O Porquê da Decadência da Civilização Ocidental e da Religião Cristã

Estagnação do Cristianismo e Expansão do Islão
Actualmente a religião mais perseguida do mundo é a cristã, com cerca de 200 milhões de perseguidos. Sintomático para a situação da Civilização Ocidental é o facto de, nos meios de comunicação social e nas igrejas, não se falar da perseguição aos cristãos.
Este silêncio de hoje não é fenómeno novo, o mesmo acontecia no comunismo e no nacional-socialismo. O social correcto exige que se fale da perseguição cristã às bruxas na Idade Média e das Cruzadas. Os milhares de cristãos executados e aprisionados hoje em dia não são mencionados.
O argumento de que a Igreja não deve criticar os governos inimigos dos cristãos para os não expor ainda mais a perseguições é precário e só válido sob um pressuposto superficial. A manifestação pública levaria, com medo da crítica pública, a uma certa discrição na perseguição. Os interesses materialistas da sociedade ocidental levam os governos, interessados no negócio do petróleo com os países islâmicos e no investimento na China, a serem discretos e a calarem-se oportunistamente para assim não estragarem o negócio.
As delegações político-comerciais não se preocupam com o povo explorado nesses países nem com o seu desenvolvimento. Importante é o negócio do petróleo seja ele embora à custa da própria honra e dos valores da pessoa humana. Apenas se segue a tradição da escravatura e dos “negreiros”. Muitas nações lavam as mãos do negócio sujo, à maneira de Pilatos. Para isso concedem asilo político e religioso aos poucos que conseguem escapar aos sistemas de opressão. Trata-se de negócios entre elites. Amigo não empata amigo, ao fim e ao cabo o povo é que as paga.

