{"id":5638,"date":"2019-10-16T14:57:23","date_gmt":"2019-10-16T13:57:23","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=5638"},"modified":"2019-10-16T14:57:23","modified_gmt":"2019-10-16T13:57:23","slug":"quatro-autores-portugueses-entre-os-100-maiores-da-historia-da-literatura-mundial-segundo-harold-bloom","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=5638","title":{"rendered":"QUATRO AUTORES PORTUGUESES ENTRE OS 100 MAIORES DA HIST\u00d3RIA DA LITERATURA MUNDIAL, SEGUNDO HAROLD BLOOM"},"content":{"rendered":"<p>QUATRO AUTORES PORTUGUESES ENTRE OS 100 MAIORES DA HIST\u00d3RIA DA LITERATURA MUNDIAL<\/p>\n<p>Na segunda-feira, 14.10.2019, morreu Harold Bloom em New Haven com a idade de 89 anos; era um intelectual cr\u00edtico liter\u00e1rio americano que alcan\u00e7ou fama internacional com os seus escritos de cr\u00edtica liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Na sua an\u00e1lise das obras liter\u00e1rias de relevo mundial colocou quatro portugueses entre os cem melhores criativos: Lu\u00eds Vaz de Cam\u00f5es, E\u00e7a de Queir\u00f3s, Fernando Pessoa e Jos\u00e9 Saramago.<\/p>\n<p>Na sua obra \u201cG\u00e9nio\u201d faz a sua listagem: <a href=\"https:\/\/sdi.letras.up.pt\/uploads\/pdfs\/hbloom2.pdf\">https:\/\/sdi.letras.up.pt\/uploads\/pdfs\/hbloom2.pdf<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Coloco aqui uma imprescind\u00edvel Recens\u00e3o de Gon\u00e7alo Correia e Carlos Maria Bobone no Observador, de 14 e 15out2019<\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>Morreu o famoso cr\u00edtico liter\u00e1rio norte-americano Harold Bloom<\/p>\n<p>Nascido em Nova Iorque, tinha 89 anos e foi um dos mais famosos cr\u00edticos liter\u00e1rios da segunda metade do s\u00e9culo XX. Defensor da supremacia do &#8220;c\u00e2none ocidental&#8221;, elogiou Saramago, Cam\u00f5es e Pessoa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Morreu esta segunda-feira, num hospital em New Haven, Connecticut, o cr\u00edtico liter\u00e1rio norte-americano Harold Bloom. A morte foi confirmada pela mulher, Jeanne Bloom, noticia o The New York Times. Harold Bloom tinha 89 anos e era considerado um dos cr\u00edticos mais influentes da segunda metade do s\u00e9culo XX. A sua \u00faltima aula universit\u00e1ria, em Yale, foi dada na passada quinta-feira.<\/p>\n<p>Devoto em absoluto de William Shakespeare \u2014 a quem chegou a chamar \u201cDeus\u201d \u2014, leitor compulsivo confesso, Bloom privilegiava, enquanto cr\u00edtico, o gosto cl\u00e1ssico, tanto na origem geogr\u00e1fica dos escritores (maioritariamente ocidentais) quanto na sua dimens\u00e3o hist\u00f3rica. Aquilo que mais o ocupava e interessava era mesmo a reflex\u00e3o sobre o \u201cc\u00e2none ocidental\u201d, para usar a express\u00e3o que utilizou<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>para dar t\u00edtulo a uma das suas obras ensa\u00edsticas mais famosas, publicada em 1994, na qual analisava as obras que considerava cimeiras na hist\u00f3ria da literatura europeia e americana.<\/p>\n<p>Especialmente avesso \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o das obras liter\u00e1rias tendo como crit\u00e9rios o posicionamento \u00e9tico e pol\u00edtico e as origens do seu autor, rejeitando em absoluto a fun\u00e7\u00e3o da arte como doutrina\u00e7\u00e3o, Harold Bloom foi um grande defensor \u201cda superioridade liter\u00e1ria de gigantes do Ocidente como Shakespeare, [Geoffrey] Chaucer e Kafka\u201d, como lembra o The New York Times.