PAPA METEU O PÉ NA POÇA

A Irmandade Pio X suspende o negador do holocausto Williamson
António Justo
Com o levantamento da excomunhão do bispo Richard Williamson que nega a existência de câmaras de gás e mais três bispos da ultra-conservativa Irmandade Pio X, o Papa provocou grande reacção não só entre os judeus mas também no mundo católico. Williamson afirmara numa entrevista que pensava que só “200.000 até 300.000 judeus tinham morrido em campos de concentração” mas nenhum deles em câmaras de gás.

É enigmática a razão que terá Bento XVI a levantar a excomunhão aos bispos refractários ao Concílio Vaticano II. O Papa, que no seu livro “Jesus” afirma o parentesco íntimo entre Cristãos e Judeus, e que sempre se ergueu contra o anti-semitismo e contra a negação do Holocausto, provoca agora reacções muito controversas.

Os críticos do Papa afirmam que ele tem tomado medidas que fomentam mais as forças conservadoras da igreja do que as progressivas. Reintroduziu a oração dos fiéis de sexta-feira santa pelos judeus e o rito da missa válido até ao Vaticano II. Além disso terá nomeado bispos demasiado conservadores e muito discutidos como é o caso de Gerhard Wagner na Áustria.

A Irmandade Pio X tinha sido fundada pelo bispo Lefevre que não aceitou as decisões do Concílio Vaticano II (1962-65). Lefevre continuou a ordenar padres contra as orientações de Roma. Por isso, em 1976 foi suspenso “a divinis”. Em 1988 consagrou também quatro bispos, obrigando o Papa João Paulo II a excomungá-lo a ele e aos bispos, por os ter consagrado sem ter recebido missão para isso, missão essa que tem de ser consignada por bula de nomeação papal. Segundo o Direito Canónico a consagração neste caso é “não permitida” mas “válida”.

À irmandade pertencem quase 500 padres e, segundo se diz, 600.000 fiéis. Ela está internacionalmente presente em escolas, seminários e tem um convento e três universidades (www.fsspx.org).

Com a medida do actual Papa dá-se fim a um cisma que nenhuma das partes queria.

O preço a pagar é muito alto. As relações diplomáticas com o Vaticano chegaram ao rubro. Alguns teólogos chegaram mesmo a pedir a demissão do Papa e outros grupos aproveitam-se do caso para acusar a Igreja Católica de anti-semitismo.

Bento XVI o que faz, fá-lo sem tomar em consideração o que se pode pensar cá fora. Bento XVI é um Papa moderno mas, como se diz, não toma banho nas águas modernas. Ratzinger irritou os progressistas da era 68 ao não alinhar nas ondas das ideias da moda. Para estes consistia já provocação quem se manifestasse satisfeito com o Catolicismo. Como perito do Concílio Vaticano II, Ratzinger defende as teses progressistas e o agiornamento da Igreja. Homem da intelectualidade, em 1984 afirma que o comunismo “é uma vergonha do nosso tempo”escandalizando assim os pacifistas que viam no comunismo uma esperança. Para o professor universitário, a mudança não é valor em si pelo facto de ser mudança. Para ele a Igreja não segue pura e simplesmente as ideias do povo nem as publicadas nem tão-pouco as dos poderes secretos. Primeiro fá-las passar pelo crivo dos peritos. A ideia de “igreja de base” ou de “igreja do povo” tem razão de ser a nível pastoral e diocesano.

Pelos vistos, o Vaticano não fez suficientes pesquisas e Bento XVI foi mal aconselhado antes de reabilitar o bispo. O Papa não sabia da posição de Williamson sobre o Holocausto. Hans Küng diz que Bento XVI se encontra bastante isolado do mundo exterior ao Vaticano. “Ele não nota como as suas acções chegam ao mundo”. O Presidente da Conferência Episcopal da Alemanha exigiu mesmo a exclusão de Williamson da Igreja.

É verdade que o Papa Bento XVI meteu o pé na poça mas a campanha histérica e generalizada contra ele, a ponto de alguns teólogos pedirem a sua demissão e de anticatólicos quererem reduzir a igreja a um punhado de conservadores já tem sabores de campanha. Naturalmente que as riscas conservadoras da Igreja com a absolvição dos rebeldes ameaçam tornar-se mais largas. A posição da “Irmandade Pio X” permanece problemática. De facto Lefevre não assinou o decreto do Vaticano “Sobre a Liberdade Religiosa”. Não aceitou a reforma litúrgica com o uso das línguas vernáculas em vez do latim. Mantinha o ideal da união de Igreja e Estado e, à maneira muçulmana, não aceitava a ideia de igualdade de direitos religiosos. Ele via nas determinações do Vaticano II “compromissos falsos com o liberalismo, o modernismo e o comunismo”. Com isto, o ultra-conservador Lefevre marginaliza-se a si mesmo.

