Saramago no Paraíso dos Ateus

A Luta é a mesma só as espadas é que são diferentes!

Para Saramago o mundo seria mais pacífico se fosse ateu! Talvez se refira à paz dos cemitérios, ou já se esqueceu das barbaridades executados no século passado em nome do socialismo ateu, do nacionalismo, do racismo, da ciência, dum certo iluminismo, que bateram todos os recordes da História.
José Saramago escreve bem mas não é suficiente. Não chega escrever bem, também é preciso pensar mais e mergulhar na sabedoria do mundo para a tornar visível. Não basta chegar-se às “honras dos altares” e depois viver-se dos devotos ou estar-se à disposição de interesses políticos de forma camuflada servindo morais tão dúbias como aqueles que critica na “cassete” contra a Igreja.
Do alto do seu palco Nobel pode aproveitar para atirar as suas farpas e servir mesmo de cavalo de tiro para muitos envergonhados ou sorrateiros que em nome da literatura procuram levar a brasa à sua sardinha! Esta tem sido a táctica de muitos iluminados enredados por essa Europa fora através de grupos discretos com assento nas capelas dos Governos e na “Roma Nobel”. Sempre nas cruzadas, ou melhor, nas turradas entre curro e a praça, em que o touro é a nação e o povo é bancada. Trata-se de difamar a cultura nacional ou europeia em nome da descultura. É ainda a hora da desaculturação para chegarem à desculturação, em nome do internacionalismo e da razão francesa iluminada. Querem só luz sem lâmpada, pretendem um humanismo sem Homem. Por outro lado fomentam um povo religioso mas sem Deus; a devoção é imprescindível é mesmo o óleo na engrenagem dum poder em que Deus estorva.
Sob o palio Nobel, Saramago proclama a guerra santa contra o mundo dos cruzados e contra um cristianismo que o incomoda, mas de que continua obsessivamente dependente. Este é para ele uma insónia de povo com odores de cristão a que reage distanciando-se, como filho ingrato, duma cultura que lhe deu o ser. Deforma o passado comprazendo-se em desenterrar os mortos como se o presente não tivesse males suficientes em que se pudesse deleitar. De cadeado atado ao comunismo, filho pródigo do cristianismo, berra a sua fúria ao céu dos seus seguidores numa tentativa desesperada de legitimar o seu marxismo ateísta.
Naturalmente que não quero estragar a imagem deste santo necessário nos devocionários comunistas ou socialistas marxistas. O que é ilegítimo é que ele transforme tudo em tapete para a sua ideologia. É mais fácil falar dum passado que não entende e deformá-lo do que encarar o presente de que vive. Ao falar-se mal dos distantes desviam-se os cães de caça da própria fazenda.
Ultimamente Saramago disse em Turim “ O mundo seria mais pacífico se nós fossemos todos ateus”. Este acto de fé dum pretenso ateu peca do pecado original crónico da hegemonia. É que o mundo é diverso e a diferença é o dado mais evidente na natureza, o que o senhor Saramago (não digo senhor José, para o diferenciar) não quer aceitar. O homem ateu e o homem religioso participam da bondade e da maldade comum. A esperança comunista numa sociedade ateia e sem religião, em que a única devoção permitida era a devoção política, foi-se pela água abaixo com a queda da União Soviética que tinha em poucos anos conseguido, na barbaridade, arrumar a Idade Média para um canto.