<\/p>\n<p>Os seus cr\u00edticos, que Bloom inclu\u00eda na lista de seguidores da \u201cEscola do Ressentimento\u201d (que cunhou), notavam que as grandes refer\u00eancias do erudito nova-iorquino eram sobretudo \u201cbrancas e masculinas\u201d, acrescenta o jornal \u2014 mas n\u00e3o s\u00f3, eram maioritariamente autores que n\u00e3o lhe eram contempor\u00e2neos. Entre os escritores com os quais conviveu temporalmente, poucos o cativaram. Philip Roth e Samuel Beckett s\u00e3o alguns exemplos dos poucos a quem reconhecia genialidade. Geoffrey Hill, Iris Murdoch, Cormac McCarthy e o portugu\u00eas Jos\u00e9 Saramago (a quem, num momento de arrebatamento, chegou a chamar o maior romancista vivo e que numa entrevista considerou \u201cum homem not\u00e1vel\u201d e \u201chomem iluminado\u201d) tamb\u00e9m lhe mereceram elogios, assim como E\u00e7a de Queir\u00f3s, por exemplo \u2014 que incluiu, tal como Fernando Pessoa e Lu\u00eds Vaz de Cam\u00f5es, entre os cem autores maiores da hist\u00f3ria da literatura mundial, na obra G\u00e9nio.<\/p>\n<p>Perante a limita\u00e7\u00e3o do tempo eram os cl\u00e1ssicos, sempre, que lhe ocupavam mais tempo. A Os Maias, por exemplo, chamou \u201cum dos mais not\u00e1veis romances europeus do s\u00e9culo XIX\u201d, comparando-o com os maiores romances da hist\u00f3ria liter\u00e1ria europeia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Harold Bloom e o encanto quase sagrado da literatura<\/p>\n<p>Carlos Maria Bobone escreve sobre um dos mais influentes cr\u00edticos liter\u00e1rios, que morreu aos 89 anos, e lembra que o c\u00e2none nunca \u00e9 uma pris\u00e3o, mas s\u00f3 uma forma mais rica de atingir a originalidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Carlos Maria Bobone Observador, 15out2019<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em Mimesis, um dos mais importantes livros que a cr\u00edtica liter\u00e1ria deu ao s\u00e9culo XX, Auerbach defende que a literatura ocidental, ao contr\u00e1rio do que \u00e9 dito habitualmente, depende muito mais da B\u00edblia do que da Odisseia. O modelo narrativo da Odisseia, explica Auerbach, \u00e9 muito mais distante do ponto de vista natural do que o modelo b\u00edblico. Enquanto a Odisseia aposta num mapeamento completo do espa\u00e7o, mesmo que para isso tenha de suspender a a\u00e7\u00e3o, a B\u00edblia, e sobretudo o Pentateuco, privilegia o tempo, mesmo que este d\u00ea uma perce\u00e7\u00e3o fragment\u00e1ria do que o rodeia; enquanto as personagens da Odisseia s\u00e3o s\u00f3lidas, das da B\u00edblia s\u00f3 temos vislumbres; a Odisseia \u00e9 um monumento, mas a B\u00edblia acabou por fazer mais escola.<\/p>\n<p>Ora, n\u00e3o \u00e9 de estranhar, portanto, que Harold Bloom, o mais famoso cr\u00edtico liter\u00e1rio dos \u00faltimos anos, combine um fort\u00edssimo interesse liter\u00e1rio pelo Pentateuco com uma vontade de real\u00e7ar constantemente os m\u00e9ritos do c\u00e2none liter\u00e1rio do Ocidente. \u00c9 certo que, do ponto de vista hist\u00f3rico, a batalha pelo c\u00e2none tem uma oportunidade a que \u00e9 dif\u00edcil escapar. Um acad\u00e9mico americano como Bloom, professor de literatura, ter\u00e1 passado os \u00faltimos anos do s\u00e9culo com uma contesta\u00e7\u00e3o permanente ao valor