Mutilação Genital Feminina

Mutilação Genital Feminina
2006-02-17

Uma Barbárie ao Serviço dos Machos e da Poligamia
Em 28 países africanos, nalguns países árabes, no Iraque, Indonésia e Malásia é praticada a circuncisão da mulher. Esta consiste na mutilação genital, na amputação do clítoris e dos lábios vaginais às meninas, geralmente a partir dos cinco anos. Uma danificação irreparável para o corpo e para a alma. Cientistas avaliam em cerca de 10 a 25% as meninas que morrem em consequência desta operação sem higiene que é efectuada com uma navalha ou caco. Os peritos avaliam em 130 milhões o número de mulheres mutiladas.
Assim se elimina o prazer sexual das mulheres. É o mesmo que cortar a glande, o pénis ao homem. É uma tortura e um abuso sexual, a repressão da mulher e da sua sexualidade. Os homens ao roubarem o prazer sexual à mulher reduzem-na à função reprodutora. São medidas preventivas machistas. Assim impedem nas mulheres a masturbação, o desejo e impedem-nas de terem relações sexuais antes do casamento. Por outro lado estas mulheres não têm demasiadas exigências aos homens na prática da poligamia.
Apesar das Nações Unidas terem exigido tolerância zero no que respeita a esta prática, continuam a ser vítimas deste costume três milhões de meninas por ano.

Porquê o corte do clítoris?
Porque é tradição e os homens o querem. Homens não aceitam casar com uma mulher que ainda tenha o clítoris. Consideram impura quem tenha o clítoris. O prazer sexual é um direito reservado aos homens. A mulher está totalmente dependente do homem económica e socialmente. Não tem outra hipótese que não seja obedecer. Para não serem marginalizadas pela sociedade as mulheres aceitam tal barbaridade. Estas tradições das tribos obrigam ao desprezo da mulher e à sua discriminação obrigando-as a sofrer toda a vida.
Já em 1994 a ONU queria acabar com esta praga em dez anos. Mas nada, a tradição abominável continua na mesma. Umas dão-se em público outras em segredo.
As meninas ou donzelas que não morrem precisam de meses até a ferida cicatrizar. Uma agravante do problema são as dores que acompanham a mulher durante toda a vida e a cicatriz rebenta repetidamente. As mulheres circuncidadas também não podem andar de bicicleta.
Na Europa há dezenas de milhares de mulheres exiladas que sofreram esta tortura. Aqui já começa a haver sensibilização para o problema, atendendo a que tem havido mulheres afectadas que denunciam tais práticas. Assim o tribunal alemão DGH determinou em 2005 (cfr. Acta: AZ XII ZB 166/03) que o desejo duma mãe levar a sua filha para a Gambia pode ser suficiente para que lhe seja tirado o direito de cuidado da filha. Na Gambia 80 – 90 % das mulheres são mutiladas. Também o Tribunal Administrativo do Hesse reconhece o direito de asilo quando há ameaça de mutilação genital. Neste caso foi reconhecido asilo a uma jovem de 18 anos e a uma menina de 9 anos da Serra Leoa onde 80 – 90 % das mulheres são mutiladas.
Só na medida em que mulheres que sofreram esta discriminação se dirigem a instituições poderão ser organizados projectos de colaboração tendentes a fazer campanhas de esclarecimento nas regiões donde provêm. É preciso que os pais e jovens dispostos a quebrar com tão bárbara tradição sejam apoiados e honrados.
Estas práticas constituem um testemunho de pobreza e de indiferença para os países ocidentais. Humanismo compromete. É totalmente incompreensível que estados civilizados onde os direitos humanos são tão apregoados como na Europa e onde há até um certo respeito por animais, se feche os olhos a tal barbaridade e injustiça para com as mulheres. Só resta às mulheres, solidarizem-se já que os homens se escondem por detrás do respeito dos valores culturais. Respeito não, cobardia!
António Justo
Alemanha

