Portugal entre o Colapso financeiro sem a Troika e a Ruina com ela

Estados fortes e Plutocracia contra Estados débeis e Pobres

Recuperar a Honra de Portugal

António Justo

“Temos uma mentira institucionalizada no país… que não deixa que as coisas tenham a pureza que deviam ter” ”, diz o general Pires Veloso. Quando, os bem alimentados da nação, se atrevem já a falar assim é mesmo grave o estado da nação e justificada a insatisfação. O actual regime democrático, mais que fruto do desejo de liberdade e de bem comum, foi cinicamente construído amoralmente e baseado na manipulação ideológica que permitiu muitos “iluminados” arrogantes apoderarem-se do Estado, e manter o povo na submissão, já não sombria mas risonha. Pessoas corruptas, com o apoio militar, instauram um estado corrupto, sem razão crítica, sob o pretexto dos abrilistas serem os libertadores de Portugal. Sanearam Portugal à sua imagem e semelhança! O povo, atraiçoado pelas elites conservadoras e pelos oportunistas engravatados da ocasião, deixou-se enganar e agora acorda molhado. O maior roubo que se pode fazer a um país é tirar-lhe a esperança, a autoconfiança e a dignidade. Construímos uma democracia duvidosa em que políticos não são responsabilizados pelo seu mau comportamento mas o cidadão sim. As ideologias e os interesses pessoais e de coutos sobrepuseram-se aos de povo e nação.

 

Urge sanear o País desde o Estado à Constituição

A atitude do ministro Nuno Crato, mandando reavaliar todas as licenciaturas que foram atribuídas com recurso à creditação profissional, deveria ser um primeiro passo no saneamento do Estado no sentido de desinstitucionalizar a corrupção; deveria passar-se a rever também as medidas que possibilitam tal creditação. O trabalho seria colossal porque teria de chegar também aos diferentes órgãos de Estado e a uma revisão da constituição portuguesa, nascida sob auspícios ideológicos e partidários! O resto é só maculatura.

 

O saneamento da nação implicaria coragem e vontade para o abandono de regalias adquiridas na base de legislações nepóticas (favoritismo!) e de acções como as de forças de pressão orientadas apenas pela ganância à custa da destruição da economia nacional, tal como acontece com a greve dos maquinistas e outras. Um país que orienta a sua acção na base de aquisição de regalias mata de início a solidariedade e destrói-se a si mesmo impossibilitando a governação.

 

Há muitos portugueses que anseiam pela revolução, esperando que a rebelião comece em Espanha. Os alemães, os franceses e os Ingleses temem a instabilidade do Euro; mais que a desgraça da Grécia ou de Portugal, preocupa-os sobremaneira a insatisfação popular incontida duma Espanha ou duma Itália. As consequências para o projecto EU (Euro) seriam catastróficas. Por enquanto entretemo-nos com a periferia; com o tempo também a França passará a entrar na dança.

 

Uma Alemanha que exige contenção económica aos países menos fortes como Grécia, Portugal, Espanha e Itália, continua a endividar-se apesar duma economia florescente. Endividando-se aposta já na inflação que aos outros não é permitida devido a um Euro de várias velocidades! (A RFA, no seu orçamento federal para 2013 prevê, nos seus gastos totais, 33,3 bilhões com a dívida federal que ocupa o terceiro lugar, depois da defesa também com 33,3 bilhões e dos gastos no âmbito laboral e social com 118,7 bilhões). No que respeita a endividamento para empréstimo, o Estado alemão não tem dificuldade com isso, porque ganha com a diferença do crédito (pede dinheiro emprestado a 2% e empresta-o a 6% ou mais). Por outro lado o banco central europeu empresta dinheiro aos bancos a 1% em vez de o emprestar directamente aos Estados deficitários, favorecendo assim a usura dos bancos que depois concedem créditos a terceiros a preço especulativos. Não será que no caso duma reforma monetária quem mais sofrerá será quem mais poupou? O Japão e os USA não se encontram em melhor situação que a EU. Só que o dólar é suportado mundialmente, podendo os USA produzir bilhões de notas por mês sem que o mundo berre, ao contrário do que faz com a Europa. É que a Europa apesar das diferenças gritantes ainda reserva um bom óbolo para os desfavorecidos do sistema e da natureza e isso desagrada aos tubarões do mercado.