do c\u00e2none; seja pelas hermen\u00eauticas ou estruturalismos mais rebarbativos, que condenam a autoria \u00e0 quase irrelev\u00e2ncia, seja pelo neo-marxismo universit\u00e1rio que olha para o indiv\u00edduo como um rasto burgu\u00eas, seja pelos novos grupos identit\u00e1rios que reclamam do \u201ceurocentrismo\u201d do c\u00e2none ou da falta de representatividade das minorias na Hist\u00f3ria da Literatura, a verdade \u00e9 que o modelo tradicional da literatura, ou pelo menos de estudar literatura, foi ultra contestado desde meados do s\u00e9culo vinte.<\/p>\n<p>A obra de Bloom, embora tenha fases bem vincadas, pode sempre ser vista como uma defesa pouco can\u00f3nica do c\u00e2none tradicional. Os seus primeiros livros s\u00e3o estudos monogr\u00e1ficos sobre Shelley e Yeats, numa esp\u00e9cie de combate em duas frentes. O estudo monogr\u00e1fico sobre um autor, j\u00e1 o vemos, seria por si s\u00f3 uma esp\u00e9cie de provoca\u00e7\u00e3o ao estruturalismo militante. Enquanto Edward Said, para citar um exemplo Americano, escreve sobre grandes campos ou temas liter\u00e1rios, Bloom escreve sobre indiv\u00edduos; mas os livros de Bloom s\u00e3o tamb\u00e9m uma resposta a uma pol\u00e9mica que chega atrasada aos Estados Unidos. No princ\u00edpio do s\u00e9culo XX, h\u00e1 em Fran\u00e7a uma grande pol\u00e9mica entre Cl\u00e1ssicos e Rom\u00e2nticos que \u00e9, no fundo, uma pol\u00e9mica sobre a ordem.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma tese sobre o Romantismo \u2014 de que Te\u00f3filo Braga nos d\u00e1 um cheirinho no seu Romantismo em Portugal \u2013 que olha para este movimento como a recupera\u00e7\u00e3o daquilo que \u00e9 pr\u00f3prio de cada povo, e que estaria abafado pelo cesarismo Romano.<\/p>\n<p>Maurras, por outro lado, apontaria a forma Cl\u00e1ssica (que, para ele, era tamb\u00e9m a forma Romana) como o modelo ideal para o surgimento da obra de arte. A ordem \u00e9 que permite ao esp\u00edrito tornar-se compreens\u00edvel; n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel haver originalidade no caos, porque tudo est\u00e1 no mesmo plano, o do nada; s\u00f3 a hierarquia e a submiss\u00e3o a um c\u00e2none \u00e9 que permitem que o esp\u00edrito se me\u00e7a com aquilo que h\u00e1. Esta pol\u00e9mica teve a particularidade de inverter os lados de uma contenda mais antiga; se o Romantismo foi, durante muito tempo, visto como a rea\u00e7\u00e3o ao iluminismo e, por isso, como uma esp\u00e9cie de basti\u00e3o cat\u00f3lico, chefiado por Chateaubriand, o polemista de O G\u00e9nio do Cristianismo, com a pol\u00e9mica Maurras inverteu a ordem: o modelo de Roma \u00e9 o modelo cl\u00e1ssico. A famosa afirma\u00e7\u00e3o de Eliot de que era cl\u00e1ssico em literatura, mon\u00e1rquico em pol\u00edtica e cat\u00f3lico em religi\u00e3o percebe-se \u00e0 luz desta pol\u00e9mica. Eliot \u00e9 cl\u00e1ssico por oposi\u00e7\u00e3o aos rom\u00e2nticos e, coerentemente, \u00e9 cat\u00f3lico, porque o modelo cat\u00f3lico j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o rom\u00e2ntico, mas o cl\u00e1ssico.<\/p>\n<p>Ora, \u00e9 pela influ\u00eancia de Eliot que esta pol\u00e9mica chega aos Estados Unidos, com os lados definidos da mesma forma. Bloom, com as suas defesas de Shelley ou Yeats, est\u00e1 no centro de um furac\u00e3o. A literatura rom\u00e2ntica \u2013 que tem a sua defesa do papel do indiv\u00edduo nos Her\u00f3is, de Carlyle \u2013 \u00e9 atacada por um lado pela corrente cl\u00e1ssica cat\u00f3lica, por outro pela corrente progressista anti-individualista e anti-can\u00f3nica.