Publicadp em Comunidades:

http://web.archive.org/web/20080430103232/http://blog.comunidades.net/justo/index.php?op=arquivo&mmes=02&anon=2006

 

António da Cunha Duarte Justo


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– – – 2006-04-10
Já li vários artigos e livros relativos a este assunto e principalmente o papel quase inexistente da mulher em países muçulmanos. Faz-me pensar que tive a sorte de nascer num país onde ainda se respeita a mulher… Mas será que não é possivel fazer algo por estas mulheres que são mutiladas, abusadas e humilhadas todos os dias por este mundo fora? E o futuro, o que nos reserva? Não consigo deixar de pensar que o islamismo é a religião, que neste momento, mais cresce e mais crentes tem…

Sónia Mendes
MGF – – – 2006-04-07
Realmente a MGF, é uma barbaridade… e é uma coisa praticada, e em geral desconhecida ainda para muitos habitantes do nosso planeta, eu propria apenas tive conhecimento disso ha cerca de dois meses.. e hoje, como nos foi proposto na escola onde estudo, a elaboração de um cartaz que apelasse a liberdade de expressão eu decidi abordar esse tema…
espero bons resultados…

Alice
Mutilação – – – 2006-02-20
MUTILAÇÃO GENITAL FEMININA
Este assunto aqui exposto pelo professor JUSTO é, justamente, um caso explicito de indignação para quem se considere humano ou defensor desses direitos .
Guerras têm sido exercitadas, muitas vezes, por motivos fúteis, mas esta agressão física e moral às mulheres é flagrante e mereceria ser considerada causa para “declaração de guerra” a quem a pratica, a consente, dentro de suas pátrias, e ainda aos que a toleram fora delas, por ser uma calamidade que ofende e agride a humanidade como um todo.
Gabriel Cipriano / Rio de Janeiro
In Portugalclub
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Em memória de Johannes Rau! Um social-democrata exemplar!