Para melhor compreensão concretizemos os factos: quatro bispos pediram ao Papa para lhes ser levantada a excomunhão, a que o Papa acedeu na esperança de preservar a unidade da Igreja. Este facto não concede a possibilidade do exercício do episcopado para os quatro bispos. Por outro lado não é missão da Igreja controlar o credo político dos seus membros dado a Igreja ser uma comunidade de crentes e não uma união de aficionados políticos. O direito à parvoíce é um postulado humano que já Nietzsche defendia e é válido também para os membros da Igreja. A Irmandade Pio X suspendeu Williamson do cargo de director do seminário para padres na Argentina. A negação do Holocausto é um delito penal, um caso para a justiça e que o ministério público alemão passou a processar ao tomar conhecimento das suas declarações públicas.

Da declaração do Vaticano, o mais importante é a exigência de retratação do negador do holocausto e determinar que a condição para os rebeldes serem admitidos, é estes reconhecerem as decisões do Vaticano II. Só depois disto poderão ser reabilitados os quatro bispos e os sacerdotes. O cisma Jerárquico é um problema grave para a tradição e continuidade da Igreja.

Naturalmente que numa sociedade que vive da mão para a boca e vive de alguns balões da fala é ameaçadora a ideia dum retrocesso na Igreja Católica. Por outro lado o Papa parece considerar-se um Papa de transição sem tempo para tomar medidas arriscadas mas necessárias.

A ponte que Bento XVI procura lançar aos conservadores deveria lançá-la também aos defensores de inovação em questões como a permissão de mulheres à ordem do diaconato e do sacerdócio, o casamento dos padres, a facilitação da vida sacramental a divorciados, um certo arejamento na sexualidade, etc.

Naturalmente que o mundo ultra-conservador muçulmano com o seu sucesso na defesa de ideias tradicionais e uma intelectualidade esquerda por um lado defensora daquele e por outro lado fanática contra tudo que cheire a catolicismo ou cristianismo não facilitam atitudes que provoquem a mudança esperada na Igreja.

Seria um grande mal para a sociedade fazer de Bento XVI vítima da propaganda do preconceito, tal como certas forças fizeram de Pio XII. Muitos, que nunca leram sequer um livro do Papa atrevem-se a acusá-lo da barbaridade de anti-semita. Depois de lançado o boato fica sempre a nódoa. Em relação a Pio XII Pinchas Lapide (judeu) escreveu que Pio XII salvou “pelo menos 700 mil judeus, provavelmente até 860 mil, das mãos dos nazis”. Só de Portugal embarcaram para a República Dominicana cerca de 11 mil judeus por intervenção do Papa.

Há dois provérbios muito a propósito: “Ganha fama e deita-te na cama”; “Deita-te com crianças e acordarás molhado”.

António da Cunha Duarte Justo

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

6 comentários em “PAPA METEU O PÉ NA POÇA”

  1. Caro Justo,

    Como sempre um excelente artigo sobre um tema caricato e aberrante. Ratzinger, ou antes, o papa Bento XVI, que eu, até certo ponto admirava, pois ele é aquilo que se pode chamar um teólogo filósofo, desta vez, desapontou-me. Desapontou-me pela simples razão de que me parece que ele não anda bem a par do que se lá passa fora, para além do Vaticano, no mundo. Um monge pode fazer isso, mas um papa acho que não. Um papa deve estar sempre com os olhos abertos sobre o mundo. Não é este o caso. Como diria o outro: errar humanum est. Mas poderá esta sentença ser aplicada ao papa? Coloco esta questão porque, como todos nós sabemos, o papa é considerado infalível. E agora pergunto: poderá um homem infalível errar?
    E ainda, recuando o papa perante as críticas que lhe foram feitas, reconhecendo que deve revogar aquilo que tinha estipulado, poderá a infalibilidade papal continuar a ter uma razão de existir?

    Pois numa passagem da Constituição Dogmática Pastor Aeternus, sobre o primado e infalibilidade do Papa, promulgada pelo Concílio Vaticano I ( 18 de Julho de 1870, Papa Pio IX. ), pode-se ler o seguinte:

    “ O Romano Pontífice, quando fala “ex cathedra”, isto é, quando no exercício de seu ofício de pastor e mestre de todos os cristãos, em virtude de sua suprema autoridade apostólica, define uma doutrina de fé ou costumes que deve ser sustentada por toda a Igreja, possui, pela assistência divina que lhe foi prometida no bem-aventurado Pedro, aquela infalibilidade da qual o divino Redentor quis que gozasse a sua Igreja na definição da doutrina de fé e costumes. Por isto, ditas definições do Romano Pontífice são em si mesmas, e não pelo consentimento da Igreja, irreformáveis.”

