De burguês para cidadão, de cidadão para proletário

Sistema Político a Caminho da Entropia?

De burguês para cidadão, de cidadão para proletário

O Estado cada vez manifesta mais as feições duma sociedade proletária decadente. Sem confiança no cidadão, parece querer reduzi-lo a mero súbdito, a cidadão menor. Governantes não se comportam à altura da nação. Continuamente metem o pé na poça, como se andassem sozinhos a caminho.Manifestam uma autoridade ética proibitiva, sem considerar o bem-estar moral, o contentamento dos cidadãos. Aumenta na sociedade o saudosismo duma autoridade firme e exemplar movida pelos interesses do povo e da nação, não por ideologias. A discrepância entre governos e povo acentua-se numa atitude canina dum agir político sob o ditado da burocracia de Bruxelas. O povo leva uma vida dura embora os Média propaguem uma filosofia de vida sem necessidade de esforço nem de disciplina.

A camada social média, o fundamento da nação, sente-se insegura e até inquieta. Ela diminui e com ela a capacidade do povo intervir na configuração da sociedade. O novo modelo de sociedade pretende que a classe média “passe de cavalo para burro” .

Enquanto na sociedade tradicional, as famílias burguesas financiavam o ensino dos próprios filhos, registando-se um exagero elitista, exclusivista e disciplinador, a sociedade nova segue o extremo oposto abandalhando o estilo de vida social enganando mesmo o povo com a promessa duma vida fácil. A antiga sociedade privilegiava as famílias burguesas, a nova privilegia o desejo individualista catalizado em partidos. A sociedade democrática aberta, socializa o acesso directo aos bens, ao bem-comum, para depois se apoderar dele através de instituições como partidos, lojas e outros elitismos que ocupam os postos na administração pública, na rádio, TV, conselhos fiscais de bancos, empresas, etc. A diferença dos sistemas está no baralhar das cartas. Em democracia apenas se baralham as cartas de maneira diferente, mantendo-se contudo os mesmos ases, reis, valetes, damas e setes. O povo continua palha para assistir.

A filosofia económica neo-liberal, de que a protecção da riqueza adquirida só é possível através do crescimento, leva o Estado a uma maior dependência dos caprichos da economia internacional, que, indirectamente, beneficia a ideologia socialista de administração dum povo reduzido a objecto económico. Também por isso, parecem colaborar tão bem turbo-capitalismo, socialistas e sociais-democratas. (Não se põe em causa a sociedade do mercado livre, o que se questiona é a perca do seu rosto humano.)

Terrorismo islâmico – Um modelo?

O problema do futuro, a aumentar o descontentamento social e a degradação de partes da sociedade, estará na capacidade do Estado para poder continuar a manter o monopólio do poder. O estado, na sua forma, cada vez se aproxima mais da prática do estado islâmico . Falta-lhe porém a coesão da sua crença.

O terrorismo internacional, as insurreições nas grandes cidades, a crescente violência no dia a dia, a desilusão individual, o medo, ocupam cada vez mais espaço da vida individual e social. Também a polícia já começa a ter medo de estar presente em certas zonas das cidades. A falta de futuro e de confiança crescente poderá conduzir muita gente a uma reacção extremista que para impor os seus interesses se organizará em grupos tipo guerrilha nos arrabaldes das grandes cidades apoiados pelos marginais do sistema. Bin Laden, e os “assassinos” imanentes ao seu sistema são uma amostra duma panorâmica possível; prepara-se a vinda dos Viriatos e dos Sertórios. Uma sociedade com grande parte da população a alimentar-se das migalhas que caem das mesas de alguns poucos ou das gotas do estado, degrada a pessoa. A desonra fomenta heroísmos imprevistos. O Deus dos fortes já não os defenderá porque entretanto o desmentiram no seu agir. A Democracia, que se afirmou contra a tirania de sistemas brutais, ao apadrinhá-la, perde a sua legitimidade.

O negócio da necessidade de segurança individual a troco da cedência da liberdade pessoal a favor do Estado está a atingir um nível que começa a ser ameaçador. A prepotência estatal no ataque à privacidade individual, aliada à prática duma política de mercenários a viver do Estado e da filosofia da multa, é despersonalizante. Sem lugar para ele, o súbdito procura alternativas que proporcionem uma perspectiva à sua identidade. A vida da nação parece reduzida a ideologia, sexo e pão. De facto as ideologias são passageiras, a devoção sexual só satisfaz o momento e não deixa projecção, e o homem não vive só de pão… Uma economia e uma política que não se preocupe com o contentamento geral dos cidadãos torna-se questionável.