Em memória de Johannes Rau! Um social-democrata exemplar!
2006-01-31

„Sou o presidente de todos os alemães e o interlocutor de todas as pessoas”
Faleceu a 28 de Janeiro no seio de sua família, com 75 anos de idade. As exéquias fúnebres serão realizadas a 07.02.2006 em Berlin. Foi um presidente que se definia como Alemão e como Cristão. Não tinha receio em afirmar que “ Política é aplicação do amor ao próximo”. De facto, na sua simplicidade, honestidade e alegria, foi o presidente mais querido de todos os presidentes alemães. O povo apelidava-o de “irmão Johannes”. Neste atributo estava subjacente um misto de bondade, de ingenuidade e de boa pessoa. Por outro lado, todos os representantes políticos alemães o respeitavam e o consideram como o mais político de todos os presidentes alemães.
Johannes Rau foi um dos pilares do SPD alemão. Não se deixou levar pelo “espírito do tempo”, pelo Zeitgeist, pela ideologia, como estava acontecendo durante a sua presidência no governo de coligação SPD/VERDES sob o chanceler Schröder. Ele não fazia parte da geração dos “sobrinhos” de Willy Brand (os seus benefeciados Lafontaine, Scharping, Schröder e Wieczorek-Zeul), mais virados para a ideologia do que para o povo. Rau não via com bons olhos a mudança de estilo político destes que, depois de Willy Brand, a nova geração, se preocupavam demasiado com as encenações na televisão e com meras retóricas e efeitos de show político com desprestígio pelas estruturas do partido e da ligação pessoal aos membros. Porque enraizado na fé cristã nunca cedeu às ideologias socialistas mostrando, por outro lado, a relevância dum socialismo humanista cristão. A nova geração de políticos torna-se mais helenística, mais politeista enquanto que Johannes Rau permanece fiel à tradição judaico-cristã. Platzeck, novo Chefe do partido SPD é um admirador de Rau e quer seguir-lhe o exemplo. Certamente uma sorte para o partido que corria perigo de se tornar cada vez mais a expressão exagerada de certas reminiscências moralistas da geração 68.
Rau não aceitou o conceito de multicultura por reconhecer nela um conceito de combate. Ele, apesar da história trágica da sua nação, quando muitos dos intelectuais tinham vergonha de se declararem patriotas, declarou-se sempre como patriota. Ao mesmo tempo que manifestava publicamente orgulho por ser alemão, admoestava: “nacionalismo e terrorismo andam muitas vezes de mãos dadas”.
Homem suave na voz e no discurso não tinha papas na língua ao chamar os políticos à atenção dizendo que “muitas vezes dão demasiado com a língua nos dentes” e com isto a democracia enferma. Chamou a atenção da política para zonas alemãs menos favorecidas, para os pobres, para a integração e para o respeito e bom trato dos estrangeiros. A sua ideia era reconciliar em vez de dividir. Criticou os Media que, por vezes, se tornavam incautos e irresponsáveis. Criticou a avidez de directores de empresas e bancos com ordenados provocantes. Apelou para o perigo crescente da sociedade se subjugar às leis do mundo do mercado. Lutou sempre por um mundo mais humano. Embora presidente com muitos afazeres ele pegava no telefone e telefonava a pessoas desesperadas ou pessoas simples que lhe escreviam. Estas, às vezes, não acreditando que o presidente lhes telefonasse, desligavam o telefone mas ele voltava a telefonar. Era um homem com coração de povo. Ao slogan maquiavélico de que a guerra é a mãe de todas as coisas ele contrapunha a fraternidade, a irmandade. Um democrata exemplar, um cristão cordial que confiava em Deus e dizia “eu trago, eu conduzo, eu suporto porque sou trazido, conduzido, suportado”.
Empenhou-se no entendimento dos povos. Foi o primeiro e o último presidente da geração da guerra que, em 2002, falou no Parlamento de Israel. Aí falou, em língua alemã, dos crimes alemães, da reconciliação e da responsabilidade. Teve também gestos de reconciliação com a Polónia. Todos aceitavam o seu discurso porque sabiam que era autêntico e norma de credibilidade. Durante 50 anos trabalhou activamente na política em defesa dum mundo mais justo no sentido do próximo. Este era um homem honesto que toda a gente podia querer bem. Não teve apenas uma função, ele foi sobretudo Homem. Interessava-se por tudo e não apenas pelo aparelho do Estado, pelos funcionários. Para ele, não estavam em questão apenas os objectivos ou os programas políticos; no centro das suas preocupações estavam sempre as pessoas.

António Justo
Alemanha

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António da Cunha Duarte Justo
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FELIZ NATAL

FELIZ NATAL
2007-12-23

Feliz Natal
e
Próspero Ano Novo

Queridas e queridos visitantes!
Queridas amigas e queridos amigos!

Desejo-vos, de coração, um Natal cheio de graça e alegria e muita saúde, felicidade, sucesso e a bênção de Deus no dia a dia no ano 2008.

Amanhã já é dia de consoada. A paisagem aqui em Kassel já tem um ambiente natalício com a sua brancura da neve e os cinco graus negativos. O frio também contribui para um maior aconchego. Já me alegro ao pensar na consoada.

Depois do stress das compras das pencas, do bacalhau e das prendas vem a preparação da Seia ao entardecer.Com o chegar da noite reúne-se toda a família para a consoada, o jantar da consolação.

Os desejos dos filhos empilhados à frente do presépio e da árvore de natal esperam pacientes pelo seu momento.

Depois duma comida toda ela fumegante a tradição e a espírito familiar passa-se à fase expressiva da noite. Antes da distribuição dos presentes, cada membro da família contribui com algo específico para dar feição adequada à noite. Uns tocam algumas peças de piano, outros lêem uma poesia, uma história por eles feita, ou algum texto natalício. Para terminar a sessão cultural lê-se o texto bíblico que narra o nascimento de Jesus, segundo Lucas 2,1-20. Depois passa-se aos presentes. O filho mais novo irá trazendo as prendas à medida que são abertas.