Talvez por isso Saramago continua “eu próprio sou ateísta, mas eu creio, que se houver Deus então tem de ser só um Deus e para todos o mesmo”. José Saramago, aqui deixou o rabo bem de fora! E aqui é que está a diferença entre comunismo e cristianismo, entre uma sociedade fechada e uma sociedade aberta. Enquanto que para o mundo cristão todo o ser humano é feito à imagem de Deus, o senhor Saramago quer um deus despótico à imagem dele (Saramago), um ídolo. Aqui se distanciam Saramago e o comunismo do povo, da pessoa humana e do cristianismo. Querem tudo igual à sua ideologia esquecendo que o rosto de todo o ser humano seja ele cristão ou ateu é imagem de Deus e na diferença se reconhece o divino. O que perturba muito boa gente é o facto da proibição bíblica de se fazer uma imagem de Deus e o facto de ela elevar a pessoa à condição de filha de Deus, de Jesus Cristo. Para o cristão, o outro, o cristão anónimo, cada pessoa é um absoluto e não apenas um mero indivíduo. Deus já era povo antes do comunismo mas não era ditador e aqui é que está o busílis da arte de governar. Se o povo Judaico vive e viverá, é pelo facto de não ter deixado de ser povo e este manteve-se em torno do seu Deus e da sua bíblia. O mesmo se poderá dizer do cristianismo e da cultura cristã. Naturalmente que tudo é processo dinâmico. A fórmula da unidade na diferença conseguiu-a a sabedoria cristã na doutrina da trindade. Esta porém corresponderá a uma espiritualidade em fermentação que remonta aos primeiros séculos da Igreja se segue na mística e em Teilhard de Chardin.
Saramago gostaria de um Deus Allah longínquo mais disciplinador e subjugador em que a liberdade individual é um vício e a pessoa está em função do grupo, um religião política; gostaria de nos ver todos muçulmanos mas graças a Deus que os cristãos cometeram o pecado das cruzadas a quem devemos o ser português.
Na apologia do seu mundo sem Deus acrescenta: “As religiões nunca contribuíram para que as pessoas se aproximassem umas das outras”. Mais um acto de fé ideológica sem Deus nem História. Se tivesse estado um pouco atento nas aulas de antropologia e de sociologia certamente que se tinha dado conta de que a imagem de Deus e da pessoa estão intrinsecamente ligadas ao processo de formação individual e cultural!… Há uma inter-relação condicionante. Isto independentemente da questão pontual ontológica de Deus. A ética do Sermão da Montanha, do amor ao próximo, da dignidade divina do ser humano, da justiça embora lhe passasse um pouco desapercebida deixou rastos atormentando-o na sua acção política. Naturalmente que nos dias de hoje o islamismo descredita as religiões tal como aconteceu com o comunismo.
O problema fundamental que está por detrás das insuficiências religiosas, científicas, políticas, ateístas, fascistas, comunistas é que, todos, em nome da raça, da nação, do povo, da ciência ou de Deus partem dum estado de consciência dialéctico baseado no espírito grego e dualista persa que apreendem a realidade sob a perspectiva de dois princípios antagónicos, dialéticos, quando a fórmula da realidade trinitária é polar e integradora não sendo exclusiva nem dicotómica. O indivíduo e o todo, Deus e a matéria não se opõem mas constituem um todo relacional em que 1 é igual a três salvaguardando-se a individualidade pessoal e a comunidade (Eu-Tu-Nós; Pai-Filho-Espírito Santo, Deus-Matéria-Vida). Nesta fórmula a luta continua mas não é exclusiva e nela há lugar também para gurus e principiantes, “bons” e “maus”. Não há mera exclusão ou negação, há complementação relacional na aceitação da diferença e da igualdade. Ser tudo em todos. Este é o melhor paradigma, o melhor programa!

