental. Ao defender uma ponte estratégica com Moscovo, Portugal não só ajuda a libertar a Europa do seu atual impasse e da cultura de guerra, como adquire a autoridade moral e a centralidade atlântica necessárias para se ligar, com força renovada, ao Sul Global e aos países lusófonos.

Neste momento de transição civilizacional, Portugal tem o dever de se erguer como o portador das grandes heranças que moldaram a Europa: a espiritualidade judaico-cristã, a jurisprudência e administração romanas, e a filosofia grega. Isto não para impor um novo império, mas para ser o timoneiro de uma cultura da paz. É tempo de rasgar o nevoeiro, rejeitar o pragmatismo cinzento dos novos atores da geopolítica expresso na dominância arrogante anglo-saxónica e recordar ao mundo que o verdadeiro tamanho de uma nação se mede pelo seu humanismo e pela defesa de uma autoridade humana e sadia que reconheça a dignidade de cada pessoa.

Nem Camões, nem Garrett, nem Vieira!… Os avisos dos escritores não entram no coração das elites. Por isso a alma portuguesa continuará a ressoar no mar, só, como um sino de naufrágio, até que um dia, cansados de esperar por quem nunca ouve, resolvamos todos, de baixo para cima, ensaiar o projeto universal português numa política finalmente virada para a Lusofonia.

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PARABÉNS, PORTUGAL

Diferença no trato ao cliente entre LIDL e ALDI em Portugal e na Alemanha

Enquanto as grandes cadeias de supermercados europeias apostam na padronização de serviços, um olhar atento revela diferenças profundas entre a mesma empresa em dois países. Há um contraste de atitude entre a Alemanha e Portugal no que toca à forma como cadeias como o LIDL e o ALDI tratam os seus clientes.

O contraste que vai das casas de banho ao tratamento da dignidade humana é sintomático de atitudes desumanizadas e desaferidas. Quer-se economia virada para as pessoas ou só para o lucro?

Na Alemanha, o dinheiro fala mais alto enquanto em Portugal, as pessoas ainda contam

O exemplo mais gritante está num serviço básico, quase primário, como a disponibilização de casas de banho para clientes. Em Portugal, as lojas do LIDL e do ALDI disponibilizam, regra geral, sanitários acessíveis a quem está a fazer as suas compras. Na Alemanha, país de origem de ambas as cadeias, o mesmo não acontece. As casas de banho são, na sua maioria, exclusivas para funcionários, fechadas ao público.

Consequências indignas

A realidade é chocante: Na Alemanha não é raro ver-se atrás dos prédios das empresas excrementos de pessoas que não tiveram outro remédio senão correr para trás do edifício. Isto é corroborado por relatos de motoristas de entregas, idosos e pessoas com problemas de saúde que, ao não encontrarem um local digno durante o percurso de compras, vêem-se forçados a situações degradantes.

A lógica alemã é pragmaticamente financeira: abrir uma casa de banho ao público implica custos de limpeza, manutenção, segurança e maior desgaste das instalações. É um custo sem retorno direto e por isso, elimina-se. Portugal, país com menores recursos económicos, opta por manter esse serviço, não por lucro, mas por uma questão de atenção à pessoa.

Precisa-se de uma economia e comércio mais virados para as pessoas e não tanto para o lucro!

Eficiência versus humanidade

Especialistas em comportamento organizacional notam que a Alemanha construiu o seu sucesso económico sobre pilares de eficiência, custos controlados e produtividade. Isso gerou riqueza, mas também frieza institucional. Portugal, com uma cultura de proximidade e menor pressão de produtividade, mantém ainda resquícios de uma economia de base relacional.

A diferença não é de menosprezar. “É um termómetro da alma de um país”, diz a socióloga Marta Figueiredo. “Uma empresa que fecha a porta da casa de banho a um cliente está a dizer-lhe: O que me interessa é o seu dinheiro, não a sua necessidade.”

Parabéns a Portugal… mas sem euforia

Parabéns Portugal pela diferença positiva, mas tem cautela e fica alerta. A pressão para adoptar modelos de gestão internacionais, a crise da habitação, o aumento do custo de vida e a crescente precariedade podem levar a que, num futuro próximo, os supermercados portugueses sigam o exemplo alemão, cortando nos bens de humanidade para poupar uns cêntimos; o problema maior virá  da influência da Alemanha na Europa, que, de momento, se encontra exasperada.

