{"id":9716,"date":"2025-01-02T15:56:42","date_gmt":"2025-01-02T14:56:42","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=9716"},"modified":"2025-01-02T15:57:33","modified_gmt":"2025-01-02T14:57:33","slug":"o-rio-e-a-alma-perdida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=9716","title":{"rendered":"O RIO E A ALMA PERDIDA"},"content":{"rendered":"<p>Havia um tempo em que o rio corria livre, serpenteando vales e montanhas com a gra\u00e7a de um dan\u00e7arino ao som de uma m\u00fasica suave e delicada imbu\u00edda da ternura de Bach. Nesse tempo, a sua \u00e1gua clara refletia o azul do c\u00e9u, as copas das \u00e1rvores e era lar de libelinhas, peixes e passarinhos que enchiam o meio envolvente com cantos e cores. As pessoas vinham at\u00e9 ele, deixavam as roupas nas margens, mergulhavam nas suas \u00e1guas, colecionavam pedrinhas e pescavam trutas que se escondiam sob rochas cintilantes. O rio era mais que um caudal de \u00e1gua; era um confidente, um retrato da natureza e, em muitos aspectos, um espelho da alma humana.<\/p>\n<p>Mas o tempo foi passando, e as m\u00e3os humanas interferiram no curso do rio. O que antes era uma dan\u00e7a despreocupada transformou-se em algo contido, for\u00e7ado. Barragens ergueram-se como muralhas, prendendo a correnteza, apagando curvas e lagos que, um dia, haviam sido ref\u00fagio de vida. V\u00e1rzeas inteiras desapareceram sob as \u00e1guas turvas, junto com os telhados de casas e mem\u00f3rias que antes respiravam esperan\u00e7a. O rio, agora engolido pela represa, n\u00e3o se reconhecia mais a si mesmo. Suas \u00e1guas estagnadas refletiam tristeza, e o seu murm\u00fario tornou-se num lamento que se fazia sentir no subir da bruma cinzenta.<\/p>\n<p>Uma noite, sentado \u00e0 beira do rio transformado, ouvi seu desabafo. Ele falou-me de sua dor, de como sentia saudades de ser livre, de carregar folhas, galhos e sonhos em seu percurso at\u00e9 ao mar. Compartilhei da sua tristeza, pois em sua transforma\u00e7\u00e3o eu via um reflexo do que acontecia \u00e0 humanidade. Assim como o rio, as pessoas tamb\u00e9m haviam perdido a sua ess\u00eancia, a sua alma.<\/p>\n<p>Convidei o rio para dividirmos o mesmo travesseiro de mem\u00f3rias. Fechamos os olhos juntos, tentando reviver um tempo em que sonhos individuais tinham espa\u00e7o para florescer, livres das imposi\u00e7\u00f5es de uma sociedade massificada e sob o controlo de for\u00e7as estranhas. O rio contou-me que seu destino n\u00e3o foi escolha sua, assim como a alma humana n\u00e3o escolhe ser moldada por for\u00e7as que a afastam de sua natureza aut\u00eantica. Ele lamentava como a sua \u00e1gua havia sido canalizada para um prop\u00f3sito impessoal, reduzida a uma f\u00f3rmula de H2O que sustentava uma civiliza\u00e7\u00e3o sem alma.<\/p>\n<p>\u201cE os humanos?\u201d, perguntou-me o rio, depois de uma pausa de sil\u00eancio. \u201cVoc\u00eas tamb\u00e9m est\u00e3o presos em barragens invis\u00edveis, perdendo a identidade ao serem agrupados em massas. Antes, cada um de v\u00f3s era como um cristal \u00fanico e brilhante; agora sois apenas parte de um fluxo amorfo. Ningu\u00e9m ouve mais o murm\u00fario de sua pr\u00f3pria alma, apenas ouve e segue o eco da corrente dominante.