A Encíclica de Bento XVI – Amor: a Verdadeira Utopia!

Uma encíclica Mística e Política
Como em todos os seus livros também nesta sua primeira encíclica domina a simplicidade, a clareza de espírito e um substrato místico. É um texto humano que toca o mais profundo da pessoa e da sociedade. Deus não é propriedade privada. O encontro com Cristo convida à comunhão, ao abraço com todos os cristãos e com toda a humanidade. Interessante o facto de o papa não usar a forma majestática “nós” mas na pessoal “eu”. É que a relação responsável dá-se no encontro de um eu com um tu! Além disso ele fala para todos os cristãos…
“Deus caritas est” é uma encíclica universal que não se baseia na afirmação do contraste mas da convergência; ele supera a linguagem dialética para acentuar um novo discurso que valoriza a mística. R econcilia o Eros com a Ágape, o corpo com a alma. “O amor entre o homem e a mulher, sobressai como arquétipo (modelo) de amor por excelência”. O amor entre homem e mulher, no qual corpo e alma se tornam inseparáveis na felicidade da união, é o tipo originário do amor. Todas as outras formas de amor são formas desvanecidas do amor. Não é humano separar o amor«Eros», o amor da diferença, o amor inseguro, do amor « ágape », o amor da unidade, o amor de amizade. O papa defende a unidade dos dois. “ O eros quer-nos elevar « em êxtase » para o Divino, conduzir-nos para além de nós próprios, mas por isso mesmo requer um caminho de ascese…” “Eros e agape – amor ascendente e amor descendente – nunca se deixam separar completamente um do outro”. No amor ágape “o amor torna-se cuidado do outro e pelo outro. Já não se busca a si próprio». Na encíclica não há lugar para a hostilidade ao corpo. Exige uma compreensão global para a relação de pares que está programada para duração e eternidade e não exclui o eros. Ele quer que se inicie uma correcção na realidade da vida.
Este corpo que a igreja sempre considerou como filho pródigo parece entrar agora na Igreja pela porta principal. O Papa restitui a dignidade ao Eros. Ele escreve. “O amor só se torna completo na unidade de homem e mulher (na caminhada conjunta de homem e mulher) ”. Também aqui se abre uma perspectiva à liberdade de casamento dos padres.
Nesta encíclica são abertas, não digo janelas, mas mesmo portas para a teologia e para a pastoral numa óptica importante para a renovação das estruturas da Igreja. Deixa espaço para interpretar e esperar. Teólogos e bispos têm que meter as mãos à obra. Esta é uma encíclica, no espírito evangélico, que recorda o espírito genuíno judaico-cristão dos primeiros tempos da Igreja. Amor a Deus e ao próximo como duas faces da mesma medalha, como inseparáveis, são dois legados específicos bíblicos que devem voltar a estar na base de toda a acção. Desta encíclica não se podem deduzir argumentos nem campanhas contra anti-preservativos ou mesmo contra lésbicas e homossexuais.
Aqui, delineia-se, um programa de governo do seu pontificado que assenta no amor divino e no amor humano como fundamento da fé cristã e da teologia e como fundamento da vida humana. O Papa deslegitima todos os que em nome de Deus fundamentam e pregam o seu ódio e a vingança. Esta Igreja que ao longo da história teve alguns desvios é chamada ao fundamento do amor.
A segunda parte da encíclica torna-se política ao falar do amor a Deus e ao próximo. Defende que a Igreja não pode ser instrumentalizada para lutas políticas nem as suas instituições, que estão ao serviço do Homem, podem ser usados para ideologias. A Igreja, leigos e clérigos, têm o dever de participar na realização duma ordem social justa e de ajudar todas as pessoas em necessidade. É bem claro ao afirmar a distinção e separação entre Estado e Igreja “pertence à estrutura fundamental do cristianismo a distinção entre o que é de César e o que é de Deus”. “A Igreja não pode nem deve tomar nas suas próprias mãos a batalha política para realizar a sociedade mais justa” “Quem realiza a caridade em nome da Igreja, nunca procurará impor aos outros a fé da Igreja. Sabe que o amor, na sua pureza é gratuidade”.
A construção da justiça é tarefa da política e o Estado que não se oriente pela justiça social iguala um “bando de ladrões”… “A sociedade justa não pode ser obra da Igreja; deve ser realizada pela política. Um Estado, que queira prover a tudo e tudo açambarque, torna-se no fim de contas uma instância burocrática, que não pode assegurar o essencial de que o homem sofredor – todo o homem – tem necessidade: a amorosa dedicação pessoal.”
Na encíclica tornam-se visíveis as virtudes cristãs num humanismo aberto e amplo.
O cristianismo é situacional – é resposta. Esta encíclica revolucionária reconhece iniciativas marxistas válidas mas adverte que a justiça não é possível sem o amor. Também ele defende uma utopia, defende a utopia do amor como a verdadeira utopia. Esta utopia já vai sendo realidade em muitos lugares…
“O bom pastor deve estar radicado na contemplação”. Também aqui se dá um grande passo na direcção da mística. Constitui uma nova acentuação e um apelo aos bispos e padres na concepção do seu ministério. Estes não devem esgotar a sua acção na dogmática, no ensino nem na pastoral. De facto, por vezes, correm o perigo de, na sua acção, serem demasiadamente movidos por ideias e conceitos a que falta por vezes uma espiritualidade. Ele apresenta como prioritário o “dever da caridade como tarefa intrínseca da Igreja inteira e do Bispo na sua diocese”. « Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele »(1 Jo 4, 16).
„O amor tudo vence… cedamos ao amor!…

António Justo
Teólogo

António da Cunha Duarte Justo
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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

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