Finalmente, iremos à missa do galo.

Um abraço natalício cordial

António Justo

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António da Cunha Duarte Justo


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Feliz Natal – – – 2007-12-30
Obrigada pela forma como nos falou do Santo Natal em família. È importante redescobri-la nos tempos de hoje e termos consciência do Menino Deus que Nasceu de noite- a missa do Galo Adoremos o Menino que Vem.

Ernestina Matos
Feliz Natal – – – 2007-12-28
Com tanta coisa, o snhor e a vossa familia deviam ter ficado bem satisfeitos e fizeram uma boa dejestão.
Para mim não foi igual! com os 177 euros e 88 centimos que ganho de reforma, apenas deu para comer uns restos que sobraram do dia anterior.
Mesmo assim receba um abraço e bom ANO-NOVO.

José da Palma
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NACIONALISMO – UMA ARMA PARA IMPOR INTERESSES CAMUFLADOS

NACIONALISMO – UMA ARMA PARA IMPOR INTERESSES CAMUFLADOS
2007-11-29

Numa época em que o globalismo é acto de fé para a economia, por todo o lado rumoreja o ventre nacionalista. O nacionalismo não é doutrina passada. Hoje ele continua muito presente. As tendências nacionalistas, tal como os outros nacionalismos europeus, têm o seu fundamento na ideia do Estado Nacional.

As tendências nacionalistas chegam até à revolução francesa que deu lugar à nação francesa moderna. Por toda a Europa se desenvolveu a concepção do Estado Nacional baseado na ideia de unidade de povo, de estado e de território.

O nacionalismo nasceu com a ideia da homogeneidade nacional da autodeterminação e da pureza étnica. Nos séculos XIX e XX alcançou o apogeu e as últimas convulsões nos Balcãs, com a problemática do Kosovo são apenas uma consequência atrasada.

Norbert Elias afirma em “Die Welt” (22.11.2007) que o nacionalismo é “o sistema de fé mais poderoso dos séculos XIX e XX”. De facto, esta fé secularista deu origem às maiores tragédias de toda a história. Centenas de milhões de pessoas foram vítimas directas desta perversidade humana.

Antes era a ideia da raça e da nação o motor da política e da economia que obrigava ao desalojamento de povos inteiros. Hoje é a economia sôfrega já não de pessoas mas de “forças de trabalho”, que dão continuidade aos problemas em curso. Cada época tem a sua ideologia legitimadora das mesmas forças continuamente presentes na história dos povos e das culturas.
A economia e o poder não olham a meios para se legitimarem. São as estruturas organizadas que determinam a acção social e a sua legitimação. O povo paga sempre, em cada época, a factura. Os seus representantes sucedem-se na administração da miséria ou da exploração.

Os políticos europeus enganam-se a si mesmos para poderem justificar o desalojamento e desenraizamento das pessoas ao serviço duma indústria e duma economia esfomeada. Numa Europa cansada e já não disposta à procriação afirma-se, sem mais, um sistema económico que instrumentaliza a pessoa e prefere manter a pobreza dos estados periféricos do mundo obrigando seu povo a emigrar, em vez de construírem as fábricas nesses países e contribuírem assim para o seu desenvolvimento económico e assim evitarem a necessidade do povo se ver obrigado a emigrar, na fuga ao mal-estar. Segue-se a lei do menor esforço económico e esta tem como preço a pessoa humana. A factura a pagar pelo sofrimento de hoje será, mais tarde, muito cara e dolorosa.

Os políticos falam de multicultura e de tolerância dentro das próprias muralhas para assim desviarem as atenções do povo dos problemas étnico-civilizacionais que se acumulam nos arrabaldes das grandes cidades.