    Lido isto, poderá então o papa revogar aquilo que formulou, ou seja, a reabilitação que ele ordenou dos vários bispos excomungados da irmandade Pio X , entre eles o bispo Williamson que chegou a negar o Holocausto?

    L.C.

  2. Prezado Luís:
    Obrigado pelo seu comentário.

    O Papa não é infalível. Desde o primeiro Concílio do Vaticano (1869/70) o Papa é considerado infalível em questões da fé. Ele pode formular de novo o que já antes era conteúdo da fé da Igreja. Um Papa não pode criar novos dogmas. A infalibilidade refere-se a questões de fé e esta não pode ser mudada. Para mais uma questão de fé para ser interpretada como infalível tem que ser declarada ex cátedra. Excomunhão, uso do preservativo (camisa de Vénus) e outras coisas do género não têm nada a ver com infalibilidade. E na Igreja Católica tudo se subordina ao princípio supremo da consciência individual. O tribunal constitucional da pessoa é o próprio indivíduo. A desobediência “civil” (à instituição) é um direito inerente ao foro individual.

    Também quando um Papa excomunga um membro da Igreja isso quer dizer que é suspenso dos seus ofícios e da participação nos sacramentos e na liturgia da Igreja. O Papa não o pode excluir da Igreja em si. Com o baptismo ele pertence à Igreja (Reino de Deus) em sentido místico que é um sistema aberto. Igreja acontece em todo o lugar onde o espírito de Cristo (fé, esperança e amor) reine. A Igreja é uma realidade espiritual que ultrapassa a igreja como instituicao. Esta é provisória trabalhando no sentido do Reino de Deus. Daí o sentido dos cristãos anónimos. Cristãos anónimos e portanto pertencentes ao Reino de Deus (Igreja) são todos os não baptizados doutras religiões ou não que actuem no sentido do bem. Eles, como os baptizados que actuem no sentido do bem, de Jesus Cristo participam da mesma comunhão, também para lá da morte.

    Hoje, em muitos domínios, torna-se muito difícil apurar-se a realidade. Quem tem um pouco mais de informação do que a que os jornais e a TV em geral propagam só se pode desiludir. Antigamente abundava o analfabetismo por falta de se aprenderem as letras. Hoje abunda o analfabetismo da opinião. Verdade é o que interessa. A opinião pública é mantida e fomentada em grande parte à base de preconceitos cultivados. Hoje a sociedade é dirigida e manipulada pelos Meios de Comunicação que em grande parte não investigam a realidade, trabalham com meias verdades e em geral condicionados por interesses institucionais e de grupos mais ou menos manifestos. Como na Idade Média a informação dependia em grande parte dos padres; hoje está nas mãos dos jornalistas ao serviço do imediato, um jornalismo de encenação.

    Naturalmente que a Instituição Católica comete muitos erros; por outro lado há um anticatolicismo subtil e cuidado pelos mais diversos interesses que vão do capitalismo ao comunismo, da política a muitas organizações que se definem e afirmam no ataque aos outros.
    De facto a imprensa está interessada em tendências afectivas que são fomentadas artificialmente. No caso desta discussão é interessante observar que acusam o Papa de intolerante são aqueles que só provocam e não querem ouvir. Infelizmente o que interessa é fazer opinião, é afirmar. O leitor não tem tempo para controlar.

    Para o Papa ter a hipótese de dialogar com a irmandade Pio X tinha que levantar a excomunhão. Interessante é que, enquanto muitos atacavam o Papa com o atributo de anti-semita, o Rabino Superior de Roma convidava-o para visitar a sinagoga de Roma, para assim dar um sinal.

    A táctica e recomendação de Estaline era; mentir o mais possível e ser perseverante na mentira porque, com o tempo, esta passa a ser aceite como verdade ou, pelo menos, fica algo dela.
    Atenciosamente
    António Justo

  3. Estimado Justo,

    Obrigado pela resposta que, como sempre, foi bastante esclarecedora.

    Mas a verdade é que Bento xvi tem-se tornado, mesmo dentro da Igreja Católica, bastante impopular. E com o descuido do papa, nestas últimas semanas, na Alemanha, a igreja católica perdeu muito dos seus fiéis. Mas terá o papa conhecimento disso? E porque é que cada vez mais católicos abandonam a igreja? O papa já terá reflectido sobre isso? Ou não lhe interessará esse facto?

