{"id":8638,"date":"2023-07-09T10:07:48","date_gmt":"2023-07-09T09:07:48","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=8638"},"modified":"2023-07-09T10:14:27","modified_gmt":"2023-07-09T09:14:27","slug":"morreu-jose-mattoso-o-grande-intelectual-e-historiador-portugues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=8638","title":{"rendered":"MORREU JOS\u00c9 MATTOSO O GRANDE INTELECTUAL E HISTORIADOR PORTUGU\u00caS"},"content":{"rendered":"<p>Com 90 anos morreu (8 de julho de 2023) o maior especialista da Hist\u00f3ria Medieval de Portugal e que foi catedr\u00e1tico universit\u00e1rio. Tive a dita de o ter como professor e de admirar a sua vis\u00e3o de \u00e1guia sobre a Hist\u00f3ria e de sentir a sua atitude humilde e reservada como \u00e9 atributo de gente s\u00e1bia.<br \/>\nO Doutor Mattoso sabia colocar-se no saber e sentir humano do tempo e reflectir os eventos medievais de maneira a transmitir-nos a cor local e a maneira de ser e de estar do humano na Idade M\u00e9dia, qualidade que falta a muitos historiadores de hoje que transmitem a sua vis\u00e3o hist\u00f3rica mais sobre a perspectiva ideol\u00f3gica.<br \/>\nDele aprendi tamb\u00e9m a saber o que \u00e9 a \u201ccor local da \u00e9poca\u201d. Al\u00e9m de especialista da Hist\u00f3ria Medieval portuguesa, ele tamb\u00e9m inventariou o Patrim\u00f3nio de Origem Portuguesa no Mundo e empenhou-se na pol\u00edtica concreta. Ele n\u00e3o perdeu o seu ideal de 20 anos de monge optando sempre por se dedicar \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio CD Justo<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pegadas do Tempo<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Coloco aqui uma entrevista muito revelativa dele dada ao P\u00fablico:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Vamos a algumas datas da vida de Jos\u00e9 Mattoso. Nasceu em 1933. Entrou para o mosteiro beneditino de Singeverga em 1950. Doutorou-se em Hist\u00f3ria Medieval pela Universidade de Lovaina em 1966. Regressou \u00e0 vida laica em 1970. Foi Pr\u00e9mio Pessoa em 1987. Dirigiu uma Hist\u00f3ria de Portugal que ainda \u00e9 uma refer\u00eancia em 1993\/95.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Foi professor universit\u00e1rio, dirigiu a Torre do Tombo, tem uma obra extensa. Acaba de ser lan\u00e7ado um livro que tem a sua coordena\u00e7\u00e3o sobre a\u00a0<\/strong><em><strong>Hist\u00f3ria da Vida Privada na Idade M\u00e9dia.<\/strong><\/em><strong>\u00a0O seu cognome poderia ser: Jos\u00e9 Mattoso, o medievalista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Vive numa aldeia de meia d\u00fazia de casas. C\u00e1 fora h\u00e1 um azulejo onde se avisa: cuidado com o c\u00e3o. Um rottweiler parece n\u00e3o fazer sentido no universo quieto, pac\u00edfico de Jos\u00e9 Mattoso. Mas a aldeia fica desviada do mundo, e \u00e9 preciso precaver os assaltos.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ao fundo v\u00ea-se a A25. A agita\u00e7\u00e3o do mundo urbano parece long\u00ednqua. H\u00e1 \u00e1rvores de diferentes esp\u00e9cies, flores, socalcos, internet e telem\u00f3vel. H\u00e1 uma zona de trabalho rente a uma janela, que \u00e9 o mundo dele. H\u00e1 a casa onde vive com a mulher, e que pertenceu \u00e0 fam\u00edlia desta. Fal\u00e1mos de Tchekov durante as fotografias.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Entra uma luz branca, quase de Inverno, pela janela, sob a qual nos sent\u00e1mos. Pelas cinco, a mulher trouxe ch\u00e1 e bolachas. A entrevista durou mais de duas horas e teve dois tempos: a vida em diferentes cap\u00edtulos que viveu e alguns dos diferentes cap\u00edtulos do livro sobre a vida privada na Idade M\u00e9dia que acaba de lan\u00e7ar.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Seria tentador dizer que Jos\u00e9 Mattoso, o historiador que se especializou na Idade M\u00e9dia, e que um dia foi monge beneditino, nos abriu um pouco da sua vida privada. Mas ser\u00e1 que abriu? Quando nos desped\u00edamos, confessou-me que ficara a pensar em muito do que dissera. Mas como se sabe, a vida privada, quem somos em privado, \u00e9 uma zona obscura e de dif\u00edcil acesso. Fic\u00e1mos na antec\u00e2mara. Fic\u00e1mos muito bem.\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Este s\u00edtio onde vive possibilita-lhe estar mais perto da \u201cespantosa realidade das coisas\u201d<\/strong><strong>(para citar um verso de Alberto Caeiro de que gosta especialmente)?<\/strong><\/p>\n<p>De certo modo. Permite-me um auto-dom\u00ednio e uma inser\u00e7\u00e3o na espantosa realidade das coisas. Permite-me reflectir. Sou lento na apreens\u00e3o e express\u00e3o verbal, e estar longe da cidade, sem a press\u00e3o do tempo e das pessoas, d\u00e1-me uma certa liberdade.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 uma procura de quietude, tamb\u00e9m? Interior, quero dizer.<\/strong><\/p>\n<p>Ah, sim. Vivi num mosteiro durante vinte anos. Foi para cumprir um desejo e uma tend\u00eancia que me acompanharam desde sempre. Estava relacionado com a busca de interioridade e do mist\u00e9rio da vida que s\u00f3 se pode alcan\u00e7ar de uma forma meditativa, com tempo. Para os Padres do Deserto, a medita\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a descoberta do Ser, \u00e9 a descoberta de Deus. Mas n\u00e3o sei se h\u00e1 grande diferen\u00e7a entre Deus e o Ser. Acho que \u00e9 na concentra\u00e7\u00e3o que o homem pode encontrar a verdade das coisas, a natureza, a autenticidade. Aquilo que est\u00e1 por detr\u00e1s. Um dos textos que estou a ler \u00e9 uma introdu\u00e7\u00e3o ao pensamento hindu; os Vedas t\u00eam muito essa ideia, de que \u00e9 na concentra\u00e7\u00e3o que encontramos a realidade das coisas.<\/p>\n<p><strong>Quando vinha para sua casa deparei-me com uma bifurca\u00e7\u00e3o. H\u00e1 no come\u00e7o da aldeia uma conflu\u00eancia de caminhos. Como na vida, h\u00e1 que tomar um caminho.<\/strong><\/p>\n<p>O tal. Os escritores antigos falavam no \u00edpsilon. \u00c9 um caminho que se divide em duas partes, n\u00f3s vamos por um lado ou por outro. \u00c9 uma express\u00e3o simb\u00f3lica, porque na realidade h\u00e1 muitos caminhos. Mas h\u00e1 \u201co\u201d caminho.