{"id":9220,"date":"2024-05-04T17:11:41","date_gmt":"2024-05-04T16:11:41","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=9220"},"modified":"2024-05-04T17:11:41","modified_gmt":"2024-05-04T16:11:41","slug":"moral-secular-e-moral-crista-em-dialogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=9220","title":{"rendered":"MORAL SECULAR E MORAL CRIST\u00c3 EM DI\u00c1LOGO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00c9tica e Moral em contexto de Globalismo e Interculturalismo<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Moralidade \u00e9 a resposta a n\u00edvel de conduta a princ\u00edpios, valores e regras de comportamento que orientam o ser humano para o bom viver em sociedade no sentido de alcan\u00e7ar a felicidade.<\/strong> A moralidade pode ser entendida como dimens\u00e3o do ser humano ou como uma forma de consci\u00eancia. Implica a capacidade de julgar o que \u00e9 certo e o que \u00e9 errado independentemente do c\u00f3digo moral jur\u00eddico ou religioso porque dependente da consci\u00eancia individual interna.<\/p>\n<p><strong>A \u00e9tica (filosofia moral) serve-se das diferentes concep\u00e7\u00f5es de moralidade para buscar princ\u00edpios universais que orientem o comportamento humano, no \u00e2mbito do certo e do errado e procura estabelecer padr\u00f5es e princ\u00edpios de comportamento do bom viver para todas as pessoas.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A moral \u00e9<\/strong> <strong>mais pessoal e culturalmente circunstanciada, estabelecendo o seu comportamento no \u00e2mbito do bem e do mal;<\/strong> centra-se mais nos valores e nas normas, variando de cultura para cultura e de pessoa para pessoa, podendo ser moldada pela educa\u00e7\u00e3o, experi\u00eancia pessoal e influ\u00eancias culturais.<\/p>\n<p><strong>A moral secular situa-se fora das tradi\u00e7\u00f5es religiosas embora integre delas muitos valores secularizados que em vez de assumirem uma rela\u00e7\u00e3o com Deus buscam a fonte da sua orienta\u00e7\u00e3o comportamental apenas na raz\u00e3o, na ci\u00eancia e na legisla\u00e7\u00e3o estatal<\/strong><strong>.<\/strong> Valores da \u00e9tica secular: \u00a0solidariedade, justi\u00e7a, compaix\u00e3o, cuidado. Serve-se por vezes pr\u00e1ticas budistas como medita\u00e7\u00e3o secular para adquirir concentra\u00e7\u00e3o plena e redu\u00e7\u00e3o de estresse.<\/p>\n<p><strong>A moral crist\u00e3 baseia os princ\u00edpios \u00e9ticos que orientam o comportamento humano em Deus, na tradi\u00e7\u00e3o, na raz\u00e3o e no agir de Jesus Cristo. As normas morais crist\u00e3s, pelo facto de estarem sujeitas \u00e0 consci\u00eancia pessoal de cada um n\u00e3o contradizem o caracter universal da moral apesar do c\u00f3digo formal que as envolve (no cristianismo a consci\u00eancia individual \u00e9 a soberana). Parte de um s\u00f3 Deus como elo comum de toda a humanidade e em que todo o humano tem a mesma dignidade inviol\u00e1vel baseada na filia\u00e7\u00e3o divina independentemente de cren\u00e7a ou descren\u00e7a.<\/strong><\/p>\n<p>Neste artigo usarei os termos moral e \u00e9tica de maneira indiferenciada embora a \u00e9tica se refira aos princ\u00edpios\/valores gerais e a moral se refira a esses valores aplicados que expressam a sua diferencia\u00e7\u00e3o nas diferentes religi\u00f5es e culturas.<\/p>\n<p><strong>Enquanto a moral secular acentua o falar de valores, a moral crist\u00e3 acentua a virtude (atitudes humanas), isto \u00e9, valores aplicados.<\/strong><\/p>\n<p>Na procura de distinguir o que \u00e9 certo e errado a moral secular busca princ\u00edpios \u00e9ticos fundamentados na raz\u00e3o, na experi\u00eancia humana, na ci\u00eancia e na filosofia. Os seus adeptos fundamentam a sua moralidade em princ\u00edpios racionais, como a busca da felicidade, o bem-estar humano, a justi\u00e7a, a igualdade, a liberdade e os direitos individuais. Esta moral vai-se adaptando \u00e0s mudan\u00e7as sociais e culturais no tempo e orienta o seu agir a partir das consequ\u00eancias que podem causar.<\/p>\n<p><strong>A \u00e9tica secular geralmente orienta a moralidade pelas consequ\u00eancias das ac\u00e7\u00f5es praticadas tendo em vista o caracter utilit\u00e1rio delas. O padr\u00e3o de orienta\u00e7\u00e3o para a moral correcta verifica-se \u00a0nas consequ\u00eancias positivas para a maioria das pessoas.<\/strong><\/p>\n<p>Na procura de distinguir o que \u00e9 bem e mal a moral crist\u00e3 baseia-se nos ensinamentos da B\u00edblia, na autoridade divina e na tradi\u00e7\u00e3o da Igreja acompanhada da raz\u00e3o e do Par\u00e1clito. Estes fornecem uma base s\u00f3lida para as normas \u00e9ticas e d\u00e3o mais seguran\u00e7a \u00e0s pessoas e \u00e0s comunidades por n\u00e3o correrem o perigo de se perderem no abstrato, no geral e no esp\u00edrito do tempo.<\/p>\n<p>Princ\u00edpios morais crist\u00e3os importantes s\u00e3o o amor a Deus e ao pr\u00f3ximo, a justi\u00e7a, a miseric\u00f3rdia, o perd\u00e3o, a virtude e a espiritualidade. Jesus Cristo \u00e9 o movente de toda a vida de um crist\u00e3o; ele \u00e9 o prot\u00f3tipo da vida a seguir-se.<\/p>\n<p>Adeptos da moral secular chegam a acusar o cristianismo de ter uma moral absoluta e imut\u00e1vel e como tal n\u00e3o flex\u00edvel \u00e0s mudan\u00e7as do tempo porque baseada nos preceitos da f\u00e9. <strong>A flexibilidade da moral crist\u00e3 revela-se no respeito pela consci\u00eancia individual considerada soberana e pela presen\u00e7a do Esp\u00edrito Santo como forma de expressar a revela\u00e7\u00e3o de Deus a n\u00edvel individual e no processo hist\u00f3rico.