MOZART NAS MÃOS DE FUNDAMENTALISTAS?

A Alemanha dedicou o ano 2006 a Mozart. A Ópera “Idomeneo de Sebastian Amadeus Mozart encenada por Hans Neuenfels na “Komischen Oper” em Berlim revelou-se num escândalo ao mostrar o rei Idomeneo com as cabeças decapitadas de Poseidon, Jesus, Buda e Maomé, facto este que provocou ameaças por parte de muçulmanos, levoando a Deutsch Oper de Berlim a cancelar as representações previstas até amanhã, dia 26 de Novembro, dia em que seria encenada a peça da Ópera “Flauta Mágica de Mozart. A encenação apresentada por Hans Neuenfels distorce a Ópera de Mozart colocando-a ao serviço da ideologia contra Deus.
O encenador interpreta aí a perfeição da obra de Mozart como um recalcamento, uma tentativa de reprimir a fragilidade humana contra a realidade existencial. Projecta nele a visão do ser humano como um defeito de construção. Muitos artistas, na incapacidade de criarem novos modelos, apenas reagem continuando amarrados às ideologias do século XIX sem sequer terem notado a revolução quântica e a relatividade na física do século XX. Desconhecem as exigências do novo século vivendo ainda das exterioridades consumistas dum século trágico. Encostam-se aos velhos símbolos de identificação dum país ou duma civilização, criticando-os e ridicularizando-os. Estão certos de que, ao fazê-lo, receberão as atenções dum público distraído e superficial que só reage ao escândalo. Tornou-se já moda de decadentes actuarem contra mitos e contra as coisas mais sagradas duma cultura para melhor poderem encher as caixas das bilheteiras e para se tornarem célebres. Não conhecem o sagrado, a honra, o sentido. Incapazes de relação só conseguem desligar, desordenar! Destroem os modelos das sociedades do passado sem alternativa para o futuro porque lhes falta uma visão de sociedade, um projecto. Limitam-se a recusar qualquer modelo afirmativo ou qualquer projecto de sociedade futura. Querem apenas uma realidade no seu estado primitivo, caótico e sem sentido. Encontram-se numa fase regressiva padecendo da cabeça, duma intelectualidade selectiva que não quer Deus mas apenas ídolos.

Ruminadores da verdade ao serviço do precariado
Usam e abusam dos representantes consumados duma cultura, dum povo, dos seus elementos fomentadores (referências) de identidade, como meios para se encenarem a si mesmos. Dão expressão ao acto destrutivo, ao thanatos, satisfazendo-se e limitando-se a decapitar os modelos antigos na incapacidade de criar novos. Com uma atitude adolescente só sabem protestar contra o pai ou contra a mãe que lhes deu o ser. Não se sentem na tradição criativa divina mas na intervenção destrutiva, “diabólica”. Não querem aceitar a realidade de que Mozart era de facto um compositor de Deus e para isso apresentam a arte de Mozart não como afirmação, como procura de Deus mas como um contra modelo, um projecto rival. Isso porque não aceitam que o ser humano se oriente pelo perfeccionismo, por Deus. Recusam-se a aceitar a grelha divina como a forma, a pauta em que Mozart procura lançar as suas notas.
Representantes duma cultura do precariado, uma cultura decadente, não aceitam que o homem se oriente pela ideia do bem, pela perfeição. Mozart era demasiado católico para um mundo que se quer protestante, niilista. Não aceitam um Deus humano que poderia trazer consequências para o próprio projecto humano. Não conseguiram ainda compreender que a grandeza do cristianismo é ter elevado a culpa, a falha à divindade na teologia da cruz. Só conseguem conceber o mundo em termos contraditórios de matéria espírito, de aquém-além, de bem-mal, verdade-mentira considerando-se a si mesmos como os ruminadores da verdade. Na encenação “ Idomeneo” Cristo e outros representantes das religiões são decapitados e colocados no mesmo tabuleiro porque são vistos como os responsáveis da afirmação da ideia de Deus, duma ordem no mundo. O fanatismo racionalista usa aqui os mesmos meios que o fanatismo religioso tem usado para se afirmar. Inconscientes de que são portadores do mesmo vírus que os fanáticos religiosos combatem o mundo daqueles com a mentalidade deles. Contra toda a ligação e compromisso, com o seu à parte, em Idomeneo afirmam-se como os representantes do niilismo moderno não notando que este já foi ultrapassado. Identificam toda a tradição como ilusão e no desespero duma vida não vivida cortam a cabeça aos símbolos dessa tradição. Ao desligar-se assim de todas as ligações reduzem o horizonte humano à substância original que seria o caos, que querem à sua maneira.