    O que seria de uma igreja sem fiéis?

    As críticas ao papa, por o que eu tenho lido, não vêm só dos capitalistas e comunistas e outras facções que são contra a igreja católica, mas vêm igualmente dos fiéis e mesmo de bispos da própria igreja católica. Como o Justo mesmo o sabe, muitos bispos e padres católicos criticaram abertamente o papa…

    Cumprimentos:

    L.C.

  4. O Papa meteu o pé na poça… sim senhor!… Qual a posição do actual BentoXVI sobre o Teologia da libertação? (Leonardo Boff .. e Helder da Cãmara).

  5. Ainda bem que todos metem o pé no charco!…
    Quanto aos te´´ologos da Libertação, honra a Igreja não ter excomungado nenhum! Pena é não lhe dar o relevo que merecia!
    No campo das filosofias, da jurisprudencia e das teologias as coisas tornam-se sempre mais complicadas do que se pensa.

  6. Caro Luis Costa,
    obrigado pela nova abordagem.
    O argumento da popularidade, em tempos como os nossos, nos quais, o que interessa mais não é a realidade factual mas em que a opinião publicada é usada como um chicote e a quantidade de informação é tal que chega a ser desinformativa pelo facto de se reduzir a titulos, …mais importante que a informação é tentar conhecer-se o contexto e os interesses que ela serve e que as ditam. Naturalmente que o timing e certas circunstancias em torno do bispo excomungado não são nada boas. Pior ainda quando são aproveitadas para lutas de trincheira. Como sabe, na Alemanha, a luta cultural protestantismo/catolicismo sempre foi utilizada como medida de “profilierung”! Isto confere por outro lado grande nivel `a discussão. A imprensa mais revelante e qualificada da alemanha discutiu mais o profundo da questão não utilizando o caracter epidérmico da questão.Com excepç1b de DER SPIEGEL que tem uma vertente se não anticristã pelo menos anticato´lica. Os medos culturais reais que existem na Alemanha situam-se entre progressistas e conservadores no seio da sociedade. Ambos com argumentos muito va´lidos para cada uma das suas posiões.
    Quanto `as pessoas mudarem de camisa, revela um certo descontentamento. Problema´tico torna-se quando o façam no meio da luta e com informações em grande parte tendenciosas. Muitos dos pobres jornalistas t^^em de falar de tudo e de todos sem terem tempo para investigar os factos. Depois um jornalista e´ publicado por uma agencia noticiosa e depois repetido, sem controlo por outra, etc. Os toureiros matadores precisam não do argumento mas da afectividade cega do touro! No fim quem vence e´ geralmente o Toureador e a carne do bicho e´ dada aos espectadores no pro´ximo talho. Os toreadores do povo gostam de temas como sexo, religião, que usam como bandeirinha sabendo que o povo vai logo atra´s do seu cheiro e assim se torna mais fa´cil de dominar, não precisando de se justificar pelo que fazem ou deixam de fazer!
    O abandono da Igreja não e´ argumento para se tirarem grandes conclusões. Estou certo que se a Igreja Institucional fosse mais fiel a Cristo mais pessoas a abandonariam! O abandono aqui deve-se a uma tempestade num copo de a´gua provocada por ventos dubios.Tambe´´m catolicos como eu criticaram um certo proceder do Papa assim como Bispos também o fizeram. Essa critica foi construtiva e não apelativa `a deserção como certos meios queriam. Para certa gente o que parecia esturbar era o Papa, mais do que o que ele diz. O Papado mexe com muitos interesses dos varios grupos de poder!
    Tambem eu gostaria de um papado mais na linha das minhas filosofias. Compreendo porem que ele tem de guiar um barco como a Arca de Noé em que se encontram os mais diferentes animais com os mais diferentes interesses e o que o Papa diz pode ser oportuno para a Europa e não o sera´ para a A´sia.Alem do mais a Igreja não é um partido. Nela tem de haver lugar para o Homem e este pode ser de esquerda ou direita, ter uma posição social ou outra…
    Neste tempo porém tenho bastante compreensão para com o Papa porque a nivel de media pertence aos atacados `a margem duma argumentação com conhecimento de causa. Tambem houve quem o atacou quando na Alemanha fez uma citação que solicitava dos muçulmanos a integraç1bo do argumento racional em questões de fe´. Tambem muitos politicos mais que numa discussão séria, estão interessados em p^or o testo sobre o panelão popular para que não saiam os maus cheiros para fora! Certo é que o discurso do Papa aos cientistas na Alemanha provocou maior coragem nos intelectuais na abordagem de temas interculturais e religiosos.
    Um abraço

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