O VALE DO SILÍCIO E A ESCOLA DE SAGRES – MITOS DA SUSTENTABILIDADE!

A nova Economia da Rede Digital e o correspondente Pensar comercial

Por António Justo
Cada civilização e cada época precisam dos seus mitos que lhe possibilitam a sustentabilidade de futuro. Em Torno do infante D. Henrique congregaram-se os mestres das artes e das ciências ligadas à navegação; a concentração dos sábios da época num determinado lugar possibilitou o mito de Sagres que se tornou na expressão motivadora do começo de uma nova era mundial.

Também agora, no seguimento dos líderes da Universidade de Stanford ligados ao Venture Capital (1), se acentua o mito do Vale do Silício (Silicon Valley Califórnia) que parece inaugurar, como Sagres, uma nova era. Vale do Silício é a capital do mundo da indústria de TI (tecnologia da informação) e da alta tecnologia. Aí se juntam ideias arriscadas com o capital de risco (2).

O génio ocidental sempre soube juntar o saber (a verdade) à dúvida que se revela como a incrementadora de desenvolvimento e futuro (a característica da civilização ocidental). Esta mensagem original encontra-se já na alegoria bíblica de “Adão e Eva” onde se junta o saber divino à dúvida humana na pessoa de Eva que inicia assim o desenvolvimento humano e a cultura civilizacional.

Numa dinâmica de tentativa e erro o ser humano tem encontrado maneira de dar forma ao seu desenvolvimento. Neste sentido tal como na relação do dia-noite se expressam, tal como na Bíblia, duas dinâmicas de pensamento complementares: o pensar optimista e o pensar pessimista.

Em relação ao novo mito da economia virtual, o publicista alemão Christoph Keese, que creio nas pegadas do Adão e Eva dos nossos dias, faz uma análise do Silicon Valley no sentido de se fazer uma ideia do que se pode esperar do vale mais poderoso do mundo. Keese, no seu livro “Silicon Valley”, movimenta-se entre medo e admiração na análise que faz da Economia de Rede Digital cada vez mais orientada para o mercado e cada vez mais fomentadora de uma nova maneira de pensar: o pensar comercial (3).

A Ideologia eclética do Risco

O empreendimento digital possibilita novas conquistas da realidade e do globo, transformando a práxis das antigas empresas em movimentos empresariais. Der Spiegel n°10,2015, refere que a capitalização bolsista das 30 empresas mais valiosas do mercado Silicon-Valley já é mais do dobro da capitalização das 30 empresas de Dax. Grande parte das empresas mundiais actuais nasceu no Vale do Silício (4). Por aqui se nota que o futuro irá, em parte ou em grande parte, no sentido da filosofia das empresas “Vale do Silício” que têm como credo a inovação cientes de que “quem não arrisca não petisca”.

A mesma revista faz referência aos quatro líderes do pensamento da elite tecnológica Vale do Silício: Ray Kurzweil chefe de Google, intitulado de “o profeta”, prevê que os computadores em 2029 conseguirão fazer tudo o que o Homem faz hoje mas ainda melhor.

Para Sebastian Thurn, o “engenheiro alemão”, o optimista é quem muda o mundo, não o pessimista. De facto o optimismo baseia-se na esperança e na realização de um mundo melhor. O optimismo assemelha-se à água que não destrói mas apenas se desvia deixando com o tempo as marcas da sua presença. Trata-se de um optimismo humilde por não ter a certeza de saber para onde vai nem saber onde termina a viagem.

Joe Gebbia (o conquistador), criador de Airbnb, pensou revolucionar o turismo e fazer concorrência a actores financeiros internacionais que manobram a indústria hoteleira. Gebbia possibilita, como monopolista, uma certa democratização da economia. Estão presentes em 190 países ou seja em 34.000 cidades. Por um lado os novos monopolistas cibernéticos fomentam mais transparência concorrendo com os chefes locais a nível de economia e de política, por outro lado despersonalizam o indivíduo tornando-o objecto transparente.

Peter Thiel, “o ideólogo”, defende o princípio liberalista: Prosperidade e felicidade querem-se para todos através de tanta autonomia quanta possível e de tão pouco estado quanto necessário. Para o alemão, Peter Thiel, o mundo dos Bits conquistou o mundo por ser isento de regras retardantes, ao contrário do mundo dos átomos, como medicina e transportes, que devido à regulamentação estatal não se desenvolve tanto. Thiel defende os monopólios e quer a construção de cidades navegantes em águas internacionais (Já serão de prever as contendas que surgirão na luta pela ocupação das águas marítimas internacionais, isto certamente na lógica da Conferência de Berlim de 1815!). Thiel justifica os monopólios: “Monopólios criativos possibilitam novos produtos, dos quais todos têm proveito”.

