Nua! Toda Nua! No Seio da Igreja!…

Performance duma Artista Alemã na Documenta

Sim! Mesmo sem nada impuro ou artificial a cobri-la! Uma mulher, na nave da igreja, tal como a mãe a dera ao mundo! Um escândalo ali, no regaço da Igreja mãe, a filha duma outra mãe, nascida na polónia gera uma ideia; uma ideia não, um vendaval de ideias que fazem lembrar dores de parto ou gorjeios de alegria. Enfim, um acontecer maternal na maternidade Igreja: um grito pelas origens ou por uma comunidade mais mãe?!

Como de costume, os que precisam de mais agasalho, o agasalho da cultura, criticam e os que precisam da natureza com os seus improvisos louvam. Na discussão pública duma imprensa impúdica cada um procura empacotar aquela obra de arte à sua maneira!

A Igreja evangélica de S. Martinho concorreu para a exposição mundial de Arte denominada Documenta, com um contributo sob o tema “O que nos traz (transporta), o que nos suporta (mantém)?” A artista Patrycia German no âmbito duma performance deixou-se levar nua por 4 homens em tronco nu, perante um público de 100 espectadores na Martinskirche em Kassel num programa paralelo à Documenta na representação “80 vs 4”. Com esta performance a artista diz querer tematizar a falta de defesa bem como o terror da beleza na nossa sociedade na qual as pessoas são reduzidas a uma medida ideal. Pelos vistos a artista não queria ofender nem provocar ninguém. Ela mesma sentiu-se levada pelo público sentindo-se ao mesmo tempo frágil e indefesa. Talvez os braços da comunidade sejam demasiado musculosos para não tornar inseguro um indivíduo cujo escudo é apenas a sua nudez!

Uma performance que na sua singeleza feminina deixa mais matéria de reflexão e comentários do que a maior parte dos sermões dominicais que embora doces e humanos parecem continuar masculinos.

Para uma sociedade civil e uma comunidade religiosa acostumadas a rituais de nudez rude e a actos de desvergonha, esta Performance não foi obscena se bem que estranha. Desculpante é o facto da artista não ter actuado dentro duma acção litúrgica e a paz das paredes das igrejas parece tudo aguentar.

A Igreja foi durante séculos o lugar de nascimento da arte. Alguns sentem expressam a necessidade e urgência de a arte em toda a sua vitalidade voltar à casa paterna, ou melhor, materna. Outros dormem e ainda outros impacientes procuram abrir as portas sacrais ao espírito do tempo, promovendo assim um espírito legítimo mas não oportuno porque contra o Espírito.

Talvez a acção de Patrycia German possa acordar muita gente nas cúrias para reencontrarem a arte no seu meio e fomentarem artistas imbuídos do espírito pentecostal que é liberdade. Isto pressupõe coragem e referência. Muitas instituições e personalidades da vida pública limitam-se a encostar-se ao nome passageiro de alguns artistas bem cotizados no comércio público, levados apenas pelo espírito da moda. Assim perdem a oportunidade de fomentar vocações artísticas no próprio meio, dançando ao toque do espírito do tempo servindo-o ingenuamente.

A direcção da Martinskirche mostrou coragem manifestando talvez desta maneira a necessidade da Igreja se abrir à arte e de se movimentar mais no centro da vida. Uma igreja como lugar aberto ao mundo e ao público.

Em discussão põe-se um problema de fronteiras e limites, de sentido e missão. Precisa-se de uma igreja aberta ao profano mas atenta à profanação. Ela não pode transformar-se no lugar da entropia e da indiferença. O problema é que a linha de fronteira entre profano e sagrado passa pela nave central da Igreja e acontece no centro do Homem. O ser do homem é ser sagrado em profanidade, uma unidade indissolúvel.

Para quem vê na Igreja um espaço de devoção a liturgia da artista vem questionar a outra liturgia, a dominical, que se realiza na igreja considerada própria, como lugar de meditação, espiritualidade e de diálogo com Deus. Se se procura na igreja consolação, apoio, sossego, encontro consigo mesmo e vivência de fé na comunidade, certamente que aquela forma de liturgia pode perturbar. Além disso, num tem em que um mundo secularista fanático só procura olhar para a sanita da Igreja, num tempo em que a Igreja apresenta algumas arranhaduras e demasiada rotina na sua hierarquia, é compreensível uma certa autodefesa por parte de muitos. De facto a comunidade paroquial, embora tenha necessidade dum rosto próprio, não se pode transformar numa sociedade ao som dos tambores da praça pública. A exitação e reacção exageradas comuns a acontecimentos como este só servem posições e estruturas instaladas que consideram as pessoas como meios ou como súbditos.

Importante é a tematização do problema da abertura da Igreja e o seu significado para a pessoa e para a sociedade num diálogo equilibrado e calmo entre sagrado e profano.

Relevante é que todos tenhamos menos medo de sermos nós mesmos e de sermos transportados nos braços duma comunidade, confiantes e sem receio. Então, nem o medo da nudez nem o da roupagem nos dominará.

Da discussão e da crítica surge mais luz. A esperança é o seu suporte e o amor, o seu ser. De resto a vida é um escândalo! Só não se admira quem já resignou, quem já vive no descanso dos mortos!

Talvez a artista tenha saudade duma comunidade com a vitalidade manifestada no gesto de Jesus perante os vendilhões do templo. Para isso ela precisa compreensão e ajuda de todos.

António da Cunha Duarte Justo

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

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