No Reino dos Cegos quem tem um Olho é Rei
Assim se procura minar todos os fundamentos humanos e sociais oferecendo em vez da Ilusão da salvação, a ilusão do desespero. Interpretam mal Cristo reduzindo-o a um revisor ou bilheteiro da eternidade. Não querem saber para poderem ter razão. O cristianismo não se limita a distribuir bilhetes de ida e volta para o mundo da ilusão, ele não se deixa reduzir ao folclore religioso que muitas vezes apreenderam nas paróquias ou num discurso religioso superficial que reduz o cristianismo apenas a religião. O cristianismo não adia a vida para depois, para o alem, pelo contrário antecipa-a. O adiamento parece uma constante, uma espécie de condicionalismo humano tanto na chamada vida religiosa como na laica. O ser consciente contraria essa tendência. A vida não se reduz a um jogo de excursões da vida.
Mozart quer mostrar com a sua perfeição musical a harmonia divina que resolve todos os contrastes. A cena das cabeças cortadas foi uma interpolação abusiva.
O homem moderno não suporta a perfeição. No novo século ainda rebentam os últimos foguetes do último século que nos querem prostrados no chão, de rasto na afirmação da própria negatividade, querem-nos serpente, quando o século XXI anseia por um novo homem, um novo Deus, quer reencontrar o sentido. A essência do homem é reconhecer e amar.
No fim de Novembro, Hans Neutenfels encenará na mesma Ópera de Berlim A “Flauta Mágica”. Oxalá esta não passe pelas mesmas peripécias porque passou “Idomeneo” dado que também ela se presta a muitíssimas interpretações. Além disso é uma ópera de carácter iluminista, carregada de grande simbologia maçónica podendo dar azo a uma manifestação provocante no dia a dia da luta cultural subjacente à maçonaria. Temos o teatro, o outro templo, o lugar secular, o outro lado onde o outro homo religiosus participa no rito do sacrifício: aqui imola-se, mata-se Deus. Parece que a diferença dos devotos está apenas nos lugares frequentados. Afinal a diferença não é essencial nem qualitativa. Se é verdade que é preciso limpar as teias de aranha e o caruncho da religião cristã, não é menos verdade que é necessário acabar com a arrogância racionalista que quer que a origem do mundo comece na revolução francesa e no extremismo do seu racionalismo. Este quer acabar com a memória colectiva da civilização cristã. O extremismo religioso e o extremismo racionalista (iluminista) são iguais na sua essência, na sua estratégia e nos seus fins: uns agarram-se à divindade Deus e os outros à divindade Razão. Quem separa a unidade razão-coração, a razão do coração fomenta duas ditaduras.

A alternativa à catástrofe do século XXI será a Mística
O século XXI talvez chegue a compreender e a aceitar a perfeição, (onde a harmonia dos contrários atinge a nível musical tal perfeição, a que poderíamos chamar de estagnação, o ponto da ressonância perfeita dos elementos) alcançada no terceto entre Sarastro, Tamino e Pamina da “Flauta Mágica”. Este estado da consciência é insuportável para uma cultura que no século XIX e XX observa a realidade pelo prisma do paradigma dialéctico, do contraditório. Apesar das mais diversas e contraditórias forças Mozart consegue-lhe o substrato comum na divindade do ser. Mozart resolve aqui a contradição fazendo-a desaguar na perfeição harmónica. Ele não faz senão resolver na música o que crê e misticamente experimenta na realidade da trindade, expressa na fórmula trinitária 3=1. A Realidade, a divindade, que é uma, diferencia-se para se manifestar na forma do Espírito gerador (Pai), na matéria (Jesus) que na relação se torna Matéria divinizada (Jesus Cristo), o protótipo de toda a realidade que deixa de ser antagónica e bipolar para se realizar e expressar na harmonia do espírito criativo: o eu no nós e vice-versa. Ele é o “lugar” onde se une e resolve a aparente dicotomia entre o indivíduo e o outro. Estes resolvem-se na harmonia do 1=3, não havendo mais contradição entre a personalidade e a comunidade, entre cultura regional e global; a desarmonia resolve-se através do espírito informador que é o terceiro elemento pessoal. Aqui encontramo-nos já na via mística que une razão e coração; sintoniza pensar, sentir e agir.
Nesta visão já não seria necessário transformar a beleza e a harmonia nem tão-pouco a dissonância num cavalo de batalha como se fossem inimigas e distorcidoras duma realidade que se quer bruta. Enquanto cada pólo antagónico pretender persistir e subsistir por si mesmo sem o terceiro elemento (o espírito, o Amor) nada se mudará no agir individual e social. Por isso são alérgicos ao equador, procurando viver na extremidade polar, optando pelo oposto, tal como se vê no niilismo, no espiritualismo, na música desarmónica, no partidarismo político que sendo apenas um pólo da realidade o afirmam como a visão e solução da realidade.