<\/p>\n<p>Bloom faz uma defesa do c\u00e2none que, como acontecer\u00e1 mais tarde com os seus livros de Hist\u00f3ria da Literatura (G\u00e9nio e O C\u00e2none Ocidental), n\u00e3o interpreta o c\u00e2none de uma maneira muito can\u00f3nica.<\/p>\n<p>Isto, ali\u00e1s, \u00e9 bastante claro no modo como Bloom se interessa pela B\u00edblia. O interesse de um judeu pelo Pentateuco e pelos livros sapienciais poderia indicar o regresso a uma certa ortodoxia, a um modo de olhar para a literatura como mais uma manifesta\u00e7\u00e3o da obra Divina; no entanto, cada livro de Bloom \u00e9 mais pol\u00e9mico do que o outro. Desde o famoso Livro de J, que aventa a possibilidade de o escritor do Pentateuco ser uma mulher, a Jesus e Yahweh, em que se trata de uma esp\u00e9cie de parric\u00eddio ideol\u00f3gico em que a figura teol\u00f3gica de Jesus absorve um Yahweh de caracter\u00edsticas muito diferentes, a posi\u00e7\u00e3o de Bloom \u00e9 muito clara: a riqueza da tradi\u00e7\u00e3o e dos grandes livros sapienciais est\u00e1 na perda que h\u00e1 entre o texto e o leitor. Nunca se ultrapassa o c\u00e2none, porque o c\u00e2none n\u00e3o \u00e9 feito de soma e de leituras completas atr\u00e1s de leituras completas; os livros que tornaram Bloom mais famoso, apesar de serem vistos como uma defesa do c\u00e2none ocidental, s\u00e3o obviamente releituras do c\u00e2none. O que interessa em G\u00e9nio e em O C\u00e2none Ocidental \u00e9 precisamente a leitura n\u00e3o can\u00f3nica do c\u00e2none; aquilo que a sua doutoranda Camille Paglia fez em Personas Sexuais \u2013 a reorganiza\u00e7\u00e3o da ideia de sexualidade atrav\u00e9s de tipos diferentes de personalidade \u2013 vem daquilo que Bloom fez com a literatura. A sua organiza\u00e7\u00e3o dos grandes autores pelo tipo de g\u00e9nio, em que se pode associar Freud ao livro de Job e Boswell a Thomas Mann, tem o interesse de olhar para o C\u00e2none, n\u00e3o no sentido hist\u00f3rico, mas na intemporalidade dos esp\u00edritos e das ideias de cada autor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A escrita de Bloom tinha o encanto reverente de quem olha para a literatura como uma coisa quase sagrada e o interesse de despertar, pelas associa\u00e7\u00f5es imprevis\u00edveis, o interesse na justifica\u00e7\u00e3o de cada liga\u00e7\u00e3o. Nem todas ser\u00e3o claras, nem todas ser\u00e3o as mais acertadas; mas, pelo menos, mostram que, de facto, o c\u00e2none nunca \u00e9 uma pris\u00e3o, mas s\u00f3 uma forma mais rica de atingir a originalidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>O que Harold Bloom, autor de &#8220;O C\u00e2none Ocidental&#8221;, escreveu sobre Fernando Pessoa<\/p>\n<p>No livro em que definiu os autores que, para si, faziam parte do c\u00e2none ocidental, Bloom incluiu alguns portugueses. Pessoa foi, por\u00e9m, o \u00fanico a ter direito a algumas p\u00e1ginas, que aqui reproduzimos.