 

Povo vítima de Instituições corruptas e da própria Apatia

 

Os responsáveis pelo colapso económico não são chamados à responsabilidade pelo Estado português que, ao contrário do que acontece na Islândia, assalta a carteira do povo, poupando a dos que se encheram. Facto é que o povo português foi vítima dos governos de Portugal e da especulação financeira internacional. O apoio da EU (União Europeia) e a concessão de créditos aos países pobres parece ter sido para estes poderem fazer compras aos países ricos e ao mesmo tempo terem a oportunidade de beneficiarem as grandes empresas para a competição internacional da nova realidade global (turbo-capitalismo). “Confiaram” na capacidade política e financeira dos políticos estatais e agora vem a Troika, controlar a nação sem se interessar pelo Estado nem para onde foi o dinheiro. Como precisam dos seus mercenários governamentais para executarem as suas exigências não lhes tocam.

 

Os povos da periferia, com uma elite política não habituada a deitar contas à vida, deixaram-se iludir com promessas e histórias de paraísos turísticos, etc. Esta elite, “comprada”, com postos e ordenados especulativos internacionais, permitiu a destruição das pescas, agriculturas, têxteis e das pequenas e médias empresas da nação; pior ainda, concretizam, ainda hoje com zelo, medidas europeias tendentes a destruir as regiões e os seus produtos específicos em benefício das grandes multinacionais estrangeiras e de latifundiários. Agora que a periferia (Grécia, Espanha, Portugal, Itália, etc.) se encontra na dependura especula-se no centro da Europa, se não seria melhor estes Estados optarem pela antiga moeda para melhor regularem o próprio mercado, ou se não será melhor um euro “duro” e um euro “macio”! Tudo desculpa para manter o terreno conquistado!

 

As multinacionais receberam parte dos apoios da EU, destruíram as pequenas e médias empresas e foram-se embora deixando os consumidores dependentes da importação que essas mesmas firmas agora servem, a partir do estrangeiro. Um enredamento bem perpetrado! O chanceler Helmut Kohl preparou as grandes empresas para a concorrência internacional e o chanceler Schroeder açaimou o operariado para a concorrência com o operariado exterior…

 

As nações ricas, cada vez mais ricas ainda, criaram nelas também uma pobreza cada vez mais à medida da pobreza da periferia. A introdução do Euro correspondeu ao abandono da economia social tradicional em favor dum liberalismo económico americano (anglo-saxónico), tendente a criar os Estados Unidos da Europa à medida dos USA.

 

Porque há-de pagar a crise quem não tem dinheiro? Porque não se põem os mais ricos a contribuir para se resolver a crise? Estes já não trazem benefício para o Estado, numa fase em que o capitalismo comunista de Estado (China) tem poder económico e político para aniquilar o capitalismo de cunho privado (de multinacionais internacionais). Os magnates do dinheiro e as nações mais fortes têm-se permitido humilhar os povos da periferia porque ainda notam que estes se mantêm ordeiros. A situação está a tornar-se tão séria que só uma revolta popular séria poderá levar muitos representantes do povo (políticos mercenários) a arredar de caminho, porque a credibilidade internacional destes só vale na medida em que conseguem manter o próprio povo sem a revolta. A não ser que se aceite o surgir de grupos radicais no Ocidente à imagem dos grupos Al Qaida (sistema de guerrilha!).

 

Os que se assenhorearam do Estado português (revolução de Abril no seu aspecto de assalto às instituições) começaram por, da sua janela, anunciar o poder e a liberdade para o povo e por roubar-lho pela porta traseira! A fusão de interesses mafiosos entre políticos, instituições, administradores de empresas públicas e conluio com a justiça inviabiliza um Portugal honrado.

 

Chegou a hora da mudança (conversão) ou da revolução! Como podem ricos e políticos dormir, quando há já gente com fome! Será que a globalização, a EU terá de acontecer à custa da fome. A Europa conseguiu a paz acabando com a fome; agora, que a fome vem, prepara-se a guerra. O povo começa a perceber que os seus governos têm os seus interesses salvaguardados sob a capa dum Estado “padrasto”.