A Essência da Treva é a Luz
No Idealismo alemão e na música de Mozart e de Bach, a realidade atinge a perfeição superando a ideia de mundo como campo de batalha onde se trava o combate dos bons contra os maus. Há uma tentativa de integrar e revalorizar todas as forças e energias num interrelacionamento subsidiário. Quer-se descobrir a interioridade do agir, do pensar e do sentir. Essa tentativa foi contrariada pelo realismo que se lhe seguiu.
Os fundamentalistas da arte tornam-se alérgicos a uma forma perfeita repudiando a aspiração estética orientada para harmonia criacionista. A estética passa a ser vista como atentado à realidade, visto a beleza e o bem serem expressão duma ordem, duma estética estabelecida que vincula a pessoa a valores condicionadores da atitude e do agir. Numa palavra querem apenas notas musicais sem pauta e sem escala de notas, pretendendo a negação da música. A destruição da escala porém não implicou a destruição da relação factual das notas entre si, o que lhes causa problemas. Alérgicos à realidade popular e ao seu folclore vão para o outro oposto e declaram-se cacofónicos e apologistas duma música sem escala. Colocam-se no outro extremo da verdade, combatendo-a daí. Se para uns a noite é muito escura para outros o dia demasiado encandeante. Uns não vêm a realidade devido à demasiada luz outros devido à demasiada escuridão. Uns e outros não notaram que a essência das trevas é a luz…
Isto já o tinha reconhecido Paulo ao afirmar: Oh Félix culpa!… Não se trata da perfeição pela perfeição mas dum processo com sentido. A aceitação da fraqueza como elemento cultural e da comunicação é um axioma sempre presente na teologia da cruz. As nossas sombras não passam de formas de sofrimento, momentos da dor e do prazer. Se é verdade que a morte é mais natural que o amor, a força do amor é que tudo sustenta. O niilismo quer reduzir a vida à morte expressando o Eros como uma forma da morte. Se a dor nos acorda e conduz à intimidade de nós mesmos o amor relega-nos ao todo. A criatura tem de se assumir como tal e aceitar a realidade com as suas leis bem como o que as suporta.
Deus escreve direito por linhas tortas e Wolfgang A. Mozart conseguiu a ressonância humana na pauta divina.
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo
In “ Pegadas do Tempo”

António da Cunha Duarte Justo

Corte do Porte-Pago à Troca dum Portal On-line! Batota!

O contributo do MNE com a disponibilização dum portal on-line para os jornais regionais vem acompanhado do corte do porte-pago para os mesmos, que eram enviados para associações de emigrantes com o apoio do ministério.

Quer dar-se a impressdao de que a medida do portal on-line seria uma compensação alternativa ao envio gratuito dos jornais. Não é! O acesso de emigrantes à lista de telefones on-line é a pagar.

O subsídio agora eliminado era uma medida acertada. Naturalmente que não favorecia o partidarismo mas os interesses da terra donde provêm os emigrantes para onde se enviam as economias.(De esperar que o que se poupa nos portes não seja depois esbanjado em jornais partidários do seio da emigração!).

Esta é mais uma medida de poupança e de desconsideração pelos emigrantes. Além de se manifestar como depredadora da rica iniciativa regional e individual, dá uma machadada numa fonte de informação isenta e muito querida dos portugueses que continuam muito ligados à terra natal e às pessoas que nela actuam.

Tomam-se medidas sem se conhecer a realidade migrante e sem se ter a mínima consideração por ela. Querem uma migração apenas vaca leiteira, uma emigração de apoio (com remessas de 6,7 milhões de Euros por dia) ao subdesenvolvimento camuflado dum país, cada vez mais velho e do qual os cidadãos mais novos se vêem obrigados a fugir por falta de meios e duma elite irresponsável.