<\/strong> Tamb\u00e9m a ci\u00eancia teol\u00f3gica se ocupa das quest\u00f5es de f\u00e9 ao longo dos tempos em cont\u00ednuo di\u00e1logo com a sociedade e com as diferentes filosofias, servindo-se do instrumento da raz\u00e3o e possibilitando diversidade de interpreta\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas (a teologia do Esp\u00edrito Santo possibilita um aferimento de caracter \u201cdemocr\u00e1tico\u201e ao desenvolvimento individual e social ao longo da Hist\u00f3ria (a revela\u00e7\u00e3o de Deus tamb\u00e9m atrav\u00e9s da Hist\u00f3ria).<\/p>\n<p><strong>A moral secular \u00e9 mais flex\u00edvel porque mais virada para a mudan\u00e7a reduzindo o espectro da sua ocupa\u00e7\u00e3o ao utilit\u00e1rio pragm\u00e1tico e funcional sem grande compromisso com o passado sendo orientada para e pelo resultado da ac\u00e7\u00e3o<\/strong><strong>. <\/strong>Tamb\u00e9m h\u00e1 muitas sobreposi\u00e7\u00f5es e influ\u00eancias m\u00fatuas entre a moral crist\u00e3 e a moral secular! Esta surgiu em grande parte daquela. Numa sociedade de caracter globalista e multicultural a moral secular possibilita um di\u00e1logo acess\u00edvel a todas as culturas e bi\u00f3topos culturais dado empregar a raz\u00e3o na elabora\u00e7\u00e3o dos seus princ\u00edpios. A sua prioridade de acentua\u00e7\u00e3o na igualdade, na justi\u00e7a social e nos direitos individuais fomenta principalmente a igualdade e a justi\u00e7a social.<\/p>\n<p><strong>As desvantagens vis\u00edveis na moral secular devem-se sobretudo \u00e0 precaridade das suas fundamenta\u00e7\u00f5es a n\u00edvel de fontes e de autoridade e a n\u00e3o considerarem a pessoa integral pois deixam fora do seu \u00e2mbito<\/strong> <strong>quest\u00f5es espirituais e existenciais profundas.<\/strong>\u00a0 O seu campo limitado ao certo e ao errado, obriga a viver-se num processo dial\u00e9tico de debates cont\u00ednuos e a uma falta de consenso.<\/p>\n<p><strong>A flexibilidade da moral secular pressup\u00f5e como consequ\u00eancia o relativismo moral que conduz \u00e0 atitude de cada cabe\u00e7a sua senten\u00e7a e ao poss\u00edvel descr\u00e9dito de tudo o que \u00e9 institucional possibilitando um estado cultural confuso e ca\u00f3tico<\/strong> <strong>que s\u00f3 viria a servir a institucionaliza\u00e7\u00e3o de um poder autorit\u00e1rio global an\u00f3nimo preocupado apenas em seguir o esp\u00edrito do tempo ou em determin\u00e1-lo. Por outra parte, em termos sociais, a moral crist\u00e3, na sua tend\u00eancia\u00a0\u00a0\u00a0 para se fixar sobretudo na tradi\u00e7\u00e3o, revela uma certa inflexibilidade perante as mudan\u00e7as sociais dando a impress\u00e3o de chegar atrasada na hist\u00f3ria<\/strong>. A moral crist\u00e3, ao n\u00e3o seguir o politicamente correcto e o esp\u00edrito do tempo, d\u00e1 mais garantia de sustentabilidade hist\u00f3rico-social por prestar mais aten\u00e7\u00e3o ao homem integral, precisando assim de mais tempo para tentar perscrutar os sinais dos tempos.<\/p>\n<p>A consci\u00eancia secular aspira a bens terrenos relativos a espa\u00e7o e tempo enquanto a moral crist\u00e3 \u00e9 orientada por bens transcendentes e absolutos. O cristianismo ao valorizar a consci\u00eancia individual como actuante em todas as institui\u00e7\u00f5es reconhece a energia da rela\u00e7\u00e3o pessoal como movente de tudo. Descorou, por\u00e9m, o empenhamento na forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia laica-social que hoje em pol\u00edtica \u00e9 determinante. Disto se aproveita o socialismo marxista que aposta nas massas dirigidas e no Estado enquanto o cristianismo em termos pol\u00edtico-sociais se esvai na pessoa e no povo.<\/p>\n<p>Como se torna hoje muito vis\u00edvel nos temas aborto, eutan\u00e1sia, gender, ativismo LGBT, etc. a moral secular ao seguir o esp\u00edrito do tempo (e n\u00e3o tanto a racionalidade) cria leis que provocam tens\u00f5es sociais por entrarem em conflito com a moral crist\u00e3.<\/p>\n<p>A sociedade, por\u00e9m, precisa de institui\u00e7\u00f5es alternativas est\u00e1veis n\u00e3o s\u00f3 viradas para o presente e deste modo temperem o encanto do novo e do provis\u00f3rio de modo a \u00a0garantir mais responsabilidade humana e hist\u00f3rica no desenvolvimento humano<strong>.<\/strong><\/p>\n<p>Mais que fixarmo-nos nas vantagens e desvantagens dos dois sistemas morais importa que se entre num di\u00e1logo relacional de complementaridades interinas, pois se a moral secular se baseia na raz\u00e3o e na igualdade, a moral crist\u00e3 oferece uma base moral s\u00f3lida e confi\u00e1vel (muito embora mais exigente e idealista). No meio de tudo isto h\u00e1 que ter em conta que a sociedade humana \u00e9 heterog\u00e9nea e com diferentes est\u00e1dios de consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Em termos sociais, ambos os sistemas morais t\u00eam suas vantagens e desvantagens e complementam-se. <strong>Cren\u00e7as, valores e contextos individuais e culturais entremeiam-se de maneira a pessoas integrarem elementos de ambos os sistemas no comportamento do seu dia a dia e na pr\u00f3pria compreens\u00e3o da sua moralidade.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A substitui\u00e7\u00e3o da moral pelas leis tornar-se-ia incongruente porque o direito n\u00e3o tem por natureza algo imanente que o fundamente.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Com a industrializa\u00e7\u00e3o e depois das duas grandes guerras, a Europa viu surgir grande quantidade de m\u00e3o-de-obra imigrante para dar resposta \u00e0s necessidades econ\u00f3micas e ao crescimento industrial. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Limitar a consci\u00eancia \u00e0s necessidades prim\u00e1rias \u00e9 deix\u00e1-la \u00e0 merc\u00ea dos ventos sem saber para onde nos levam e facilitar a organiza\u00e7\u00e3o de poderes hegem\u00f3nicos e formatadores de consci\u00eancia de caracter an\u00f3nimo.<\/strong> As necessidades meramente corporais e individuais limitam o \u00e2mbito das possibilidades e a necessidade aliada \u00e0 emo\u00e7\u00e3o chega a obscurecer o esp\u00edrito. N\u00e3o chega o cogito ergo sum at\u00e9 porque tamb\u00e9m o cogito pode ser irrefletido e limitado. Freud n\u00e3o chegou a compreender o que era a consci\u00eancia, mas p\u00f4de reconhecer que o inconsciente era o seu outro (lado).<\/p>\n<p><strong>Como as pessoas traziam consigo a sua cultura religiosa espec\u00edfica como forma de identifica\u00e7\u00e3o surgem na sociedade europeia morais religiosas diferentes, lado a lado.<\/strong> Por outro lado, o globalismo e movimentos ateus, e agn\u00f3sticos aumentam criando na sociedade a necessidade de criar sistema \u00e9ticos que vinculem todo o cidad\u00e3o independentemente das suas liga\u00e7\u00f5es religiosas ou n\u00e3o religiosas.<\/p>\n<p><strong>Assim surgem tentativas a n\u00edvel religioso e n\u00e3o religioso de apresentar valores consensuais de refer\u00eancia com validade para uma sociedade querida multicultural e diversa.<\/strong><\/p>\n<p>Preocupados com a paz social e em estabelecer plataformas m\u00ednimas base de entendimento que possibilitem as diferentes religi\u00f5es a viverem pacificamente na sua conviv\u00eancia c\u00edvica, surgiu a necessidade de se moldar a sociedade com um m\u00ednimo de princ\u00edpios \u00e9ticos comuns. Dedicaram-se a esta tarefa cientistas e te\u00f3logos como <strong>Hans K\u00fcng que criou a Funda\u00e7\u00e3o \u00c9tica Mundial (Global Ethic Foundation) que defende valores b\u00e1sicos comuns em todo o mundo, baseados em pontos an\u00e1logos j\u00e1 existentes nas diferentes religi\u00f5es.<\/strong>\u00a0 Procuram assim normas e padr\u00f5es \u00e9ticos de caracter consensual para um mundo melhor!<\/p>\n<p>As regi\u00f5es e as culturas andam a diferentes velocidades. Perante a constata\u00e7\u00e3o de o Isl\u00e3o se manter por natureza cerrado em si mesmo, surge tamb\u00e9m a preocupa\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o de um Isl\u00e3o liberal na Europa, miss\u00e3o dific\u00edlima atendendo aos condicionalismos impostos pelo Cor\u00e3o + Sharia (preceitos) + os Ahadith ou Ditos e Feitos de Maom\u00e9. Em pa\u00edses como a Alemanha criaram-se faculdades de caracter teol\u00f3gico para forma\u00e7\u00e3o de acad\u00e9micos formados no isl\u00e3o: certamente uma maneira indirecta de formar tamb\u00e9m imames abertos ao discurso teol\u00f3gico e a uma certa compatibilidade com os valores ocidentais. <strong>(Atendendo ao caracter meramente funcional da pessoa no isl\u00e3o, ele \u00e9 beneficiado pelo socialismo, no discurso p\u00fablico).<\/strong><\/p>\n<p>Importante \u00e9 centrarmo-nos na realidade da pessoa humana integral e na situa\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica do p\u00f3s-guerra na Europa. Nesse sentido aplicam-se as diferentes disciplinas de antropologia filos\u00f3fica, a metaf\u00edsica e disciplinas que d\u00e3o sentido e complementam com fundamento os diferentes saberes sobre o Homem nos diferentes bi\u00f3topos culturais, analisando-os\u00a0\u00a0 a n\u00edvel das diferentes perspectivas cient\u00edficas, sejam elas f\u00edsica ou ci\u00eancias humanas, como sociologia, teologia, psicologia e medicina. Dar uma resposta numa s\u00f3 perspectiva corresponderia, no experimento de uma sociedade multicultural hodierna, a restringir a realidade.<\/p>\n<p><strong>Um Estado de caracter globalista e secular orientado pela economia e pelo com\u00e9rcio sente a necessidade de criar uma \u00e9tica secular n\u00e3o baseada na cren\u00e7a em Deus nem na religi\u00e3o e substituir para isso a religi\u00e3o pela ci\u00eancia e Deus pela raz\u00e3o e o humanismo por um utilitarismo mecanicista<\/strong>. Assim, enquanto a moral crist\u00e3 faz derivar os princ\u00edpios \u00e9ticos do evangelho e da raz\u00e3o, a moral secular apresenta princ\u00edpios \u00e9ticos reducionistas baseados na raz\u00e3o e na ci\u00eancia na esperan\u00e7a de com eles criar um elo comum a toda a humanidade.<\/p>\n<p><strong>A raz\u00e3o procura fundamentar valores como dignidade humana,<\/strong> <strong>respeito, justi\u00e7a, compaix\u00e3o e empatia, baseando-se no direito abstrato de que todas as pessoas s\u00e3o iguais com iguais chances e direitos perante a lei (de notar que j\u00e1 aqui o direito\/lei natural contradiz o direito positivo!).<\/strong><\/p>\n<p>Assim temos o humanismo crist\u00e3o fundamentado e resumido na Pessoa de Jesus Cristo e na tradi\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria eclesial e temos o humanismo secular fundamentado na raz\u00e3o e nos interesses da sociedade. <strong>A \u00e9tica crist\u00e3 \u00e9 de caracter relacional pessoal (antropol\u00f3gico) de conota\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica e a \u00e9tica secular \u00e9 de caracter funcional individual abstrato (sociol\u00f3gico) de conota\u00e7\u00e3o materialista (sendo o valor da pessoa concebido em fun\u00e7\u00e3o do colectivo).