A questão não está na decadência moral mas na falta de identidade
Em geral o Cristianismo deixou de ser uma fé e passou a ser uma civilização. Certamente que é a religião mais perseguida porque é a que tem a mensagem mais exigente para o ser humano e uma grande parte da humanidade está mais propensa a seguir a lei da entropia.
Hoje o Islão encontra-se de vento em popa e com razão. Em geral o povo ocidental tem medo dele e revela uma ignorância total a seu respeito. Reduz o seu discurso sobre ele aos políticos que, engolindo cobras e lagartos, falam de lugares comuns acríticos ou lisonjeiros. Falta uma discussão académica séria e cultural sobre o Islão e sobre a Cultura Ocidental. Não chega a graxa para com ele nem o ser simplesmente contra. É preciso tentar encontrar-se com eles, mesmo que eles evitem. Já vivem mais de 50 milhões de muçulmanos na Europa sem que se tenha dado um encontro a nível de próximo, que são. Não chega deitá-los ao abandono num acto desesperado como se fez em relação aos países árabes. Se é verdade que nesses países não é possível fundar comunidades cristãs também é verdade que os países árabes conseguem impor interesses culturais com interesses económicos. As instituições ocidentais apenas estão interessadas nos negócios descuidando o cultural.
Os muçulmanos não podem ter nenhuma ideia sobre o cristianismo e sobre a sociedade ocidental, que para eles é idêntica; só conhecem um pouco da cristandade e nada de cristianismo (o que não é de admirar porque com a maioria dos cristãos dá-se o mesmo, nem conhecem o Cristianismo nem o Islão). O que eles observam são instituições cristãs acomodadas e fracas que não reagem ao problema da banalização do sexo, da família e dos valores. Para muitos deles somos simplesmente os “sem Deus” e como tal sem valor. Eles sabem que não tomamos a própria cultura nem a religião a sério, por isso, não nos podem tomar a sério.
O começo dum diálogo religioso poderia começar-se através de Jesus que também faz parte de o Corão. Aqui também podíamos aprender deles algo sobre Jesus atendendo que ele era da raça semita com uma antropologia e uma sociologia base muito diferente da helenística.
Os cristãos envergonham-se de falar da sua fé porque em geral apenas conhecem um pouco de religião mas quase nada da filosofia e da teologia que a sustentam. Preferem ir descobrir noutras religiões parte da filosofia que não lhes foi dado conhecer na própria. Desta conhecem quase só o folclore. Isto tem também a ver com um sistema religioso que se apresenta preponderantemente de carácter administrativo e com funcionários stressados por um trabalho que exige deles o impossível e mesmo à margem de qualquer comunidade de vida. Não se nota uma espiritualidade específica.Esta fica reservada para alguns grupos leigos e constitui o privilégio dos conventos, dos iniciados. Muitas vezes, os dirigentes de paróquias mais que teólogos, tornam-se assistentes sociais que administram necessidades religiosas primárias e de culto. Grande parte de padres diocesanos e de pessoas ligadas a à comunidade paroquial vive resignadamente aguentando o fardo da sua religião. Muitíssimos vivem isolados ou escondem-se por trás dum activismo compensatório. São as vítimas da comunidade e da instituição que os delega, uns Cristos abandonados. O fervor religioso e missionário que levava os cristãos, em tempos idos, a expandir a fé e a nação reduziu-se ao campo secular, em actividades desportivas e partidárias, estas com missão de carácter temporário nas campanhas eleitorais.