Por outro lado, dão razão ao nacionalismo e à intolerância surgidos nos Balcãs, devido à maior proliferação albana na Sérvia e ao racismo de uns e de outros. Aqui não se defende a convivência de sérvios e albanos, a tolerância entre maiorias e minorias, como se pretende fé dentro da União Europeia, mas dá-se razão ao nacionalismo e ao racismo apoiando-se a separação na Sérvia. Naturalmente que os problemas recentes surgidos na Bélgica e mesmo os problemas de sociedades aparentemente estáveis como a Venezuela corroboram as ideologias nacionalistas turcas, albanas, etc.

As etnias são usadas como fronteiras, como linhas de separação. Infelizmente a lei do mais forte, da economia e não da razão, é a que a história continua a fazer valer como trunfo na história moderna e contemporânea. Falta a consciência do valor e da dignidade do cidadão e da pessoa.

O nacionalismo é contra a civilização; é uma arma para levar à frente interesses anónimos à custa do povo vítima.

Naturalmente que o nacionalismo tem como resultado positivo da sua chacina o alcance duma certa homogeneidade artificial. A velha Europa é o resultado dessas lutas em nome da religião, da nação, da economia, e do povo que tudo legitima. Outros povos encontram-se envolvidos em pleno processo de emancipação. Esta porém não é determinada pela própria força ou fraqueza mas pelos interesses económicos e internacionais aliados aos interesses de elites locais oportunas!

A melhor estratégia estaria numa autodeterminação interna dos povos através dum federalismo com muita autonomia mas subordinado a super-organizações responsáveis. Isso poderá realizar-se quando a dignidade humana individual de cada indivíduo constituírem um valor em si e não apenas um valor funcional.

António Justo

Artigo publicado em Comunidades:

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António da Cunha Duarte Justo
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União Europeia – Razão e Fé

União Europeia – Razão e Fé
2007-10-17

Partidos à Margem da Nova Mundivisão Científica

A Europa foi desbravada com a charrua da fé e da razão. Também Portugal, na sua fase áurea, foi à conquista do mundo, com o arado da fé e da razão, contribuindo com a sua obra colonizadora para o desenvolvimento das civilizações.

Em que se terá de basear hoje a Europa para a conquista do futuro? Na redescoberta da união da fé com a razão, na reunião da filosofia e das Ciências Naturais?

O que resta de Cristão no Ocidente? A investigação do específico religioso na cultura europeia não se pode reduzir a um trabalho de arqueologia. Exige uma tarefa de argumentação dialógica. A Europa é judaica, grega, romana, bárbara, ortodoxa, católica, protestante, revolucionária, dialéctica e mística. Dela surgiu a globalização que é o início da resposta ao espírito novo, à nova consciência do ser humano a que o século XX deu base com a superação das contradições de espaço e tempo no contínuo espaço-tempo e a superação do dualismo matéria-energia. Esta descoberta ainda não entrou na consciência política europeia.

Desenvolvimento da Consciência Europeia
No desenvolver das nações, nos seus altos e baixos, houve sempre uma linha condutora que ligou a Europa. O cristianismo manteve o culto da razão no equilíbrio polar de corpo e alma.

Com o início da época moderna no séc. XVI e a correspondente divisão das ciências e fragmentação política e religiosa, sob a égide das ciências naturais obteve-se um grande desenvolvimento tecnológico na Europa.

Galileu Galilei no século XVI dá início ao credo da nova época determinando o absolutismo da nova ciência com o seu programa:”Medir tudo o que é mensurável e tornar mensurável o que ainda não é.” Descartes com a geometria analítica e o exagero do princípio dualista realiza a separação completa de corpo e alma.