<\/p>\n<p><strong>O seu caminho parece err\u00e1tico. H\u00e1 essa primeira fase no mosteiro, depois h\u00e1 a vida mundana, e depois uma vida em que parece estar novamente exilado, isolado, contemplativo, apesar da intensa produtividade.<\/strong><\/p>\n<p>Percebi que o mosteiro onde vivia n\u00e3o correspondia \u00e0 minha concep\u00e7\u00e3o de vida mon\u00e1stica e resolvi pedir a dispensa dos meus votos e passar \u00e0 vida laica. Tive um per\u00edodo de uma certa busca e hesita\u00e7\u00e3o, porque tinha que viver. Surgiu a possibilidade de come\u00e7ar a dar aulas na universidade. Passei a tentar encontrar o meu caminho atrav\u00e9s de uma aplica\u00e7\u00e3o das minhas compet\u00eancias. Percebi que podia fazer do ensino da Hist\u00f3ria uma certa realiza\u00e7\u00e3o desse servi\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Percebeu que a Hist\u00f3ria podia ser um of\u00edcio?<\/strong><\/p>\n<p>Mas n\u00e3o, apenas, como uma forma de ganhar a vida. Para uma grande parte das pessoas, a vida profissional n\u00e3o tem nada que ver com a vida intelectual \u2013 vivem isso separadamente. Procurei sempre a integra\u00e7\u00e3o das duas coisas. De forma a que n\u00e3o me ficasse apenas por um exerc\u00edcio, honesto, da minha profiss\u00e3o, mas por qualquer coisa de profundo. A Hist\u00f3ria \u00e9 uma boa disciplina para isso porque tamb\u00e9m fala da espantosa realidade das coisas, do Homem no tempo, fala da sociedade em geral, da rela\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo com a sociedade; \u00e9 uma via para a compreens\u00e3o da exist\u00eancia humana. Um pouco como a Filosofia.<\/p>\n<p><strong>O facto de o seu pai ter sido um autor de livros de Hist\u00f3ria, que marcaram gera\u00e7\u00f5es inteiras, influenciou-o na escolha da disciplina que usou para ler o mundo, para se integrar no mundo?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que sim. O meu pai gostava muito de Hist\u00f3ria e tinha uma propens\u00e3o para preferir a Idade M\u00e9dia por um certo romantismo. Pertencia a uma fam\u00edlia com tios padres, era uma pessoa religiosa. Isso tamb\u00e9m me influenciou na escolha da vida mon\u00e1stica. Acontece que me formei em Hist\u00f3ria na Universidade de Lovaina e estudei Idade M\u00e9dia porque [me dediquei] ao estudo da Hist\u00f3ria da minha Ordem Beneditina, que teve o seu esplendor na Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p><strong>Est\u00e1 a dizer que por acaso coincidiu com o per\u00edodo preferido do seu pai, mas que esse n\u00e3o foi o motivo principal, ou sequer o \u00fanico?<\/strong><\/p>\n<p>Exactamente. S\u00e3o raz\u00f5es um pouco circunstanciais, que acabam por ter alguma influ\u00eancia nas decis\u00f5es que se tomam. Tive a sorte de ter um bom professor, um excelente medievalista, e de ser uma \u00e1rea de estudo que n\u00e3o estava devidamente estudada. Pude fazer uma investiga\u00e7\u00e3o com uma certa originalidade.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Como era o seu pai? Fale-me da rela\u00e7\u00e3o que tinham.<\/strong><\/p>\n<p>O meu pai era uma pessoa com uma extrema bondade. Formou-se em Direito, em Coimbra, foi aluno de Salazar. Naquele tempo, \u00e0 volta de 1911\/12, era normal que as pessoas da burguesia escolhessem entre Medicina e Direito. Nunca praticou a advocacia. Tornou-se professor do ensino secund\u00e1rio numa escola industrial e comercial e tinha um grande talento pedag\u00f3gico. Ainda hoje encontro pessoas que me dizem: \u201cFui aluno do seu pai\u201d, com ar de quem teve um privil\u00e9gio extraordin\u00e1rio. Gostava de crian\u00e7as, de os ver crescer. A sua atitude para connosco (\u00e9ramos uma fam\u00edlia numerosa, oito filhos, cinco rapazes e tr\u00eas raparigas) foi sempre de um grande respeito pelo interlocutor.<\/p>\n<p><strong>Ele contava de ter sido aluno de Salazar? Foi uma experi\u00eancia marcante para ele?\u00a0\u00a0<\/strong>Ele admirava Salazar como homem excepcionalmente inteligente e um grande pol\u00edtico, mas desagradavam-lhe a sua frieza e o car\u00e1cter implac\u00e1vel, manifestado nos exames, na maneira como interrogava os alunos. O meu pai ficou-lhe com um certo medo; de vez em quando sonhava com Salazar, e isso para ele era um pesadelo.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 interessante ter percebido desde cedo que era poss\u00edvel sentir respeito e admira\u00e7\u00e3o e ao mesmo tempo temor e rep\u00fadio. S\u00e3o sentimentos fortes e frequentemente inconcili\u00e1veis. O seu pai ensinou-os de que era poss\u00edvel estar nesta aparente contradi\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Foi autor de um comp\u00eandio que foi express\u00e3o da ideologia do regime, era \u201co Mattoso\u201d, mas tinha amigos de todos os quadrantes pol\u00edticos, desde comunistas a democratas. Tinha uma grande amizade ao Dr. Fernando Vale, que morreu com cento e tantos anos e que foi um dos fundadores do PS.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 verdade que o pai de M\u00e1rio Soares era amigo do seu pai?<\/strong><\/p>\n<p>Era amigo do tio do meu pai, o bispo da Guarda D. Jos\u00e9 Alves Mattoso. Por sinal, foi o Dr. Jo\u00e3o Soares que arranjou o primeiro emprego do meu pai. Um trabalho de secretaria no Banco Nacional Ultramarino, em Leiria. N\u00e3o tiveram rela\u00e7\u00e3o al\u00e9m desta.<\/p>\n<p><strong>Politicamente estavam em diferentes lados da barricada.<\/strong><\/p>\n<p>Sim. O Dr. Jo\u00e3o Soares tinha sido padre, foi ministro dos governos republicanos, foi autor de um Atlas geogr\u00e1fico. O meu pai apontava este Atlas como uma obra muito bem feita e o Dr. Jo\u00e3o Soares como uma pessoa muito s\u00e9ria.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 que o seu pai se transformou no autor do comp\u00eandio de Hist\u00f3ria usado nas escolas?<\/strong><\/p>\n<p>O meu pai apreciava um texto simples, claro, bem redigido. (Foi ele que corrigiu os meus primeiros textos. Para evitar os adv\u00e9rbios de modo, a cacofonia, para a frase ser limpa). O primeiro comp\u00eandio que escreveu era uma reformula\u00e7\u00e3o de um comp\u00eandio escrito por esse tio, bispo. Como tinha um talento pedag\u00f3gico, queria que fossem livros agrad\u00e1veis, acess\u00edveis. Creio que tamb\u00e9m tinha talento como investigador, mas nunca teve possibilidade de o fazer, tirando dois ou tr\u00eas trabalhos mais curtos sobre o conceito de par\u00f3quia. Tinha uma certa pena, mas tinha de consagrar todo o tempo ao trabalho que permitia sustentar uma fam\u00edlia grande. A ajuda que ele teve (al\u00e9m do trabalho como professor) foram, justamente, os comp\u00eandios que escreveu. Que n\u00e3o lhe rendiam uma fortuna.