Para os cientistas do Google a política, com as suas regulamentações, desacelera o progresso porque “tudo acontece globalmente mas as leis são locais. Isto já não se enquadra no nosso tempo”.

O novo tipo de empresas tenta reunir em si a economia, o pensar esotérico, o socialismo cultural e o capitalismo liberal. Os impérios digitais parecem interessados apenas na prosperidade e na satisfação individual; a manutenção da multiplicidade dos biótopos culturais não lhes interessa. Um dos preços a pagar começa pela perda da esfera privada e pela renúncia à protecção de dados, como todos já sentimos no Google, Facebook, Yahoo, etc. O preço da própria satisfação é desnudarmo-nos.

Da Era dos Coches e dos Cavalos para a Era dos Automóveis e da Internet

O movimento de autonomia individual vê, na Elite tecnológica, a possibilidade da sua maior extensão; por outro lado o movimento tecnológico globalista e a economia virtual em via esvaziam as autonomias regionais, porque tentam ordenar a sociedade numa perspectiva de cima para baixo ao contrário de uma natureza que se desenvolvia de baixo para cima. A realidade global determina contínuos desafios. A política e a pastoral dos temos da era da velocidade do coche puxado a cavalo terão de ser aferidas à era dos aviões e dos computadores. Num mundo da eficiência para quem quer ser eficiente, a estratégia de Gebbia é “pensar como a pessoa que vai utilizar a tua ideia”.

A “ideologia califórnica” pretende a felicidade e a autodeterminação do indivíduo. Vale do Silício prossegue essa ideologia no sentido de “tornar o mundo um melhor lugar”.

As boas intenções do Vale do Silício esbarram com a dúvida, ao serem confrontadas com a verdade dos Goldman Sachs, Stanley, Lehman, etc, instituições sem alma, onde o proveito e a ganância são lei.

Para se não ser prisioneiro do tempo é preciso compreender o tempo. De facto, o que provocou os Descobrimentos foi a dedicação ao saber científico e tecnológico da altura, o saber e a vontade concentrados em Sagres e tudo iluminado pela fé numa missão ambiciosa; esta fé tinha porém uma componente religiosa de humanismo global bem determinado e arreigado no coração de um povo inteiro que afirmava ao mesmo tempo o valor da pessoa e o valor da comunidade.

No tempo dos coches, quando apareceu o automóvel, os pessimistas condenavam os carros por assustarem os cavalos, hoje condenam a internet por prender as pessoas. Não há que parar o tempo nem o desenvolvimento; a função do Homem será acompanhá-los e dar-lhes sentido à imagem do que aconteceu em torno de Sagres.

Se observamos o desenvolvimento da sociedade e da História verificamos uma constante mudança a nível exterior; uma mudança que vem servindo um satus quo sustentável pela ilusão da mudança que, de facto, não muda a essência das relações sociais e humanas porque a mudança adquirida é provocada pelos detentores do poder e seus herdeiros que reduzem a mudança à mera adaptação às circunstâncias e às necessidades do tempo. A política fracassada afirma-se no mesmo erro aceite que lhe dá continuidade. O Homem muda para não se mudar.
A reflexão continua no próximo artigo sob o título: “OS RISCOS DO CRENTE AD HOC COM UMA IDENTIDADE INTERNET”

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e pedagogo
In Pegadas do Tempo www.antonio-justo.eu

1. Venture Capital = capital de risco; em 2014, os investidores aplicaram no Vale do Silício, em cerca de 1.700 negócios, um total de 26 bilhões de dólares, o que corresponde a 30% do capital de risco mundial, http://blog.wiwo.de/look-at-it/2015/01/14/venture-capital-2014-silicon-valley-26-milliarden-dollar-deutschland-3-milliarden-dollar/
2. No “Silicon Valley” trabalham as pessoas mais qualificadas do mundo, entre elas 20.000 alemães (cf. http://www.capital.de/dasmagazin/silicon-valley-nicht-nur-was-fuer-milliardaere-4457.html).
3. Com o tempo nas escolas as aulas de programação farão parte da aprendizagem regular tal como ler, escrever e fazer contas.
4. No Vale do Silicon nasceram, entre outras, as empresas mundiais: Apple Inc., Altera, Google, Facebook, NVIDIA Corporation, Electronic Arts, Symantec, Advanced Micro Devices (AMD), eBay, Maxtor, Yahoo!, Hewlett-Packard (HP), Intel, Foursys, Microsoft etc.