O terrorismo islâmico tornou-se num pretexto para o Estado controlar o cidadão por razões de estratégia política, fiscal e social. A necessidade de poder da nova potência a surgir, a União Europeia, não pode legitimar a instauração do estado polícia de Orwell. Não estamos nas Arábias nem na China! O Estado parece compreender-se como um espaço cibernético onde reina a unanimidade na abdicação do cidadão e a possibilidade de quem tiver acesso ao banco de dados pessoais, neste caso, o Estado, controlar a esfera privada e se limitar a fazer leis em serviço da estatística contra o navegador número, longe de qualquer humanismo.

Tal como outrora os Romanos defendiam a sua estratégia de luta nas legiões contra a estratégia de guerrilha lusa, também hoje os estados parecem legitimar a sua luta contra o terrorismo, vendo em cada cidadão um potencial terrorista. Por isso, o cidadão encontra-se, neste momento, na fuga da sociedade para o seu foro privado, a caminho dum estádio tribal, que o iludirá na visão duma sociedade em estado de guerrilha, tal como os terroristas já nos exercitam como modelo de auto-afirmação.

António da Cunha Duarte Justo (Continua)

China – Um gigante imprevisível a acordar

Tibete – A esperança de mãos no ar

Os jogos olímpicos pretendem ser um símbolo da paz e da fraternidade universal. Na Grécia, há 2030 anos os tempos olímpicos eram tempos de paz. Em 419 a.C. Esparta viu-se excluída dos Jogos Olímpicos por ter ferido a paz olímpica com os seus exércitos.

Os promotores dos Jogos Olímpicos vangloriam-se da sua grande tradição. O archote do fogo olímpico é levado de Atenas para Pequim, a pé, querendo insinuar o tal tempo da paz.

Os monges iniciaram os protestos, 150 dias antes dos Jogos Olímpicos, exigindo a independência do Tibete e o retorno do Dalai ama. O povo tibetiano insurge-se, desta vez com violência, sendo as manifestações acompanhadas da destruição das lojas de negócios, nas mãos dos chineses.

Do exílio o Dalai Lama, chefe religioso do Tibete fala de “assassínio cultural” dizendo que não querem a independência mas apenas o direito a uma certa autonomia. O regime comunista responde que não aceita qualquer diálogo. Sabe que o mundo vive do proveito da violência e o povo não sabe o que quer. Na sua filosofia não há lugar para a concorrência de interesses. O sistema só reconhece os seus interesses e a paz dos cemitérios. Os chineses são demasiado fortes para permitirem ao Tibete a autodeterminação. O futuro, tal como a natureza, não é determinado pela justiça mas pela força. Na Europa, onde este princípio se encontra um pouco mitigado, encontra-se a força da cultura judaico-cristã que reconhece na pessoa humana um carácter divino, a que a estrutura se não deve sobrepor. Apesar deste espírito subjacente, a história das instituições religiosas e estatais é o que se vê…

Desde 1720, os Tibetanos têm sofrido a aversão sistemática de Pequim na sua pele. O último meio século de ocupação chinesa do Tibete tem sido extremamente violenta no amordaçamento do povo e na destruição da sua língua e cultura. No Tibete, em 1948 não havia chineses, hoje estes constituem a maioria da população. O turismo, o comércio e a indústria estão na mão dos chineses e o povo tibetano é controlado por 100 mil soldados chineses. Em nome do progresso socialista destroem a velha cultura e a população tibetana. O genocídio é indiferente aos olhos da economia e da política. O regime prefere o desespero à esperança. Este monstro a acordar mete medo porque desconhece qualquer humanismo ou compromisso.

O fogo olímpico para os governantes é compreendido com fogo da violência e a oportunidade de polir a imagem da nação no exterior mesmo que à custa do sangue vermelho dos súbditos. Só conhecem a lei do punho cerrado que não a de mãos estendidas.

A política internacional, de braços dados com economia, é surda-muda e cega. Onde os direitos humanos não vingam parece a economia encontrar hoje a sua chance. A economia tem a sua moral: a lei do oportuno. Por isso tenta estender os seus tentáculos nos países de regime forte em que a eficiência da opressão do povo lhes garanta uma certa continuidade na obtenção de receitas económicas. Um país, ou sistema, que não respeita direitos humanos nem o povo, também não pode oferecer garantias às empresas dado também elas estarem ao seu serviço. Tal regime só conhece a nomenclatura, considerando as pessoas e as empresas como meros objectos.

A liberdade é cara, paga-se com as obras, à custa de sangue e este, nestes sistemas, estancou na cor das suas bandeira ideológicas.