<\/p>\n<p>Estava sempre \u00e0 secret\u00e1ria a escrever \u2013 \u00e9 a imagem que tenho dele. Tenho uma mem\u00f3ria feliz da minha inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p><strong>Que menino foi?<\/strong><\/p>\n<p>Mimado, n\u00e3o. T\u00ednhamos um intervalo grande (tr\u00eas ou quatro anos) entre cada um de n\u00f3s. Quando nascia um, o outro j\u00e1 tinha que se arranjar sozinho. Na escola prim\u00e1ria, nunca ningu\u00e9m me acompanhou, fui sempre sozinho. Fui sozinho fazer o exame da quarta classe. O afecto de que era rodeado tinha que ser distribu\u00eddo por todos. Cada um de n\u00f3s teve de ser aut\u00f3nomo desde muito cedo. Fui sempre um aluno sofr\u00edvel. Aluno de doze, treze. N\u00e3o achava que fosse preciso ser melhor do que isso. Procurava cumprir os meus deveres, fazia os trabalhos de casa antes de ir brincar \u2013 portanto, era respeitador das regras. Tinha colegas brilhantes que eram admirados pelos seus companheiros. Nunca senti isso. Tinha uma certa timidez na rela\u00e7\u00e3o com os meus companheiros.<\/p>\n<p><strong>Nunca sentiu o desejo de ser admirado pelos seus colegas e professores como eram aqueles que eram brilhantes?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00f3 se fosse um desejo muito reprimido, oculto. Um desejo manifesto, n\u00e3o. Da equipa, gostava de ser um dos membros, sem mais nada. Nunca pratiquei nenhum desporto, n\u00e3o era adepto de nenhum clube de futebol.<\/p>\n<p><strong>Porque \u00e9 que n\u00e3o procurava sobressair?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o havia nenhum interesse nisso. N\u00e3o creio ter sentido nenhuma falta de afecto. Na nossa fam\u00edlia cultiv\u00e1mos sempre a atitude de ser cidad\u00e3os simples, iguais \u00e0s outras pessoas. Nunca nenhum de n\u00f3s quis ser um g\u00e9nio. Nunca nenhum de n\u00f3s quis ser chefe ou desempenhar fun\u00e7\u00f5es directivas. A minha m\u00e3e tamb\u00e9m era assim. Gost\u00e1vamos de cultivar as artes. O meu padrinho de baptismo, irm\u00e3o da minha m\u00e3e, foi o pintor Lino Ant\u00f3nio. Era um artista reconhecido, com uma personalidade fascinante. Tamb\u00e9m o Lino Ant\u00f3nio n\u00e3o queria sobressair. N\u00e3o havia a ideia de querer ter um artigo no jornal.<\/p>\n<p><strong>Contudo, \u00e9 uma fam\u00edlia onde v\u00e1rias pessoas se destacam na vida p\u00fablica.<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo as fun\u00e7\u00f5es de relevo que fui exercendo, nunca as procurei, nem desejei, e por vezes custava-me desempenh\u00e1-las. Penso que h\u00e1 alguma coisa com conota\u00e7\u00e3o religiosa nesta atitude \u2013 o de querer ser uma pessoa an\u00f3nima.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Fazer parte do rebanho, e n\u00e3o ser uma ovelha tresmalhada. Ou sequer uma ovelha que se destaca.<\/strong><\/p>\n<p>Rebanho, n\u00e3o gosto muito da palavra. [riso] Ser inc\u00f3gnito, ser um como os outros. N\u00e3o gostamos de ter privil\u00e9gios.<\/p>\n<p><strong>Para perceber ainda da intimidade com o seu pai: quando abandona o mosteiro, o seu pai era um interlocutor preferencial para falar nesses momentos de defini\u00e7\u00e3o, em que se tomam grandes op\u00e7\u00f5es, em que se sente um turbilh\u00e3o interno?<\/strong><\/p>\n<p>Para mim, a aprova\u00e7\u00e3o dele era fundamental. Mas ele dava-a com espontaneidade.<\/p>\n<p><strong>Teve a sensa\u00e7\u00e3o de que uma op\u00e7\u00e3o sua o desapontou? Ou quando entrou no mosteiro, ou quando saiu. Ou quando casou e teve filhos.<\/strong><\/p>\n<p>Se desapontou, n\u00e3o senti o m\u00ednimo ind\u00edcio desse desapontamento. Pelo contr\u00e1rio. Senti sempre um grande apoio do meu pai para as op\u00e7\u00f5es que tomei. Eu sabia que tinha o meu pai do meu lado. N\u00e3o precisava da aprova\u00e7\u00e3o expressa. Precisava da ternura, da compreens\u00e3o. N\u00e3o tinha d\u00favida dessa aprova\u00e7\u00e3o, percebe?, desde que a minha op\u00e7\u00e3o fosse honesta e digna. Note que eu fui para o mosteiro com 17 anos. A partir dessa altura a minha regra de vida era a do mosteiro. Sa\u00ed do mosteiro com mais 20 anos em cima. Com quase 40 anos j\u00e1 n\u00e3o se punha a quest\u00e3o da aprova\u00e7\u00e3o do meu pai.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 quem precise dela a vida toda, quem n\u00e3o chegue nunca a emancipar-se em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 figura filial marcante.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei se est\u00e1 a pensar no velho esquema da morte do pai para nos tornarmos adultos\u2026 Fui progressivamente tendo a consci\u00eancia das fraquezas, das debilidades, dos defeitos do meu pai. Mas isso n\u00e3o alterou em nada a imagem que tinha dele. N\u00e3o precisei de ter dele uma imagem negativa \u2013 pelo contr\u00e1rio. Faleceu em 1975, eu tinha portanto 42 anos.<\/p>\n<p><strong>Saiu do mosteiro poucos anos antes. Foram anos de convuls\u00e3o. Com a morte do seu pai, fica ainda mais entregue a si. N\u00e3o tinha Deus da mesma maneira consigo.<\/strong><\/p>\n<p>Depois do 25 de Abril eu j\u00e1 tinha a minha segunda filha. Era plenamente respons\u00e1vel pelo meu destino. N\u00e3o se pode falar de desamparo.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Desamparo emocional.<\/strong><\/p>\n<p>Ah, sim, claro. [pausa] Pois. Acho que na minha fam\u00edlia somos muito realistas. Aceitamos o inevit\u00e1vel. Com isto quero dizer que quando o meu pai morreu senti a falta dele, mas integrei isso sem drama.<\/p>\n<p><strong>Tem mem\u00f3ria do rapaz que era quando entrou no mosteiro? Ou parece que foi uma outra vida? O que \u00e9 que imaginava que a sua vida ia ser? Que sonhos \u00e9 que tinha?<\/strong><\/p>\n<p>Eu queria ser monge. Ser monge \u00e9 encontrar Deus. \u00c9 ter Deus como interlocutor \u2013 \u00e9 evidentemente uma met\u00e1fora. Para a vida mon\u00e1stica \u00e9 tamb\u00e9m importante a parte da liturgia, de louvor, de c\u00e2ntico, de inser\u00e7\u00e3o c\u00f3smica. O que eu desejava era isso, mais nada.