500 € DE MULTA PARA CRIANÇAS MENDICANTES

O Senado de Berlim planeia elaborar um regulamento contra o abuso de menores proibindo a mendigação a crianças menores de 14 anos. Uma infracção ao regulamento será penalizada com multa até 500 euros. Em Bremen, Munique e Viena já há legislação semelhante.

Por vezes vêem-se ciganos com crianças a mendigar nas ruas, mesmo no tempo das aulas. De facto encontram-se, em muitas regiões, mães com crianças nas ruas, à frente de igrejas, supermercados, etc. A cultura cigana tem a tradição de mendigar. Na Alemanha vivem entre 80 e 140 mil ciganos (Roma); em Portugal calcula-se entre 30.000 e os 90.000 ciganos portugueses. Uma criança pedinte provoca mais compaixão do que um adulto; o emprego de crianças (e até de animais) torna mais eficiente o peditório. Crianças são assim, muitas vezes, instrumentalizados e impedidas de ir à escola. O bem da criança, na perspectiva da ordem social maioritária, é posto assim em perigo.

Há funcionários em algumas cidades que recomendam não dar esmolas a crianças para que estas não sejam exploradas.

Crianças ciganas apresentam taxas elevadas de insucesso e absentismo escolar (especialmente de meninas) devido à própria mentalidade cultural e ao etnocentrismo escolar da comunidade acolhedora  não adaptado a diferentes formas de viver. De notar que há muitas famílias ciganas bem integradas na sociedade maioritária.

Torna-se difícil avaliar e falar de situações de pessoas que vivem à margem da sociedade maioritária, sejam elas ciganas, os sem-abrigo, moradores de rua, etc.. O mesmo se diga da suficiência da previdência social a que podem recorrer. Tudo isto não é fácil dado não se poder proibir a pobreza nem ser possível a existência de um sistema exemplar aceite por todos.

António da Cunha Duarte Justo

www.antonio-justo.eu

CULTURA DA MUDANÇA ENTRE SONHO E LIBERDADE

A alta tecnologia promete sonho mas consome liberdade – Tudo e todos têm de mudar

Por António Justo
Encontramo-nos num processo de desenvolvimento em que o pensar linear será substituído pelo global e em que consequentemente as visões da realidade a-perspectiva substituirão paulatinamente as actuais visões e equacionamentos lineares da realidade. Passaremos do tenho razão para o temos razão, atendendo à consciencialização da complementaridade dos diferentes biótopos da natureza, da complementaridade dos diferentes biótopos culturais e da complementaridade dos diferentes sistemas de pensamento e à fragilidade da formação da opinião regulada por monopólios globais. A estratégia que se encontra por trás desta mundivisão aproxima também a linguagem e metáforas de mitos e religiões às expressões e concepções científicas.

Iphone, automóveis com propulsão própria, drones usados no comércio como serviço de entrega, robôs inteligentes, etc. parecem substituir cada vez mais o Homem reduzindo-o ao papel de espectador. A alta tecnologia promete o sonho à custa da liberdade. O exercício do pensamento passa para os computadores e a força revolucionária parece ter passado para a técnica e o trabalho manual é cada vez mais substituído pela produção mecânica. Tudo isto está a provocar uma mudança radical das nossas impostações éticas, da nossa maneira de pensar e agir. É o que se observa e sente hoje que nos encontramos em pleno epicentro da revolução Vale do Cilício: uma revolução que quer tornar possível a felicidade individual realizada através dos padrões de grandes monopólios anónimos à margem de democracias, das culturas e das religiões. Aristóteles diria hoje em termos portugueses: ”nem tanto ao mar nem tanto à terra”.

Aos industriais e aos barões do petróleo sucederam-se os Bancos e os Gestores de fundos Hedge. Actualmente encontra-se em via de realização a era da revolução digital – com os génios dos computadores e das altas tecnologias.

Antes os líderes contentavam-se com o poder da riqueza depois passou-se ao poder do dinheiro. Hoje os líderes do mundo (protótipo Silicon Valley na Califórnia) querem mais; aspiram a determinar não só o que consumimos mas também a maneira como consumismos e como vivemos juntando na mesma mão (ou organização) o ideário, a economia, a ideologia e a produção numa Agenda bem definida. A nova ideologia-praxia é tentadora porque sabe empregar também a linguagem e as metáforas das religiões e das literaturas.