Fazer uma coisa mas não omitir a outra, seria a palavra de ordem. Já chega de uma sociedade eunuca com ideias triviais e de uma religião aguada. Actividades litúrgicas para mera satisfação de necessidades burguesas são um luxo. Há grande carência de formas religiosas que dêem resposta tanto às estruturas de salvação popular como às de carácter elitista. Uma sociedade nova precisa de gente empenhada a nível político, religioso e social com tipos de comunidades vivas à lá “onde dois ou três estiverem em meu nome lá estou eu no meio de vós”.
A teologia liberal, tal como a economia liberal só atinge uma minoria e produz estragos incomensuráveis na generalidade. É urgente a nível de teólogos e de responsáveis pela sociedade civil uma discussão profunda sobre o sentido do Homem e da sociedade e uma análise detalhada dos mitos e realidades que estão na base da identidade de um povo e duma sociedade. Uma sociedade responsável e orgânica não pode viver apenas duns poucos de slogans e de moralismos oportunos. Naturalmente que não podemos fazer do Cristianismo um religião do medo como é o caso do Islão. Naturalmente que com o medo, o analfabetismo e a opressão física ou moral é mais fácil manter-se os subordinados à disposição. A religião cristã tem a missão de fomentar homens livres e independentes ligados apenas pelo espírito tal como no segredo da trindade. Na bíblia Deus é visto como pai e os seres humanos como filhos de Deus, isto é de estirpe divina; no Islão os crentes são vistos como escravos, como súbditos. Os cristãos não precisam de ter medo porque com o aumento da cultura os povos aproximam-se mais uns dos outros, a partir do momento em que possam ter os instrumentos culturais que lhe permitam ler, analisar e comparar para poder decidir. A vantagem do Corão em relação à bíblia não está na ética nem na moral mas sim, por um lado na sua fé, e por outro na pobreza do povo, no medo e no analfabetismo, usados como meio de manipulação até uma revolução espiritual a operar-se dentro do Islão. Esta poderia ser apressada com a aproximação do Islão europeu ao Cristianismo e com o acordar da mulher na sociedade árabe.
Seria impensável, em temos ocidentais, que um povo como o paquistanês com a tecnologia atómica mais avançada tenha 85% de analfabetos. A realidade porém é que o Islão cresce mais depressa do que o cristianismo e isto dá-se também porque enquanto que grande parte da cristandade crê no bezerro de ouro e na realização de necessidades religiosas como compensações de faltas psicológicas, para os muçulmanos a religião não é apenas uma ideia entre outras mas uma vida que tem por ideal, conquistar o mundo e governá-lo. O Islão, tal como o cristianismo no século XV, sente-se vocacionado a realizar uma missão universal, enquanto que a cristandade se satisfaz com alguns ritos ocasionais e se perde no indivíduo, longe da visão cristã de pessoa e sem a consciência de povo. A sociedade ocidental não se afundará por causa da decadência moral mas sim pela falta de fé, pela falta de convicção. O caminho da convergência será o da mística. Esta tem a ver com o político e com o religioso e une tudo em todos no respeito pela diferença. Enquanto que os cristãos precisam de redescobrir Deus , os muçulmanos precisam de descobrir o Homem.