<\/p>\n<p><strong>Encontrar Deus era express\u00e3o de um desejo de paz e de plenitude? Era inquieto?<\/strong><\/p>\n<p>Talvez fosse exigente. Eu sabia que se arranjasse esse encontro com Deus, encontraria a paz. O rigor com que uma pessoa se entrega \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o pode n\u00e3o ser seguido pelas pessoas que est\u00e3o na mesma comunidade, que t\u00eam uma no\u00e7\u00e3o diferente dos exerc\u00edcios da regra, da disciplina; e que podem seguir as imposi\u00e7\u00f5es disciplinares de uma forma t\u00edbia, ou que deixam transparecer demasiado as suas manias, os seus desejos.<\/p>\n<p><strong>Ou seja, deixam aparecer demasiado o indiv\u00edduo, a sua personalidade.<\/strong><\/p>\n<p>Sim, \u00e9 isso. A vida comum \u00e9 dif\u00edcil. Numa comunidade de pessoas com temperamentos, idades, forma\u00e7\u00f5es muito diferentes, \u00e9 natural que apare\u00e7am fric\u00e7\u00f5es, desentendimentos, ressentimentos.<\/p>\n<p><strong>Visitei a igreja de S\u00e3o Francisco de Assis, no Trastevere, em Roma, onde est\u00e1 a almofada onde dormiu Assis quando visitou aquilo que na altura era um asilo de leprosos. Comecei por pensar que se tratava de uma escultura com a forma de uma almofada; mas era na verdade um enorme calhau, gran\u00edtico, que lhe serviu de almofada quando ali pernoitou. Conto isto para falar da ascese de S\u00e3o Francisco, que foi a sua primeira inspira\u00e7\u00e3o e atrac\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 igreja.<\/strong><\/p>\n<p>Isso faz lembrar aquele passo do Evangelho: \u201cOs p\u00e1ssaros t\u00eam os seus ninhos e as raposas t\u00eam as suas tocas, mas o filho do Homem n\u00e3o tem onde reclinar a cabe\u00e7a\u201d. Suponho que \u00e9 uma forma concreta de mostrar que S\u00e3o Francisco tamb\u00e9m n\u00e3o tinha onde reclinar a cabe\u00e7a. Em vez de almofada tinha um pedregulho.<\/p>\n<p><strong>Procurava para si, na vida monacal, esse rigor no cumprimento das regras e o despojamento absoluto de que Assis era um exemplo?<\/strong><\/p>\n<p>Nunca tive uma grande propens\u00e3o para a ascese. Uma pessoa tem na vida demasiadas ocasi\u00f5es de contrariedade, momentos dif\u00edceis, n\u00e3o \u00e9 preciso acrescentar voluntariamente rigores impostos por si pr\u00f3prio. E tamb\u00e9m isso o meu pai nos ensinou: que n\u00e3o era preciso mais rigor do que aquele que a vida traz.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Quais foram os grandes rigores, as grandes fracturas da sua vida?<\/strong><\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo em que a minha concep\u00e7\u00e3o do monaquismo de contrap\u00f4s \u00e0quela que era vivida no mosteiro, tive per\u00edodos de grande dificuldade. Tinha sido aquela a vida que tinha escolhido, e afinal verificava que n\u00e3o me realizava bem ali\u2026 Demorou algum tempo a ser resolvido, anos.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 que era mais doloroso?, reconhecer o falhan\u00e7o de uma op\u00e7\u00e3o de vida, o erro?<\/strong><\/p>\n<p>Eu estava convencido que o erro n\u00e3o estava do meu lado; simplesmente n\u00e3o podia realiz\u00e1-lo no s\u00edtio onde institucionalmente tinha que o realizar. Para permanecer no mosteiro tinha que obedecer \u00e0s regras e \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o das regras que os meus superiores tinham. Punha-se ent\u00e3o o problema de saber: se eu saio, o que \u00e9 que vou fazer? Mas n\u00e3o queria ir muito por esse caminho. S\u00e3o coisas muito \u00edntimas.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o falemos do livro. O que \u00e9 que se passa no dom\u00ednio do indiv\u00edduo e da vida privada que depois \u00e9 determinante para o curso da Hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p>Uma coisa \u00e9 a vida privada individual, outra coisa s\u00e3o as concep\u00e7\u00f5es da mentalidade dominante numa determinada \u00e9poca acerca daquilo que \u00e9 privado e p\u00fablico. N\u00f3s n\u00e3o quisemos fazer uma hist\u00f3ria da vida privada em rela\u00e7\u00e3o a indiv\u00edduos. Procur\u00e1mos descobrir o quadro social, os c\u00f3digos de comportamento, os costumes.<\/p>\n<p><strong>O livro est\u00e1 dividido em cap\u00edtulos e aborda quest\u00f5es principais da vida privada, como fam\u00edlia, alimenta\u00e7\u00e3o, vestu\u00e1rio, sexualidade, ora\u00e7\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos com o Estado. Estas \u00e1reas n\u00e3o s\u00e3o consideradas habitualmente quando se faz a Hist\u00f3ria centrada nas grandes decis\u00f5es pol\u00edticas. Como se grandes decis\u00f5es n\u00e3o dependessem da\u00a0<\/strong><em><strong>petite histoire<\/strong><\/em><strong>. \u00c9 verdade que algumas derivam de motiva\u00e7\u00f5es mesquinhas e individuais?<\/strong><\/p>\n<p>Aquele velho problema de\u00a0<em>cherchez la femme<\/em>? Sim. Suponhamos que uma pessoa marca um encontro a uma hora e que sucede qualquer coisa e n\u00e3o se poder realizar esse encontro&#8230; Isso \u00e9 o problema do acaso em Hist\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9 tanto o problema da vida privada. \u00c9 claro que acontece. Por exemplo, no 25 de Abril, a partir dos relatos do capit\u00e3o Salgueiro Maia percebemos que houve uma sucess\u00e3o de coisas fortuitas. Mas o que fica para a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 o fortuito; s\u00e3o as decis\u00f5es, \u00e9 o que acontece.<\/p>\n<p><strong>\u00a0A express\u00e3o\u00a0<\/strong><em><strong>cherchez la femme<\/strong><\/em><strong>\u00a0foi usada originalmente num romance de Dumas. Para perceber bem um quadro, precisamos de perguntar onde est\u00e1 a mulher da hist\u00f3ria, onde est\u00e3o as paix\u00f5es humanas na dita hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um tipo de problemas com que n\u00e3o lido muito no meu trabalho como historiador. Provavelmente porque trabalho na Idade M\u00e9dia, em que n\u00e3o \u00e9 prov\u00e1vel que se encontre na explica\u00e7\u00e3o do que aconteceu um facto desse g\u00e9nero. Para responder \u00e0 sua pergunta teria de transpor-me para uma \u00e9poca que n\u00e3o conhe\u00e7o e onde n\u00e3o encontro facilmente exemplos demonstrativos. Na Idade M\u00e9dia, podiam dar-se hist\u00f3rias desse tipo, mas n\u00e3o h\u00e1 registos de factos passageiros, an\u00f3dinos. Mesmo aquilo a que chamamos historiografia narrativa em Portugal come\u00e7a com Fern\u00e3o Lopes, j\u00e1 no fim da Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p><strong>Ao debru\u00e7ar-se sobre este tema, numa \u00e9poca que h\u00e1 muito estuda, qual foi a maior surpresa?