A questão que fica é se queremos mesmo tornar-nos num país onde se nega uma casa de banho a quem precisa? Isso mostraria que se olha para as pessoas como meros consumidores! Resta ao cidadão/consumidor exigir que se pode ser eficiente e humano! A sociedade precisa de pessoas que olham, comparam e querem um mundo mais justo e não só mais rico.

LIDL e ALDI em Portugal parecem dispostos a manterem as casas de banho abertas ao público. Na Alemanha, as empresas quando questionadas remetem para a legislação local, que não obriga a esse serviço. Tal resposta revela a pobreza humana de ambas as partes.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

EDUCAÇÃO SEXUAL SÓ COM O CONSENTIMENTO DOS PAIS

A batalha pelo poder trava-se, antes de tudo, no campo da sexualidade e da informação

Nas escolas italianas, a educação sexual só poderá ser ministrada no futuro com o consentimento expresso dos pais. A nova legislação reflete uma crescente resistência à ingerência do Estado em matérias consideradas da responsabilidade primária das famílias.

Nos jardins de infância e nas escolas primárias, a educação sexual fica mesmo proibida. A lei entrará em vigor durante as férias de verão e tem suscitado um amplo debate público.

Os defensores da medida argumentam que os pais são os primeiros responsáveis pela educação dos filhos e que questões relacionadas com a sexualidade, os valores morais e a identidade pessoal não devem ser impostos por programas estatais sem o conhecimento e a concordância das famílias. Segundo esta perspetiva, a escola deve complementar, e não substituir, a missão educativa dos pais.

Os críticos, por sua vez, receiam que a restrição possa limitar o acesso dos jovens a informações importantes para o seu desenvolvimento e para a prevenção de comportamentos de risco.

O debate entre conservadores e progressistas centra-se assim, em grande medida, na questão de saber a quem cabe a responsabilidade primordial pela educação e formação dos jovens: o direito dos pais a orientar a educação dos filhos ou ceder a responsabilidade ao Estado.

Enquanto os setores mais conservadores tendem a defender a primazia dos direitos da pessoa, da família e das instituições da sociedade civil, os setores progressistas atribuem ao Estado o papel da promoção de valores, direitos e políticas educativas.

Quem molda a compreensão da sexualidade e orienta o fluxo da informação dispõe das duas alavancas mais profundas do poder político-social. Isto porque a sexualidade regula a vida privada e a informação regula a vida pública: o poder procura ter ambas na sua mão.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

O GLOBALISMO ESTÁ A INVERTER O CRESCIMENTO

Globalismo é o poder que, dissolvendo o orgânico, desconstrói a pessoa e as sociedades na exacta medida da sua inversão.

Há uma patologia oculta no coração do globalismo contemporâneo: a inversão da direção natural do crescimento humano. Toda a civilização que floresceu organicamente construiu-se de baixo para cima, da aldeia à pólis, da família à nação, do indivíduo à humanidade. O que hoje nos é proposto não é crescimento, é engenharia, desconstrução e desnaturação.

O globalismo vigente, na sua expressão mais acabada, pressupõe que o mundo possa ser administrado como um mercado. Não é uma tese nova, é o velho sonho da gestão total, o pesadelo que Tocqueville antecipou como “despotismo suave”: um poder imenso e tutelar que não destrói radicalmente, mas que impede. Impede que nasçam coisas novas. Impede que os povos se reconheçam a si mesmos, impede que o indivíduo se torne pessoa soberana e consciente. Os governantes são transformados em meros administradores, aplicadores de agendas e directrizes e os parlamentos reduzidos a instrumentos do “sim, senhor”!

O corpo social orgânico não nasce de cima; germina nas raízes. Quando se inverte esta ordem, não se obtém uma comunidade, obtém-se uma clientela.