António Justo
Teólogo e pedagogo
Alemanha

António da Cunha Duarte Justo

Carnaval de Abril – Elites com Complexo de Vítima

Uma ilusão: Portugal de Férias!
Hoje assiste-se a um fenómeno social especial. Ninguém parece contente com a sua situação. Todas as camadas sociais se queixam. Parece que vivemos numa sociedade depressiva. Talvez por não conseguirmos dominar o próprio stress e por não podermos renunciar a nada. Todos se sentem entregues ao poder do destino ou dum terceiro. Na sociedade, cada vez estão mais presentes a agressão, o descontentamento e o nervosismo.
Muitos parecem esperar tudo de cima, da sociedade ou do Estado. Este parece ter-se tornado numa projecção, numa Pessoa de quem se espera tudo, até dedicação e carinho. O próprio Estado e muitas das suas instituições criaram a ilusão de que dariam resposta e cobertura às necessidades humanas, a tudo, mediante um sistema de beneficência e de seguros para todos os riscos. A Europa seria a panaceia onde se projectaram os sonhos de Abril. O que Abril trouxe para a nova classe política esperava-se que a Europa trouxesse para o resto. O irrealismo era gritante, sonhava-se um Portugal de Verão! Uma sociedade bem mascarada!
Conhecia-se a vida do estrangeiro promissor através dos emigrantes com sucesso. O que se desconhecia era o trabalho abnegado e a dor com que os emigrantes turistas pagavam o seu bem-estar. Parece continuar a ignorar-se ainda que a riqueza do estrangeiro provem da sua grande produtividade. Na sequência, assistiu-se então em Portugal à ascensão duma nova burguesia de desejosos insaciáveis. Desejavam os mesmos ordenados da Europa e ao mesmo tempo queria-se um Portugal de Férias. Os pressupostos com que Portugal arrancou e sonhou não estavam aferidos à realidade. Em vez de investirem no futuro consomem a riqueza chegando mesmo a empenhar o futuro. Habituados a desbaratar as remessas dos emigrantes fizeram o mesmo com os subsídios europeus. A antiga riqueza que Portugal tinha eram os pobres que emigravam para manter a família e enterrar o resto das poupanças na construção de casas para os outros. Actualmente, até esta fonte de riqueza tradicional deixa de existir atendendo a que o povo já não quer filhos. Os seguros pagar-lhe-ão as reformas e a Europa irá mandando algum. É incompreensível que uma nação, com tantas potencialidades no povo, como se pode ver nos emigrantes que tornam ricos outros povos no estrangeiro, não encontre em Portugal as infra-estruturas ao nível de Portugal povo.

Ao regressar da festa só restam os ecos do “desejado” nos Vivas de Abril
Em tempos de crise surge a desilusão e a falta de sentido. De tudo o que a antiga musa canta só restam uns cravos murchos de Abril! Há uma sensação de se ter sido escorraçado do paraíso terreal, do reino da inocência. A uma simbiose desiludida reage-se com a fuga na introspecção ou na contestação de tudo e de todos. Uma espécie de puberdade social em que se reage a nível do sentimento sem a componente da acção.
Os trabalhadores queixam-se dos patrões, os patrões queixam-se da falta de produtividade e da concorrência, os políticos são denegridos e os cidadãos instrumentalizados.. Enfim, uma sociedade de discriminados e de explorados! Ou melhor, uma sociedade de pobres e ricos queixosos! Numa sociedade mercantil de competição e de concorrência ferozes a todos os níveis, o outro torna-se num adversário, num explorador. Deste modo só passa a haver queixosos. Todos lambem as próprias feridas e berram as dores duma vida ingrata e vazia. Esta sociedade de adultos queixosos abdica de si mesma e refugia-se na saudade da infância inocente em que a responsabilidade está nos outros. A princípio, no sonho de Abril no Outono, chegava chorar! “Quem não berra não mama!”…
Agora, no regressar da festa, a um povo cansado, perdida a memória dos feitos dos Descobrimentos, só restam os ecos do desejado nos Vivas de Abril.
Em vez do trabalho entoa-se em conjunto, elites e povo, o cântico do desespero, o canto da despedida. E os que mais alto berram são geralmente as pessoas bem, aquelas que pertencem à margem das elites mas que querem pertencer ao seu centro, onde se não trabalhe mas se exerçam funções. A má consciência, uma vida sem sentido e a falta de realismo para ver o que acontece na camada social desfavorecida leva-nos à queixa. Esta conduz-nos ao prazer de sentir na sua melancolia a dor alheia não vivida. É escandalosa esta canção atendendo que com ela são esquecidos os pobres e os desprotegidos: os sem voz e sem sorte antes e depois de Abril.
Não queremos uma sociedade de privilégios e de vantagens. Se é verdade que ninguém nos dá nada, mais forte deve ser a vontade para agir. Elites, esquecei o dinheiro, mãos à obra, vamos trabalhar!