Com a passagem do pensar lógico para o pensar racionalista exagerado, o iluminismo e a Revolução francesa (e seus sequazes) querem banir tudo o que é cristão e substitui-lo pela sua nova ideologia em toda a Europa. Depois da revolução francesa afirmam-se no espaço político dum lado as forças restaurativas (socialismo e republicanismo) e do outro as forças conservadoras. Nesta época o racionalismo impõe-se à razão e à religião desembocando na praxis tecnológica e tecnocrata. A grande actividade renascentista levou também aos becos sem saída mecanicista, materialista e racionalista. A pós-modernidade procura um caminho para sair da crise. O espírito ocidental manteve-se mais num espírito católico que não cede ao dualismo e não se perdeu no experimentalismo.

No século XIX e XX o socialismo queria tornar-se o sentido da Europa. As novas descobertas da física relegam o socialismo para uma ideologia presa ainda no espírito do séc. XIX. O fracasso do sistema socialista e das ideias da geração de 68 tornam-se cada vez mais visíveis. Incapaz de se modernizar a família socialista ainda actua desesperadamente estoirando os seus últimos cartuxos. Procura, com uma determinada maçonaria, influenciar a Europa a nível da sua Constituição e instituições, bem como com intervenções autocráticas, quando se encontram em funções governamentais. Perde-se na luta cultural. O seu problema está em ter perdido o comboio da história e da ciência. Enquanto que o catolicismo muito lentamente se adapta à nova visão da ciência os credos políticos apenas se aproveitam das suas marginalidades mantendo a sua mundivisão antiquada. O seu desespero manifesta-se no militantismo dum progressismo ultrapassado contra uma sociedade de espírito cristão que, apesar de vagarosa, por não ter concorrentes sérios a nível de visões e modelos intelectuais de sociedade, está segura da sua presença no futuro da Europa e do mundo. Os democratas cristãos e os conservadores europeus distanciaram-se do missionarismo marxista mas também eles, desorientados, se deixam similarmente levar pelo mero pragmatismo.

Assim a União Europeia tornou-se numa realidade de grande sucesso à margem da ideia do ocidente cristão. No debate sobre a Europa do futuro, o elemento cristão é imprescindível. Ignorá-lo significaria a abnegação de si mesmo. Há forças ligadas à tradição extremista da revolução francesa (um certo liberalismo, socialismo e o republicanismo laicista), agarradas às velhas ideias mecanicistas, materialistas e racionalistas da velha ciência, que continuam empenhadas em desacreditar a história do ocidente. O laicismo quer declarar a religião como coisa privada. À margem da realidade mundial e dos verdadeiros ideais de democracia, desconhecem que não há liberdade sem liberdade de religião / consciência, tanto a nível público como privado. Optam por um restringimento nacional. Desconhecem a mundivisão da nova ciência e a filosofia cristã. Vivem oportunamente dos erros duma economia abandonada a si mesma.

A história da Europa seria incompreensível sem o cristianismo. A Europa tornou-se uma grandeza geográfica e política através dele. O Ocidente como toda a cultura tem os seus fortes e os seus fracos. Não se pode viver na limitação da nostalgia nem na ilusão dum mundo intacto. Política e religião têm que tomar mais a sério as descobertas da nova física no início do séc. XX. A política para dar resposta aos sinais dos tempos deve rever a sua ideologia com base na nova ciência e a religião deve acentuar o pensar místico incluído na fórmula trinitária que se encontra muito perto da fórmula física.

Um elemento que não poderá ser esquecido no espírito da Europa é também a ortodoxia.
A discussão ideológica e a tentativa marxista e racionalista laicista de impedir a referência cristã na Constituição Europeia e um certo actuar anti-cultural posto na ordem do dia, revelar-se-ão como um erro no futuro dum socialismo integral.

