{"id":9792,"date":"2025-01-29T16:52:51","date_gmt":"2025-01-29T15:52:51","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=9792"},"modified":"2025-01-31T23:50:21","modified_gmt":"2025-01-31T22:50:21","slug":"o-ritual-das-cinzas-um-conto-sobre-memoria-e-hipocrisia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=9792","title":{"rendered":"O Ritual das Cinzas \u2013 Um Conto sobre Mem\u00f3ria e Hipocrisia"},"content":{"rendered":"<p>No frio cinzento da manh\u00e3, o vento cortava os campos vastos de Auschwitz-Birkenau. As folhas mortas sussurravam ao serem arrastadas pelo ch\u00e3o, lembrando ecos das vozes um dia ali silenciadas. Era 27 de janeiro, o 80\u00ba anivers\u00e1rio da liberta\u00e7\u00e3o do campo. Os preparativos estavam em curso, e os pol\u00edticos, com suas comitivas elegantes, come\u00e7avam a ocupar as cadeiras dispostas em frente ao port\u00e3o marcado com a infame inscri\u00e7\u00e3o &#8220;Arbeit macht frei&#8221; (&#8220;O trabalho liberta&#8221;).<\/p>\n<p>Na alameda ao fundo, dois homens caminhavam demoradamente. O primeiro, um sobrevivente octogen\u00e1rio de Auschwitz, chamado Samuel, carregava o peso da mem\u00f3ria nos fr\u00e1geis ombros. O segundo, seu neto David, um jornalista jovem e c\u00e9ptico, estava ali mais por insist\u00eancia do av\u00f4 do que por convic\u00e7\u00e3o. A troca de gera\u00e7\u00f5es entre eles era evidente: Samuel era um guardi\u00e3o do passado, enquanto David era um questionador do presente.<\/p>\n<p>\u2013 \u201cV\u00eas isso, David?\u201d \u2013 disse Samuel, apontando para o palco central onde l\u00edderes mundiais ajustavam gravatas e sorrisos. \u2013 \u201cChamam a isto homenagem. Olha para eles. Cabe\u00e7as inclinadas, frases ensaiadas, discursos sobre &#8216;nunca mais&#8217;. E depois voltam para a sua rotina de reuni\u00f5es e diferentes guerras.\u201d<\/p>\n<p>David, ciente da indigna\u00e7\u00e3o do av\u00f4, respondeu olhando para o ar:<\/p>\n<p>\u2013 \u201cMas n\u00e3o \u00e9 importante relembrar? Estas cerim\u00f3nias n\u00e3o servem para evitar que o mundo esque\u00e7a?\u201d<\/p>\n<p>Samuel parou, encarando o neto com olhos que carregavam a profundidade de oito d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>\u2013 \u201cRelembrar n\u00e3o \u00e9 o problema. Problema \u00e9 o que fazemos com essa lembran\u00e7a. A mem\u00f3ria sem ac\u00e7\u00e3o \u00e9 como uma vela acesa ao vento: bonita, mas in\u00fatil. Olha para o palco. Quem falta l\u00e1?\u201d<\/p>\n<p>David hesitou, mas depois de esticar o olhar respondeu:<\/p>\n<p>\u2013 \u201cOs russos&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Samuel anuiu.<\/p>\n<p>\u2013 \u201cFoi o Ex\u00e9rcito Vermelho que nos libertou. Aqueles soldados sovi\u00e9ticos, muitos deles pouco mais velhos do que tu, enfrentaram as balas para poderem abrir os port\u00f5es deste inferno. E hoje, n\u00e3o foram convidados, porqu\u00ea? Porque agora s\u00e3o nossos \u2018inimigos\u2019.\u201d Ele fez aspas com os dedos no ar. \u201cAt\u00e9 a gratid\u00e3o, parece ser v\u00edtima da pol\u00edtica.\u201d<\/p>\n<p>David ficou em sil\u00eancio. Era verdade. A aus\u00eancia russa no evento era um elefante invis\u00edvel no meio da cerim\u00f3nia. Depois de alguns instantes, perguntou:<\/p>\n<p>\u2013 \u201cMas, av\u00f4, a R\u00fassia de hoje n\u00e3o \u00e9 a mesma de 1945. H\u00e1 raz\u00f5es pol\u00edticas&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Samuel interrompeu-o, afirmando mais a sua voz.<\/p>\n<p>\u2013 \u201cRaz\u00f5es pol\u00edticas&#8230; Sempre h\u00e1 raz\u00f5es, David. Foram as raz\u00f5es pol\u00edticas que fizeram o mundo ignorar o genoc\u00eddio enquanto ele acontecia. Foram as raz\u00f5es pol\u00edticas que tornaram as pessoas cegas enquanto os seus vizinhos desapareciam. Foram razoes pol\u00edticas que nos colocaram no estado em que agora nos encontramos. \u00a0Raz\u00f5es n\u00e3o justificam a ingratid\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Enquanto os dois caminhavam j\u00e1 mais perto do palco, o som acomodado das vozes oficiais preenchia o ar frio. O rei brit\u00e2nico Charles III fazia uma pausa dram\u00e1tica no seu discurso, enquanto o chanceler alem\u00e3o Olaf Scholz olhava solenemente para o horizonte. Samuel e David pararam ao lado de outros sobreviventes, muitos deles t\u00e3o fr\u00e1geis como ele, sentados em cadeiras de rodas ou apoiados em bengalas. Cada um carregava mem\u00f3rias como se fossem cicatrizes invis\u00edveis do tempo.