A aliança estranha que governa este projeto é a do capitalismo liberalista com o dirigismo socialista: dois absolutismos que partilham, no fundo, o mesmo desprezo pelo particular, pelo local, pelo irredutível da pessoa humana. Um vende; o outro formata. Juntos, produzem o consumidor ideal: dependente, vigiado, e convencido de que escolhe livremente.

O instrumento invisível desta nova governação é o algoritmo. É orwelliano não por ser brutal até porque a brutalidade seria reconhecível, resistível, mas por ser amável, personalizado, inconsciente de si mesmo, torna-se estratégico na metodologia de produzir “cidadãos” serviçais. O algoritmo não censura com decreto, mas silencia por omissão e pela intervenção de instituições políticas nele para que as redes sociais não questionem o arco do poder. Não proíbe, mas também não mostra. Assim se constrói a ortodoxia prepotente: não pela força, mas pela curvatura do espaço em que o pensamento se pode mover.

A questão demográfica expõe a contradição mais crua do sistema. A queda da natalidade, fenómeno profundamente ligado à precariedade existencial, ao adiamento do sentido, à mercantilização das relações, é respondida com importação humana. Como se uma pessoa descontextualizada, arrancada à sua terra por necessidade e não por vocação, pudesse substituir a continuidade cultural de um povo. Não se trata aqui de xenofobia, trata-se de reconhecer que nenhum ser humano é produto substituível.

A resposta que as populações têm dado e que a nomenclatura europeia classifica precipitadamente de “extremismo”, é, na sua essência, um grito de reconhecimento. O extremismo não nasce do nada; nasce sempre como resposta a outro extremismo, o de uma governação que deixou de reconhecer o seu povo como sujeito e o trata como objeto de gestão. Os partidos que hoje assustam as elites são o espelho incómodo do que essas elites criaram.

A saída não está na condenação da realidade, mas sim na sua compreensão. Compreender exige o que os Gregos chamavam gnóthi seautón: conhece-te a ti mesmo. Cada nação, cada cultura, cada pessoa que sente este mal-estar difuso tem de reconhecer em si mesma a origem de todo o mal e de todo o bem. Não para se absolver, mas para se tornar capaz de agir.

A alternativa ao globalismo que desumaniza não é o fechamento que empobrece, é a construção de uma ordem verdadeiramente subsidiária, onde o universal se edifica a partir do particular, e não contra ele. Onde se constroem fábricas nos países de origem em vez de explorar a pobreza alheia. Onde a democracia não é formato, mas sim substância viva.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

COMO SALVAR A TRADIÇÃO DO FOGO DE ARTIFÍCIO SEM ENLOUQUECER CÃES, PESSOAS SENSÍVEIS E BOMBEIROS

O céu não precisa de gritar para ser bonito

Vamos combinar uma coisa: fogos de artifício são bonitos e sempre foram. Desde que um chinês qualquer, há mil anos, teve a brilhante ideia de enfiar pólvora num cano de bambu, a humanidade olha para o céu e suspira. Que magia e que cores! É aquele momento em que todos param, olham para cima e se sentem, por um segundo, num videoclip dos anos 80.

Mas há um pequeno problema, vizinhos. Na verdade, há vários e todos eles fazem Fch… pum.

Para nós, o céu é um palco, mas para o cão do lado, é o apocalipse

Comecemos pelos nossos amigos de quatro patas. Um cão ouve até quatro vezes melhor do que nós. O que para si é um “pum” simpático, para o seu labrador é um trovão do Juízo Final a explodir dentro do crânio. Enquanto você diz “oh, que lindo”, o cão sente: “é agora, vou-me esconder atrás da máquina de lavar e rezar aos donos da ração”. Não é bonito porque é um inferno de pânico, baba e arritmia canina. Causa pânico e stress mortal a cães, gatos, aves e animais selvagens.

E não são só os bichos. Há os bebés a acordar em pânico. Os idosos com o coração frágil. Os veteranos de guerra para quem um estampido não é festa, é uma reexperiência traumática. E os 20% da população mundial que é hipersensível e que, durante meia hora, sente cada rebentamento como uma agulha nos nervos. Por isso, quando dizemos “é tradição”, estamos a dizer: “o seu desconforto é o preço da minha nostalgia”. E isso é, pelos vistos, um bocado feio.