\u201d<\/p>\n<p>Eu nada respondi, pois sabia que o rio estava certo. Olhei para o c\u00e9u, buscando uma resposta que n\u00e3o veio. As \u00e1guas calmas da represa refletiam estrelas, mas era uma calmaria que escondia uma verdade inquietante. Como o rio, tamb\u00e9m me sentia preso, n\u00e3o mais um indiv\u00edduo, mas parte de uma massa que se movia ao sabor dos ventos an\u00f3nimos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Naquela noite, prometi ao rio que guardaria suas mem\u00f3rias e suas l\u00e1grimas. Decidi que n\u00e3o deixaria minha alma ser submersa pelo lago da conformidade. Talvez, como o rio, eu pudesse encontrar um caminho de volta \u00e0 liberdade, mesmo que apenas em sonhos, ou numa de troca de saudade transcendente que salda a dor da humanidade no colo da natureza.<\/p>\n<p>E assim adormecemos, o rio e eu, com a esperan\u00e7a de que, um dia, tanto as \u00e1guas como as almas reencontrariam o seu curso verdadeiro.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>A NATUREZA E O HOMEM SOFREM DA EROS\u00c3O DO SEU CARACTER NA MASSA<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s, natureza e humanos, caminhamos ao longo do riacho do espa\u00e7o e do tempo seguindo um chamamento para nos erguermos e definirmos.<\/p>\n<p>O meu amigo rio que antes se espregui\u00e7ava por meio de vales e montanhas e onde cada um podia nadar e divertir-se colecionando pedrinhas e pescando trutas escondidas debaixo das pedras e admirar os sedimentos que embelezavam o fundo do rio, amea\u00e7a perder o pr\u00f3prio caracter, o vigor e a vida que a natureza lhe proporcionou.\u00a0 O meu rio no seu percurso espelhava as \u00e1rvores e era o encanto de libelas e passarinhos e o seu rumorejar \u00e9 como um duche de alma; um encanto antes de se unir a outros rios at\u00e9 chegar ao mar.<\/p>\n<p>H\u00e1 dias o meu rio queixou-se aos meus p\u00e9s que se sente mal porque j\u00e1\u00a0 n\u00e3o \u00e9 o mesmo porque o que\u00a0 fizeram dele soa como uma ins\u00f3nia onde ecoam lamenta\u00e7\u00f5es de recorda\u00e7\u00f5es de uma realidade que n\u00e3o volta mais:\u00a0 das suas curvas, e pequenos lagos do seu leito que foram profanados com barragens que o engoliram dissolvendo-o no grande ventre represa onde as \u00e1guas se juntam para ficarem paradas encobrindo vales vivos e at\u00e9 telhados de casas, onde outrora a vida tamb\u00e9m fervilhava envolvida nas ondas de esperan\u00e7as abertas. Como \u00e9 triste e sem vida ver a vivacidade individual do rio transformada na quietude de uma barragem de \u00e1guas turvas e impedidas.<\/p>\n<p>Eu nesta noite chorei com o rio porque nele via em sintonia o destino da alma humana na alma do confidente rio. Ent\u00e3o eu consolava o rio convidando-o a dormirmos com a cabe\u00e7a juntos no mesmo travesseiro e assim n\u00e3o apagarmos os sonhos de outrora que eram pr\u00f3prios individuais, e ao mesmo tempo comuns e abertos quer na natureza quer no humano. For\u00e7as alheias n\u00e3o aceitaram a vida natural como ela \u00e9 e ao domestic\u00e1-la secaram-lhe a alma. A minha alma, na alma do rio ficou estagnada murchando a sua esperan\u00e7a porque a ess\u00eancia da \u00e1gua foi canalizada em levadas de bet\u00e3o. Esta \u00e1gua desanimada passou a ser a artificialidade de uma f\u00f3rmula H2O desencarnada ao servi\u00e7o de pessoas berberescas com alma de massa sem individualidade. As pessoas, tal como a \u00e1gua da barragem, vegetam na generalidade da corrente principal, j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o elas passaram reduzir-se \u00e0 voz do fluxo da corrente humana, sendo s\u00f3 eco vazio mais nada. Agora que as \u00e1guas cristalinas do rio foram obrigadas a viver nas \u00e1guas turvas da represa, verifico tamb\u00e9m eu que j\u00e1 n\u00e3o me entendem porque me vejo a viver j\u00e1 n\u00e3o na qualidade de indiv\u00edduo, mas como mera voz de grupo. Agora tal como o rio que n\u00e3o se sente como rio, mas