<\/p>\n<p>\u2013 \u201cOlha para eles, David. Est\u00e3o aqui para discursar, mas esquecem que Auschwitz n\u00e3o foi apenas um crime alem\u00e3o. Foi um crime humano. E hoje, com os seus jogos de poder, continuam a alimentar a ideia de que os culpados s\u00e3o sempre os outros. A cumplicidade entre governantes e governados torna-se suficiente para justificar a culpabilidade dos outros. Deste modo \u00e9 mais f\u00e1cil dormir \u00e0 noite.\u201d<\/p>\n<p>David sentiu um desconforto crescente. As palavras do av\u00f4 penetravam como um espinho na sua consci\u00eancia. Olhou demoradamente \u00e0 sua volta. Sobreviventes com l\u00e1grimas discretas, jovens em sil\u00eancio respeitoso, mas tamb\u00e9m c\u00e2maras, flashes e discursos cuidadosamente preparados.<\/p>\n<p>\u2013 \u201cMas o que podemos fazer? N\u00e3o podemos mudar a pol\u00edtica global, av\u00f4.\u201d<\/p>\n<p>Samuel suspirou profundamente.<\/p>\n<p>\u2013 \u201cEu n\u00e3o espero que mudes o mundo. S\u00f3 espero que vejas para al\u00e9m do teatro. Auschwitz n\u00e3o \u00e9 um lugar para dividir, mas para unir. E o que eles fazem aqui \u00e9 us\u00e1-lo como palco para os seus pr\u00f3prios interesses divisionistas e ao n\u00e3o convidarem o russo abusam do evento para colocarem a culpa s\u00f3 nele.\u201d<\/p>\n<p>No palco, o presidente franc\u00eas Emmanuel Macron come\u00e7ou a falar sobre o crescimento do antissemitismo na Europa. As suas palavras, embora corretas, soavam como ecos frios vindos da dist\u00e2ncia. Samuel virou-se para o neto e murmurou:<\/p>\n<p>\u2013 \u201cEles falam de antissemitismo, mas permanecem calados enquanto novos \u00f3dios crescem. Judeus, refugiados&#8230; as v\u00edtimas mudam, mas a indiferen\u00e7a permanece. Que aprendemos, afinal?\u201d<\/p>\n<p>David, pela primeira vez, sentiu o peso do que o av\u00f4 queria dizer. A mem\u00f3ria de Auschwitz n\u00e3o era apenas sobre o passado. Era um espelho cruel do presente. Ele olhou para Samuel e disse:<\/p>\n<p>\u2013 \u201cEnt\u00e3o o que fazemos, av\u00f4? Como mudamos isso?\u201d<\/p>\n<p>Samuel sorriu, um sorriso amarelo, mas cheio de significado.<\/p>\n<p>\u2013 \u201cLembra-te, David. Mas lembra-te de verdade. N\u00e3o deixes que a mem\u00f3ria seja apenas um ritual vazio. Questiona, fala, escreve. E nunca deixes que a pol\u00edtica decida quem merece ser lembrado.\u201d<\/p>\n<p>No final do evento, enquanto os l\u00edderes mundiais trocavam cortesias, cumprimentos e flashes continuavam a piscar, Samuel e David caminharam em sil\u00eancio at\u00e9 ao port\u00e3o de sa\u00edda. L\u00e1, Samuel parou e olhou para tr\u00e1s, para o campo que um dia fora a sua pris\u00e3o, e disse ao neto:<\/p>\n<p>\u2013 \u201cA verdadeira homenagem n\u00e3o est\u00e1 no palco, David. Est\u00e1 aqui. Nos fantasmas que nunca sair\u00e3o deste lugar. Certifica-te de que eles n\u00e3o sejam esquecidos \u2013 por ningu\u00e9m. Que a<span class=\"HwtZe\" lang=\"pt-PT\"><span class=\"jCAhz ChMk0b\"><span class=\"ryNqvb\"> chama\u00a0 da mem\u00f3ria e do sentimento brilhe pelo mundo!&#8221;<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p>E, com isso, eles deixaram Auschwitz, levando consigo n\u00e3o apenas mem\u00f3rias, mas a responsabilidade de lutar contra a indiferen\u00e7a \u2013 esteja ela onde estiver.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No frio cinzento da manh\u00e3, o vento cortava os campos vastos de Auschwitz-Birkenau. As folhas mortas sussurravam ao serem arrastadas pelo ch\u00e3o, lembrando ecos das vozes um dia ali silenciadas. Era 27 de janeiro, o 80\u00ba anivers\u00e1rio da liberta\u00e7\u00e3o do campo. 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