António Justo
Alemanha
A.C.Justo@t-online.de

António da Cunha Duarte Justo

Difamação da Religião ou Defesa da Liberdade de Imprensa?

Com o Islão não se brinca
Um caricaturista entre outras caricaturas desenhou a cabeça de Mohammed em forma de bomba com um rastilho, provocando assim uma discussão acesa por todo o lado.
Jyllands-Posten”um jornal dinamarquês que publicou as caricaturas satíricas pediu desculpa depois dos protestos do mundo muçulmano, que reagiu com ameaças verbais e com medidas concretas de boicote aos produtos dinamarqueses.
Caricaturistas e realizadores, artistas, escritores e ideólogos gostam do dialéctico e vivem muitas vezes das ferradelas que dão, do sensacional e do escândalo.
Os defensores radicais da liberdade de imprensa e de opinião pessoal vêem nas ameaças árabes um ataque ao espírito de independência e à liberdade da palavra. Sentem a liberdade de opinião e de imprensa e os direitos individuais ameaçados ao verificarem a reacção do jornal. Defendem com unhas e dentes o princípio democrático da liberdade de opinião que é uma coluna fundamental da nossa cultura. Advogam que em democracia haveria sempre a oportunidade de se discutir sobre a qualidade do apresentado e sobre os limites do respeito, restando a cada um o direito de se defender em tribunal, a única instituição legítima para o exercício do poder. Vêem na cedência, no pedido de desculpa, uma porta aberta ao fundamentalismo islâmico.
Muitos deles estavam habituados a difamar os símbolos cristãos até ao ridículo, sem consequências pelo que diziam ou faziam. Se alguns cristãos levantavam a voz contra tais abusos logo eram apelidados pela opinião publicada de fundamentalistas cristãos. A sociedade estava habituada a não levar nada nem ninguém a sério. Cada pensador livre tinha, por vezes, uma liberdade maluca. Agora admiram-se de haver povos decididos a defender com unhas e dentes as suas “bandeiras” que são expressão da sua identidade e da sua força.
A civilização ocidental, em vez de se perguntar do porquê da convicção da civilização árabe e do porquê da nossa decadência, fica atónita. Facto é que na Europa em certos meios marxistas materialistas e racionalistas na falta de respeito por valores religiosos se discrimina positivamente a religião muçulmana não por convicção mas por interesse e por medo. É sintomático o facto de no Iraque ter havido a semana passada ataques bombistas a igrejas cristãs e haver primeiros programas da televisão que não os registarem sequer. Medo ou “colaboração”? No mundo moderno a perseguição religiosa contra os cristãos é a mais forte e organizada. Todos se calam: Trata-se de cristãos e também a sua cultura está posta à disposição e em parte com a ajuda da apoteose modernista que desde há muito trabalha nesse sentido. Naturalmente que o modernismo, também ele fruto duma ética cristã de valores, contribuiu muito para a purificação da ferrugem instalada em muitas instituições cristãs e indirectamente fomentou a prática de certos valores da ética cristã. Porém vai sendo tempo de a arte se dedicar aos valores que lhe deu o ser e ter mais respeito pela identidade cultural. Ou será que a substituição da religião a arte deverá dar lugar à nova adoração? Não deveria ser assim porque esta é irmã da religião. Os inimigos da religião são também, embora a nível inconsciente, inimigos da arte.
Os defensores duma liberdade de expressão com limites não estão de acordo que seja tudo permitido na arte. Estes argumentam com a ética cristã, da liberdade responsável e da dignidade da pessoa. O limite é a dignidade da pessoa que é inviolável. A liberdade pessoal acaba onde os direitos do outro começam.Facto é que os corifeus do modernismo se aproveitaram da religião e da sua discriminação para fazerem o seu negócio. Na Europa tornou-se moda ferir os sentimentos religiosos dos cristãos atacando e ridicularizando Cristo e Maria sem consequências.
Será que em nome da liberdade conquistada pelo ocidente cristão – a proibição de criticar Mohammed questiona a liberdade de imprensa? Não será que a liberdade de imprensa não terá também outros valores a defender?
A liberdade, o espírito crítico e a dúvida metódica são valores inalienáveis do mundo ocidental. O problema porém começa quando os sentimentos dos outros são feridos brutalmente. Importante é começarmos uma discussão que se não reduza aos direitos individuais mas que se alargue aos direitos e à dignidade da pessoa humana. Aqui haveria pano para mangas e para todos… Na nossa sociedade há demasiado indivíduo e pouco pessoa. Em vez de se atacarem os símbolos religiosos podem-se criticar ideias ou o agir de pessoas e de doutrinas existentes que se podem defender. Os mitos e as religiões devem ser criticadas nas suas ideias e práticas; difamar Cristo, Maria, Mohamed e pessoas pertence a um estilo baixo e arruaceiro. Na salvaguarda do respeito pela dignidade da pessoa e pelas culturas, não faltam aí assuntos onde artistas, jornalistas e estudiosos poderão exercer a sua acção crítica. Isto exige mais esforço no conhecimento do objecto de crítica e não apenas conhecimentos superficiais ou banais, como se constata, cada vez mais, no dia a dia do discurso público. Pode-se apontar também para o perigo islamista sem se recorrer à difamação. Não chega a instrumentalização de tudo e de todos em sentido ideológico.
Muitos intelectuais e políticos chegaram ao extremo de levaram levianamente ao ridículo muitos dos nossos mitos e coisas mais sagradas que ergueram a nossa cultura levando-a ao nível ético que atingiu. Agora vem o Islão com um outro extremo querendo-se intocável, aprisionando a palavra e sem lugar para a ficção reservando-a para o paraíso. Talvez um meio-termo seja uma saída para a nossa civilização. Uma certeza pode ter-se já: o Islão funcionará como grande corrector dos excessos da civilização ocidental. Oxalá (palavra árabe!), não se percam muitos valores que nos caracterizam na cedência a uma ética menos exigente.