Os emigrantes que continuam a emigrar constituem uma clientela que geralmente não faz parte da camada social consumidora de cultura. Ela é carente e vítima. É de lamentar que os incentivos mais afectivos e efectivos na promoção da cultura sejam regateados e para mais por um país que tem vivido em grande parte da emigração que continua a desconsiderar e de que se envergonha.

Pelo que oiço em muitas reuniões com associações, é geral o descontentamento com os programas da RTPI e com os seus noticiários intermináveis e já por isso inadmissíveis para quem tem mais que fazer.

Que os políticos estejam mais virados para a vertente económica dos emigrantes que singraram no estrangeiro é compreensível mas não justifica nem desculpa a medida. Os políticos têm que aceitar que Portugal continua a ser um país de emigração. Ou será que as migalhas que disponibiliza aos imigrantes as tiram dos emigrantes?

É sarcástica a atitude quando o governo sugere aos jornais regionais para que apelem ao contributo das empresas residentes no estrangeiro no sentido de apoiarem a manutenção dos jornais regionais como “vínculo linguístico e da cultura portuguesa” e ele mesmo os deixa à chuva, desresponsabilizando-se.

O governo em vez de reduzir cada vez mais as verbas produtivas da emigração deveria começar por poupar e racionalizar a administração no estrangeiro. Esta porém engorda cada vez mais porque tem bons padrinhos, mesmo a nível de representantes da emigração para a Europa que se encostam a ela. A administração parece viver para si. E os políticos parecem viver de e para ela.

António da Cunha Duarte Justo

Mau trato de animais!

O Supremo Tribunal alemão deu razão às queixas de muçulmanos considerando a matança ritual de animais legal, ao contrário do que instâncias inferiores tinham decidido. Esta prática (entre muçulmanos e judeus) prevê que os animais sejam mortos de maneira sangrenta sem qualquer anestesia ou atordoamento.

É legalizado um ritual que não tem compaixão pelos animais.

Conseguem ocupar mais um espaço social na Alemanha em nome da liberdade de religião: segundo a sua prescrição religiosa, a carne não pode conter sangue, para não ser impura. Se é verdade que essa prescrição religiosa se baseia no Corão também é verdade que o Corão não obriga ninguém a comer carne. Pode-se ser vegetariano. Porque vêm exigir esse direito a um país que tinha proibido essa prática quando podiam importar a carne da Turquia? O facto de se quererem afirmar mesmo em questões acidentais só ajuda a fomentar a xenofobia!

Desde há dois mil anos se sabe que não é impuro o que entra pela boca mas o que sai dela!…

Isto não deve significar um levantar o dedo contra os muçulmanos porque a barbaridade da matança de quantidades sem conta de animais se deve mais a nós Ocidentais que exageramos no consumo da carne. Além disso esses povos ainda não passaram pela época do renascimento.

Também ainda me recordo, de quando era pequeno, como os porcos eram mortos e como o sangue jorrava não falando já do esbugalhar do olhar animal e da luta do animal com a morte. Desde então aprendi a venerar a carne que como e a ser mais regrado no seu consumo… Os animais vertebrados sentem a dor como nós.

Nesse tempo não eram conhecidos ainda os novos métodos dos matadouros que poupam já muitos dos sofrimentos aos animais embora estes certamente pressintam a sua morte quando arrastados para os matadoiros.

O Supremo tribunal legaliza a desumanidade dando um passo em direcção à Idade Média e o que é pior ainda fundando a sua decisão em nome da liberdade religiosa. Os juízes enganam-se no fundamento que dão para a permissão. Ou será que querem abandalhar o religioso? Aqui não se trata do cumprimento duma obrigação religiosa mas duma prescrição para a comida. De facto não é exigida a matança do animal de maneira sangrenta. O Corão apenas proíbe o consumo de alimentos impuros (Suras 1, 168 e 5, 4) não obrigando ninguém a comer carne. Para mais a autoridade religiosa da universidade do Cairo considerou o emprego do electro-choque rápido conforme ao Corao, podendo assim, os que se orientam pela norma, renunciar à forma arcaica brutal da matança.

O mesmo se diga de touradas em que o sangue jorra e em que o animal é maltratado e morto de forma cobarde em campo.