As ameaças de boicote tornaram-se no meio político, instrumentos de manipulação dos sentimentos do próprio povo, na sua estratégia de habituação dos súbditos à amoralidade dos negócios, que se regem por desleis… Os Jogos tornaram-se num meio de exibição do poder aos olhos do mundo. Paz e humanidade são assuntos da tautologia. Os valores iniciais dos jogos olímpicos são “águas passadas que não movem moinhos”. Em nome da paz o negócio corre melhor. Para mais, também o povo está sempre do lado da força, sempre de mãos erguidas para aplaudir os vencedores. O ódio e a vingança são as chamas da fogueira em que se aquecem os extremismos políticos e religiosos. A humanidade ainda está longe poder socorrer-se de estratégias substitutas, como as do futebol, para darem largas de forma inocente às suas agressões.

A aceitação do crime, por parte dos organizadores dos Jogos Olímpicos, faz parte da tradição. Já em 1936 o regime nazista de Hitler foi agraciado com a realização dos Jogos na Alemanha. Hitler pôde usar os jogos para projectar a sua quimera. Também Pequim se serve dos jogos para mostrar a sua potência e o vigor da nova Era que irrompe por toda a China: o comunismo real aliado ao mais feroz capitalismo. Também em 1980 os Jogos se realizaram na União Soviética apesar da política desumana de Bresnew. Os sistemas contam com a boa-fé dos cidadãos no bem, fé, esta, de que se aproveitam os que fazem o jogo maléfico. Logicamente, o presidente Hu Jintao não se vê na necessidade de resolver os problemas com o diálogo. A repressão é mais fácil e dar-lhe-á razão enquanto o mundo se reger pelas leis que se rege.

O sistema é coerente em si. Não deixa que os súbditos se apoderem do “burgo” da dignidade humana individual. O súbdito, ao experimentar a liberdade e o suficiente bem-estar humano, tornar-se-ia cidadão, habitante consciente do burgo, da nação, não permitindo mais a arbitrariedade dos dirigentes. O sistema comunista, como os seus parceiros fascistas, sabe isto, por isso se impõe contra o que fomente a personalização e a liberdade do súbdito. A eterna luta de todos os sistemas de poder.

Os jogos Olímpicos poderiam ser um motivo para mudanças estruturais na China. Apesar de tudo, os organizadores atraiçoam o espírito olímpico se não intervêm a favor dos direitos humanos e dos perseguidos e se não se manifestam contra os campos de reeducação para adversários políticos, contra a pena de morte e contra a censura de Imprensa e de Internet.

A corajosa Chanceler alemã Merkel, que no meio dos protestos do oportunismo recebeu há meses o Dalai Lama, e o seu Ministro dos Negócios Estrangeiros já disseram que não querem participar nos festejos de abertura dos Jogos Olímpicos em Pequim. Os representantes da economia não estão de acordo com críticas porque esta lhes pode estragar os negócios. A situação, porém, não é fácil para nenhum dos partidos.

António da Cunha Duarte Justo

PORTUGAL: ONTEM DOS SALAZARES HOJE DOS SOARES

Portugal dos Pequeninos para os Grandes na Corrupção

Portugal ao Desbarato

O Pe. António Vieira dizia: “Quem rouba uma galinha é ladrão, quem rouba um império é imperador!” Se ele vivesse depois do 25 de Abril certamente que acrescentaria: e quem se apodera dum povo é democrata!

Portugal, um país com uma grande cultura e com um grande povo tolerante e trabalhador, assiste de dia para dia a uma degradação social contínua na justiça, na escola, na saúde e na família, sendo, dos 27 países da União Europeia, o país que menos cresce apesar das injecções económicas dos emigrantes e da EU.

Num Estado pequeno e mal gerido a insatisfação e a indignação cada vez ganha mais terreno apesar do estoicismo do povo. Por todo o lado se encontra gente a bater baixinho com a língua nos dentes. O partido dos descontentes, em gestação, promete grandes mudanças num futuro próximo!… A não ser que exportem também a insatisfação, como parece querer um representante do governo: o presidente do controlo da qualidade alimentar (ASAE).