<\/strong><\/p>\n<p>Encontrei revela\u00e7\u00f5es. Um exemplo: numa das Cantigas de Santa Maria de Afonso X, o S\u00e1bio, conta-se o seguinte: uma grande dama em Roma enviuvou, praticou incesto com o filho e t\u00eam uma crian\u00e7a. A cena apresenta essa dama na corte (n\u00e3o sei se do Papa se do Imperador), o dem\u00f3nio levanta-se e acusa a mulher de ter feito este crime. Ela pede tr\u00eas dias para poder responder \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o. Volta para casa, reza, e Nossa Senhora diz-lhe: \u201cN\u00e3o te preocupes\u201d. Vai para a assembleia e o dem\u00f3nio j\u00e1 n\u00e3o a conhece. Torna-se incapaz, portanto, de demonstrar aquilo que tinha procurado demonstrar. A mulher fica livre. Isto \u00e9 muito surpreendente.<\/p>\n<p><strong>O incesto era j\u00e1 considerado um crime grave?<\/strong><\/p>\n<p>Foi sempre. Aparentemente, Nossa Senhora protege a pessoa que cometeu o crime. Come\u00e7ando a estudar hist\u00f3rias exemplares daquela \u00e9poca, acabei por perceber que havia certas faltas que mais valia serem escondidas. A pr\u00f3pria sociedade tem medo de revelar que elas existem. Nessas hist\u00f3rias, o diabo aparece como acusador, aquele que revela o Mal, o pecado. Isso, creio, est\u00e1 relacionado com o segredo da confiss\u00e3o. A penit\u00eancia, at\u00e9 ao Conc\u00edlio de Latr\u00e3o em 1215, era p\u00fablica para pecados p\u00fablicos. Para os pecados privados, se o pr\u00f3prio pecador pedia conselho para reparar a falta cometida, o confessor dava-lhe uma penit\u00eancia. Se eram coisas ocultas, muitas vezes ficavam sem repara\u00e7\u00e3o \u2013 pelo menos, sem repara\u00e7\u00e3o p\u00fablica. O estabelecimento, no Conc\u00edlio de Latr\u00e3o, da obriga\u00e7\u00e3o de os crist\u00e3os se confessarem pelo menos uma vez por ano, leva a uma interven\u00e7\u00e3o regular do padre na consci\u00eancia da pessoa, na revela\u00e7\u00e3o dos seus pecados. D\u00e1 a impress\u00e3o que h\u00e1 uma s\u00e9rie de reac\u00e7\u00f5es contra a aplica\u00e7\u00e3o desta pr\u00e1tica. H\u00e1 uma serie de ind\u00edcios que demonstram a dificuldade com que foi introduzida a confiss\u00e3o auricular, a interven\u00e7\u00e3o da igreja na consci\u00eancia individual das pessoas.<\/p>\n<p>Como v\u00ea, um simples texto, com qualquer coisa de misterioso, leva a esta multiplicidade de leituras e descobertas.<\/p>\n<p><strong>Na introdu\u00e7\u00e3o ao livro diz que a sexualidade era uma mat\u00e9ria determinante, e n\u00e3o s\u00f3 a sexualidade com fins reprodutores, no estudo da vida privada na Idade M\u00e9dia. Porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 instintivo da parte dos homens e mulheres de todos os tempos ter uma pr\u00e1tica sexual isolada, escondida. A sexualidade, como actividade reprodutora, passa-se no espa\u00e7o privado. A intromiss\u00e3o dos poderes p\u00fablicos nessa zona \u00e9 qualquer coisa de an\u00f3malo. Essa separa\u00e7\u00e3o entre p\u00fablico e privado \u00e9 imprescind\u00edvel e \u00e9 clara nessa mat\u00e9ria. H\u00e1 outras zonas do comportamento humano em que essa separa\u00e7\u00e3o \u00e9 menos n\u00edtida.<\/p>\n<p><strong>Quando se fala de sexualidade, parece que ficamos todos a olhar pelo buraco da fechadura.<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 essa curiosidade\u2026 Curiosidade por tudo o que \u00e9 proibido, oculto. Mas h\u00e1 grandes transforma\u00e7\u00f5es nessa \u00e1rea. Quando eu era pequeno n\u00e3o havia nu no cinema. Na arte, sim. Lembro-me, muito novo, de ter ouvido falar na Josephine Baker\u2026 A que dist\u00e2ncia estamos disso! Hoje, quase n\u00e3o h\u00e1 um filme em que n\u00e3o haja uma cena de sexo expl\u00edcita. O que parecia totalmente imposs\u00edvel h\u00e1 30 anos tornou-se uma coisa corrente.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 que acelerou tanto a altera\u00e7\u00e3o dos costumes?<\/strong><\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria pode indicar os momentos chave dessas etapas. Mas a explica\u00e7\u00e3o est\u00e1 do lado da Psicologia Social, da Antropologia Cultural. Devem ser os especialistas destas ci\u00eancias a responder.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a sua opini\u00e3o? N\u00e3o o pergunto ao historiador; e de resto, este n\u00e3o \u00e9, nem de longe nem de perto, o per\u00edodo-objecto do seu estudo.<\/strong><\/p>\n<p>Penso que tem que ver com a limita\u00e7\u00e3o da natalidade. Essas t\u00e9cnicas tornaram a sexualidade como qualquer coisa que n\u00e3o era preciso acompanhar de tantos cuidados.<\/p>\n<p><strong>E de tantos v\u00e9us.<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Isso levou a uma permissividade que resultou nisto. Mas tamb\u00e9m penso que h\u00e1 uma evidente aus\u00eancia de c\u00f3digos restritivos e que o Freud foi muito importante nesse cap\u00edtulo. Revelou os ind\u00edcios de puls\u00f5es e que a repress\u00e3o do instinto sexual podia perturbar gravemente a vida ps\u00edquica. Essas concep\u00e7\u00f5es generalizaram-se e puseram em causa a efic\u00e1cia e utilidade dos c\u00f3digos de comportamento sexual.<\/p>\n<p><strong>No livro consta uma iluminura na qual uma mulher surpreende o seu marido numa cena de adult\u00e9rio com uma criada. S\u00e3o comuns iluminuras que retratam cenas assim? \u00c0 porta dos lupanares de Pompeia havia frescos com a explicita\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os que dentro eram prestados, mas depois parece cair sobre estes assuntos, durante largos s\u00e9culos, um manto puritano.