{"id":9735,"date":"2025-01-10T15:36:44","date_gmt":"2025-01-10T14:36:44","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=9735"},"modified":"2025-01-10T15:36:44","modified_gmt":"2025-01-10T14:36:44","slug":"o-regresso-do-neto-ao-lar-do-avo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=9735","title":{"rendered":"O REGRESSO DO NETO AO LAR DO AV\u00d4"},"content":{"rendered":"<p>Na quietude da tarde, entre o perfume da lenha queimada e o sonido dos p\u00e1ssaros distantes, o neto Daniel entrou no quintal da casa do av\u00f4 Joaquim. Fazia j\u00e1 anos desde a sua \u00faltima visita. O velho Joaquim, de m\u00e3os calejadas e olhos de horizonte vasto, aguardava-o sentado no alpendre, esculpindo um pequeno peda\u00e7o de madeira.<\/p>\n<p>\u2014 Av\u00f4, voltei. \u2014 disse o neto, hesitante, como se o peso das palavras fosse maior do que a pr\u00f3pria presen\u00e7a.<\/p>\n<p>O av\u00f4 ergueu os olhos com um sorriso que misturava surpresa e uma sabedoria ancestral como o mundo.<\/p>\n<p>\u2014 Voltas sempre ao que nunca te deixou, Daniel. Senta-te. Conta-me o que te trouxe de volta.<\/p>\n<p>O neto hesitou, mas sentou-se num tronco que esperava por ser cinzelado. Come\u00e7ou a contar da vida na cidade, das corridas intermin\u00e1veis atr\u00e1s de sonhos que se desmanchavam como a fumara\u00e7a que sa\u00eda do tronco fumegante. Falou da confus\u00e3o que sentia entre o que acreditava e o que via.<\/p>\n<p>\u2014 Av\u00f4, vi mundo e \u00e0s vezes sinto que estamos todos num barco que mete \u00e1gua, mas ningu\u00e9m sabe como o reparar. Pessoas debatendo-se por ser melhores que outras, ateus brigando com religiosos, pol\u00edticos em luta pelo poder, todos perdendo-se em certezas que s\u00e3o s\u00f3 pedras no sapato da caminhada. E eu sinto-me amachucado e perdido no meio disso tudo.<\/p>\n<p>O av\u00f4 Joaquim pousou o bocado de madeira e encarou o neto com o olhar de quem v\u00ea mais do que ouve.<\/p>\n<p>\u2014 Sabes, rapaz, a vida \u00e9 como este quintal. Tem terra, flores, ervas daninhas, \u00e1rvores que crescem para o alto e ra\u00edzes que se entrela\u00e7am no subsolo escuro. Cada um pensa que s\u00f3 o que est\u00e1 \u00e0 vista importa, mas \u00e9 l\u00e1 em baixo, no que n\u00e3o se v\u00ea, que est\u00e1 a for\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 E o que fazemos quando nem sabemos onde estamos? \u2014 perguntou o neto, com a afli\u00e7\u00e3o de quem busca uma b\u00fassola.<\/p>\n<p>O av\u00f4 suspirou, cruzando os dedos envelhecidos.<\/p>\n<p>\u2014 Quando Deus perguntou a Ad\u00e3o \u201cOnde est\u00e1s?\u201d, n\u00e3o foi porque Ele n\u00e3o sabia. Foi para que Ad\u00e3o e nele a humanidade se situasse. Meu neto Daniel, a pergunta continua ecoando na humanidade e em cada um, sem importar se \u00e9s crente, ateu ou agn\u00f3stico. O importante \u00e9 que respondas honestamente a ti mesmo. Sabes, a vida, com as suas pernas e caminhos, n\u00e3o pede certezas, mas abertura.<\/p>\n<p>O neto abaixou a cabe\u00e7a, como quem tenta absorver as palavras. E o av\u00f4 continuou, com a serenidade de quem j\u00e1 viu muitas esta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 O erro de muitos, meu caro Daniel, \u00e9 pensar que a raz\u00e3o \u00e9 o barco e n\u00e3o o remo. A raz\u00e3o ajuda a navegar, mas \u00e9 o amor \u2014 e o mist\u00e9rio que o sustenta \u2014 que mant\u00e9m o barco \u00e0 tona. F\u00e9, esperan\u00e7a, caridade e d\u00favidas s\u00e3o os ventos que nos movem. E todos estamos nesse mesmo oceano, procurando um porto que aponte para o eterno.<\/p>\n<p>Daniel sorriu pela primeira vez. Sentia que, apesar de n\u00e3o ter respostas, encontrava um ponto de partida.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, av\u00f4 Joaquim, o que \u00e9 o sentido da vida?<\/p>\n<p>O velho levantou-se com esfor\u00e7o e apontou para o c\u00e9u, onde o sol se punha em tons de ouro e p\u00farpura.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00eas aquilo no horizonte? A beleza n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 na luz, mas no encontro dela com a noite. O sentido da vida \u00e9 rela\u00e7\u00e3o. Estar em rela\u00e7\u00e3o com, em rela\u00e7\u00e3o nos outros, com o mundo, com o inef\u00e1vel, contigo mesmo. A vida \u00e9 dar e receber, um modo de estar em rela\u00e7\u00e3o pura como mostrou Cristo. N\u00e3o precisamos de respostas para viver bem. S\u00f3 precisamos de aceitar o convite de Deus, mesmo sem entend\u00ea-lo completamente. Afinal, somos todos peregrinos, n\u00e3o donos do caminho.<\/p>\n<p>O neto ficou em sil\u00eancio, contemplando o c\u00e9u, de cora\u00e7\u00e3o mais leve. Naquele momento, percebeu que n\u00e3o precisava de resolver todos os mist\u00e9rios da vida. Bastava viver a pergunta, na viv\u00eancia de um passo de cada vez.<\/p>\n<p>E o velho, com um sorriso s\u00e1bio, voltou \u00e0 sua madeira, esculpindo uma figura que s\u00f3 ele sabia o que viria a ser \u2014 tal como a vida.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>e em \u00a0Poesia de Ant\u00f3nio Justo <a href=\"http:\/\/poesiajusto.blogspot.com\/\">http:\/\/poesiajusto.blogspot.com\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na quietude da tarde, entre o perfume da lenha queimada e o sonido dos p\u00e1ssaros distantes, o neto Daniel entrou no quintal da casa do av\u00f4 Joaquim. Fazia j\u00e1 anos desde a sua \u00faltima visita. 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