António da Cunha Duarte Justo

António da Cunha Duarte Justo

Salazar no Museu

Um Portugal cada vez menos ninho de enjeitados e de Cucos…
Da Ideia que por aí corre sobre a fundação dum Museu a Salazar em Santa Comba Dão torna-se depreensível a necessidade duma discussão sobre um passado (Sec. XX) mal digerido.
O mais importante da ideia será discutir uma história por fazer.
Contra a iniciativa falam os interesses que se escondem por detrás do tempo. O tema Salazar, sujeito à demonização e ao enaltecimento, tem-se mantido no nevoeiro do tabu. Este ajuda a criar as distâncias e a encobrir os erros crassos e más intenções cometidas com a descolonização. Os refugiados da descolonização que o digam, bem como muitos antigos soldados que não vêem o tempo de serviço onerado na sua reforma! Uns fizeram o jeito e os outros pagam as favas. Uns apostaram na ideologia e os outros pagaram-na.
Esta matéria é tabu porque os “heróis” da descolonização ainda estão vivos e isso iria implicar com o seu nimbo e com os seus interesses organizados em “Companhias de responsabilidade limitada”. Além disso querem-se santos de cara lavada. Uma democracia sem santos faltar-lhe-ia a perspectiva da perenidade.
Os laboratórios científicos precisam de fundos do Estado, ou melhor, dos governos, e a imprensa precisa de dinheiro e de ambiente o que torna difícil uma discussão séria que não instrumentalizasse nem Salazar nem os revolucionários de Abril.
Tanto um regime como o outro têm aspectos positivos e negativos, independentemente da problemática das vítimas e dos aproveitadores de um e de outro regime. Só falando é que a gente se entende e aprende. Seria óbvia uma discussão aberta e descomplexada que deixasse de servir unicamente interesses limitados para passar a servir os interesses do povo, de Portugal. Talvez a geração mais nova tenha dentes para assumir tal empresa contribuindo para que Portugal se torne cada vez menos ninho de enjeitados e de cucos do poder…
Quem governa tem e deve ter o direito de errar e também de apostar no que não agrade à maioria. Errar é humano! Logo, se errar é humano, o verdadeiro Homem tem aqui a oportunidade de demonstrar que o é. Neste caso seriam homens divinos porque o povo não dá prémio a quem se confessa nem a quem reconhece que errou! Porque não começar já a construir um futuro novo? Ou será que a em democracia se vive melhor com homens softies e com viragos.
Em todo o caso não há que temer porque a justiça sempre teve os olhos vendados!…
Não é tarde para começar e investir mais individual e nacionalmente para que o povo cresça e apareça e passe a deixar de ser lamuriento e saudosista.
O empreendimento a começar não poderá reduzir-se a descartar os trunfos que cada regime usa no seu instinto de auto-afirmação, mas sobretudo, levar o povo a compreender melhor como se faz a História e motivar mais gente a fazer história para termos menos povo a sofrê-la. Tudo isto na consciência que a instituição sendo embora imperfeita é necessária, à sua maneira em cada época. .
Um Museu sobre Salazar! Para uns uma ideia peregrina, para outros um atentado, uma bênção ou ainda uma questão indiferente! É natural que Santa Comba Dão e os iniciadores da ideia do Museu sobre Salazar tiveram uma ideia luminosa que virá em benefício do concelho.
Aqui não se trata só de enterrar Salazar no museu ou de o valorizar. A questão mais importante será o detalhe, isto é a concepção base na efectivação do museu.
De resto, Santa Comba Dão já está a ganhar!…

António Justo!

António da Cunha Duarte Justo

PROIBIÇÃO DE FUMAR EM CASA E NO CARRO

Acabe-se com o tormento do fumo! Este é o slogan de médicos e de personalidades dos vários partidos na sociedade alemã. A esta exigência, com a intenção de se criar uma lei que proíba fumar em casa ou no carro, dão já expressão o perito para a Saúde do SPD, Karl Lauterbach, o deputado europeu da CDU Karl-Heinz Florenz e a delegada para as questões de droga do governo alemão, Sabina Bätzug ao quererem uma lei que acabe com a peste!
A intenção de políticos e médicos que exigem medidas que protejam as crianças indefesas é compreensível atendendo a que na Alemanha morrem 60 bebés por ano em consequência do fumo passivo.
A iniciativa certamente que irá desaparecer tal como a água na areia atendendo a que uma proibição de fumar em restaurantes e cafés tem apresentado os seus quês. Uma lei que proibisse fumar em casa e no carro corresponderia a um ataque à esfera privada e a Constituição alemã protege-a. O direito à liberdade pessoal e à inviolabilidade da habitação estão garantidas pela Constituição. Um outro problema que surgiria seria a viabilidade de aplicação duma tal lei que pretende controlar o comportamento das pessoas em casa. Seria uma lei incontrolável e que fomentaria a denunciação.
Não podemos resolver tudo com leis como é próprio dos estados totalitários marxistas. A democracia tem que usar de mais fantasia também na defesa dos mais fracos e não recorrer sempre ao machado da lei. No caso de se querer fazer recurso de legislação há ainda campos por explorar, como seja uma maior comparticipação dos fumadores para a Caixa de Previdência. O argumento de se querer proteger as pessoas que sofrem por causa de fumadores irresponsáveis não legitima fazer valer-se logo da limitação de direitos cívicos gerais além de criar precedentes inestimáveis.
As pessoas sabem que é prejudicial fumar e que é especialmente nocivo o fumo contido no ar de recintos fechados. Só que não estão conscientes do acto nem da sua gravidade. Muitas vezes é a inadvertência, o hábito, a estupidez, ou falta de consideração mas certamente menos a má vontade. Pais responsáveis não acendem cigarros na presença de crianças!… Para o fazerem porém têm de ir contra as cadeias do hábito que a própria sociedade nos outorga!