<\/strong><\/p>\n<p>Representantes da moral secular acusam a moral crist\u00e3 (ou religiosa) de fundamentar o seu comportamento no medo do castigo divino indo contra a autonomia individual. Isto corresponderia, por\u00e9m, a abordar a problem\u00e1tica de um modo reducionista porque se uns teriam medo de serem castigados (medo do pecado) os outros orientar-se-iam pelo medo das penaliza\u00e7\u00f5es previstas nas leis. <strong>Nesta perspectiva apolog\u00e9tica, tanto a espiritualidade crist\u00e3 como o idealismo secular fundamentar-se-iam igualmente no medo: no medo do castigo no al\u00e9m ou no medo de castigo no aqu\u00e9m.<\/strong><strong> Os princ\u00edpios \u00e9ticos n\u00e3o podem ser reduzidos nem \u00e0 religi\u00e3o nem \u00e0 ideologia pol\u00edtica, podendo-se, contudo, expressar em diferentes morais e costumes!<\/strong><\/p>\n<p>Temos a fonte dos valores morais baseados na f\u00e9, no amor ao pr\u00f3ximo e a cren\u00e7a secular orientada por princ\u00edpios racionais relacionados com a justi\u00e7a, a ci\u00eancia, a psicologia \u2026<\/p>\n<p><strong>Na moral secular prevalece o caracter social pol\u00edtico tendo como fulcro e fundamento de tudo o bem da sociedade, a funcionalidade do colectivo (marxismo dial\u00e9tico) enquanto a moral religiosa crist\u00e3 se orienta sobretudo para o bem da pessoa integrada na comunidade.<\/strong> Na moral secular o centro \u00e9 a sociedade e a integridade do cidad\u00e3o vem da sociedade (o cart\u00e3o do cidad\u00e3o indica a perten\u00e7a nacional) e na moral crist\u00e3 o centro \u00e9 a pessoa universal, mas numa rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com a comunidade: modelo trinit\u00e1rio do 1=3). <strong>Na moral crist\u00e3 o soberano \u00e9 o indiv\u00edduo e na moral secular o soberano \u00e9 o colectivo.<\/strong> \u00a0Em nome da comunidade temos mandamentos e regras e em nome da sociedade temos leis e regras (a diferen\u00e7a essencial situa-se no conceito religioso de pessoa como realidade relacional (veja-se o Mist\u00e9rio da Trindade em que comunidade e pessoa s\u00e3o um e como tal a dignidade humana \u00e9 parte inerente \u00e0 pessoa humana), e no conceito moral secular o indiv\u00edduo \u00e9 concebido como caracter funcional e como tal um aut\u00f3nomo mas apenas em fun\u00e7\u00e3o do coletivo (sociedade). Da\u00ed os valores serem concebidos na moral crist\u00e3 ad intra enquanto na moral secular serem considerados ad extra (sistema de princ\u00edpios \u00e9ticos baseados em valores providentes da raz\u00e3o, orientados pela ci\u00eancia e controlados pela lei constitucional. A atitude humana \u00e9 orientada por princ\u00edpios, por isso se coloca grande valor na toler\u00e2ncia para com os outros aut\u00f3nomos enquanto a \u00e9tica religiosa coloca valor na rela\u00e7\u00e3o amorosa (amor ao pr\u00f3ximo) entre todo o humano.<\/p>\n<p><strong>A ideia da moral secular de que atitudes \u00e9ticas constituem elas mesmas a pr\u00f3pria recompensa n\u00e3o tem em conta a natureza humana e carece de sentido que v\u00e1 al\u00e9m das necessidades individuais e sociais <\/strong>(e como tais limitadas a um tipo de sistema ou regime pol\u00edtico-social de mero controlo exterior, na lei). <strong>O ser humano passa a ser o fim de e em si mesmo, o que contradiz o desenvolvimento aberto da natureza, pois <\/strong><strong>em toda ela se constata que h\u00e1 um sentido e este se processa de baixo para cima<\/strong>, do simples para o complexo; da mat\u00e9ria para o Esp\u00edrito e a P\u00e1scoa une a mat\u00e9ria ao esp\u00edrito de maneira sublime; de maneira t\u00e3o sublime que pode equacionar nela o esp\u00edrito como origem e fim de todas as coisas (processo este tamb\u00e9m analogicamente transport\u00e1vel para a f\u00edsica qu\u00e2ntica)!<\/p>\n<p>A consci\u00eancia secular aspira a bens terrenos relativos a espa\u00e7o e tempo enquanto a moral crist\u00e3, de p\u00e9s na terra, \u00e9 orientada por bens transcendentes e supremos. O cristianismo ao valorizar a consci\u00eancia individual como actuante em todas as institui\u00e7\u00f5es reconhece a energia da rela\u00e7\u00e3o pessoal como movente de tudo (teologia trinit\u00e1ria). Descorou, por\u00e9m, o empenhamento na forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia laica-social que hoje em pol\u00edtica \u00e9 determinante. Disto se aproveita o socialismo marxista que aposta nas massas dirigidas de caracter formatado e no Estado enquanto o cristianismo em termos pol\u00edtico-sociais se esvai na pessoa e no povo.<\/p>\n<p><strong>Os arquitetos de uma nova sociedade tentam criar uma supraestrutura comum, mas confrontam-se com uma sociedade multicultural com fronteiras culturais e religiosas e com diferentes medidas do que \u00e9 certo e do que \u00e9 errado e do que \u00e9 bem e do que \u00e9 mal (veja-<\/strong><strong>se cristianismo, isl\u00e3o e materialismo<\/strong><strong>); <\/strong>al\u00e9m disso, uma certa fixa\u00e7\u00e3o em contextos antigos pode criar problemas de confronto com as novas maneiras de ser e de estar. Caso semelhante se d\u00e1 nas diferentes maneiras de ver entre gera\u00e7\u00f5es e nas diferentes mundivis\u00f5es laicas.<\/p>\n<p>A ideia do caminho verdadeiro ou dos iluminados (\u201cIlumina\u00e7\u00e3o\u201d de quem se sente superior ou senhor da verdade!) pode causar conflitos e promover rigidez, inflexibilidade e medo ou vergonha no conv\u00edvio social.