<\/strong><\/p>\n<p>Essa iluminura \u00e9 do fim da Idade M\u00e9dia. At\u00e9 ao s\u00e9culo XIV n\u00e3o encontra facilmente representa\u00e7\u00f5es do nu. As que encontra s\u00e3o esquem\u00e1ticas: parecem Ad\u00e3o e Eva, almas do Purgat\u00f3rio, o corpo masculino e feminino s\u00e3o esquemas. Aquelas representa\u00e7\u00f5es querem dizer que o corpo do homem \u00e9 ambivalente; ou seja, o homem \u00e9 homem e mulher, \u00e9 a Humanidade. N\u00e3o \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o do nu no seu aspecto f\u00edsico. Tem alguma coisa que ver com o cristianismo, que tem uma censura muito agressiva do teatro, dos mist\u00e9rios, dos jogos ol\u00edmpicos \u2013 contra a cultura do corpo.<\/p>\n<p><strong>Contra a cultura do prazer \u2013 \u00e9 isso que se persegue?<\/strong><\/p>\n<p>Do prazer, tamb\u00e9m, sobretudo em Santo Agostinho. Mas \u00e9 mais contra a corrup\u00e7\u00e3o, contra a aus\u00eancia de restri\u00e7\u00f5es. O cristianismo dos s\u00e9culos terceiro e quarto tem muito que ver com o estoicismo. O estoicismo j\u00e1 condena a deprava\u00e7\u00e3o moral, o desregramento. O cristianismo n\u00e3o faz mais do que acentuar e generalizar a conten\u00e7\u00e3o que j\u00e1 existia.<\/p>\n<p><strong>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia, \u00e0 viv\u00eancia da sexualidade dentro e fora do casamento, caiu um manto puritano, de raiz judaico-crist\u00e3; outra coisa \u00e9 a pr\u00e1tica, a viv\u00eancia \u00e0 margem da norma.<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 qualquer coisa que nos causa surpresa. \u00c9 um desfasamento aparentemente enorme entre o ideal e a pr\u00e1tica. Nos serm\u00f5es encontra uma atitude extremamente rigorosa; mas na pr\u00e1tica encontra pr\u00e1ticas frequentes de infrac\u00e7\u00e3o. Os trovadores, nas Cantigas de Esc\u00e1rnio e Mal Dizer, t\u00eam sexo expl\u00edcito. Sabemos que houve casos de freiras e padres com filhos ileg\u00edtimos \u2013 infrac\u00e7\u00e3o frontal. Ent\u00e3o como \u00e9 que se compreende que exista uma exig\u00eancia t\u00e3o grande e uma pr\u00e1tica t\u00e3o [lassa]? A teoria \u00e9 implac\u00e1vel na sua formula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o na sua aplica\u00e7\u00e3o. Existe a no\u00e7\u00e3o clara de que uma coisa \u00e9 a norma, a outra \u00e9 a pr\u00e1tica e que a pr\u00e1tica nunca \u00e9 determinada por um absoluto. Isto na Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p><strong>Quer dizer que estamos sempre entre duas realidades? A ideal e a concreta.<\/strong><\/p>\n<p>Isto \u00e9 muito t\u00edpico da mentalidade medieval. A posi\u00e7\u00e3o inflex\u00edvel da Igreja em rela\u00e7\u00e3o ao aborto, por exemplo: na Idade M\u00e9dia condenar-se-ia o aborto, mas ter-se-iam em conta as circunst\u00e2ncias atenuantes e a considera\u00e7\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o que pode alterar a aplica\u00e7\u00e3o da norma.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 que a crian\u00e7a era vista, qual era o seu estatuto?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 muitos textos que mostram sentimentos de ternura para com as crian\u00e7as, a protec\u00e7\u00e3o do fraco, uma no\u00e7\u00e3o de l\u00fadico. Muitas cantigas de Santa Maria mostram essa ternura. Creio que \u00e9 tamb\u00e9m pela inoc\u00eancia [que elas representam]. Isso tem uma base evang\u00e9lica, quando Jesus diz: \u201cDeixai vir a mim os pequeninos\u201d ou porque d\u00e1 gra\u00e7as a Deus, que revelou as coisas aos pequeninos e as escondeu dos s\u00e1bios.<\/p>\n<p><strong>Quando come\u00e7ou a fazer estudos de Hist\u00f3ria no mosteiro, nessa altura ela era secund\u00e1ria na sua vida. Podia ter acontecido que, ao sair, a Hist\u00f3ria n\u00e3o se impusesse como centro da sua vida, como of\u00edcio principal? E nesse caso, porque n\u00e3o outra \u00e9poca?<\/strong><\/p>\n<p>Podia, mas isso \u00e9 uma quest\u00e3o te\u00f3rica. Fui contratado para a Faculdade de Letras e a cadeira que me atribu\u00edram foi a medieval. J\u00e1 vimos que era uma \u00e9poca privilegiada pelo meu pai e que isso encaminhou as coisas nesse sentido. Eu podia ter estudado a hist\u00f3ria mon\u00e1stica na \u00e9poca moderna, n\u00e3o \u00e9? E tinha muito material para isso. Mas nunca me agradou a interpreta\u00e7\u00e3o que os monges dos s\u00e9culos XVII e XVIII deram \u00e0 vida mon\u00e1stica. Era uma mentalidade barroca, de orat\u00f3ria, de exterioridade, formal.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Interessava-lhe uma concentra\u00e7\u00e3o\u2026<\/strong><\/p>\n<p>\u2026 naquilo que eu considerava aut\u00eantico. E isso encontrei nos medievais. Nas origens encontramos sempre a pureza dos movimentos, a novidade. S\u00e3o Francisco de Assis n\u00e3o fez mais do que isso: o evangelho sem glosa. O evangelho despojado das derivas que foram acontecendo ao longo dos tempos. Para encontrar a autenticidade inicial.<\/p>\n<p><strong>Quando sai do mosteiro e se mant\u00e9m no estudo da \u00e9poca medieval, persiste num caminho, ainda que de uma forma diferente, numa vida diferente. Podia acontecer que o mosteiro fosse um bloco, um modo de estar no mundo, e na fase seguinte houvesse um bloco diferente e um diferente objecto de estudo.<\/strong><\/p>\n<p>Nas primeiras aulas de cultura medieval que tive que dar na Faculdade de Letras, percebi que a linguagem simb\u00f3lica utiliza compara\u00e7\u00f5es, met\u00e1foras, alegorias, porque lhe permite (ao contr\u00e1rio do caminho l\u00f3gico e racional, que trabalha por meio de silogismos, e cuja verdade j\u00e1 est\u00e1 contida nas premissas), formas de express\u00e3o inesperadas, que n\u00e3o se ficam na superf\u00edcie das coisas. As coisas t\u00eam sempre qualquer coisa que est\u00e1 \u00e0 primeira vista oculto e que, se n\u00f3s procuramos, nos revela um aspecto diferente da realidade. Eu tinha de explicar estas coisas aos meus alunos. Mas isto correspondia, ao mesmo tempo, ao que eu queria aprofundar para mim mesmo. A face oculta das coisas.<\/p>\n<p><strong>Lovaina, esse mundo t\u00e3o diferente de Portugal e da vida no mosteiro, foi uma esp\u00e9cie de face oculta que se revelou?