 

O problema não está tanto na escolha de alternativas mas na mudança de mentalidade das elites governamentais (partidárias) que nos têm governado e administrado e dum povo habituado a dançar ao ritmo duma música tocada por outros. Não tempos tido governos nem partidos com capacidade para administrar um Estado e menos ainda uma nação. Os mesmos parlamentos que levaram o país à ruina perderam a autoridade para governar Portugal e a Troika que o governa agora não está interessada nem no povo nem na nação.

 

Resta ao povo a metanoia, não comprar produtos estrangeiros e chamar o Estado e os gestores financeiros ao rego da nação. Estes porém sabem que o povo, como a criança, só berra e não actua. Daqui a falta de esperança com a agravante de que a reconciliação do povo com o seu Estado significaria mais uma vez abnegação. As pessoas sérias do Estado deveriam proceder a um saneamento do Estado e das leis que protegem os que vivem encostados a ele. Só assim poderiam os administradores da miséria readquirir a honra perdida para Portugal poder voltar a cantar “Heróis do mar” e da terra também!

 

António da Cunha Duarte Justo

antoniocunhajusto@gmail.com

www.antonio-justo.eu

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Sobre António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa
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5 respostas a Portugal entre o Colapso financeiro sem a Troika e a Ruina com ela

  1. Carlos Falcão diz:

    Finalmente um pouco de nobreza. Está na hora de resistir e de reunir, porque se Portugal se libertar deste jugo tenebroso e vergonhoso, outros nos seguirão e a luz ainda ténue que já está a expor a ignomínia, talvez possa brilhar com maior explendor.
    Atenciosamente.
    Carlos Falcão
    in A Bem da Nação

