ESCOLA – UMA SOCIEDADE DE TODOS PARA ALGUNS


Ideologia é vida em segunda mão, é vida da cabeça dos outros
António Justo
O primeiro-ministro José Sócrates, enquanto chefe do governo, conseguiu distanciar a escola dos cidadãos para a subordinar aos interesses do governo. Maquiavélico, difama os professores roubando-lhes a dignidade humana e social. Agora, em tempos eleitorais faz promessas aos que antes ofendeu. Com promessas “e bolos se enganam os tolos”!… Conta com a fraca memória do povo e sabe que a isca da ideia pode muito em cabeças vazias ou distraídas! O processo de remodelação escolar por ele iniciado tende à burocratização da escola para a pôr inteiramente ao serviço do sistema e dos que o dominam.

Que o Governo não seja sempre humano nas suas decisões é compreensível, o que se torna intolerável é o cinismo com que têm incrementado o processo de desumanização das escolas. Conseguiu introduzir ideologia pela porta travessa da burocracia, reduzindo sujeitos a objectos. Ideologia é vida em segunda mão, é o estrume que alguns lançam nos campos da nação mas onde só alguns medram.

Uma escola quer-se um espaço livre e isento de política partidária, um lugar de todos onde a comunidade educativa se desenvolve numa dinâmica interrelacional de realização da dignidade humana individual e social.

Uma escola fiel à sua vocação genuína e aos interesses duma sociedade digna do Homem é o lugar da criatividade onde educadores – educandos realizam as suas capacidades individuais, a sua personalidade, numa atmosfera de liberdade responsável. Só um ensino virado para a personalidade, para a pessoa integral e não apenas para o intelecto possibilitará pessoas realizadas, livres e criativas. Um ensino dirigido só para o intelecto cria pessoas dependentes e frustradas. A escola terá de se tornar num espaço livre, numa comunidade educativa de descoberta recíproca. O saber mais profundo e transformador acontece na vivência do testemunho directo.

O sistema democrático partidário vive de ideias, não quer modelos e prescinde mesmo de personalidades íntegras; investe de preferência em ideias à margem de ideais de vida e em pessoas já acabadas e com certezas, não interessadas na procura da verdade. Odeiam tudo o que é processo, ignorando que o ser humano, a natureza e a sociedade são um processo vivo, nunca objectivável tal como a verdade. São relação a acontecer. Isto contradiria os princípios e estratégias que os levaram ao poder: dividir para reinar, desumanizar para mandar. A procura da verdade e a formação de personalidades abertas constituiria um estorvo numa sociedade que querem partida e repartida. Por isso querem uma escola que sirva verdades mastigadas pelas bocas da ideologia, seja ela qual for. Querem uma sociedade de certezas mas não de verdade. Assim, um povo sem personalidade nem personalidades estará sempre disponível e agradecido, chegando mesmo a ter momentos de empertigação ao contemplar as “personalidades” insufladas de poder. Assim se estigmatiza um povo, levada à situação de jarra partida, reduzido a cacos partidos, a ser colados pela cola da inveja…

Por isso todas as ideologias autoritárias são pelo ensino nas mãos do estado, contra a construção duma sociedade civil democrática que purificaria o regime democrático partidário. Por isso o sistema autoritário contra uma sociedade humana aposta em planos escolares burocráticos e não numa pedagogia livre, humana e integral sempre em processo contextuado. Não acreditam na dignidade da pessoa nem na dignidade da sociedade. Querem modelá-la à imagem e semelhança de suas ideologias feitas de ideias ressequidas e nascidas da inveja e do ressentimento, que trazem em si o veneno de toda a criatividade. Querem uma escola prosélita que reduza a dignidade do aluno à categoria de coisa e os docentes a meros instrumentos da sua máquina burocrática. Querem cidadãos convictos de ideologia e não convictos da vida.