Religiões e outras instituições abertas aos sinais dos tempos terão de estar atentas às suas estratégias! Delas poderão aprender muito em termos de resposta ao globalismo.

No princípio era a fé em Deus, depois veio a fé no dinheiro e agora experimenta-se a fé na mensagem da Alta Tecnologia como doutrina de salvação, que transfere a esperança para a perspectiva das possibilidades infinitas da tecnologia! (Já há pessoas que se deixam congelar para serem descongeladas na altura em que a técnica tenha descoberto soluções para a morte – uma ilusão que desconhece a realidade do ser criado ou da matéria mas que como utopia dá resposta, à sua maneira, a necessidades do ser humano). Para os apóstolos da nova mensagem, os estados, as religiões, as filosofias tornam-se em empecilhos de progresso. Fixados na sua filosofia que de forma eclética se serve da ciência e da religião como expressão da necessidade humana, elaboram um sistema de ortodoxo-praxia orientada pelo desejo criativo que se realiza na inovação. Reduz-se o ser a uma determinada forma de estar na vida. A ideologia substitui cada vez mais as soluções práticas passando muitos projectos a ser efectuados segundo os óculos da ideologia e do momento.

No princípio era a fé em Deus que se encontrava no âmago do Homem. Hoje é a fé na tecnologia que já não se encontra dentro do homem, dependendo só dele e ao não fazer parte do seu centro corre perigo de o alienar totalmente.

A filosofia da alta tecnologia (economia digital) incorpora nela também Marx e Engels definindo o alienante como aquilo que nos tira do tempo, do concreto; assim se reduz a pessoa à materialidade que se esgota na actividade produtiva que se torna, ao mesmo tempo, fonte da consciência; por outro lado considera a religião, Deus e o dinheiro como factores alienantes que nos desviam da realidade material. A nova fé encontra no Yoga e em exercícios semelhantes uma maneira de estar prática e de subjugar instâncias metafísicas.

A nova alienação prende a consciência humana à sua mera actividade. O produto é a luz da vela que resulta da energia do trabalho e o indivíduo esvai-se nela. A ideologia moderna, que a todos parece iluminar, aliena-nos com produtos conseguidos à custa da desumanização das pessoas reduzidas a mercadoria numa “metafísica” bruta construída, como no caso da vela, a partir da relação produto-consumidor. Aqui dá-se a identificação do indivíduo com o seu destino; tudo é reduzido a indivíduo saído da materialidade para se consumir na materialidade. A promessa do desenvolvimento infinito alimenta a nova alienação do indivíduo que ao ser reduzido a produto passa a ser consumido na ilusão do que consome. A relação entre produtor-produto e consumidor passa a ser a utilização, o imediato. A teoria da alienação em Marx, na sua consequência lógica reduz o Homem a mera biologia animal irracional. De facto, o pensamento, na sua qualidade de abstracto, seria na sua essência uma alienação. Para ser consequente o pensamento marxista e da aliança capitalismo-marxismo teriam então de declarar o fim do pensamento.
Continua no próximo artigo sob o título “O VALE DO SILÍCIO (Silicon Valley) E A ESCOLA DE SAGRES – MITOS DA SUSTENTABILIDADE”
António da Cunha Duarte Justo
In Pegadas do Tempo www.antónio-justo.eu

TURQUIA USA A NATO PARA IMPEDIR A FORMAÇÃO DO ESTADO CURDISTÃO

Território sírio e iraquiano à Disposição da Cobiça ideológica e internacional

Por António Justo
Mais uma vez a Europa ajoelha perante os interesses dos USA. A NATO na reunião de 28.07 conseguiu, mais uma vez, iludir as massas europeias dando indirectamente carta-branca às aspirações de Erdogan que se quer aproveitar da situação para se vingar na etnia curda que aspira à formação de um Estado próprio.

Por interesse próprio os USA apoiam a política turca, embora o governo turco tenha sido conivente com as milícias rebeldes jihadistas sunitas do EI (“Estado Islâmico”). De facto a Turquia tem servido de país de trânsito do terrorismo jhiadista internacional para a Síria e Iraque. A Turquia não permitiu que as bases da NATO no seu país fossem utilizadas para ataques ao terrorismo do EI. O presidente Erdogan anunciou pôr termo ao processo de paz com os curdos precisamente no dia da reunião com os países da NATO. A Turquia não quer negociações de paz com os curdos, prefere o uso da força e a conivência da NATO sob a salvaguarda dos USA. A estratégia da Turquia é enfraquecer os curdos que se têm distinguido na luta contra o Terror do EI e com isto ganhado trunfos políticos internacionais para a causa da formação de um Estado curdo.