A declaração pelo cristianismo não implica o monopólio cristão do espírito da história europeia. O carácter discursivo do espírito grego, romano e judaico e o ideal da liberdade são aspectos vitais da identidade espiritual europeia. O cristianismo, nas suas várias expressões e o espírito europeu em permanente discurso e constante acção recíproca dos diferentes povos e sub-culturas europeias, com a sua ideia católica, são um modelo exemplar para a configuração do mundo. Isto é óbvio também pelo facto dos princípios éticos serem objecto da discussão e não garantidos pela jurisprudência ao contrário da maneira de estar islâmica e do credo comunista. A civilização cristã é, na sua essência, aberta. Uma praxis europeia com fundamentos na ética, Deus, constituição revelou-se muito oportuna. A constituição está ligada aos valores. Um preâmbulo de Magna Carta que expresse a responsabilidade, Deus, o Homem, a consciência na liberdade do desenvolvimento corresponde ao desenvolvimento da Europa através dos tempos. A Constituição Polaca seria o melhor exemplo a seguir, neste aspecto. Ela fala da responsabilidade perante Deus e perante a própria consciência…

Não há nenhum euro-centrismo na tradição judaico-cristã. As raízes do cristianismo e a sua origem estão fora da Europa. Tomás de Aquino e Alberto Magno possibilitaram a discussão com a Antiguidade. O protestantismo acentua a continuidade dos fundamentos dos primeiros séculos, enquanto que o catolicismo opta por uma apropriação na continuidade. A independência de igreja e estado é específica. A cultura cristã possibilita assim a multiplicidade das formas de vida. Ao contrário do Islão que é anti-moderno e só se comporta tolerante quando vive em diáspora; falta-lhe ainda a teologia. O cristianismo é compatível com as diferentes culturas sem condicionamento hegemónico. Esta é a vantagem do modelo europeu.

O passado europeu ainda se encontra muito presente. Ainda se não reconciliou na relação entre cristãos ortodoxos, católicos e protestantes nem com o laicismo dos ideais do liberalismo da revolução francesa. As experiências sangrentas com a revolução francesa e as guerras civis republicanas ainda se encontram muito presentes na consciência europeia.

O Vaticano II procura a reconciliação. Na verdade o berço da dignidade humana é o cristianismo, só que a instituição se preocupou demais pelo poder, pela instituição. Um pensar baixo laicista persiste em antagonizar cristianismo, liberdade e iluminismo. Nesta luta de galos na mesma capoeira perdem-se muitas penas. A Europa precisa de qualidade espiritual e de perspectivas construtivas. A fórmula é fé e razão independentemente das patologias da fé e da das patologias da razão. A razão tem que continuar a acção purificadora das patologias religiosas tal como o cristianismo terá de purificar as patologias da razão que se manifestaram na concepção do homem como um produto. Também a razão tem fronteiras como se pode ver na bomba atómica e ao passar da lógica para o racionalismo. A esquerda tornar-se-ia infiel a certos princípios que defende se continuar no combate de castelos no ar e na guerra a um cristianismo macarrónico.

O melhor sistema de relação entre igreja e estado é o modelo alemão em que há uma relação de independência na parceria. Este modelo tem naturalmente os seus quês numa nova situação com o aparecimento dum islamismo com elementos ainda incompatíveis com a democracia.
Um processo de aprendizagem estará no trato de religião e política com a liberdade. Isto pressupõe um longo processo. A experiência nos Balcãs pode ser vista como chance ou como ameaça, o nacionalismo bósnio por um lado, uma polónia vital mas muito próxima à ortodoxia por outro. O mundo cada vez se torna mais numa “aldeia” não permitindo que se desça do comboio da história.

A Europa é a alternativa ao poder todo-poderoso das ideologias. Os muçulmanos terão de se abrir ao pensamento científico. Doutro modo haverá o perigo duma Balcanização da Europa.
O laicismo religioso da Turquia fere a liberdade, não sendo compatível com a Europa. Por sua vez os cristãos não podem aceitar que a religião seja reduzida a coisa privada ou sujeita a favoritismo. Os cristãos aprenderam a lição uns com os outros. O individualismo vê o estado e a Igreja como um perigo. A esperança numa liberdade que tudo promete é vã.