Tradição não tem de ser sinónimo de martírio acústico

Antigamente, os foguetes serviam para afastar maus espíritos e anunciar festas numa altura em que ninguém tinha relógio. Nesse tempo fazia sentido. Mas antigamente também se sangravam os doentes com sanguessugas e acreditava-se que tomar banho fazia mal. A humanidade evolui e a sensibilidade cresce também. E hoje sabemos que o que afasta os maus espíritos não é o barulho, mas sim a empatia.

Por isso, a pergunta é simples: podemos manter a festa sem a tortura? Claro que podemos. E a boa notícia é que a tecnologia já resolveu isto há anos, só ainda não chegou aos ouvidos da tia que compra rojões de pólvora no hipermercado para encantar o seu neto.

Alternativas? Há-as a montes e são fixes

Imagine o seguinte: noite de Passagem de Ano. Em vez de uma saraivada de explosões que faz os bombeiros correrem e os cavalos terem ataques cardíacos, temos projeções laser no céu. Lemas e fotos de luz, ou constelações feitas a pedido e até o rosto dos noivos a sobrevoar silenciosamente a aldeia enquanto os convidados bebem champanhe sem ter de gritar “ooh” por cima dos Fch… pum!  Isto não é só possível, é mais bonito, mais limpo e mais poético.

E nos casamentos? Em vez do tradicional “susto de pólvora” depois do “sim” ou do corte do bolo, que tal uma chuva de luzes silenciosas a desenhar corações, ou um balão com imagens do casal a flutuar? A emoção não perde nada e ganha até requinte. E os convidados não passam a noite a proteger o copo de cinzas e estilhaços nem os vizinhos a meterem tampões nos ouvidos.

Até a polícia e os bombeiros estão de saco cheio e com razão

Em Berlim, o sindicato da polícia já pediu a proibição dos foguetes no espaço privado. Porquê? Não é só por causa do lixo, que é uma vergonha, diga-se, nem da poluição do ar, que torna as zonas ambientais uma anedota fiada. É porque, em noites de loucura, as bombas são usadas como armas contra agentes e bombeiros. Mais de três milhões de pessoas assinaram abaixo-assinados contra o barulho infernal. Três milhões, não são três gatos-pingados num fórum de donos de caninos.

O sofrimento dos animais não é um detalhe! É uma emergência silenciosa que acontece todas as vezes que uma pessoa decide que o seu momento de prazer vale mais do que a sanidade de um ser vivo.

Não queremos proibir, mas queremos que a tradição se vista de novo

Ninguém aqui quer ser o “chato da festa que acabou com os foguetes”. Não se trata de apagar o património cultural. Trata-se de vesti-lo com a roupa do nosso tempo. Temos exemplos de como se pega num baile medieval e se faz um festival de luzes. A tradição não morre por deixar de magoar. Morre quando se recusa a desenvolver.

As empresas que produzem foguetes sabem fazer silêncio. Têm a tecnologia e o know-how para isso. O que lhes falta é a motivação. Se a procura mudar, a oferta muda e se deixarmos de comprar barulho e passarmos a comprar beleza, o mercado adapta-se num instante.

E se não se adaptar? Bem, aí a proibição virá naturalmente. Porque a lei, mais cedo ou mais tarde, acompanha o bom senso. E o bom senso, hoje, diz: ninguém precisa de acordar 90% do bairro para celebrar.

Conclusão

Nós, humanos, temos o superpoder de reinventar o que amamos. Já transformámos o fogo numa lareira, o chumbo em letra de imprensa, e as músicas do Tony Carreira em melodias ringtones. Também podemos transformar um estouro num encanto.

Na próxima festa, escolha a luz sem o som. Olhe para o céu e para o seu cão a dormir sossegado ao seu lado. A festa será igualmente bonita e todos dormirão melhor.

E os maus espíritos? Esses, sem barulho para se esconderem, acabam por se evaporar na primeira constelação de laser.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1) Escrevo isto por uma questão de sensibilidade e de higiene pública e também porque já levei com foguetes na varanda e restos de cartuxos na piscina e desde então prefiro um bom espetáculo de luzes e um cão sem tiques nervosos!