<\/strong><\/p>\n<p>Fiquei muito entusiasmado com o ambiente internacional que se vivia em Lovaina; tinha alunos de todo o mundo, muitos americanos, ingleses, de pa\u00edses do terceiro mundo, etc. Havia uma grande vivacidade. Eram os anos 60. Vivia-se com uma grande curiosidade e optimismo.Vinham professores de outras universidades, faziam confer\u00eancias interessantes. Isto contrastava fortemente com o ambiente um pouco beato, conservador da nossa intelectualidade, e particularmente num sector pesado como era a Igreja. A universidade que frequentava em Lovaina era cat\u00f3lica e ali encontrei a conjuga\u00e7\u00e3o entre os valores humanos e uma Igreja que queria construir-se num di\u00e1logo fecundo com a modernidade. Para mim havia tamb\u00e9m o problema da adapta\u00e7\u00e3o da vida mon\u00e1stica \u00e0 actualidade. A Hist\u00f3ria tamb\u00e9m me dava uma fundamenta\u00e7\u00e3o para escolher a minha rela\u00e7\u00e3o com a igreja. Uma Igreja que eu queria que fosse no sentido do Conc\u00edlio do Vaticano II.<\/p>\n<p><strong>Ou seja, mais pr\u00f3xima da \u201cespantosa da realidade das coisas\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>E n\u00e3o apenas na realidade essencial, mas na realidade do meu tempo, os anos 60, no qual eu estava mergulhado.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 que viveu a d\u00e9cada de 70, que em Portugal foi t\u00e3o tumultuosa? E vindo do tumulto que foi o final dos anos 60 na sua vida.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o fiz parte de nenhum movimento contestat\u00e1rio nem revolucion\u00e1rio antes do 25 de Abril. Tive contactos com os chamados cat\u00f3licos progressistas do grupo do padre Felicidade Alves, com o Teot\u00f3nio Pereira, Frei Bento Domingues, Jo\u00e3o B\u00e9nard [da Costa], Ant\u00f3nio Al\u00e7ada Baptista. Antes do 25 de Abril passei umas f\u00e9rias numa ac\u00e7\u00e3o de alfabetiza\u00e7\u00e3o organizada pelo Graal; conheci nessa altura a Maria de Lurdes Pintasilgo, a Teresa Santa Clara Gomes, o Lindley Cintra (que orientava os trabalhos de alfabetiza\u00e7\u00e3o de um ponto de vista lingu\u00edstico). A minha atitude face ao monaquismo est\u00e1 tamb\u00e9m relacionada com isto tudo.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 verdade que tentaram sane\u00e1-lo da faculdade?<\/strong><\/p>\n<p>Fui contratado pela Faculdade de Letras de Lisboa em 1970\/71, dei aulas at\u00e9 1974. Ensinei tamb\u00e9m Antiguidade Oriental e falei no modo de produ\u00e7\u00e3o feudal, no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista na interpreta\u00e7\u00e3o marxista, apenas de uma forma informativa. (Estou talvez a contar com demasiados pormenores que n\u00e3o interessam\u2026) Fui para a Faculdade de Letras a convite da Professora Virg\u00ednia Rau, que n\u00e3o era de modo nenhum uma professora contra o regime, mas que tinha muita confian\u00e7a nos seus assistentes. Tinha um inimigo dentro da faculdade, o Professor Borges de Macedo, que era muito estreito na sua rela\u00e7\u00e3o com o regime. Um dia chamou-me ao gabinete dele, quando a professora Virg\u00ednia Rau j\u00e1 tinha morrido, e disse-me: \u201cO senhor anda nas aulas a ensinar a teoria marxista\u201d. Deu-me a entender que teria de abandonar a faculdade porque estava a defender doutrinas revolucion\u00e1rias. Quase mudei para a Universidade do Minho. Entretanto veio o 25 de Abril. O Professor Borges de Macedo saiu da faculdade \u2013 n\u00e3o fui eu que sa\u00ed. Melhor, foi dos saneados. Vivi aquele primeiro ano revolucion\u00e1rio com grande entusiasmo.<\/p>\n<p><strong>Acreditou realmente num amanh\u00e3 que canta.<\/strong><\/p>\n<p>De alma e cora\u00e7\u00e3o! [riso] O primeiro de Maio foi uma esp\u00e9cie de visita ao para\u00edso. Logo que foi poss\u00edvel, eu e os meus colegas estabelecemos um novo programa de estudos e come\u00e7\u00e1mos a fazer semin\u00e1rios de pr\u00e9-especializa\u00e7\u00e3o. Enquanto est\u00e1vamos no dom\u00ednio pedag\u00f3gico, tudo correu lindamente. As transforma\u00e7\u00f5es institucionais \u00e9 que come\u00e7aram a criar uma situa\u00e7\u00e3o inc\u00f3moda para mim. Porque a UEC (Uni\u00e3o dos Estudantes Comunistas) concentrou as suas for\u00e7as na tentativa de dominar a faculdade e muito particularmente o departamento de Hist\u00f3ria. Come\u00e7ou a haver movimentos que punham em causa a compet\u00eancia cient\u00edfica de professores contratados e introduzia professores do Partido Comunista. Embora me desse bem com colegas comunistas, como o Professor Barradas de Carvalho, os estudantes mais zelosos da UEC acharam que eu n\u00e3o era suficientemente entusiasta na minha ades\u00e3o ao marxismo.<\/p>\n<p><strong>Foi acusado de difundir a doutrina comunista, e depois foi acusado de n\u00e3o ser suficientemente entusiasta da mesma doutrina\u2026\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>[riso] Come\u00e7aram a criar-me dificuldades. Tive ocasi\u00e3o de pedir um ano sab\u00e1tico. Foi isso que fiz, trabalhei no estabelecimento do texto do Livro de Linhagens. Entretanto foi fundada a Universidade Nova e o Professor Oliveira Marques convidou-me para fazer parte. Em resumo, foi assim que vivi o p\u00f3s-25 de Abril.<\/p>\n<p><strong>Ocorreu-me agora a sua passagem por Timor. \u00c9 como se falasse ainda de uma outra vida, tantos anos depois dessa vida que acaba de descrever do p\u00f3s-revolu\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Timor aparece da seguinte forma: h\u00e1 um interruptor concreto, que \u00e9 o facto de ter vivido os acontecimentos anteriores ao referendo para a independ\u00eancia de Timor com um grande entusiasmo. Fui a algumas dessas manifesta\u00e7\u00f5es. Depois disso, o minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o do Governo de Guterres pediu volunt\u00e1rios para o ensino do Portugu\u00eas em Timor, nos meses de f\u00e9rias em 1999. A minha mulher, que \u00e9 linguista, ofereceu-se como volunt\u00e1ria, foi aceite, e eu ofereci-me como volunt\u00e1rio tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Cherchez la femme\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Voil\u00e0! A raz\u00e3o porque aderi a este projecto n\u00e3o foi apenas ut\u00f3pica. No fundo, vinha um pouco na linha do Conc\u00edlio do Vaticano II e de um interesse meu pelos movimentos independentistas em Angola e em Mo\u00e7ambique, pela liberta\u00e7\u00e3o do colonialismo. Gostei de fazer parte de um grupo que podia ter alguma utilidade na edifica\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o nova.