  2. Paulo diz:

    Digníssimo António Justo,
    É sempre um prazer ler a opinião de alguém que ainda tem a coragem de a manifestar publicamente no país em questão. Contudo, a experiencia de vida de cada individuo permite uma leitura diferente, não que discorde da sua opinião no geral, mas como artigo de opinião tem a sua (pessoal) desvirtualização…
    Nunca gostei da opinião de militares, principalmente por “crescerem num regime autoritário – academia militar…” e manifestarem ideias unicamente interesseiras e completamente arrogantes, já para não referir um défice intelectual inerente a esse meio.
    Como se refere ao desejo de liberdade e bem comum cinicamente construído… este foi instituído pelos militares (sem dúvida), poucos bem-intencionados, e, muitos que não queriam ir para o ultra-mar e aspiravam a progredir na carreira, vedada aos que não provinham da academia militar.
    Saliento a influência da igreja no regime pré e pós 25 de Abril e que nunca contribuiu para um Portugal livre, nomeadamente, livre das pessoas que refere no seu texto. Lamento que o senhor e outros opinativos “esquecem” de referir sempre esta instituição também mt “democratizada”. Saliento este parágrafo/opinião pela sua vocação/crença, mas nunca de forma pejorativa. Todos nós seres humanos livres, ou deveríamos ser, temos todo o direito a defender as nossas convicções.
    A atitude do ministro Nuno Crato, mandando reavaliar todas as licenciaturas, é mais um Faits divers, principalmente por excluir à partida consequências criminosas e apenas sugerir que “certas” pessoas deverão voltar aos bancos da universidade (possivelmente, mais uma privada) para fazerem “devidamente o seu curso (que não é mais: longe do conhecimento do povo). A “situação” da lusófona vem na continuidade da Univ. Moderna, instituições que os midia muito falaram mas pouco informaram e nunca se discute o ensino no país. Um ensino pré graduado que aniquila a criatividade das crianças e jovens e um ensino superior em parte criado e principalmente desenvolvido por retornados (sem o sentido pejorativo que muita vezes tentam rotular estas pessoas) que devido ao enquadramento do país e como salienta no seu artigo “Pessoas corruptas, com o apoio militar, instauram um estado corrupto, sem razão crítica, sob o pretexto dos abrilistas serem os libertadores de Portugal. Sanearam Portugal à sua imagem e semelhança! O povo, atraiçoado pelas elites conservadoras e pelos oportunistas engravatados da ocasião, deixou-se enganar…”, tiveram a oportunidade de criarem e ocuparem os cargos como senhores professores doutores. Raras poucas exceções, temos instituições de ensino superior que a nível mundial possuem um corpo docente e de investigação completamente incompetente, que exploram os estudantes, nomeadamente os de mestrado e doutoramento, e que se permitem assumirem cargos fora da Universidade (vários) resumindo a sua atividade académica ao que sugam dos seus bolseiros e a umas visitas esporádicas à casa onde supostamente trabalham e que usufruem, muitas das vezes, ordenados superiores aos praticados nas instituições superiores germânicas (país onde o senhor trabalha e pode comprovar que os novos professores universitários alemães ganham 2000 euros mensais). Muito mais poderia dizer….
    “Há muitos portugueses que anseiam pela revolução, esperando que a rebelião comece em Espanha.” Concordo plenamente com o que afirma e não é mais do que reconhecer que apesar das últimas 4 décadas de história recente do país (ditadura e democracia enfezada) os portugueses continuam à espera que alguém lhes resolva o problema e lhes entreguem o El Dorado de mão estendida como os militares fizeram com o 25 de Abril.
    Lamento a continuada demonização dos países mais a norte principalmente da Alemanha, que o senhor também é apologista. Estes países sempre olharam para o seu umbigo apesar de injetarem biliões ou triliões nas economias sulistas da união. Os portugueses, como sempre, nunca quiseram ter uma cidadania ativa e permitiram que todo o que o Sr. escreve acontecesse em Portugal. Obviamente que os portugueses ficaram deslumbrados, mais uma vez, com o dinheiro barato para usufruírem dos luxos da Baviera e outros países, não só europeus. Estes países nórdicos apenas trataram das suas economias responsavelmente e a Alemanha não é paraíso apesar da sua pujança económica. Tem havido redução salarial e também medidas que limitam o crescimento de emprego como o senhor deveria saber ou sabe e não refere, medidas essas que vêm de longa data.
    Povo vítima de Instituições corruptas e da própria Apatia …agora vem a Troika, controlar a nação…
    Sr. António, a troika é o bicho papão que a esquerda, nomeadamente a mais radical, criou com objetivos q vêm de encontro à sua opinião e acerca destes senhores. Contudo, concordo que o FMI não é uma instituição humanizada e José Mário Branco mt diz acerca da mesma na sua canção. MAS é esta e outras instituições europeias que nos permitem viver e acima de tudo que o país tenha dinheiro para termos ordenados. A receita do FMI apesar de básica daria resultados já muito discutidos na opinião pública. Só os portugueses permitem que continuem a ser explorados e que não se aplique a receita do FMI – redução de deputados/câmaras Municipais/freguesias/PPP/empresas públicas….e muitos etc…. Mas não para as mãos do PSD/PS e seus afiliados…. Mas é o povo que deveria fiscalizar e não estar à espera que os espanhóis (ou outros) resolvam o problema.
    …Não tempos tido governos nem partidos com capacidade para administrar um Estado e menos ainda uma nação. Os mesmos parlamentos que levaram o país à ruina perderam a autoridade para governar Portugal e a Troika que o governa agora não está interessada nem no povo nem na nação….
    Ao longo do seu artigo nota-se uma linguagem mais violenta… não que discorde do que diz das nossas elites mas o problema reside nos portugueses, porque deveria salientar o facto de nunca termos tido portugueses com capacidade de desenvolver uma nação (os espanhóis vão-nos fazer esse favor). Todavia, temos portugueses competentíssimos a contribuírem para o desenvolvimento de outros países.
    Sr. António, o problema reside numa sociedade portuguesa que continua mergulhada num sistema feudal e deslumbrada com a possibilidade de um dia ser também uma “sumidade portuguesa”. Enquanto os portugueses não reconhecerem que o problema reside em nós mesmos e “ os outros” nada tem com que ver com a nossa condição miserável e autoinfligida. Obviamente que não deixarão de exportar os seus mercedes e de nos receberem como turistas nas suas cidades magnificas. Isto é apenas o mercado a funcionar – não há chulice como agora todos os opinistas berram….
    Somo nós a razão do nosso mal-estar e somo nós que temos de resolver o problema. Não são os espanhóis ou outros. Mas o futuro é o que as projeções eleitorais apontam – o povo está cansado e nas próximas eleições irá votar no PS, um dos grandes responsáveis pela atual situação económica a par do companheiro PSD e da sua bengala CDS. Assim, observaremos o regresso do Sr. Engenheiro Sócrates, de cara lavada, para concorrer à presidência portuguesa, depois de passar umas férias não muito diferentes do pai da democracia portuguesa Mário Soares….
    Sr. António, gostei do seu artigo, não deixa de ser a sua opinião mas em nada contribuir para uma discussão séria deste assunto. Sem dúvida que os papões estrangeiros nos querem explorar juntamente com as nossas elites e nós povo muito inteligente iremos para a rua gritar, guiados pela polícia numa passividade atroz combater essas coisas de FMI e instituições que ninguém enxerga….
    E assim tudo continuará maravilhoso…
    Com todo o respeito
    Paulo