<\/p>\n<p>Observador, 15out2019<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Harold Bloom considera que Fernando Pessoa foi o autor de um dos melhores poemas do s\u00e9culo XX<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Da longa carreira do cr\u00edtico liter\u00e1rio Harold Bloom, h\u00e1 um livro que se destaca. Publicado pela primeira vez em 1994, O C\u00e2none Ocidental \u00e9 um reposit\u00f3rio de autores e obras ocidentais que, na opini\u00e3o do norteamericano, s\u00e3o fundamentais e intemporais. A lista que surge no ap\u00eandice come\u00e7a na antiguidade e acaba na idade moderna e incluiu escritores de v\u00e1rias nacionalidades, incluindo famosos portugueses, como Cam\u00f5es, E\u00e7a de Queiroz ou Jos\u00e9 Saramago. Foi, por\u00e9m, apenas a Fernando Pessoa que Bloom, que morreu esta segunda-feira aos 89 anos, dedicou algumas p\u00e1ginas do volume, onde isolou e estudou as qualidades de 26 \u201cautores can\u00f3nicos\u201d, isto \u00e9, \u201cautoridades na nossa cultura\u201d.<\/p>\n<p>A escolha, como explicou no pref\u00e1cio e prel\u00fadio, n\u00e3o foi arbitr\u00e1ria. \u201cEles foram escolhidos tanto pela sua sublimidade como pela sua representatividade: \u00e9 poss\u00edvel um livro acerca de vinte e seis escritores, mas n\u00e3o acerca de quatrocentos\u201d, disse. \u201cCom a maior parte deste vinte e seis autores, tentei confrontar diretamente a grandeza, e perguntar o que \u00e9 que faz com que os autores e as obras se tornem can\u00f3nicos. A resposta, muito frequentemente, acabou por ser o estranhamento, um modo de originalidade que ou n\u00e3o pode ser assimilado ou, ent\u00e3o, tanto nos assimila que deixamos de v\u00ea-lo como estranho.\u201d<\/p>\n<p>Foi precisamente a originalidade do \u201cespantoso poeta portugu\u00eas Fernando Pessoa\u201d que levou Bloom a inclu\u00ed-lo num cap\u00edtulo dedicado a Jorge Lu\u00eds Borges e a Pablo Neruda, fundadores, juntamente com o cubano Alejo Carpentier, da \u201cliteratura hispano-americana do s\u00e9culo XX\u201d. Para o cr\u00edtico, Pessoa tinha inventado algo fant\u00e1stico que ultrapassava \u201cqualquer cria\u00e7\u00e3o de Borges\u201d \u2014 os heter\u00f3nimos, \u201cuma s\u00e9rie de poetas alternativos\u201d para os quais \u201cescreveu volumes inteiros de poemas\u201d. \u201cPessoa n\u00e3o era nem louco nem mero ironista; \u00e9 Whitman renascido\u201d, defendeu o professor da Universidade de Yale, frisando as semelhan\u00e7as entre a obra do poeta portugu\u00eas e a do poeta norteamericano, autor de Folhas de Erva.<\/p>\n<p>O C\u00e2none Ocidental foi publicado pela primeira vez em Portugal em 2011 pela Temas e Debates<\/p>\n<p>Neste aspeto, o cr\u00edtico destacou \u201cOde Mar\u00edtima\u201d, de \u00c1lvaro de Campos, que considerou \u201cum dos maiores poemas\u201d do s\u00e9culo XX. \u201cCom excep\u00e7\u00e3o das melhores partes das obras de Neruda Resid\u00eancia na Terra e Canto Geral, nada que tenha sido composto na esteira de Whitman se equipara em inven\u00e7\u00e3o exuberante a Ode Mar\u00edtima\u201c, defendeu em O C\u00e2none Ocidental, numa passagem que aqui reproduzimos na \u00edntegra a partir da edi\u00e7\u00e3o portuguesa da Temas e Debates, que vai na quinta edi\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como contraste aos poetas latino-americanos, apresento o espantoso poeta portugu\u00eas Fernando Pessoa (1888 -1935), que, enquanto inven\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica, ultrapassa qualquer cria\u00e7\u00e3o de Borges. Nascido em Lisboa e descendente de judeus conversos, Pessoa foi educado na \u00c1frica do Sul e, tal como Borges, desde muito novo que era