<\/p>\n<p><strong>No cristianismo a uni\u00e3o de f\u00e9 e raz\u00e3o na base do amor, como elo de toda a rela\u00e7\u00e3o que se concretiza na atitude de amor ao pr\u00f3ximo, \u00e9 suficiente para superar orgulhos e sobreposi\u00e7\u00f5es porque o seu suporte \u00e9 a humildade na base de uma humanidade de irm\u00e3os em servi\u00e7o dos mais carenciados (Esta atitude mal-entendida levou existencialistas ateus a defenderem os mais fortes criando, em contraposi\u00e7\u00e3o, a ideia do Super-homem (que no conceito de Jean-Paul Sartre se transcende a si mesmo, vivendo num mundo sem sentido e como tal livre de moldar a pr\u00f3pria exist\u00eancia). \u00a0<\/strong>A \u00c9tica crist\u00e3 supera, por\u00e9m, os obst\u00e1culos que a moral secular lhe quer p\u00f4r apresentando-se como superior por pretender dar resposta a uma sociedade pluricultural com a sua moral secular baseada na ideia de raz\u00e3o, empatia, bem-estar e experi\u00eancia humana. A \u00e9tica secular apresenta-se como alternativa baseando os princ\u00edpios morais na raz\u00e3o, na empatia e experi\u00eancia humana que nas (religi\u00f5es e mitos foram resumidas em doutrinas. <strong>A \u00e9tica crist\u00e3 entende toda a realidade como rela\u00e7\u00e3o e concebe toda a pessoa com dignidade inalien\u00e1vel independentemente da sua origem ou confiss\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>O problema poder\u00e1 surgir no Isl\u00e3o que se considera superior a outras culturas (a n\u00edvel individual \u00e9 natural que cada pessoa se identifique com a sua cren\u00e7a seja ela religiosa ou secular). <strong>Mas \u00e9 claro que quer a pessoa secular quer a religiosa tem as suas limita\u00e7\u00f5es e riquezas tal como todas as culturas entre si.<\/strong> Para o crist\u00e3o toda a humanidade \u00e9 filha de Deus o que se pode verificar na ideia dos crist\u00e3os an\u00f3nimos (os n\u00e3o crist\u00e3os) ou dos Cristos abandonados.<\/p>\n<p><strong>A pessoa \u00e9 mais que a sua convic\u00e7\u00e3o ou mundivis\u00e3o e por isso n\u00e3o pode ser avaliada pela sua simples convic\u00e7\u00e3o nem pela sua fun\u00e7\u00e3o social.<\/strong> Os sistematizadores de uma moral secular ficam-se por vezes no abstrato; <strong>os princ\u00edpios que proveem da \u00e9tica mundana n\u00e3o s\u00e3o consistentes porque se perdem e n\u00e3o geram atitudes, mas ideias ou valores gerais abstratos longe de qualquer comunidade.<\/strong> Em nome de pretender ser uma \u00e9tica abrangente com princ\u00edpios racionais para todos numa sociedade de caracter abstrato, julgam-se superiores cometendo o mesmo erro que atribuem aos religiosos com as suas convic\u00e7\u00f5es. De facto, a n\u00edvel objetivo \u00e9 dif\u00edcil encontrar-se verdades vinculativas para toda a pessoa dado a certeza pertencer ao \u00e2mbito subjectivo.<\/p>\n<p><strong>A ideia da globaliza\u00e7\u00e3o e da moral secular n\u00e3o pode passar por cima dos diferentes \u201cbi\u00f3topos\u201d culturais nas suas diferentes maneiras de ser, estar, pensar, sentir e agir!<\/strong> <strong>Utilizar apenas a raz\u00e3o como medida padr\u00e3o da pessoa e da sociedade, nas suas inter-rela\u00e7\u00f5es, seria como querer reduzir as esta\u00e7\u00f5es do ano a uma s\u00f3 esta\u00e7\u00e3o e transformar a sociedade como que num planeta com uma s\u00f3 zona clim\u00e1tica.<\/strong><\/p>\n<p>A biodiversidade tem uma correspond\u00eancia n\u00e3o apenas de caracter anal\u00f3gico na diversidade individual e cultural. A pretens\u00e3o de querer transformar a sua multiplicidade numa monocultura latifundi\u00e1ria cultural n\u00e3o passaria de um artif\u00edcio apenas racional com fins utilit\u00e1rios com uma preocupa\u00e7\u00e3o meramente administrativa. A pessoa humana n\u00e3o pode ser submetida a uma filosofia apenas individualista nem apenas coletivista; a ipseidade \u00e9 o intermeio das duas.<\/p>\n<p><strong>O fomento da autonomia e da livre vontade, que a moral secular (contraditoriamente) quer ver como propriedade sua, esquece que a pessoa mesmo \u201caut\u00f3noma\u201d se define tamb\u00e9m pelo outro (um tu) e se encontra integrada num meio social e cultural<\/strong>: uma pressup\u00f5e a outra. Uma moral secular que diz querer respeitar os valores individuais e suas pr\u00f3prias decis\u00f5es baseadas no respeito pelos seus pr\u00f3prios valores e convic\u00e7\u00f5es, opera de maneira reducionista; fica-se pela confus\u00e3o do indiv\u00edduo com a comunidade sem definir a sua inter-rela\u00e7\u00e3o constitutiva e transfere apenas o problema da persuas\u00e3o das comunidades para os indiv\u00edduos, mas de maneira a estes em \u00faltima an\u00e1lise se dissolverem na sociedade como a gota no oceano!<\/p>\n<p>Com a vis\u00e3o unilateral da pessoa humana reduzida \u00e0 f\u00f3rmula racional e funcional (mecanicismo) tamb\u00e9m n\u00e3o resolvem o problema da rela\u00e7\u00e3o social como acusam a moral religiosa de o n\u00e3o fazer<strong>.\u00a0 N\u00e3o chega uma monocultura da raz\u00e3o, do colectivo, do humanismo e da liberdade como algo espec\u00edfico quando a religi\u00e3o crist\u00e3 d\u00e1 resposta a isso atrav\u00e9s do livre-arb\u00edtrio e da pessoa com valor\/dignidade \u00fanica como imagem de Deus; o mais alto grau da dignidade humana radica na qualidade de filhos de Deus (a s\u00famula de todo o ideal quer religioso quer secular!).<\/strong><\/p>\n<p>A \u00e9tica secular assumiu da moral crist\u00e3 (amor ao pr\u00f3ximo, compaix\u00e3o, felicidade individual) valores que designa de amizade, empatia, compaix\u00e3o e bem-estar.