António Justo
Alemanha

António da Cunha Duarte Justo

Em memória de Johannes Rau! Um social-democrata exemplar!

„Sou o presidente de todos os alemães e o interlocutor de todas as pessoas”
Faleceu a 28 de Janeiro no seio de sua família, com 75 anos de idade. As exéquias fúnebres serão realizadas a 07.02.2006 em Berlin. Foi um presidente que se definia como Alemão e como Cristão. Não tinha receio em afirmar que “ Política é aplicação do amor ao próximo”. De facto, na sua simplicidade, honestidade e alegria, foi o presidente mais querido de todos os presidentes alemães. O povo apelidava-o de “irmão Johannes”. Neste atributo estava subjacente um misto de bondade, de ingenuidade e de boa pessoa. Por outro lado, todos os representantes políticos alemães o respeitavam e o consideram como o mais político de todos os presidentes alemães.
Johannes Rau foi um dos pilares do SPD alemão. Não se deixou levar pelo “espírito do tempo”, pelo Zeitgeist, pela ideologia, como estava acontecendo durante a sua presidência no governo de coligação SPD/VERDES sob o chanceler Schröder. Ele não fazia parte da geração dos “sobrinhos” de Willy Brand (os seus benefeciados Lafontaine, Scharping, Schröder e Wieczorek-Zeul), mais virados para a ideologia do que para o povo. Rau não via com bons olhos a mudança de estilo político destes que, depois de Willy Brand, a nova geração, se preocupavam demasiado com as encenações na televisão e com meras retóricas e efeitos de show político com desprestígio pelas estruturas do partido e da ligação pessoal aos membros. Porque enraizado na fé cristã nunca cedeu às ideologias socialistas mostrando, por outro lado, a relevância dum socialismo humanista cristão. A nova geração de políticos torna-se mais helenística, mais politeista enquanto que Johannes Rau permanece fiel à tradição judaico-cristã. Platzeck, novo Chefe do partido SPD é um admirador de Rau e quer seguir-lhe o exemplo. Certamente uma sorte para o partido que corria perigo de se tornar cada vez mais a expressão exagerada de certas reminiscências moralistas da geração 68.
Rau não aceitou o conceito de multicultura por reconhecer nela um conceito de combate. Ele, apesar da história trágica da sua nação, quando muitos dos intelectuais tinham vergonha de se declararem patriotas, declarou-se sempre como patriota. Ao mesmo tempo que manifestava publicamente orgulho por ser alemão, admoestava: “nacionalismo e terrorismo andam muitas vezes de mãos dadas”.
Homem suave na voz e no discurso não tinha papas na língua ao chamar os políticos à atenção dizendo que “muitas vezes dão demasiado com a língua nos dentes” e com isto a democracia enferma. Chamou a atenção da política para zonas alemãs menos favorecidas, para os pobres, para a integração e para o respeito e bom trato dos estrangeiros. A sua ideia era reconciliar em vez de dividir. Criticou os Media que, por vezes, se tornavam incautos e irresponsáveis. Criticou a avidez de directores de empresas e bancos com ordenados provocantes. Apelou para o perigo crescente da sociedade se subjugar às leis do mundo do mercado. Lutou sempre por um mundo mais humano. Embora presidente com muitos afazeres ele pegava no telefone e telefonava a pessoas desesperadas ou pessoas simples que lhe escreviam. Estas, às vezes, não acreditando que o presidente lhes telefonasse, desligavam o telefone mas ele voltava a telefonar. Era um homem com coração de povo. Ao slogan maquiavélico de que a guerra é a mãe de todas as coisas ele contrapunha a fraternidade, a irmandade. Um democrata exemplar, um cristão cordial que confiava em Deus e dizia “eu trago, eu conduzo, eu suporto porque sou trazido, conduzido, suportado”.
Empenhou-se no entendimento dos povos. Foi o primeiro e o último presidente da geração da guerra que, em 2002, falou no Parlamento de Israel. Aí falou, em língua alemã, dos crimes alemães, da reconciliação e da responsabilidade. Teve também gestos de reconciliação com a Polónia. Todos aceitavam o seu discurso porque sabiam que era autêntico e norma de credibilidade. Durante 50 anos trabalhou activamente na política em defesa dum mundo mais justo no sentido do próximo. Este era um homem honesto que toda a gente podia querer bem. Não teve apenas uma função, ele foi sobretudo Homem. Interessava-se por tudo e não apenas pelo aparelho do Estado, pelos funcionários. Para ele, não estavam em questão apenas os objectivos ou os programas políticos; no centro das suas preocupações estavam sempre as pessoas.

António Justo
Alemanha

António da Cunha Duarte Justo

A Encíclica de Bento XVI – Amor: a Verdadeira Utopia!