bilingue. Na verdade, at\u00e9 aos vinte e um anos escreveu poesia unicamente em ingl\u00eas. Em termos de emin\u00eancia po\u00e9tica, Pessoa iguala-se a Hart Crane, com quem muito se assemelha, sobretudo em Mensagem, uma sequ\u00eancia po\u00e9tica sobre a hist\u00f3ria portuguesa, afim a A Ponte de Crane. Poderosos como s\u00e3o muitos dos poemas l\u00edricos de Pessoa, eles constituem, por\u00e9m, unicamente uma parte da sua obra; tamb\u00e9m inventou uma s\u00e9rie de poetas alternativos \u2013 entre eles Alberto Caeiro, \u00c1lvaro de Campos, Ricardo Reis \u2013, e para eles escreveu volumes inteiros de poemas, ou melhor, como eles. Dois deles, Caeiro e Campos, s\u00e3o grandes poetas, totalmente diferentes entre si e de Pessoa, para j\u00e1 n\u00e3o falar de Reis, que \u00e9 um interessante poeta menor. Pessoa n\u00e3o era nem louco nem um mero ironista; \u00e9 Whitman renascido, mas um Whitman que d\u00e1 nomes separados a \u00abo meu eu\u00bb, \u00abo eu verdadeiro\u00bb ou \u00abeu, eu mesmo\u00bb, e \u00aba minha alma\u00bb, e escreve maravilhosos livros de poemas para os tr\u00eas, assim como um volume \u00e0 parte com o nome de Walt Whitman. Os paralelos est\u00e3o demasiado pr\u00f3ximos para serem coincid\u00eancias, em particular porque a inven\u00e7\u00e3o dos \u00abheter\u00f3nimos\u00bb (um termo de Pessoa) se seguiu a uma imers\u00e3o em Folhas de Erva. Walt Whitman, um dos duros, um americano, o \u00abmim mesmo\u00bb de Canto de Mim Mesmo, torna-se \u00c1lvaro de Campos, um engenheiro naval portugu\u00eas e judeu. O \u00abeu verdadeiro\u00bb ou \u00abeu, eu mesmo\u00bb torna-se o \u00abguardador de rebanhos\u00bb, o poeta pastoril Alberto Caeiro, enquanto a alma whitmaniana se transmuda em Ricardo Reis, um materialista epicurista que escreve odes horacianas.<\/p>\n<p>Pessoa deu a cada um dos tr\u00eas poetas uma biografia e uma fisionomia, permitindo que se tornassem independentes dele, e de tal maneira que ele pr\u00f3prio se juntou a Campos e a Reis no an\u00fancio de que Caeiro havia sido o seu \u00abmestre\u00bb ou precursor po\u00e9tico. Pessoa, Campos e Reis foram todos influenciados por Caeiro, n\u00e3o por Whitman, e Caeiro n\u00e3o foi influenciado por ningu\u00e9m, sendo um poeta \u00abpuro\u00bb ou natural, com pouca ou nenhuma educa\u00e7\u00e3o, e que morreu com a idade altamente rom\u00e2ntica de vinte e seis anos. Octavio Paz, um dos paladinos de Pessoa, resumiu este poeta qu\u00e1druplo com uma requintada economia: \u00abCaeiro \u00e9 o sol em cuja \u00f3rbita Reis, Campos e Pessoa (ele pr\u00f3prio) gravitam. Em cada um h\u00e1 part\u00edculas de nega\u00e7\u00e3o ou irrealidade. Reis acreditava na forma, Campos na sensa\u00e7\u00e3o, Pessoa em s\u00edmbolos. Caeiro n\u00e3o acredita em nada. Ele existe.\u00bb<\/p>\n<p>A investigadora portuguesa Maria Irene Ramalho de Sousa Santos, que se afirmou como a cr\u00edtica can\u00f3nica de Pessoa, interpreta os heter\u00f3nimos deste como a sua \u00ableitura, meio em cumplicidade com Whitman e meio em avers\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 da poesia de Whitman, mas tamb\u00e9m da sexualidade e das ideias pol\u00edticas de Whitman\u00bb.