\u00a0 A moral crist\u00e3 d\u00e1 mais relevo ao aperfei\u00e7oamento da responsabilidade do comportamento individual e \u00e0 felicidade individual partindo da felicidade individual para a felicidade social, enquanto a \u00e9tica secular acentua o caminho inverso do bem-estar e da responsabilidade social (o que corresponde \u00e0 vis\u00e3o marxista que indirectamente legitima os quadros dirigentes ou o Estado em detrimento das bases \u201cprolet\u00e1rias\u201d). Na ideia da filia\u00e7\u00e3o divina do humano e no amor ao pr\u00f3ximo (dedica\u00e7\u00e3o activa) j\u00e1 se encontra o princ\u00edpio da dignidade humana, do respeito, da empatia e da diaconia social. Contudo tamb\u00e9m se verifica que o catolicismo n\u00e3o produz tantas pessoas pol\u00edticas como o protestantismo ou o isl\u00e3o. <strong>Este \u00e9 um d\u00e9fice que o catolicismo ter\u00e1 de tomar mais em conta no sentido de mais se empenhar a n\u00edvel pol\u00edtico no desenho da sociedade futura <\/strong>(embora toda a institui\u00e7\u00e3o represente mais fortemente a masculinidade de uma sociedade de matriz masculina, a institui\u00e7\u00e3o por muito que se esforce por fazer uma integra\u00e7\u00e3o a n\u00edvel de papeis e fun\u00e7\u00f5es na sociedade n\u00e3o satisfaz porque carece de uma verdadeira integra\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da feminilidade na matriz pol\u00edtico-social:<strong> neste aspecto, embora a Igreja cat\u00f3lica seja o lugar da feminilidade ela contradiz-se a si mesma ao persistir em afirmar a masculinidade dominante na sua institui\u00e7\u00e3o).<\/strong><\/p>\n<p>Uma caracter\u00edstica essencial de uma comunidade \u00e9 o sentido de comunidade; este cria a sua conex\u00e3o (atitude) vital resultante da experi\u00eancia e da pr\u00e1tica individual no grupo.<\/p>\n<p><strong>A \u00e9tica secular n\u00e3o responde ao caracter da atitude baseada na virtude e na experi\u00eancia transcendente comunit\u00e1ria.<\/strong> Exemplos de \u00e9tica secular na pr\u00e1tica incluem direitos humanos, \u00e9tica ambiental e bem-estar animal. Por outro lado, em nome da multiculturalidade a secularidade procura apresentar as defici\u00eancias de ajustamento de comunidades religiosas \u00e0 sociedade multicultural e por outro lado esquece as pr\u00f3prias defici\u00eancias provenientes de uma vis\u00e3o meramente mecanicista e utilit\u00e1ria.<\/p>\n<p>A dignidade humana de filhos de Deus (que transcende toda a subjetividade e institui\u00e7\u00f5es humanas) \u00e9 o fundamento da moral crist\u00e3 (todos s\u00e3o filhos de Deus) que implementou o humanismo de que o movimento secular se apoderou desviando a sua origem para a raz\u00e3o; a moral crist\u00e3 ultrapassa essa limita\u00e7\u00e3o colocando a dignidade humana como algo inerente a ela devido ao caracter divino inerente ao humano integral n\u00e3o podendo, por isso, ser apenas um derivado da raz\u00e3o.<\/p>\n<p>(A assist\u00eancia social como hoje a conhecemos deu-se devido \u00e0 seculariza\u00e7\u00e3o da assist\u00eancia religiosa em institui\u00e7\u00f5es do Estado como derivado da pr\u00e1tica das institui\u00e7\u00f5es da Caritas e da diaconia na tradi\u00e7\u00e3o das primeiras comunidades crist\u00e3s e da Idade M\u00e9dia. <strong>Pouco a pouco o Estado foi assumindo ao longo da Hist\u00f3ria o caracter humanit\u00e1rio do cristianismo. <\/strong>A declara\u00e7\u00e3o dos direitos humanos embora seja de caracter universal tem diferentes aplica\u00e7\u00f5es e interpreta\u00e7\u00f5es por exemplo numa Europa e numa Ar\u00e1bia.\u00a0 N\u00e3o se trata aqui de ver quem descobriu a roda, nem de querer acabar com todos os caminhos anteriores ao pretender tudo coberto pelo alcatr\u00e3o da raz\u00e3o e da ci\u00eancia. <strong>Dignidade humana, autonomia e comunidade s\u00e3o factores complementares que n\u00e3o se podem colocar uns contra os outros, tal como n\u00e3o se deve afirmar o Estado \u00e0 custa da religi\u00e3o nem a religi\u00e3o \u00e0 custa do Estado; a realidade social em que nos encontramos obriga uns e outros a atuarem numa atitude de subsidiariedade e de complementaridade sem se combaterem para assi se iniciar uma cultura de paz.<\/strong><\/p>\n<p>No cristianismo a dedica\u00e7\u00e3o aos prec\u00e1rios surge de uma atitude amorosa (caritas) e n\u00e3o apenas da sua dignidade baseada na raz\u00e3o ou em objectivos ligados apenas a sistemas de organiza\u00e7\u00e3o social. O bom trato \u00e9 independente do status social e se h\u00e1 uma predile\u00e7\u00e3o \u00e9 pelos mais necessitados.<\/p>\n<p>A base da raz\u00e3o e o bem-estar das pessoas n\u00e3o s\u00e3o raz\u00f5es suficientes para dar consist\u00eancia \u00e0 moral secular. <strong>O razo\u00e1vel mais natural \u00e9 afirmar a diversidade dos bi\u00f3topos culturais que na sua realiza\u00e7\u00e3o contribuem para um melhor<\/strong> <strong>espelho da felicidade da sociedade e do globo (na natureza e sua paisagem temos um sobreiral ao lado de um pinhal e de um eucaliptal sem que um espa\u00e7o tenha de negar o outro nem de excluir outros!).<\/strong> No interesse da consist\u00eancia social e de um futuro diverso e aberto seria de se fomentar a consci\u00eancia da complementaridade a n\u00edvel de natureza e das culturas o que corresponderia a ter uma vis\u00e3o a-perspectiva de uma realidade que apesar de tudo caminha na busca do melhor (O crist\u00e3o diria encontramo-nos com Deus a caminho de Deus). O livre arb\u00edtrio pressup\u00f5e uma vis\u00e3o n\u00e3o determinista do mundo ao contr\u00e1rio do que certas ci\u00eancias naturais pretendem.