Antes de se recorrer a sanções repressivas seria urgente fomentar em toda a sociedade um espírito mais humano, mais responsável e altruísta. A palavra de ordem seria: consideração e respeito pelo outro!
Para isso não chegam leis nem campanhas pontuais; é preciso uma outra mentalidade quer da parte do legislador quer da parte dos legislados…

António Justo

António da Cunha Duarte Justo

ISLAO E OCIDENTE – UM DIÁLOGO DESIGUAL E HIPÓCRITA

Quando o terrorismo levanta a voz, as democracias europeias tremem e os responsáveis desconversam. Então o acto ritual é comum e o mesmo numa liturgia uníssona: os governos declaram que o problema se reduz apenas a extremistas; os políticos das várias cores engraxam o povo e os terroristas passando as velhas contas do seu rosário já desgastado na repetição das palavras mágicas “diálogo” e “tolerância”; os profissionais do saber escusam-se dizendo que algures há um potencial movimento de muçulmanos moderados abertos ao modernismo; os jornais para abrandarem as possíveis fervuras e a sua incapacidade de raciocinar calam o problema ou dão-lhe a volta com a argumentação das cruzadas cristãs; o Zé-povinho mete o rabo entre as pernas, diz Ámen e reza a Santa Bárbara; e alguns que leram o Corão e as Instruções do Profeta (Hadites) murmuram baixinho a sacrílega fórmula: o mundo islâmico não é compatível com o mundo ocidental. Estes, destoando no meio de tanta harmonia, de tanta hipocrisia, na abnegação do saber e na cegueira do não querer ver, são tratados como os antigos mensageiros anunciadores de guerra.