<\/p>\n<p>O homoerotismo mal reprimido de Pessoa emerge no furioso masoquismo de Campos, o que n\u00e3o \u00e9 nada whitmaniano; e a ideologia democr\u00e1tica de Folhas de Erva era inaceit\u00e1vel para um mon\u00e1rquico vision\u00e1rio portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Embora Ramalho de Sousa Santos fa\u00e7a o poss\u00edvel por eludir a ang\u00fastia da contamina\u00e7\u00e3o de Pessoa por Whitman, as ansiedades da influ\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o f\u00e1ceis de escamotear. Tal como D. H. Lawrence em Studies in Classic American Literature, Pessoa-Campos manifesta uma enorme ambival\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos ambiciosos abra\u00e7os whitmanianos do cosmo e de todos quantos nele existem; e contudo Pessoa parece saber, muito melhor do que os cr\u00edticos que o idealizam, que \u00e9 imposs\u00edvel separar os seus eus po\u00e9ticos dos de Whitman, apesar da prodigiosa fic\u00e7\u00e3o dos heter\u00f3nimos. At\u00e9 mesmo Ramalho de Sousa Santos, ap\u00f3s uma tentativa de rodeio feminista dos fardos da influ\u00eancia, regressa brilhantemente \u00e0s cru\u00e9is realidades da filia\u00e7\u00e3o temporal, do romance de fam\u00edlia po\u00e9tico:<\/p>\n<p>A partir do di\u00e1logo impl\u00edcito em Whitman entre o eu e o \u00abeu, eu mesmo\u00bb, Pessoa esculpiu duas imagens da voz explicitamente distintas. Whitman, mais cedo, por interm\u00e9dio de uma consci\u00eancia conectiva, org\u00e2nica, foi capaz de entrela\u00e7ar estas duas vozes num todo din\u00e2mico. Pessoa, chegando meio s\u00e9culo depois, imerso nas correntes do pensamento contempor\u00e2neo e bem informado acerca de Nietzsche, Marinetti e sobretudo Pater, que ele havia traduzido em parte, tinha necessidade de descobrir uma nova estrat\u00e9gia para exprimir o eu \u00e0 maneira de Whitman, tanto t\u00e9cnica como filosoficamente. Ao detectar dois eus potencialmente opostos em Folhas de Erva, e sobretudo em Canto de Mim Mesmo, Pessoa encontrou a maneira de inscrever poeticamente o fluxo perp\u00e9tuo de uma \u00fanica consci\u00eancia; uma consci\u00eancia em estonteante movimento para a frente e para tr\u00e1s entre duas atitudes essenciais para com o Ser. Juntos, Caeiro e Campos re-entoam o Canto de Mim Mesmo como um dueto, com a voz principal do solista para sempre ensombrada pela presen\u00e7a impalp\u00e1vel do outro. Ler uma persona como uma parte essencial da outra proporciona uma nova leitura dos heter\u00f3nimos.<\/p>\n<p>Segundo esta perspectiva, com a qual eu estou em conson\u00e2ncia, Pessoa aceita o papel que desempenha no drama da influ\u00eancia po\u00e9tica, mas leva a leitura de Whitman a um grau de consci\u00eancia mais elevado ao exteriorizar a cartografia ps\u00edquica do seu precursor em termos de dois poetas fictivos. Quero primeiramente aplicar esta leitura a poemas de Caeiro e Campos, e depois voltar atr\u00e1s, a Neruda, cuja diversidade po\u00e9tica tem desencadeado tantos coment\u00e1rios cr\u00edticos. Quando<\/p>\n<p>Ricardo Neftal\u00ed Reyes assumiu o pseud\u00f3nimo Pablo Neruda e escolheu Walt Whitman como pai adoptivo, deu por si s\u00f3 o primeiro passo em direc\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio heteron\u00edmico de Pessoa. Quer Canto Geral venha ou n\u00e3o a ser confirmado com o decorrer do tempo como o canto geral da Am\u00e9rica, destituindo Folhas de Erva, como alguns dos seus admiradores profetizam, h\u00e1 tamb\u00e9m um enorme corpus da poesia de Neruda que \u00e9 distinto da sua \u00e9pica enciclop\u00e9dica. A rela\u00e7\u00e3o