Estas e outras tradições de barbaridade com um pouco de fantasia poderiam ser transformadas ou mesmo substituídas por práticas ou ritos mais “humanos”. Se queremos enobrecer o Homem teremos de começar por considerar e respeitar o animal tal como fazia no século XII Francisco de Assis com “o irmão burro”, a irmã vaca, “o irmão sol”…

António Justo

António da Cunha Duarte Justo

Crise do Estado Partidário

Foi com grande satisfação que li, na secção “comentários” ao meu artigo-reflexao “O Estado Partidário em Crise”, o texto do Prof. Dr. Luís Miguel Cunha. Obrigado pela clarividente e clara exposição.
Aproveito para salientar um aspecto que aí refere: “O muro de Berlim caiu para o lado de cá com a importação de novas nomenklaturas, que se expressam e assaltam o poder nas empresas e administrações, mas também no lado de lá reinstalando-se com novos instrumentos de opressão capitalista.
O momento hoje é de novo de combate numa encruzilhada que nos atinge ou obriga a escolher entre:
(1)a espada do fundamentalismo;
(2)a cartilha capitalista;
(3)a cidadania individualizada do nihilismo e,
(4) uma festividade que se realiza sem recursos, sem motivos de celebração, sem alegria, apenas orgásmica ou de expressão entrópica…destinada a permitir a libertação de energias ou tensões acumuladas.”
Recomendo a sua leitura a todos.
A crise é a grande oportunidade que temos. O fanatismo, a indiferença são os indicadores fenomenológicos do estado doentio da nossa civilização. Eles são apenas o toque da sirene contra a entropia a nível individual e social.
António Justo

António da Cunha Duarte Justo

Cristianismo – O grupo religioso mais perseguido no mundo!

Sob a capa da religião comete-se muita violência e escondem-se muitos conflitos e mazelas…

200 milhões de cristãos são actualmente discriminados ou perseguidos em 50 dos 200 Estados do mundo. Segundo estatísticas sérias a perseguição religiosa aumenta cada vez mais. 80% dos perseguidos ou discriminados são cristãos, partindo-se ultimamente mesmo de 90%. (Nesta exposição refiro-me aos cristãos por serem os mais perseguidos).

A perseguição é mais dura em estados muçulmanos, porque esta religião aspira à hegemonia universal, e em estados ateístas ou comunistas como é o caso da Coreia do Norte e da China que consideram o cristianismo como perigo para o Estado. Estes estados de cunho marxista não aceitam a soberania autónoma do indivíduo, reduzem o indivíduo a súbdito, a mero instrumento da colectividade de que o Estado é o senhor absoluto e pode dispor. O socialismo marxista sempre considerou o cristianismo como o seu inimigo figadal atendendo a que este considera a pessoa como intocável na sua dignidade humana enquanto que o socialismo põe a tónica no colectivo vendo o indivíduo como objecto em função do colectivo. Na China muitos são obrigados a viver escondidos na ilegalidade das igrejas caseiras.

Na ditadura ateia da Coreia do Norte, nos últimos quatro anos desapareceram, sem deixar rasto mais de 2.000 comunidades cristãs com 300.000 cristãos (segundo o que informou a Deputada Erika Steinbach, no seu relatório no Parlamento alemão). Tem-se informação de excussões nesse regime de terror e da existência de campos de concentração para educação forçada onde cristãos são aprisionados. Os cristãos são vistos como risco de segurança para o estado, vendo-se muitos obrigados a abandonar a religião ou a fugir.

A Declaração dos Direitos Humanos da Organização da Conferência Islâmica do Cairo questiona os direitos religiosos subjugando-os à scharia (Lei islâmica). Esta, além da discriminação para com outras religiões, determina a pena de morte para quem abjure do Islão…

A situação dos cristãos e dos alevitas na Turquia é dramática. Nos últimos 90 anos a percentagem dos cristãos reduziu-se, através de perseguição e do genocídio, de 30% para 0,2% da população turca. Mesmo onde há leis que proíbem a perseguição, a discriminação continua através dum ambiente totalmente intolerante. Em Fevereiro passado foi aí assassinado o padre católico Andrea Santoro. O problema é que nem sequer o Papa pode levantar a voz na defesa dos cristãos porque automaticamente estes seriam expostos a maiores perseguições.