Duas sociedades paralelas em diálogo paralelo!
De resto, tudo ouviu dizer, ninguém leu, ninguém se informou pois saber compromete! No caso chega a opinião; aquela verdade que alimenta o povo e é filha da ignorância ou da má intenção.
Também dos sinos das igrejas e dos minaretes das mesquitas ressoam só vozes de paz celestial. Também eles não estão e não vêem, só ouvem o barulho da turba que passa não se dando conta donde ela vem e para onde ela vai!
É uma conversa de autistas em que cada um dos contundentes se dirige aos seus adereçados. O Ocidente fala para o seu rebanho indiferente e os Islamistas para os seus soldados e para o seu povo de plantão! Duas sociedades paralelas em diálogo paralelo!
Isto não é a terceira guerra mundial, não é o Islão contra o Ocidente, é apenas uma espécie de guerrilha como nos tempos lusitanos entre os prosélitos de Viriato (com a sua estratégia de guerrilha) e as tropas dos generais de Roma. Hoje como outrora “tecnologias” desiguais. Tal como outrora as linhas de combate não estão demarcadas. As fronteiras são culturais, ideológicas / religiosas não se podendo localizar o inimigo. Se então o “petróleo” cativava Roma, hoje ele é limitado e o que prevalece e permanece é a cultura, na guerrilha de alfobres plantados… à imagem dos outros em terras jugoslavas!
Direitos individuais sacrificados aos direitos culturais
A acção e a reacção do mundo muçulmano ao mundo ocidental têm sido profícuas confirmando a sua convicção e entusiasmo no seu empreendimento mais prometedor em termos de futuro. Enquanto que o Ocidente se preocupa em encher os cofres dos bancos na expansão económica e na exploração das fontes de riqueza material, os muçulmanos dedicam-se à expansão da sua cultura, de forma agressiva na África e na Ásia e de forma imperceptível na Europa. Duas guerras, duas estratégias, uma perspectiva: ganhar. Os europeus ganham dinheiro, ganham o presente e ganham a má consciência; os muçulmanos por seu lado ganham respeito, ganham o povo, ganham o futuro!…
Os Estados não tendo ainda superado a consciência tribal vivem do negócio multicultural. Cada um na sua coutada, com o seu rebanho como presa não está interessado na defesa dos direitos humanos. A Europa mente quando diz que defende os direitos humanos porque os não transforma em moeda comerciável, porque os não inclui nas suas relações e contratos bilaterais, aquilo que faz a nível económico!
Assim, o mundo ocidental não se preocupa com a vida das pessoas e aceita tudo. Uma mulher da arábia pode testemunhar a opressão da mulher oprimida através do seu lenço de cabeça mas a mulher europeia não pode testemunhar a sua “liberdade” passeando em bikini no Irão, na Arábia. Delegações europeias vergam-se às exigências muçulmanas colocando o seu lenço na cabeça quando os visitam e até acham engraçado ver o mundo daquela perspectiva. Eles porém, quando vêm cá, chegam a boicotar o uso de álcool mesmo aos parceiros europeus em recepções bilaterais. Na Europa exigem a construção de mesquitas até com minarete e na sua terra proíbem as organizações cristãs. O Ocidente tem de ir ao encontro das exigências muçulmanas a ponto de ceder o próprio carácter mas eles não transigem em nada. Podem organizar as suas instituições e mesquitas em toda a Europa sem contrapartidas. Prisioneiros muçulmanos chegaram a exigir numa cadeia que conheço na Alemanha um cozinheiro muçulmano porque a comida preparada por cristãos era impura. Interessante é que a Turquia, que se apresenta como a moderníssima entre os povos muçulmanos, não permite a expressão pública religiosa a outras religiões que não sejam muçulmanas. Lá só é permitido um único padre católico para cuidar dos católicos da Turquia e do Irão. Cristãos que se atrevam a missionar na Turquia estão sujeitos a prisão até três anos. O toque de sinos é proibido em território turco. Há igrejas das quais foram feitos currais. Aos cristãos é-lhes proibido renovar ou construir igrejas. Ainda hoje, os cristãos na Turquia são identificáveis com o número 31 no Bilhete de Identidade. A Alemanha permite que anualmente os consulados turcos mandem para cá 300 Imames (chefes religiosos) por ano para garantirem a missionação autêntica. A Arábia – Saudita que não permite o exercício da religião cristã sequer privadamente em casa, financia em toda a Europa a construção de mesquitas com minaretes.
O Islão também expande na Europa devido a uma certa hostilidade de políticos europeus contra a cultura cristã
Embora muitos políticos europeus sejam religiosamente indiferentes deveriam empenhar-se na defesa da expansão do cristianismo nestes estados porque a recusa do cristianismo corresponde à recusa da cultura europeia, até porque na sua concepção só o homo religiosus conta. Sim à construção de mesquitas na Europa e não à construção de igrejas na Turquia – isso não pode ser! Assim se renuncia a um instrumento das convenções bilaterais que fomentaria a democracia nos países islâmicos. Seria fatal se o Islão se expandisse na Europa à custa duma certa hostilidade de políticos europeus contra o cristianismo. Aqui a questão não é religiosa é cultural! Quem não vê isso é cego. Em toda a discussão é propositadamente ignorado que o Islão é um sistema religioso que se identifica com o sistema político.
Se os políticos tomassem a sua cultura e a sua populacho a sério não só cederiam aos desejos muçulmanos mas teriam de exigir bilateralidade nas relações. Deste modo os grupos lobbies muçulmanos na Europa teriam de se empenhar e embarcar no diálogo e não apenas formular exigências.
A arte de se sentir melindrado
A reacção do mundo muçulmano às caricaturas sobre Maomé e à aula dada por Bento XVI em Ratisbona mostra sistema, competência e boa organização. A reacção do mundo ocidental às provocações islamistas e às exigências dos grupos muçulmanos na Europa mostraram incompetência, desrespeito pelo parceiro cuja filosofia desconhecem e falta de espinha dorsal! Por toda a parte só se observa cedência e má figura em toda a linha. Analfabetismo e indiferença quanto aos valores religiosos e seculares! Se o islamismo já pode muito, o medo e a ignorância ajudam-no.
Muitos preocupam-se com o sentimento muçulmano ofendido. O sentimento ferido até parece verdadeiro e autêntico pelo facto de ser sentimento. Por isso tem carta branca para tudo e exige logo uma contra-ofensiva de actos de desagravo da parte europeia. Uns e outros esquecem porém que para muitíssimos muçulmanos a existência do cristianismo já é uma ofensa, que a existência de Israel é uma injúria, e que os Estados Unidos da América constituem um insulto diabólico.
Se não houvesse tanta cobardia da parte dos europeus certamente que os irmãos muçulmanos nos respeitariam mais.
Resultado: Uma cedência só deve acontecer de forma recíproca para que se possam desenvolver processos de diálogo sério e se possibilitem mudanças nos estados islâmicos.