Os países da NATO ao dizerem-se em “estrita solidariedade com a Turquia” apoiam indirectamente a política de opressão turca contra os curdos e seguem a política hipócrita no Iraque e Síria ao serviço das grandes potências e dos potentados locais que aspiram ao domínio sobre a zona; uma forma para legitimar uma nova divisão do território.

A criação de uma “zona de segurança” (90 km de comprimento por quarenta de largura) no terreno sírio fronteiriço com a Turquia favorece sobretudo as intenções nacionais turcas de retalhar a zona onde vivem os curdos e assim criar já obstáculos à união curda do lado da Síria; também a transferência de refugiados acampados na Turquia para a “zona de segurança” enfraquece o papel dos Curdos e cria, com a ajuda internacional, situações factuais que impedem a posterior formação de um estado curdo com território ininterrupto. (As potências internacionais comportam-se, fechando os olhos, à semelhança do que fizeram em 1915 para que a Turquia pudesse perpetrar, à vontade, o genocídio aos arménios). A Turquia não tem interesse que as milícias curdas (YPG), aliadas da coligação internacional na luta contra as milícias terroristas EI, conquistem mais território às milícias do EI. A pretexto de se defender contra o EI, as tropas turcas bombardeiam posições do PKK até em terreno turco enfraquecendo também os curdos do Iraque e da Síria. Segundo relatórios de observadores internacionais, as forças aéreas turcas atacam mais os activistas curdos do PKK do que os terroristas do EI.

Nos últimos dias a Turquia aprisionou 1.3000 suspeitos de terrorismo de grupos de esquerda, de curdos e das milícias “Estado Islâmico”. Os USA designaram os ataques contra o partido dos trabalhadores curdos (PKK) como ofensivas de autodefesa. A Turquia tem 15 milhões de curdos, o que corresponde a 19% do total da população. Os curdos, na Turquia não têm direito ao ensino oficial da própria língua. O território correspondente à etnia curda espalha-se por vários estados sob ocupação de potências que não respeitam a sua autonomia.

Conclusão

A Turquia está interessada na destruição do governo Sírio e na separação das organizações curdas YPG e PKK para inviabilizar a concretização da velha exigência da formação de um Estado curdo. A NATO é usada como cortina de fumo para que a Turquia vá criando situações de facto que a favoreçam nas conversações do período pós-guerra. Os USA não abdicam da série de erros iniciados no Afeganistão, Iraque e continuados no norte de África. Destrói-se uma das nações mais desenvolvidas, a Síria, em favor de interesses e intrigas religiosas entre a força sunita (turca) e xiita (iraniana) e a favor dos interesses americanos e aliados contra os interesses russos na região.
António da Cunha Duarte Justo
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“ANTISSEMITISMO” EM TEMPOS DE CRISE E DE CAMPANHAS ELEITORAIS

Jean-Paul Sartre, no Retrato do antissemita (1945) dizia: ”Antissemitismo não é só a alegria do ódio; ele também consegue disposição positiva: na medida em que trato os judeus como seres inferiores e prejudiciais, afirmo, ao mesmo tempo, pertencer a uma elite.”

Lamentavelmente, por toda a Europa se assiste, actualmente, ao crescimento do antissemitismo, da xenofobia e da intolerância em relação ao outro, ao diferente! O mesmo se poderia dizer em muitos casos de posições de um adepto de um partido em relação ao partido adversário.

Em tempos de crise e de eleições não é fácil argumentar sem generalizar nem demonizar o adversário. Cada um apresenta a parte do rosto sujo do outro para com ela tapar a parte suja do próprio rosto.

Se cada um reconhecesse esta prática então ninguém seria tão categórico na sua opinião. Nestas coisas, os intelectuais ou multiplicadores sociais, têm muita responsabilidade, especialmente no nosso tempo em que a radicalização se espalha. Cada qual se encontra absorto nas próprias preocupações, o que nos dificulta ver verdadeiramente o que acontece à nossa roda. Todos trazemos em nós o judeu e a sua sombra; Judeu és tu, judeu sou eu!

Junto a citação de Sartre em alemão que ontem vi ao visitar um museu em Kassel:

„Der Antisemitismus ist nicht nur die Freude am Hass; er verschafft auch positive Lust: indem ich den Juden als ein niederes und schädliches Wesen behandle, behaupte ich zugleich, einer Elite anzugehören.“ Jean-Paul Sartre, Portrait des Antisemiten (1945)
António da Cunha Duarte Justo
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