Também os hindus na Índia perseguem os cristãos violando freiras mesmo em grupo e matando padres. O que é mais estranho baseiam a sua atitude em Gandhi que era contra a missionação dizendo que os missionários deviam deixar a Índia. Ele não podia aceitar que os hindus que se convertiam ao cristianismo deixassem de ser vegetarianos e vestissem à moda europeia até com chapéu.

No século XX houve mais cristãos mártires do que nos primeiros dois mil anos da sua existência. As perseguições muçulmanas e dos ateus marxistas contra os cristãos foram extremas. Em muitas nações continua a ser dramática a sua situação sem que haja solidariedade para com eles, mesmo da parte dos países ocidentais. O Ocidente interessado apenas na exploração e expansão económica cala ou põe à disposição a própria cultura. Tudo o que não é mercadoria estorva. Por outro lado o terceiro mundo considera o ocidente cristão, identificando a sua exploração com o Cristianismo. Uma situação complicada!…

A liberdade religiosa é um direito humano individual que se baseia na dignidade humana. Nas relações diplomáticas e comerciais os direitos humanos não têm feito parte das convenções bilaterais. Prefere-se dar asilo a perseguidos e assim manter a influência nos grupos estabelecidos nesses países, do que pressionar uma relação humana de justiça entre eles.
Ainda há pouco no Afeganistão foi condenado à morte Abdul Rahman pelo facto de se ter convertido ao cristianismo. A Itália concedeu-lhe porém asilo.

Na Nigéria, no sul do país vivem sobretudo cristãos que se dedicam à agricultura. Os muçulmanos vivem do comércio e da criação de gado, o que lhes possibilita melhor vida do que aos cristãos. As tenções entre muçulmanos e cristãos acentuaram-se pelo facto da agricultura ter piorado devido à falta de água para a cultura intensiva e devido ao facto dos bens de consumo que os muçulmanos vendem se terem tornado muitíssimo caros. Além disso emigraram muitos nigerianos muçulmanos do norte para o sul do país. O Estado não resolve os conflitos surgidos e os políticos de um e outro grupo aproveitam-se da situação para agitar os grupos atribuindo cada um a culpa à outra religião. Mais de 1.000 pessoas perderam a vida sendo incendiadas igrejas e mesquitas. Entretanto entraram em diálogo chegando à conclusao que o problema não era religioso e chegaram a compromissos. Este é um exemplo de como os conflitos surgem e de como a religião é aproveitada para os explicar!

O direito à liberdade de religião é fundamental porque toca e informa muitos outros valores como a vida, o sentido, protecção, arte e cultura. Uma religião que estreite os horizontes, coacte, que meta medo, que fomente a violência e conduza à guerra não merece esse nome!

As religiões são parte essencial das culturas pelo que foram e são envolvidas na guerra. Dá-se um uso abusivo de Deus. O Deus dos cristãos ao ser o Deus criador de todo o género humano não permite o abuso de qualquer ser humano atendendo a que este é todo irmão, filho do mesmo pai independentemente de crença ou não crença. Os que vivem da guerra e os Estados não querem limites ao seu poder sobre o ser humano. Não o querem soberano, querem-no súbdito, querem-no inteiro. Para melhor o dominarem servem-se e abusam da religião porque sabem que esta mexe com todo o ser. Reduzir a religião ao mutismo ou instrumentalizá-la é a alternativa que escolhem.

A razão de tanta perseguição ao cristianismo tem a ver com uma força inerente a todo o regime absolutista, com a dialéctica entre os regimes mais baseados no respeito pelos direitos individuais e a forma de estado colectivista que pela sua essência não suporta nem a pessoa soberana nem Deus, o rival!

Na Europa, devido ao socialismo marxista militante contra o cristianismo e à influência maçónica nos governos não há solidariedade para com os cristãos perseguidos. A política, nas suas relações bilaterais não toma em conta o aspecto cultural religioso, nem o equilíbrio nestas relações, o que explica a expansão das mesquitas islâmicas na Europa e a proibição de construção de igrejas em estados de população islâmica como é o caso da Turquia. A indiferença dos conservadores neste sector e o fanatismo secularista contra a religião cristã na Europa têm tirado bons dividendos na sua estratégia do “divide et impera”! Assim se compreende que não haja solidariedade com os cristãos perseguidos, sendo ignorada a sua situacao na opinião pública. Os judeus foram muito perseguidos e os cristãos são-no também por serem portadores duma vida exigente que questiona o satus quo, sendo, por isso tidos como uma ameaça!
António Justo

António da Cunha Duarte Justo