António Justo

António da Cunha Duarte Justo

Aborto – despenalização da interrupção voluntária da gravidez

O Paradoxo Democrático
A política pretende um poder de disposição ilimitada sobre a vida e fundamenta essa pretensão com a liberdade humana e da ciência, ou, como no caso do projecto de lei N° 19/ até com a sua compaixão por mulheres. Como o argumento afectivo pode muito o referido projecto “Sobre a Exclusão da Ilicitude de casos de Interrupção Voluntária de Gravidez” confessa “em homenagem a todas as mulheres que sofreram na pele este flagelo e que durante todos estes anos se viram inibidas de qualquer protecção”. Com o seu sentir social, despenaliza também aquelas que “por razões de natureza económica ou social” realizem o aborto nas primeiras 16 semanas de gravidez “. Esta razão mostra o estado desumano da nossa sociedade que em vez de assegurar uma vida digna àquelas mulheres grávidas que por razões económicas se vêem obrigadas a abortar sem alternativa compensatória.
Torna-se óbvia e eminentemente necessária a criação duma instituição de adopção para crianças ainda no ventre materno (1) e de apoio a tais mães. Na falta de preservação da integridade humana recorrem ao argumento da moral arruaceira (2) para explicarem o projecto.
De referir a falta de espírito crítico e o espírito apelativo e emocional que apresenta a necessidade do referendo como “um imperativo de consciência” (3).
Antes de avançar na apresentação de alguns argumentos desejava que ficasse bem claro que a mães abortantes não se aponte o dedo incriminatório ou o machado da moral. Na discussão quer-se um ser consciente e adulto que possa estar para lá dos moralismos e interesses que estão por detrás do processo que o governo inicia ou de qualquer arauto duma moral anónima. Nada substitui a decisão consciente de cada pessoa como quer a nossa tradição cultural. Importante é trabalharmos todos no sentido de nos tornarmos mais Humanos e de ajudar outros a sê-lo também.
A legislação não pretende nem pode legalizar o aborto. Só cede à nossa fraqueza de seres humanos e apenas o despenaliza. A pressão e a necessidade dos partidos criarem consenso prevalece sobre a razão. Estes vivem dum relativismo ético que pretende predispor tudo e todos para um pluralismo de noções de valor necessário aos partidos. Só interessam visões partidas, sem interesse pelo integral, distante duma visão global dinâmica, no interesse da perspectiva, embora as leis da perspectiva já tenham sido alargadas pelas leis da nova física, pelos quanta e pela trindade (relativismo absoluto transcendente). A ideologia ecológico – naturalista e materialista parte da categoria valor da vida sem diferenciação entre animal e ser humano. Ela até chega a preferir o animal ao homem qualificando, por vezes, este de racista em relação às outras espécies. No partido dos Verdes há um grupo de radicais que desejaria que a população mundial humana se reduzisse a um quarto para que os vegetais e animais se pudessem desenvolver melhor!
A prática da interrupção voluntária da gravidez é discutível em todas as culturas por ser um atentado à dignidade humana e ao direito à vida. Na referida prática surge o conflito entre o direito da mãe à autodeterminação pessoal e o direito do feto, da criança, à vida, além dos riscos e complicações físicas e psíquicas da mãe e o empobrecimento da sociedade com menos um cidadão.
Segundo as ciências naturais, o código do óvulo fecundado já é o de um ser humano. Para os Persas era mais grave o aborto voluntário do que a infidelidade matrimonial. A doutrina moral católica considera o aborto um atentado à vida porque é contra o direito natural. A criança já recebe a alma no momento da geração.
A luta pela emancipação feminista torna-se mais forte nos anos sessenta com o argumento: “a barriga é minha” exigiam a libertação da pena e até consideram o aborto como um direito. A vulgarização dos anticonceptivos veio acalmar um pouco a luta.
Os partidos da esquerda viram na problemática e no sofrimento social de muitas mulheres uma oportunidade para chamarem a si eleitoras num público cada vez mais numeroso. Entretanto os homens exigem também o direito de voto na decisão de abortar ou não abortar atendendo a que se trata de decidir não sobre a própria barriga mas sobre o fruto – corpo comum, resultante da intervenção da mulher e do homem. Este é um ponto importante na discussão mas os partidos ainda o não tomam a sério por não ter relevância política suficiente a nível de votos!