A religião será cada vez mais tema. É-o já na Europa desenvolvida. O secularismo terá de se tornar mais humilde e aberto, doutro modo diminuirá bastante, falhando a sua missão. A religião, quer queiramos quer não, permanecerá uma constante evidente. A América é um exemplo em que religião e modernidade não são contradições. A religião faz parte da discussão intelectual. O relativismo ainda vigente em alguns credos político-administrativos é uma ironia acerca do próprio vazio. Na província europeia instalada em certos meios de influência portuguesa ainda se continua a viver da luta pela luta, da luta de pseudo-intelectuais contra a cultura da maioria.

As pessoas procuram Deus, segurança, salvação, comunidade, vida subjectiva expressa em diferentes atitudes. Precisa-se da diferenciação dos espíritos e de diversas modalidades de vida.

A verdade liberta-se na liberdade, ao decidirmo-nos por ela. Muitos terão de aprender a nadar na nova religiosidade. Esta não oferece garantia a ninguém. Pode ser uma chance para todos. A renascença da religião não permite o regresso ao passado apesar dos impulsos muçulmanos. A fixação na autoridade é estranha à realidade cristã e contrária ao desenvolvimento subjectivo.

Sendo o cristianismo a fonte da Europa não deve ser reduzido a arqueologia. O futuro do cristianismo na Europa depende naturalmente do seu número e do seu testemunho e o desenvolvimento da civilização ocidental dependerá da fidelidade ao espírito judaico-cristão..

A Europa foi construída na dialéctica entre tradição e inovação, entre fé e razão. Uma fé não fechada em si mesma mas sempre dinâmica no seguimento da inteligência e amparada pela razão não precisa de temer o futuro. A Europa soube integrar a revolta no seu ser, através duma sabedoria prática.

O cristianismo é também um parceiro imprescindível à União Europeia nas diferentes plataformas de diálogo entre as civilizações e as culturas. Seria miopia assentar as relações internacionais apenas nas forças militares e económicas desconsiderando o papel das ciências e da religião na formação das mundivisões.

Sistemas partidários antiquados
Só modelos totalitários se julgam capazes de dar resposta à perfeita realização humana. Todo o absolutismo abafa o homem. Nenhum futuro, nenhum Deus, nenhum ser humano pode ser encerrado num sistema seja ele político, religioso ou intelectual.

Só a investigação fundamental da ciência europeia do séc. XX conseguiu, com as descobertas de início do século, dar resposta às novas necessidades iniciando uma nova tentativa, uma nova mundivisão e método de trabalho que pressupõe uma nova maneira de estar no mundo. As elites políticas do séc. XX não compreenderam esta revolução científica e continuam fiéis às velhas ideias. Assim aqueles que antes eram símbolo do progresso tornaram-se o seu impedimento, muito embora em nome dele.

Hoje o grande problema dos nossos sistemas partidários é o facto de se manterem antiquados, continuando a aplicar a mundivisão do século XIX, o exagero iniciado no séc. XVI e cujos extremismos se manifestam no (racionalismo), no marxismo, no pragmatismo e no existencialismo.

Desconhecem a nova ciência iniciada com Planc (teoria quântica) e com Einstein (teoria da relatividade que superou o materialismo dualista). As ideologias políticas modernistas, que determinam actualmente o dia a dia político europeu, ainda se encontram prisioneiras das velhas ideias dos tempos modernos que dominaram até ao século XIX. Vivem à margem da nova ciência que superou a velha maneira de pensar racionalista e materialista.

O futuro implica, com a base da experiência da época moderna, a reactivação duma visão complementar de todas as disciplinas, procurando evitar todo o dualismo e iniciar uma nova maneira de encarar a realidade na integração da ciência naturais e humanas. Uma nova plataforma dos partidos terá que assentar numa dinâmica polar complementar. O Universalismo só será possível numa visão integral, não dualista.

António Justo

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António da Cunha Duarte Justo
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