como mera massa de \u00e1guas, prev\u00ea-se o destino de um humano que deixa de ser ele pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>As ventanias da anonimidade funcionam como ciclones de um viver no entremeio numa tens\u00e3o de alta e baixa press\u00e3o sem espa\u00e7o pr\u00f3prio. Nos finais do s\u00e9culo passado apressou-se o processo de despersonaliza\u00e7\u00e3o e a desculturaliza\u00e7\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o temos personalidade, nem nome, nem identidade para passarmos a ser a desaparecer na anonimidade do grupo ou agrupamento ordenado em fascista, comunista, religioso, ateu. A massifica\u00e7\u00e3o domina elites da pol\u00edtica e at\u00e9 da arte e da literatura que passaram a ordenar as pessoas em grupos simb\u00f3licos. Assim passamos a ter uma sociedade massa, um rebanho an\u00f3nimo com pastores an\u00f3nimos que vivem da massa.<\/p>\n<p>Hoje pensa-se n\u00e3o no indiv\u00edduo como pessoa, mas como figura dentro de um grupo. O que move o discurso e as ondas da sociedade n\u00e3o \u00e9 a pessoa nem o seu fundamento, mas apenas o com\u00e9rcio a acontecer e incorporado no socialismo e no capitalismo. A resolu\u00e7\u00e3o dos problemas humanos e sociais n\u00e3o se situa j\u00e1 no espa\u00e7o do indiv\u00edduo nem da dignidade humana passando a acontecer no v\u00e1cuo da anonimidade conflitual entre ideias e opini\u00f5es.<\/p>\n<p>O rio da humanidade encontra-se num falso percurso dado a confian\u00e7a e a esperan\u00e7a s\u00f3 se situarem nos cora\u00e7\u00f5es humanos individuais, na alma individual. Encontramo-nos todos como o rio extinto nas \u00e1guas do lago a tornar-nos a voz das correntes (mainstream) com um cora\u00e7\u00e3o de massa. Quando chegar\u00e1 o tempo de acordarmos? O rio confidenciou-me dizendo, \u201ctalvez numa noite astral, em que n\u00f3s lhe prometamos caminhar com ele juntando as suas mem\u00f3rias e as suas l\u00e1grimas \u00e0s nossas\u201d. Decidi que n\u00e3o deixaria minha alma ser submersa pelo lago da conformidade. Talvez, como o rio, eu pudesse encontrar um caminho de volta \u00e0 liberdade, mesmo que apenas em sonhos, ou numa de troca de saudade transcendente que salda a dor da humanidade no colo da natureza.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havia um tempo em que o rio corria livre, serpenteando vales e montanhas com a gra\u00e7a de um dan\u00e7arino ao som de uma m\u00fasica suave e delicada imbu\u00edda da ternura de Bach. Nesse tempo, a sua \u00e1gua clara refletia o azul do c\u00e9u, as copas das \u00e1rvores e era lar de libelinhas, peixes e passarinhos &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=9716\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">O RIO E A ALMA PERDIDA<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[3,15,14,4,5,6,7,8,16],"tags":[],"class_list":["post-9716","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte","category-cultura","category-economia","category-educacao","category-escola","category-migracao","category-politica","category-religiao","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9716","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9716"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9716\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9717,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9716\/revisions\/9717"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9716"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9716"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9716"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}