<\/p>\n<p><strong>Mais uma vez, \u00e9 o seu interesse, aten\u00e7\u00e3o, estudo nas origens, em qualquer coisa que est\u00e1 a ser constru\u00eddo de raiz.<\/strong><\/p>\n<p>Nas coisas novas que v\u00e3o surgindo no mundo \u2013 acho que sim. Por outro lado, enquanto estava como director da Torre do Tombo, um of\u00edcio da sec\u00e7\u00e3o de arquivos da ONU pedia ajuda para a reconstitui\u00e7\u00e3o da documenta\u00e7\u00e3o timorense em D\u00edli. Aproveitei esse apelo da ONU para ser enviado como cooperante e para tentar ser \u00fatil na reconstitui\u00e7\u00e3o do arquivo de Timor. Eu, que tinha procurado estudar na Idade M\u00e9dia os problemas da identidade, pensei poder contribuir para uma consci\u00eancia da identidade timorense, que naturalmente tem de ser baseada na Hist\u00f3ria, nomeadamente na hist\u00f3ria da resist\u00eancia, que foi o que deu unidade a toda aquela diversidade. Integrado numa ac\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o M\u00e1rio Soares, classifiquei, ordenei e estudei o arquivo da resist\u00eancia (que estava num abrigo, nas m\u00e3os de Xanana). Encontrei elementos suficientes para escrever o livro\u00a0<em>Konis Santana e a Resist\u00eancia Timorense.<\/em><\/p>\n<p><strong>Foi para Timor quando j\u00e1 n\u00e3o era um jovem. Est\u00e1 sempre pronto a come\u00e7ar de novo?<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto puder.<\/p>\n<p><strong>Porque \u00e9 que \u00e9 t\u00e3o importante n\u00e3o dar nada por adquirido, n\u00e3o cristalizar nas coisas? Ter v\u00e1rias vidas.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada neste mundo que possa preencher todos os nossos desejos, todas as oportunidades que a vida nos oferece. A vida oferece tantas\u2026 S\u00f3 podemos responder a uma parte muito pequena dessas. Isto \u00e9 o que me ensina uma reflex\u00e3o sobre o Ser, uma reflex\u00e3o sobre Deus, sobre a \u201cespantosa realidade das coisas\u201d.<\/p>\n<p><strong>Nunca deixou de acreditar em Deus? Teve momentos de profunda d\u00favida?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. Simplesmente a minha concep\u00e7\u00e3o de Deus foi-se \u2013 n\u00e3o sei se \u00e9 pretens\u00e3o demais diz\u00ea-lo \u2013 aperfei\u00e7oando. Foi perdendo os aspectos antropom\u00f3rficos, os aspectos l\u00f3gicos. Os Vedas falam na medita\u00e7\u00e3o da escurid\u00e3o que cobre a escurid\u00e3o. A escurid\u00e3o \u00e9 o mist\u00e9rio de Deus, coberta por outra escurid\u00e3o, e essa se calhar ainda por outra escurid\u00e3o, e por outra, e por outra. Temos de encontrar o que est\u00e1 por detr\u00e1s, que nunca \u00e9 exprim\u00edvel. H\u00e1 aproxima\u00e7\u00f5es metaf\u00f3ricas, metaf\u00edsicas, conceptuais.<\/p>\n<p><strong>O seu Deus foi perdendo aspectos antropom\u00f3rficos. Mas isso coincide com o per\u00edodo da sua vida em que mais est\u00e1 entre os homens, no terreno, com a vida de todos os dias.<\/strong><\/p>\n<p>Sim. A revela\u00e7\u00e3o de Deus \u00e9 feita pelo filho do Homem, pelo filho de Deus. Antropomorfismo centrado na personalidade de Jesus Cristo, nos valores que ele representa, e que podem ser do n\u00edvel da dignidade, do sofrimento, da abnega\u00e7\u00e3o, da confian\u00e7a, da ternura para com o Pai, na aten\u00e7\u00e3o aos pobres, do fasc\u00ednio pelas crian\u00e7as. Isto tem alguma rela\u00e7\u00e3o com aquilo que eu dizia quando falava da nossa fam\u00edlia: cada um de n\u00f3s nunca procurou ser nada de especial neste mundo. Deus revela-se tamb\u00e9m no homem quotidiano.<\/p>\n<p><strong>Ter constitu\u00eddo a sua fam\u00edlia, amar uma mulher, foi uma coisa que mudou completamente a sua vida? \u00c9 uma dimens\u00e3o que n\u00e3o estava contemplada nas primeiras op\u00e7\u00f5es da sua vida.<\/strong><\/p>\n<p>Acho que isso se relaciona ainda com essa concep\u00e7\u00e3o da Humanidade. O Homem \u00e9 homem e mulher. O amor faz parte daquilo que completa o homem. Se n\u00e3o existir, \u00e9 uma mutila\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma falha irrepar\u00e1vel. A rela\u00e7\u00e3o entre o masculino e o feminino faz parte disso que estava a dizer \u2013 viver v\u00e1rias vidas, haver muita coisa que n\u00e3o se chega a completar.<\/p>\n<p><strong>Tem algum verso de Pessoa ou algum salmo que seja especialmente inspirador para si?\u00a0<\/strong>Tenho muito pouca mem\u00f3ria. Uma das minhas recorda\u00e7\u00f5es de pr\u00e9-juventude foi quando o professor de Portugu\u00eas quis que os alunos recitassem\u00a0<em>O<\/em>\u00a0<em>Mostrengo<\/em>\u00a0do Fernando Pessoa. N\u00e3o fui capaz de decorar. Mais atr\u00e1s, numa sess\u00e3o da catequese, foram escolhidos os meninos que deviam representar alguma coisa no teatro e a mim mandou-me decorar o poema \u201cPortugal \u00e9 um pa\u00eds \u00e0 beira mar plantado\u201d. Tamb\u00e9m fui incapaz. Fui para o palco, atrapalhei-me, n\u00e3o consegui chegar ao fim. Mas h\u00e1 uma coisa com a qual me sinto bem; \u00e9 aquela\u00a0<em>gracias a la vida, que me ha dado tanto<\/em>, que a Joan Baez cantava \u00c9 isto que sinto.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c9 c\u00f3mico que algu\u00e9m que dedicou a sua vida \u00e0 hist\u00f3ria, ao testemunho, n\u00e3o tenha boa mem\u00f3ria\u2026\u00a0<\/strong>\u00c9, n\u00e3o sou capaz de fixar datas. Fixo datas quando h\u00e1 uma s\u00e9rie delas e entram em rela\u00e7\u00e3o umas com as outras. Mas nunca sei as datas dos anivers\u00e1rios. Fico sempre muito envergonhado porque me esque\u00e7o de dar os parab\u00e9ns. Quando era pequeno, tamb\u00e9m n\u00e3o consegui decorar a lista das proposi\u00e7\u00f5es, das conjun\u00e7\u00f5es, as serras de Portugal, os rios e afluentes. Os meus colegas sabiam todos.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Publicado no JN\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/www.jn.pt\/2043409375\/morreu-o-historiador-jose-mattoso\/\">https:\/\/www.jn.pt\/2043409375\/morreu-o-historiador-jose-mattoso\/<\/a>\u00a0\u00a0<strong>mas originalmente no P\u00fablico\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com 90 anos morreu (8 de julho de 2023) o maior especialista da Hist\u00f3ria Medieval de Portugal e que foi catedr\u00e1tico universit\u00e1rio. 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