{"id":7996,"date":"2022-11-28T18:16:06","date_gmt":"2022-11-28T17:16:06","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=7996"},"modified":"2022-11-28T18:16:06","modified_gmt":"2022-11-28T17:16:06","slug":"bocage-sofre-as-dores-da-viragem-do-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=7996","title":{"rendered":"BOCAGE SOFRE AS DORES DA VIRAGEM DO TEMPO"},"content":{"rendered":"<p>Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) foi um neocl\u00e1ssico rom\u00e2ntico, um revolucion\u00e1rio que se debateu entre despotismo ma\u00e7\u00f3nico e catolicismo (bucolismo e sentimento rom\u00e2ntico). Viveu num per\u00edodo perturbado como n\u00f3s vivemos o de hoje.<\/p>\n<p>No musgo da Hist\u00f3ria se descobrem os l\u00edquenes que hoje alimentam a pol\u00edtica e a economia. Bocage \u00e9 um bi\u00f3topo portugu\u00eas do s\u00e9culo XVIII de extrema riqueza de vida individual e social devido \u00e0 sua variedade de estruturas caracteriais que apresenta numa de sobreviver ao poder ma\u00e7\u00f3nico e ao poder clerical em debate. Entre o despotismo iluminado que vem de fora (Marqu\u00eas de Pombal) e o tradicionalismo medieval de Pina-Manique, Bocage luta por sobreviver e subsistir nos bi\u00f3topos culturais em mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Entre a luta pela liberdade e a amarra ao poder que possibilita subsist\u00eancia Bocage \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o de um curr\u00edculo de Portugu\u00eas inteiro! Ontem como hoje o poder pode mais.<\/p>\n<p>Bocage, no seu autorretrato resume bem a sua pessoa:<\/p>\n<p>\u201cMagro, de olhos azuis, car\u00e3o moreno,<\/p>\n<p>Bem servido de p\u00e9s, me\u00e3o na altura,<\/p>\n<p>Triste de facha, o mesmo de figura,<\/p>\n<p>Nariz alto no meio, e n\u00e3o pequeno;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Incapaz de assistir num s\u00f3 terreno,<\/p>\n<p>Mais propenso ao furor do que \u00e0 ternura;<\/p>\n<p>Bebendo em n\u00edveas m\u00e3os, por ta\u00e7a escura,<\/p>\n<p>De zelos infernais letal veneno;<\/p>\n<p>Devoto incensador de mil deidades<\/p>\n<p>(Digo, de mo\u00e7as mil) num s\u00f3 memento,<\/p>\n<p>E somente no altar amando os frades,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eis Bocage, em quem luz algum talento;<\/p>\n<p>Sa\u00edram dele mesmo estas verdades,<\/p>\n<p>Num dia em que se achou mais pachorrento.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na egloga \u201cQueixumes do pastor Elmano contra a falsidade da pastora Urselina\u201d(1), Bocage mostra o complicado da sua personalidade e do tempo e revela que tudo n\u00e3o passa de um emaranhado entre fidelidade e trai\u00e7\u00e3o. Diferentes estilos de vida s\u00e3o questionados por Bocage: talvez a sua atitude perante a vida e as atitudes que a vida mostra levar.\u00a0 Entre ele e Urselina se parecem debater a tradi\u00e7\u00e3o nele presente e os tempos novos que o futuro promete em Urselina. Bocage n\u00e3o encotra situa\u00e7\u00e3o de resolver o conflito existencial em que vive tendo por isso de se resignar em vingar-se de Urselina em Rit\u00e1lia. Estas ser\u00e3o as dores de parto do passar de um tipo de sociedade para outro.