A Discussão
O assunto do aborto é demasiado sério e tem demasiadas implicações para poder ser apenas regulado por leis. Também a discussão não deveria ser conduzida sob o desígnio de ideologia, e de fundamentalismos tradicionalistas ou marxistas. São latentes os dogmatismos de opinião quer dum lado quer do outro. Neste aspecto basta recordar alguns slogans: “holocausto de bebés”, “ontem o holocausto – hoje o bebé-causto”, “os especialistas da morte”, “fundamentalistas”, etc. Em tudo isto há muitas contradições no respeito pelos não-nascidos e no desprezo pelos nascidos e vice – versa! Por um lado tem-se respeito pelo repouso dos mortos no cemitério mas não pelo repouso da vida no ventre da mãe!
As duas partes apontam para interesses importantes que justificam: para uns a liberdade para outros a vida. Para complicar, este assunto não se pode reduzir a uma questão de opinião das massas mais ou menos manipuladas nem meramente resolvido abstractamente nos laboratórios do pensamento e da moral. Esta é uma questão vital de cada pessoa no encontro e na relação individual e social.
O Paradoxo Democrático
Para muita gente a vida dum ser humano só é considerada indisponível desde que se consiga defender. Este é um ponto muito fraco dos nossos sistemas sociais, diria mesmo, o busílis da legitimação da sociedade: o fraco não conta.
Na nossa sociedade o direito a ser defendido começa com o ser cidadão, não com o ser pessoa… Nesta visão pragmatista do ser humano, a falta de consciência de ser e a perda da consciência tem como consequência a perda do direito à vida, do direito de estar (seja ela feto, demência ou velhice incómoda). As democracias mutilam as pessoas ao quererem fundamentar os direitos do homem à vida apenas nos interesses concretos delas. Cortam a corrente à sociedade que passa a viver segundo o leme: o último que feche a porta! Ao reduzir-se o valor do ser humano a um estado de consciente ou inconsciente questiona-se o futuro de não nascidos e de nascidos. Tudo se torna subjectivo e relativo mensurável e valorizável em pesos e medidas deriváveis dos interesses da sociedade in loco. Nesta sociedade a vida é apenas uma qualidade dum determinado substrato material. Tudo se torna substituível na intencionalidade funcional, que se torna credo e ciência. Este substrato material reduz-se a veículo de necessidades e emoções mais ou menos oportunas, mais ou menos úteis e justificáveis da aventura ocasional. A vida e a morte tornam-se apenas o veiculado no espaço social. O que importa, no fim de contas é o suporte! A autodeterminação é deslegitimada através duma ideologia ad hoc que in loco e ad hoc determina o que é oportuna à vida ou não. O desejo espontâneo determina e o critério e a aceitação social. Por isso se faz tudo por nivelar tudo e todos pelo nível mais baixo. A hipersensibilização da opinião pública utilitarista torna-se o barómetro e a directiva do estado anímico social. Neste contexto não há lugar para uma ética com validade geral. A democracia passa a ser apenas um estado, um estado de espírito deficitário.
A Grelha Cultural Substrato
A auto – compreensão da nossa cultura ocidental considera a vida humana como tabu! Mesmo a vida dos seres inferiores deve ser respeitada e a licença para matar não deve ser apenas o resultado da opinião das massas movidas num ou noutro sentido. Também nenhum partido elabora um referendo ao povo solicitando-lhe uma decisão sobre a pena de morte para assassinos e terroristas! Aqui a vida ganha valor e os partidos sabem porquê?… Cada época da cultura dum povo tem os seus altos e os seus baixos. A filosofia cristã (síntese do pensar judaico – cristão, e greco-romano), como fundamento da nossa cultura não poderá nunca aceitar a permissão de matar. Ela está para a nossa cultura como a lei fundamental está para as leis; tal como as leis hereditárias da genética estão para os seres ela está para a nossa cultura! A sociedade com a sua cultura é um organismo vivo. Quem desconhece os fundamentos da nossa cultura, troca o ser pelo estar: canta de cuco mas anda sempre a pôr os ovos em ninho alheio.
Esta cultura é polar na sua dinâmica integral não excluindo portanto aquelas que os presunçosos e levianos chamam de pecadoras. Este assunto tem passado desapercebido na nossa civilização ocidental. Será talvez o tema do nosso novo século: através do estar dialéctico ao ser polar integral. O félix culpa!…