  3. Prezado senhor Paulo Antunes,

    Estou de acordo com o teor do seu texto, que considero muito importante para pôr em relevo aspectos não mencionados no meu texto. O texto que aqui postei faz parte duma série doutros textos publicados em que também dou valor ao papel dos países nórdicos. Estou consciente também das nossas raízes genéticas e históricas nórdicas e que o Estado português deveria valorizar e consciencializar, na praxis política.

    Preocupado em apresentar as questões sob várias perspectivas, opto por, em cada texto, acentuar mais um ou outro aspecto, consciente da complexidade do assunto.

    Quanto ao ambiente militar, numa altura em que fiz algumas conferências para oficiais, pude ter a experiência com altos oficiais alemães e ficar surpreendido com o seu alto saber geral e também em questões sociológicas, de História e até filosofia e pela responsabilidade do seu discurso.

    Quanto à Igreja institucional também eu constato o seu medo de estar mais presente em questões de Liberdade e responsabilidade política. Refugia-se, por um lado a nível de pastoral no indivíduo, apostando apenas na transformação pessoal e por outro lado a nível de estruturas a conversações de alto nível. Penso que a Igreja Portuguesa ainda se encontra traumatizada devido ao medo e à perseguição que sofreu a partir do século XVIII. Naturalmente que a sua maneira de encarar o mundo, a organização estatal e o foro individual é aberta a todas as mentalidades e perspectivas não podendo actuar como o Islão. O que Portugal precisa é duma mudança de ideário e de mentalidade. Para essa missão terão que acordar a Igreja, a economia, as universidades e elites da cultura. Precisamos duma sociedade menos individualista e mais plural! O ranço medieval ainda ocupa grande espaço na cabeça e na vida das nossas elites. Este ranço é comum à esquerda e à direita, encontra-se à superfície e nos baixios de sociedades! É bem verdade o que refere ao ordenado de docentes de universidades alemãs, tendo muitas vezes de levar muito trabalho para realizar em casa sem qualquer compensação económica institucional. Portugal gosta muito de olhar para os lucros sem “sujar” as mãos com o trabalho. Quem trabalha não é considerado.

    O que refere no que respeita ao ensino é crucial: a situação é realmente dolorosa, porque só um povo bem formado poderá responder às exigências duma sociedade cada vez mais diferenciada mas que por outro lado é extremamente massificadora.

    Prezado Paulo Antunes, tem razão, também penso: o problema do povo português é esperar sem estar grávido; é continuar a esperar por D. Sebastião, um político adolescente! Por isso são tao adolescentes as nossas campanhas eleitorais a apostar para esperanças sem chão para elas.

    Quanto à Alemanha sou um seu grande admirador e reconheço nela uma grande coerência entre o pensamento e acção; A RFA é um Estado com povo e com nação cimentada por uma cultura responsável e cuidada. Os seus partidos, sindicatos e grupos de interesse lutam todos sem perder o sentido de responsabilidade perante o povo e a nação: o mesmo não se pode dizer de Portugal.

    Quando o Paulo Antunes diz “Estes países nórdicos apenas trataram das suas economias responsavelmente e a Alemanha não é paraíso apesar da sua pujança económica” toca na ferida da nossa incapacidade económica e de governação. Também eu pude verificar, no meu ordenado, aqui na RFA, como a Alemanha, a partir de 98 começou a moderar os vencimentos, preparando-se para a crise. A discussão a que assistimos em Portugal dá a impressão das cigarras querem sobrepor-se às formigas!…

    O “povo deveria fiscalizar”; o problema é que para isso seria preciso que o povo tivesse expressão e naturalmente esta só poderá efectuar-se através de elites conscientes e responsáveis, como acontece, duma maneira geral, na Alemanha.