<\/p>\n<p>Cito de seguida algum texto\u00a0 da \u00e9gloga de Bocage (no caso Elmano) no sentido de se compreender a minha interpreta\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cTudo, enfim, descansava, excepto Elmano,<\/p>\n<p>Que a m\u00e3o do Fado, universal Tirano,<\/p>\n<p>Sentia sobre si descarregada &#8230;<\/p>\n<p>Sendo os desgostos seus o seu rebanho.<\/p>\n<p>Honrados Maiorais o Ser lhe der\u00e3o.<\/p>\n<p>As Musas o encant\u00e1r\u00e3o mais que tudo,<\/p>\n<p>Ateando-lhe n&#8217;alma o Fogo santo,<\/p>\n<p>Que est\u00fapidos Mortaes desdenh\u00e3o tanto&#8230;<\/p>\n<p>Assim Francino a causa lhe inquiria:<\/p>\n<p>Que tens, Elmano? Que fatal desgosto<\/p>\n<p>Banha de tristes lagrimas teu rosto?<\/p>\n<p>Tu, que, ainda h\u00e1 brevissimos instantes,<\/p>\n<p>Te acclamavas feliz entre os Amantes,<\/p>\n<p>Logrando mil carinhos, mil favores<\/p>\n<p>De Urselina gentil, dos teus Amores,<\/p>\n<p>(Queixa-se da desilus\u00e3o com a infiel)<\/p>\n<p>Que tanto amara e em quem confiara&#8230;.<\/p>\n<p>Traidora! Eu n\u00e3o dizia, eu n\u00e3o jurava,<\/p>\n<p>Que o meu socego ao teu sacrificava!&#8230;<\/p>\n<p>Porque me n\u00e3o d\u00e9ste o desengano,<\/p>\n<p>Que eu te pedia, Cora\u00e7\u00e3o tyranno?<\/p>\n<p>Se In\u00e1lio, porque tem Campos, e Gados,<\/p>\n<p>Numerosos Casaes, amplos Montados,<\/p>\n<p>Attrahe esse teu g\u00e9nio interesseiro,<\/p>\n<p>E eu, posto que leal, que verdadeiro,<\/p>\n<p>De clara gera\u00e7\u00e3o, de sangue honrado,<\/p>\n<p>Caducos, frageis bens n\u00e3o devo ao Fado,<\/p>\n<p>(Francisco diz-lhe:)<\/p>\n<p>Castiga-lhe a trai\u00e7\u00e3o, e o fingimento<\/p>\n<p>Lan\u00e7ando-a n&#8217;um profundo esquecimento.<\/p>\n<p>N\u00e3o merece a paix\u00e3o, que tens por ella&#8230;<\/p>\n<p>Aquella alma n\u00e3o arde, n\u00e3o se inflama,<\/p>\n<p>A todos corresponde, a ninguem ama&#8230;<\/p>\n<p>Nunca soube escolher, tudo lhe agrada,<\/p>\n<p>E inda que astutamente infatuada<\/p>\n<p>Fa\u00e7a crer aos Amantes o contr\u00e1rio,&#8230;<\/p>\n<p>Adora a Provid\u00eancia em teu desgosto,<\/p>\n<p>N\u00e3o delires, Pastor, n\u00e3o desesperes,&#8230;<\/p>\n<p>(Elmano responde:)<\/p>\n<p>Eu dou mil gra\u00e7as ao Poder Divino<\/p>\n<p>Por me livrar do engano em que vivia,&#8230;<\/p>\n<p>Rit\u00e1lia desde agora o lindo objecto<\/p>\n<p>Ser\u00e1 do meu fiel, constante affecto&#8230;<\/p>\n<p>Farei voar nas azas da ternura,<\/p>\n<p>E assim me vingarei d&#8217;huma perjura&#8230;<\/p>\n<p>E a fria indifferen\u00e7a, com que intento<\/p>\n<p>Recompensar-lhe o torpe fingimento,&#8230;<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>(1) Texto completo em file:\/\/\/C:\/Users\/Antonio\/Downloads\/queixumes_do_pastor_elmano_contra_a_falsidade_da_pastora_urselina.pdf<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) foi um neocl\u00e1ssico rom\u00e2ntico, um revolucion\u00e1rio que se debateu entre despotismo ma\u00e7\u00f3nico e catolicismo (bucolismo e sentimento rom\u00e2ntico). 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