Vendados no seu processo dialéctico uns procuram fundamentos para poder matar e outros contra o matar em nome do direito! Aqueles, na dança da morte querem com a algazarra quebrar o tabu para partirem para uma nova situação. Talvez os desculpe o calendário, a festa pela festa ou meramente os foguetes encomendados!… Esta iniciativa funda-se na desgraça da aliança entre interesses políticos e uma casuística não esclarecida em que as vítimas são as mulheres e as crianças. Quer-se, através de cosméticas, uma política desumana em que o ser humano deve estar cada vez mais à disposição.
A vida é santa, é um direito incondicional e indisponível, não podendo tornar-se comerciável! Também a mãe não é apenas a portadora de material genético para uma criança. Segundo as ciências naturais a vida humana começa com a geração. Por outro lado nega-se à criança um direito à vida. A lei constitucional defende a vida mas a lei através do código penal despenaliza a não observação da mesma em certos casos.Querem reduzir o ser humano a um pedaço de matéria com valor relativo, tratando-o como um bocado de matéria sem valor. O Estado determina a morte da criança sem que ela tenha direito a advogado de defesa num sistema que regula a morte mas não ajuda a vida. No respeito pela pessoa e pelos seus defeitos Estado, Igreja e Indivíduo deveriam acompanhar as atingidas ajudando-as e acompanhando-as na esperança de elas se decidirem pela vida mas no respeito da sua decisão última sem as julgar. A vida humana é sagrada mas para nascidos e por nascer!
O ser humano não precisa de ser fundamentado nem de se justificar, nem necessita tão-pouco de ser encurralado nem sequer opiado por leis desumanas. Os direitos humanos não surgiram duma fundamentação racional mas sim declarados como axiomas a partir da religião na experiência do seu caminhar por vezes tenebroso ao longo da história. A razão não tem dogmas e estes se nalgum lado existem são dinâmicos no dogma dos dogmas que é a vida!…
É decadente procurar, através da plausibilidade das opiniões, passar-se à relatividade do valor da vida para assim se criarem novas realidades enganosas. Querem a castração dum povo de espírito caduco em que todos os gerados já seriam poucos. Não querem mães nem filhos, só querem fêmeas para cobrir e depois enjeitarem… Vivem da desobriga do amor no galanteio com abortantes e homossexuais que não amam mas conquistam com leis que os amarram ao esqueleto do partido. Não tomam a vida nem as pessoas a sério no seu caminhar fiel a princípios não pensados até ao fim!
Cria-se um aparelho de auxiliares da maquinaria de liquidar pessoas consideradas coisas. Faz-se a vénia à opinião e não à vida. Também se fala da honra dos médicos que receitam o aborto; por falta de tempo fazem tudo na liberdade de opiniões sem considerarem os / as atingidos/as. O aborto da criança torna-se banal porque fruto da banalidade duma vida abortada! Abortar será mais barato que arrancar um dente. Apesar de tudo permanece uma hipocrisia que pelo facto de ser colegial não se fundamenta. Assim o pluralismo das ideias de valor pressupõe a abolição da validade universal de valores e consequentemente a anulação da moral e nesta a decadência da democracia.
Com o direito sobre a vida e sobre a morte, a pessoa desobriga-se, desresponsabiliza-se passando a reinar a arbitrariedade seguindo-se-lhe o despotismo
António Justo

(1) Seria óbvia a criação duma instituição mediadora de adopções de crianças declaradas para aborto por razões económicas (caso ainda não haja nenhuma para o efeito específico). Esta poderia ser uma fundação benemérita particular ou a cargo da Igreja. Necessitar-se-ia duma legislação de desburocratização das leis de adopção para o assunto em questão. Desembargo da adopção acautelada do negócio.. Eu estaria disposto a colaborar .
(2) Querem a lei para preservação da integridade moral, dignidade social e da maternidade consciente.

(3) O Projecto de Resolução N.° 148/X diz que o imperativo de consciência se expressa num referendo em que os cidadãos eleitores recenseados no território nacional sejam chamados a pronunciar-se sobre a pergunta seguinte: “Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?” Os cidadãos eleitores recenseados no território nacional foram chamados a pronunciar-se em 28 de Junho de 1998 sobre o mesmo assunto recusando-o. Os políticos sabem que o povo muda facilmente de opinião e tentam de novo a sua chance!…

António da Cunha Duarte Justo
© 2006 António Justo:
in “Enciclopédia da Vida”

António da Cunha Duarte Justo