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o e o pensamento cr\u00edtico s\u00e3o instrumentos de grande aux\u00edlio nos momentos de se tomarem decis\u00f5es. Tamb\u00e9m a \u00e9tica crist\u00e3 considera imensos factores, entre eles a raz\u00e3o, na avalia\u00e7\u00e3o ou tomada de decis\u00f5es.\u00a0 Por exemplo a \u00e9tica crist\u00e3 mantem a orienta\u00e7\u00e3o de n\u00e3o julgar definitivamente algu\u00e9m: assim n\u00e3o se pode afirmar que um assassino cometeu um pecado mortal porque para o qualificar como tal teria de analisar-se a situa\u00e7\u00e3o, a gravidade do acto, o motivo, a maturidade psicol\u00f3gica da pessoa e depois de tudo isto o decidir de vontade livre praticar o acto na consci\u00eancia de querer faz\u00ea-lo sabendo que \u00e9 mau.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil aproximar-se de uma an\u00e1lise objetiva. Tamb\u00e9m h\u00e1 preconceitos individuais e sociais que influenciam os processos de decis\u00e3o. A raz\u00e3o e o pensamento cr\u00edtico s\u00e3o pressupostos na tomada de decis\u00f5es sejam eles pessoas crist\u00e3s ou seculares. <strong>A raz\u00e3o e a ci\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o propriedades laicas nem podem constituir padr\u00e3o \u00fanico de an\u00e1lise da pessoa nem da sociedade. A responsabilidade de<\/strong> <strong>uma decis\u00e3o pressup\u00f5e tamb\u00e9m a an\u00e1lise das consequ\u00eancias a n\u00edvel individual e comunit\u00e1rio. <\/strong>O facto de empatia e compaix\u00e3o serem qualidades universais independentemente da convic\u00e7\u00e3o n\u00e3o as tornam caracter\u00edsticas base de uma sociedade secular pelo simples facto de possibilitarem uma sociedade justa. <strong>Querer fazer derivar o respeito e o reconhecimento da dignidade humana da justi\u00e7a social seria cair num c\u00edrculo vicioso dado a justi\u00e7a partir da dignidade e do respeito. <\/strong><\/p>\n<p>A substitui\u00e7\u00e3o da divindade pela ci\u00eancia, como pretende a moral secular, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 consistente dado a pr\u00f3pria ci\u00eancia estar sujeita a mudan\u00e7as e \u00e0 confirma\u00e7\u00e3o de hip\u00f3teses. <strong>A moral profana necessita do Estado e este revela-se de caracter fr\u00e1gil no decorrer do tempo.<\/strong> Os la\u00e7os de solidariedade e de justi\u00e7a social s\u00e3o insuficientes para vincular uma consci\u00eancia, deixando-a presa ao direito positivo vari\u00e1vel, e como tal manca no que respeita \u00e0 motiva\u00e7\u00e3o e ao compromisso com a justi\u00e7a e a solidariedade social. <strong>Numa sociedade multicultural, fixar-se na narrativa religiosa ou na secular apresenta sempre um risco atendendo \u00e0s diferentes morais seculares e \u00e0s diferentes morais religiosas.<\/strong><\/p>\n<p>A liberdade iluminista e liberalista prev\u00ea o indiv\u00edduo livre de qualquer imposi\u00e7\u00e3o alheia, mas um tal ego desvinculado da comunidade n\u00e3o encontra motiva\u00e7\u00e3o para a solidariedade e para a justi\u00e7a (ficando presa \u00e0 nuvem da fantasia). Tamb\u00e9m uma moral de deveres n\u00e3o motiva suficientemente para o empenho colectivo at\u00e9 porque a justi\u00e7a plena \u00e9 totalmente imposs\u00edvel. A tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 acentua a coes\u00e3o comunit\u00e1ria e a autonomia individual atrav\u00e9s do livre-arb\u00edtrio e da autoconsci\u00eancia soberana individual (esta \u00e9 uma maneira realista da rela\u00e7\u00e3o de compromisso entre o caracter institucional necess\u00e1rio e o indiv\u00edduo soberano!).<\/p>\n<p>Na moral secular a pessoa n\u00e3o \u00e9 propriamente aut\u00f3noma porque depende do ditado da sociedade. A pretens\u00e3o de substituir a autoridade pelo direito positivo tamb\u00e9m ela n\u00e3o evita a tens\u00e3o e conflito entre os direitos individuais e o Estado de direito.<\/p>\n<p><strong>A autoridade moral n\u00e3o pode ser preceituada e querer base\u00e1-la em estat\u00edsticas seria algo aleat\u00f3rio. Garante de sustentabilidade ser\u00e1 de respeitar e aperfei\u00e7oar o que a natureza e a cultura original nos deixou como heran\u00e7a e meio de sobreviv\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p>Uma moral secular tamb\u00e9m n\u00e3o se pode aproveitar da \u00e9tica ambiental e da responsabilidade pela &#8220;nossa casa&#8221; comum s\u00f3 pelo facto de hoje ter muita aceita\u00e7\u00e3o ou para dar resposta ad hoc a um problema. <strong>Nem o biocentrismo nem o antropocentrismo podem dar resposta integral pelo facto de serem por natureza sectoriais e os diferentes valores s\u00e3o de caracter transversal em rela\u00e7\u00e3o a todo o humano, ganhando express\u00e3o pr\u00f3pria no bi\u00f3topo cultural que deve ser respeitado. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Observa-se que uma sociedade ao tornar-se multicultural, para se justificar e autoafirmar inclui nela a luta contra a tradi\u00e7\u00e3o da maioria<\/strong> <strong>e contra a tradi\u00e7\u00e3o servindo-se para isso de um liberalismo mal\u00e9fico que conduz ao individualismo deserdado. <\/strong>O esp\u00edrito contempor\u00e2neo utiliza \u00a0para isso a filosofia relativista \u00a0que privilegia as subculturas minorit\u00e1rias contra a cultura maiorit\u00e1ria (identidade cultural) e contra as suas institui\u00e7\u00f5es; nesse sentido afirma-se o relativismo cultural e at\u00e9 o relativismo dos valores em geral e em particular o pr\u00f3prio humanismo;<strong> esse relativismo favorece o aparecer de imensos bi\u00f3topos estranhos ou adversos \u00e0 cultura maiorit\u00e1ria (agendas, ONGs e ideologia marxista); uma vez perdida a cultura perde-se tamb\u00e9m a sociedade\/povo que, na consequ\u00eancia, passaria a ter uma express\u00e3o \u00a0meramente individualizada, ca\u00f3tica e autorit\u00e1ria. <\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m na rela\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica se observa um fen\u00f3meno estranho, mas talvez coerente em si. A sociedade ocidental que se encontra num estado decadente afirma-se aberta no sentido de abdicar dela mesma para fomentar guetos isl\u00e2micos din\u00e2micos e favorecer a matriz marxista socialista. E a n\u00edvel de pol\u00edtica externa fomenta a instabilidade de Estados, apoiando, contra o poder estabelecido, a rebeldia dos diferentes bi\u00f3topos culturais dentro do pa\u00eds!<\/p>\n<p><strong>Numa sociedade multicultural permanecem por resolver muitos<\/strong> <strong>problemas de fundamenta\u00e7\u00e3o dos valores e pr\u00e1ticas morais ou de justifica\u00e7\u00e3o de direitos.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O ideal seria cada parte, conforme o seu bi\u00f3topo (habitat) cultural, atuar de maneira complementar interactiva com contribui\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias no sentido de aprimorar o entendimento social e o respeito m\u00fatuo relativamente aos diferentes valores e direitos. Por natureza da pessoa humana a sociedade multicultural ter\u00e1 de viver sempre em situa\u00e7\u00e3o de luta e compromisso. \u00a0Para se evitarem sociedades paralelas seria de seguir o princ\u00edpio natural da integra\u00e7\u00e3o num processo de acultura\u00e7\u00e3o e incultura\u00e7\u00e3o que substituiria a multiculturalidade pela interculturalidade e por fim conduziria \u00e0 assimila\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p><strong>No experimento de um mundo a tornar-se multipolar, tanto as morais religiosas como as morais seculares ter\u00e3o de empreender uma rela\u00e7\u00e3o de conv\u00edvio harmonioso na consci\u00eancia de que s\u00e3o membros ou especificidades din\u00e2micas de um s\u00f3 corpo.<\/strong> Se no passado dominavam as morais religiosas, no presente tende a impor-se uma moral \u00e0 la carte e, a n\u00edvel de supraestruturas, uma moral secular materialista de conota\u00e7\u00e3o marxista e maoista. O globalismo e uma certa pol\u00edtica dirigista da ONU deveriam evitar o estabelecimento de uma monocultura humana e respeitar os \u201cecossistemas\u201d na sua express\u00e3o geogr\u00e1fica, bio-t\u00f3pica, culturo-t\u00f3pica e de habitat.<strong> Nesse sentido seria de se integrar a n\u00edvel individual e social o Princ\u00edpio Jesu\u00edno: a Deus o que \u00e9 de Deus e ao Estado o que \u00e9 do Estado salvaguardando a soberania da consci\u00eancia de cada pessoa sem que esta pretenda exercer a soberania sobre o outro. Pressup\u00f5e-se, para isso, o reconhecimento rec\u00edproco na base do di\u00e1logo e do compromisso, na certeza, por\u00e9m de que a resposta dada pelo cristianismo como modelo abrangente para toda a humanidade tem um caracter de matriz a n\u00e3o perder.<\/strong><\/p>\n<p>Na competi\u00e7\u00e3o de civiliza\u00e7\u00f5es e culturas, no final, a cultura que respeita e mant\u00e9m a lealdade a uma tradi\u00e7\u00e3o din\u00e2mica e \u00e0 base da sua filosofia (religi\u00f5es e tradi\u00e7\u00f5es) afirmar-se-\u00e1 de maneira sustent\u00e1vel (o liberalismo e individualismo agudo de que hoje padecemos n\u00e3o passar\u00e1 de uma constipa\u00e7\u00e3o provocada pelo exagero do esp\u00edrito anglo-sax\u00f3nico iniciado com a reforma. Tudo cresce de baixo para cima na dire\u00e7\u00e3o do sol e n\u00e3o o contr\u00e1rio. <strong>\u00c9 por isso que a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, sem renunciar ao que foi alcan\u00e7ado, deve reconhecer o pai e a m\u00e3e da sua cultura: o judaico-crist\u00e3o como m\u00e3e e o greco-romano como pai.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Te\u00f3logo e Pedagogo<\/p>\n<p><strong>Pegadas do Tempo<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9tica e Moral em contexto de Globalismo e Interculturalismo \u00a0Moralidade \u00e9 a resposta a n\u00edvel de conduta a princ\u00edpios, valores e regras de comportamento que orientam o ser humano para o bom viver em sociedade no sentido de alcan\u00e7ar a felicidade. A moralidade pode ser entendida como dimens\u00e3o do ser humano ou como uma forma &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=9220\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">MORAL SECULAR E MORAL CRIST\u00c3 EM DI\u00c1LOGO<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[3,15,14,4,5,6,7,8,16],"tags":[],"class_list":["post-9220","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte","category-cultura","category-economia","category-educacao","category-escola","category-migracao","category-politica","category-religiao","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9220","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9220"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9220\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9221,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9220\/revisions\/9221"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9220"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9220"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9220"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}