Uma encíclica Mística e Política
Como em todos os seus livros também nesta sua primeira encíclica domina a simplicidade, a clareza de espírito e um substrato místico. É um texto humano que toca o mais profundo da pessoa e da sociedade. Deus não é propriedade privada. O encontro com Cristo convida à comunhão, ao abraço com todos os cristãos e com toda a humanidade. Interessante o facto de o papa não usar a forma majestática “nós” mas na pessoal “eu”. É que a relação responsável dá-se no encontro de um eu com um tu! Além disso ele fala para todos os cristãos…
“Deus caritas est” é uma encíclica universal que não se baseia na afirmação do contraste mas da convergência; ele supera a linguagem dialética para acentuar um novo discurso que valoriza a mística. R econcilia o Eros com a Ágape, o corpo com a alma. “O amor entre o homem e a mulher, sobressai como arquétipo (modelo) de amor por excelência”. O amor entre homem e mulher, no qual corpo e alma se tornam inseparáveis na felicidade da união, é o tipo originário do amor. Todas as outras formas de amor são formas desvanecidas do amor. Não é humano separar o amor«Eros», o amor da diferença, o amor inseguro, do amor « ágape », o amor da unidade, o amor de amizade. O papa defende a unidade dos dois. “ O eros quer-nos elevar « em êxtase » para o Divino, conduzir-nos para além de nós próprios, mas por isso mesmo requer um caminho de ascese…” “Eros e agape – amor ascendente e amor descendente – nunca se deixam separar completamente um do outro”. No amor ágape “o amor torna-se cuidado do outro e pelo outro. Já não se busca a si próprio». Na encíclica não há lugar para a hostilidade ao corpo. Exige uma compreensão global para a relação de pares que está programada para duração e eternidade e não exclui o eros. Ele quer que se inicie uma correcção na realidade da vida.
Este corpo que a igreja sempre considerou como filho pródigo parece entrar agora na Igreja pela porta principal. O Papa restitui a dignidade ao Eros. Ele escreve. “O amor só se torna completo na unidade de homem e mulher (na caminhada conjunta de homem e mulher) ”. Também aqui se abre uma perspectiva à liberdade de casamento dos padres.
Nesta encíclica são abertas, não digo janelas, mas mesmo portas para a teologia e para a pastoral numa óptica importante para a renovação das estruturas da Igreja. Deixa espaço para interpretar e esperar. Teólogos e bispos têm que meter as mãos à obra. Esta é uma encíclica, no espírito evangélico, que recorda o espírito genuíno judaico-cristão dos primeiros tempos da Igreja. Amor a Deus e ao próximo como duas faces da mesma medalha, como inseparáveis, são dois legados específicos bíblicos que devem voltar a estar na base de toda a acção. Desta encíclica não se podem deduzir argumentos nem campanhas contra anti-preservativos ou mesmo contra lésbicas e homossexuais.
Aqui, delineia-se, um programa de governo do seu pontificado que assenta no amor divino e no amor humano como fundamento da fé cristã e da teologia e como fundamento da vida humana. O Papa deslegitima todos os que em nome de Deus fundamentam e pregam o seu ódio e a vingança. Esta Igreja que ao longo da história teve alguns desvios é chamada ao fundamento do amor.
A segunda parte da encíclica torna-se política ao falar do amor a Deus e ao próximo. Defende que a Igreja não pode ser instrumentalizada para lutas políticas nem as suas instituições, que estão ao serviço do Homem, podem ser usados para ideologias. A Igreja, leigos e clérigos, têm o dever de participar na realização duma ordem social justa e de ajudar todas as pessoas em necessidade. É bem claro ao afirmar a distinção e separação entre Estado e Igreja “pertence à estrutura fundamental do cristianismo a distinção entre o que é de César e o que é de Deus”. “A Igreja não pode nem deve tomar nas suas próprias mãos a batalha política para realizar a sociedade mais justa” “Quem realiza a caridade em nome da Igreja, nunca procurará impor aos outros a fé da Igreja. Sabe que o amor, na sua pureza é gratuidade”.
A construção da justiça é tarefa da política e o Estado que não se oriente pela justiça social iguala um “bando de ladrões”… “A sociedade justa não pode ser obra da Igreja; deve ser realizada pela política. Um Estado, que queira prover a tudo e tudo açambarque, torna-se no fim de contas uma instância burocrática, que não pode assegurar o essencial de que o homem sofredor – todo o homem – tem necessidade: a amorosa dedicação pessoal.”
Na encíclica tornam-se visíveis as virtudes cristãs num humanismo aberto e amplo.
O cristianismo é situacional – é resposta. Esta encíclica revolucionária reconhece iniciativas marxistas válidas mas adverte que a justiça não é possível sem o amor. Também ele defende uma utopia, defende a utopia do amor como a verdadeira utopia. Esta utopia já vai sendo realidade em muitos lugares…
“O bom pastor deve estar radicado na contemplação”. Também aqui se dá um grande passo na direcção da mística. Constitui uma nova acentuação e um apelo aos bispos e padres na concepção do seu ministério. Estes não devem esgotar a sua acção na dogmática, no ensino nem na pastoral. De facto, por vezes, correm o perigo de, na sua acção, serem demasiadamente movidos por ideias e conceitos a que falta por vezes uma espiritualidade. Ele apresenta como prioritário o “dever da caridade como tarefa intrínseca da Igreja inteira e do Bispo na sua diocese”. « Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele »(1 Jo 4, 16).
„O amor tudo vence… cedamos ao amor!…

António Justo
Teólogo

António da Cunha Duarte Justo