Nas manifestações massivas dos docentes, a sociedade portuguesa não se deu conta da complexidade do fenómeno e caiu na esparrela do governo não descobrindo o desejo de liberdade e de criatividade muito escondido por baixo duma classe que consciente ou inconscientemente reagia à ideologia burocratizada na escola. Falta-lhes a vontade e a fantasia ainda latentes na criança depois frustradas com o andar escolar. A fantasia da criança é ocupada pelo intelecto vocacionado para a análise e para conexões lógicas numa visão da realidade como a soma de partes isoladas enquanto que a fantasia e a intuição, que parte duma visão panorâmica do todo para as partes, é sufocada. No aguentam a visão do vaso completo, querem-no partido… Em vez do fomento das forças criadoras naturais da criança investe-se tudo num tipo de escola que ignora as aptidões individuais, estiolando-as no sentido duma adaptação inconsciente a um sistema morto e que vive predominantemente num estado inconsciente. Falta o equilíbrio entre as disciplinas e a aferição das mesmas às idades, falta-lhes a consciência da dignidade humana e da dignidade dos seres em geral. Neste contexto a escola deixa de ser processo possibilitador de processos de humanização e de socialização humana para se reduzir a oficina de adaptação e de reparação de peças para a máquina Estado. A este incomodaria uma escola empenhada no desenvolvimento da personalidade, dado que o que lhe convém é a formação duma sociedade rebanho, com um cidadão tipo cão. A democracia partidária é coesa em si mas desacredita a democracia civil ao privilegiar o fomento duma cidadania canina.

A vida dum povo, duma nação está dependente da sua criatividade e do seu espírito de liberdade. Não é suficiente uma formação geral a nível de TV. Esta retém e oculta a vida cultural e espiritual vivendo duma imagem de homem e de sociedade sobretudo alienante. O homem coisificado é de fácil domínio.

O partido quer votantes e a fábrica só quer braços. A cabeça estorva e o coração só interessa como músculo. Por isso se encontram Estado e Economia tão unidos na transformação da sociedade em mercado e do cidadão em proletário alheado.

Acabou-se com as fronteiras da nação, da raça e da religião para se criarem os canteiros das ideologias partidárias e os lameiros da economia.

Numa sociedade turbocapitalista e de ideais marxistas, o pensamento deu lugar à ideologia, que se revela como o melhor ópio do povo. Neste sentido a escola quer-se reduzida a uma oficina do sistema e não uma instituição processo possibilitadora de processos no sentido da personalidade e dum desenvolvimento superior.

As revoluções não têm sentido, só servem os mais iguais. A construção duma sociedade humana é um processo contínuo contra a alienação e com lugar para o sonho. Só um empenho pessoal e iniciativas na criação de biótopos naturais, com uma atitude crítica perante o Estado e o sistema, possibilitarão uma certa imunidade contra a corrupção e facultará uma cultura civil do humano transcendente, capaz de humanizar a democracia partidária. Só o empenho na humanização do homem e da sociedade poderá ser gratificante e impedir a frustração duma sociedade de cartaz. Não há verdade feita, não há Homem feito, um e outro são a mesma realidade a acontecer.
António da Cunha Duarte Justo
antoniocunhajusto@googlemail.com

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

Um comentário em “ESCOLA – UMA SOCIEDADE DE TODOS PARA ALGUNS”

  1. Meu caro Prof. António Justo:

    Parabenizo-o por este clarividente texto, que tomei a liberdade de repassar a alguns amigos, boa parte dos quais são professores.

    Realço especialmente esta sapiente passagem: "Neste contexto a escola deixa de ser processo possibilitador de processos de humanização e de socialização humana para se reduzir a oficina de adaptação e de reparação de peças para a máquina Estado. A este incomodaria uma escola empenhada no desenvolvimento da personalidade, dado que o que lhe convém é a formação duma sociedade rebanho, com um cidadão tipo cão".

    Na verdade, estamos a caminho de formar educar os jovens como "robôs" e não como futuros cidadãos, infelizmente.

    E a publicidade ou marketing, muito ajuda à alienação.

    Por isso, não devemos baixar os braços e por muito que custe cumpre-nos "remar contra a maré".

    Solidário abraço do Jorge da Paz.

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