    A violência do meu discurso provém da desilusão com as nossas elites portuguesas (partidos, Justiça, igreja, universidades, economia, sindicatos, etc.) demasiado envolvidos em interesses de confraria para poderem notar o povo e o país! Temos uma riqueza nata desaproveitada e uma burguesia intelectual demasiado arrogante.

    Naturalmente que também a “chulice opinista” faz parte dum sistema amarrado, muitas vezes, ao curto horizonte da confraria. O facto de o mercado funcionar não o legitima no seu actuar. Se a EU quer ser responsável a nível de futuro terá que ter em conta não só o mercado como regulador mas também as diferenças das realidades regionais económicas e as deficiências de estruturas de pensamento de elites não se aproveitando do seu caracter deficitário para as grandes economias.

    O senhor Paulo Antunes resume bem o problema ao afirmar “Somo nós a razão do nosso mal-estar e somo nós que temos de resolver o problema”. O problema é que para lá chegarmos pressupõe-se a vontade e a formação de elites, nos vários sectores, que serão os capazes de puxar a carroça do Estado, apostar no ensino sério e na elaboração de instituições capazes de responsabilidade também nacional.

    O problema é realmente complicado. E os parasitas do Estado, lavam facilmente o rosto, tal como faz agora Sócrates, que bem sabe que o seu charme e a memória curta do povo, lhe remirão todos os erros. Desde o vintismo a nação vê a resolução dos seus problemas no alternar de partido, apostando na ilusão. Se José Sócrates voltasse a afirmar pé em Portugal, isso seria a maior prova da incapacidade do povo português para aprender historicamente e actuar com responsabilidade.

    A seriedade da discussão depende não só do opinado mas também do leitor e do seu interesse para ler entre as linhas. Importante é atingirem-se diferentes públicos e contribuir para se criarem os pressupostos para se sentir que é preciso mudar de mentalidade a nível individual e de instituições.

    Não se trata aqui de desculpar a inércia da nação com papões estranhos. Verdade é que também eles têm o seu quinhão na crise e também isto é necessário que seja dito numa tentativa de ver as coisas a nível aperspectivo e com coragem para errar. Só erra quem faz mas o erro reconhecido é que nos ensina e leva avante. O resto só tem razão!

    Fico-lhe agradecido pela sua tomada de posição que, além do mais, me deu ocasião a uma tomada de posição rápida e sem grande ponderação.
    Atenciosamente
    António da Cunha Duarte Justo

  4. Alf diz:

    É exactamente como diz.

    Há, porém, um aspecto que complica um pouco as coisas. Se os políticos têm um comportamento imoral, interesseiro, etc, não estão sozinhos. Infelizmente, há imensa gente assim. Não são maioria, mas conseguem controlar os outros. Estão em toda a parte – são professores, médicos, advogados, etc. E, tal como as multinacionais agem no sentido de causar recessão nos países onde se instalam para baixar os custos de mão de obra, eles agem para criar desorganização, facilitismo. Os parvos dos outros vão atrás da ilusão desses facilitismos. Um caso típico são os processos de avaliação e os sistemas de controlo de assiduidade – onde abundam os vigaristas nunca conseguem ser implementados porque eles convencem os outros de que tais processos são “atentatórios da sua dignidade”. Na empresa publica onde eu trabalhava, quando puseram um sistema de controlo de entradas a funcionar, descobri colegas que nem sabia que tinha… mas essa era uma empresa em que a esmagadora maioria das pessoas era séria, porque outras há onde não se consegue introduzir sistema de controlo nenhum.

    o problema radica na facilidade com que as pessoas “sérias” se deixam vigarizar; isto terá a ver com a educação: as pessoas que recebem uma educação com “bons princípios” não são ensinadas de que há outro tipo de pessoas – um famoso astrónomo do Porto disse-me: “os conselhos da avozinha são o estigma do fracasso”. É preciso que estas pessoas abram os olhos e talvez esta austeridade iníqua dê uma ajudinha. Mas não se pode esperar muito tempo.

  5. Alf, obrigado pela abordagem ao texto.
    O problema ético que apresenta é de facto premente.
    Por isso tenho defendido a tese que deveríamos ultrapassar a tese de Rousseau de que o Homem é bom! Então também os incautos e as instituições, no relacionamento recíproco, partiriam da ortopraxia na base do princípio confiar é bom mas controlar é melhor!

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