Junto ao Muro das lamentações!
De Bruxelas, em auto de agonia,
Vai o Demos à feira da ilusão.
Eça e Vicente (1) na ponta da ironia,
Veem o voto ungir boys sem razão.
Mal os elege, a plateia desatina,
Chora a burrice que ela mesma criou.
Mas eis que a astúcia, de casaca e gravata,
Cavalga o medo que a guerra gerou.
Nós, resignados, no panteão da asnice,
Vemos o mundo em chamas a arder.
Enquanto o E3, em comissões felizes,
Cinzela o vazio que nos faz tremer.
Mas deste hospício, eis o paradoxo santo:
É o menos reles dos regimes, enfim.
Pois só a farsa, com seu nobre encanto,
Converte a burrice em soberania assim.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
(1) Se a sociedade persiste na mesma subserviência perante as autoridades e se a atitude do poder político teima em não se renovar, impõe-se regressar à tradição literária crítica, especialmente a de Fernão Lopes e a de Eça de Queirós, para dar voz a esta poesia. No século XIV, Fernão Lopes, cronista de espírito livre, investiu contra a adulação à nobreza, denunciou as parcialidades da corte e elevou o povo a sujeito ativo da História. No século XIX, Eça de Queirós, com a sua ironia cortante, desmontou a burguesia, as suas instituições e o provincianismo que asfixiava o país. A permanência dos vícios que ambos retrataram confere-lhes uma inquietante atualidade, justificando plenamente esta incursão poética.