Num regime do faz de conta vive-se em segunda mão, à maneira dum musical de contraste entre dançarinos alegres e leves e suas sombras tristes nos espectadores. O desencantamento, a desilusão, a frustração e o medo estão cada vez mais presentes na sociedade. Apesar de melhoramentos epidérmicos a pobreza e a insegurança social aumentam. O povo, sem contrapartidas, sente-se cada vez mais refém da União Europeia e dum aparelho de Estado com uma voracidade desmedida. Portugal acaba de comprar 37 carros de combate Leopardo 2A6 à Holanda quando isso nada tem a ver com os interesses da nação, dado o seu amigo e rival ser o mar! A confusão de cargos políticos com cargos económicos dão paulatinamente a impressão do Estado ser cada vez mais uma loja de auto-serviço para políticos, tal como deixa prever a imprensa ao constatar que Paulo Teixeira Pinto, Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros – Presidente do BCP –“ Ainda novo e depois de 3 anos de “trabalho”, saiu com 10 milhões de indemnização e mais 35.000€ x 15 meses por ano até morrer”. O mesmo país democrático concede a um trabalhador de 85 anos que toda a vida trabalhou e sustentou 10 filhos, com 30 anos de descontos, uma reforma mensal de 291 euros! Naturalmente que este, aos 85 anos, tem de continuar a fazer biscates para poder defender a dignidade humana que o Estado lhe rouba. Os outros, os dançarinos do poder vivem à sombra dos louros da democracia que irresponsavelmente esvaziam dos valores que a legitimarão.

Da Quinta dos Salazares para a Quinta dos Soares

É uma dor de alma assistir-se à degradação contínua dum povo e país em que sociedades “anónimas” ideológicas e boys sem rosto o ocupam de mente leve, reduzindo a vida da nação a uma feira de Espinho. Os interesses económicos dos favorecidos do sistema vencem sobre a justiça. O Estado parece criar no seu ser um parque para infractores da justiça social onde o negócio dos mais fortes pode florir. A camarilha da economia, política, capital e justiça reduzem a divisão dos poderes do Estado a um conto de fadas. A nação vive predominantemente duma consciência dirigida por lobbies com expressão acrítica nuns Media inconscientes do seu papel nacional.

O poder legislativo, em democracia partidária, pensa apenas em ritmo de quatro anos; o executivo não tem coragem suficiente e deixa os tubarões à solta, o judicativo perde o seu tempo com o peixe miúdo. O ladrão só é apanhado até uma certa soma, daí para cima torna-se tudo muito complicado. Tudo é comerciável. A democracia perverte-se a si mesma, não tem respeito pela nação/cultura, pelo povo nem pela pessoa humana. Salve-se já não quem puder mas quem tiver hipótese de encosto às nomenclaturas que, cada vez, ameaçam mais apoderar-se do Estado e manter o povo refém. O Estado não cumpre as leis dando-lhe a volta com Despachos ministeriais. A constitucionalidade de leis e despachos deixa muitas vezes a desejar e peca pelo facto de na sociedade portuguesa não haver uma sociedade civil organizada que coíba a hegemonia partidária. Instituições representativas de interesses e pessoas individuais seguem a tradição do pobre que só protesta para lhe aumentarem o salário. Num país com consciência democrática forte a Administração Fiscal não poderia ser praticamente autónoma com poderes judiciais, o que iria contra uma Constituição democrática coerente. O Estado exige do “cliente” o que não cumpreele mesmo.

Os que abusam do poder não precisam de prestar contas a ninguém porque sabem que os parceiros que os poderiam denunciar também têm cadáveres escondidos na cave (neste caso o calar ou ignorar é mesmo ouro) ou arranjam um “irmão” salvador, podendo contar com um povo inocente sem poder nem organização para ter pensar próprio. Um civismo subdesenvolvido na disponibilidade de ser pau para toda a colher.

Em Portugal não se assiste a um debate nacional nem dos interesses nacionais. Este é substituído por debates partidários dirigidos à emoção. Um exemplo da nossa situação e paciência pode até ver-se no sensacionalismo e demora do nosso Telejornal ou na falta duma emissora nacional qualificada à altura duma Rádio Alemã. A Nação deixou de ser tema de interesse desde o 25 de Abril. Vive-se o dogma do politicamente correcto e do acomodar-se.

Muitos governantes, com a sua vaidade e prepotência, pretendem a politização e judiciarização total da vida popular. A sociedade prevista por Orwell encontra agora, com as novas tecnologias e políticas, uma especial implementação através da conexão de bancos de dados. Estes possibilitam a completa radiografia, um perfil abrangente do cidadão, que passa a ser reduzido a um dado, a um número disponível para interesses de terceiros. Os órgãos de estado, cada vez mais distantes do povo, cada vez mais nomenclatura, encontram os seus parceiros nos partidos, administração, bancos, polícia, fundações, finanças.

O estado Orwell vive das estatísticas e do controlo do número. Como neste estado o mote é “democracia” e o povo anda desgarrado, torna-se necessário um aparelho central forte, capaz de manter a diferenças institucionalizadas. Nos estados autoritários os dominadores ainda eram reservados nas palavras; no nosso regime os soares e seus acólitos, muitas vezes, não têm problemas em apoderar-se da televisão para esconderem os próprios males falando mal dos salazares e comparsas que, apesar de tudo, eram mais módicos no aproveitar-se do povo em benefício da sua bolsa pessoal. Naturalmente que o sistema actual é mais “limpo”, também porque legitima, já de princípio, a injustiça a praticar pelo eleito. Uma precariedade depende da outra. Falam com tanto desplante na TV que dá impressão de que partem do princípio de que o povo ouvinte é estúpido!…

Antigamente, os governantes ainda mostravam um certo respeito pelo povo, porque se sentiam parte dele, hoje, encostados ao capital e à U E, despromovem o povo e a nação com um arrojo de inconscientes a meter água na sua televisão. O povo analfabetizado com tanta informação, e porque não tem tempo para ler noutras cartilhas, suporta hoje com resignação, o que ontem aguentava sem pensar.

Um grupo de dançarinos da liberdade, novos-ricos à laia de cowboys, instalou-se no palco da democracia, parecendo descobrir sempre um resto de país disponível. Comportam-se como donos dum couto de que não conhecem os serviçais.

Ultimamente, o Presidente da ASAE em entrevista a “Sol” responde a uma pergunta referente ao controlo social crescente: ” se nós não quisermos viver nesta sociedade temos hipótese de emigrar”. O seu estado proletário só parece ter lugar para a sua nomenclatura e seus fiéis servidores. Numa democracia do faz de conta, os barões do seu Abril vivem sem rei nem roque nem o diabo que lhes toque porque sabem que o povo não entendeu o que verdadeiramente tem acontecido em nome da liberdade e da igualdade. Os dançarinos do poder querem uma sociedade acultural frágil, construída num civismo intoxicado que tudo legitime. Muitos dos seus obreiros actuam discretamente e de luvas sem se sujarem!

Boa noite Portugal!

António da Cunha Duarte Justo

Páscoa – Tempo da feminidade


Jesus é ungido (consagrado) por uma mulher em Betânia (Mc 14,4), numa acção profética.

As mulheres acompanham-no, até à última, na cruz. Elas são as primeiras a testemunhar o túmulo vazio e a ressurreição aos discípulos. Elas eram companheiras dos apóstolos no anúncio da Boa Nova e na direcção de comunidades cristãs.

A passagem da Carta aos Coríntios na qual se diz “calem-se as mulheres nas assembleias…” foi uma interpolação tardia introduzida na Carta de Paulo, com a intenção de reduzir o papel público da mulher. Esta passagem contradiria as afirmações e o papel de mulheres na comunidade, referidas pelo mesmo Paulo, noutros lugares.

Efectivamente, Paulo, apesar de estar inserido numa comunidade patriarcal e sujeito, também ele, a hábitos culturais específicos, constata “… nem a mulher se compreende sem o homem, nem o homem sem a mulher, aos olhos de Deus. Pois, assim como a mulher foi tirada do homem, assim também o homem existe por meio da mulher, e ambos vêm de Deus…”

Entre outras mulheres, Paulo faz menção de Foebe, Prisca, e Junias com cargos à frente da comunidade.

Se naquele tempo, tão adverso à mulher, já ela assumia cargos de direcção na comunidade, o que diria Paulo hoje ao escrever as suas cartas! Houve um retrocesso nalguns aspectos.

As religiões, em vez de assumirem a própria cruz, por vezes, preferem pregar outros na cruz, em nome de Jesus ou de Deus. Ao pregarmos pessoas na cruz em atenção a hábitos, tradições e convicções redutoras, reduzimos a realidade da morte e ressurreição de Jesus Cristo esquecendo que a morte de Jesus é a nossa vida e a nossa realidade. A mensagem da Boa Nova pascal é uma mensagem de liberdade, felicidade e amor. A nova comunidade cristã é chamada a prescindir de pregar o próximo na cruz de hábitos e regras contrárias à felicidade humana.

É Páscoa também para as mulheres. Seria desconhecer o seu ser e o ser cristão, teimar em reservar para elas o papel de servidoras ou ajudantes. Elas que testemunharam e anunciaram a Ressurreição de Jesus, não podem deixar limitar o seu papel, na igreja, à atitude de silêncio do Sábado da Semana Santa. A Ressurreição é universal e não apenas uma experiência individual mística.

António da Cunha Duarte Justo