entre os volumes e as fases da sua variada carreira \u00e9 imensamente whitmaniana no sentido em que eus nerudianos muito diferentes se manifestam nos poemas, tal como Caeiro e Campos s\u00e3o imensamente diversos e, mesmo assim, continuam a ser eus whitmanianos. Caeiro, tal como o \u00abeu verdadeiro\u00bb de Whitman, est\u00e1 tanto dentro como fora do jogo, assistindo a ele e com ele se admirando:<\/p>\n<p>Deste modo ou daquele modo, Conforme calha ou n\u00e3o calha, Podendo \u00e0s vezes dizer o que penso, E outras vezes dizendo-o mal e com misturas, Vou escrevendo os meus versos sem querer, Como se escrever n\u00e3o fosse uma coisa feita de gestos, Como se escrever fosse uma coisa que me acontecesse Como dar-me o sol de fora.<\/p>\n<p>Procuro dizer o que sinto Sem pensar em que o sinto. Procuro encostar as palavras \u00e0 ideia E n\u00e3o precisar dum corredor Do pensamento para as palavras.<\/p>\n<p>Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir. O meu pensamento s\u00f3 muito devagar atravessa o rio a nado Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.<\/p>\n<p>Procuro despir-me do que aprendi, Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, Desencaixotar as minhas emo\u00e7\u00f5es verdadeiras, Desembrulhar-me e ser eu, n\u00e3o Alberto Caeiro, Mas um animal humano que a Natureza produziu.<\/p>\n<p>O eu verdadeiro de Whitman n\u00e3o escreveu Folhas de Erva; o Eu verdadeiro de Whitman escarneceu do duro Walt em \u00abIndo na Mar\u00e9 Baixa com o Oceano da Vida\u00bb, ap\u00f3s ter passado pelo seu \u00eaxtase masturbat\u00f3rio em Canto de Mim Mesmo. A intui\u00e7\u00e3o de Pessoa ensinou -lhe o g\u00e9nero de poema que o \u00abeu, eu mesmo\u00bb whitmaniano podia ter escrito: involuntariamente, a express\u00e3o do animal humano ou homem natural \u2013 com o saber, o recordar e as representa\u00e7\u00f5es passadas dos sentidos, todos eles abandonados. Poder\u00e1 existir um poema assim? Certamente que n\u00e3o, e Pessoa, \u00e9 claro, sabia-o; mas os poemas de Caeiro s\u00e3o uma tentativa fascinante de escrever o que n\u00e3o pode ser escrito. No outro limite da express\u00e3o \u2013 a raps\u00f3dia autoglorificante do duro, demon\u00edaco Walt \u2013, Pessoa coloca o afrontoso Campos, como aqui na sua \u00abSauda\u00e7\u00e3o a Walt Whitman\u00bb:<\/p>\n<p>Portugal-Infinito, onze de Junho de mil novecentos e quinze\u2026 H\u00e9-l\u00e1-\u00e1-\u00e1-\u00e1-\u00e1-\u00e1-\u00e1!<\/p>\n<p>De aqui de Portugal, todas as \u00e9pocas no meu c\u00e9rebro, Sa\u00fado-te, Walt, sa\u00fado-te, meu irm\u00e3o em Universo, Eu, de mon\u00f3culo e casaco exageradamente cintado, N\u00e3o sou indigno de ti, bem o sabes, Walt, N\u00e3o sou indigno de ti, basta saudar-te para n\u00e3o o ser\u2026 Eu t\u00e3o cont\u00edguo \u00e0 in\u00e9rcia, t\u00e3o facilmente cheio de t\u00e9dio, Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te, E embora te n\u00e3o conhecesse, nascido pelo ano em que morrias, Sei que me amaste tamb\u00e9m, que me conheceste, e estou contente. Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste, Sei que \u00e9 isso que eu sou, quer em Brooklin Ferry dez anos antes de eu nascer, Quer pela Rua do Ouro acima pensando em tudo que n\u00e3o \u00e9 Rua do Ouro, E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e c\u00e1 estamos de m\u00e3os dadas, De m\u00e3os dadas, Walt, de m\u00e3os dadas, dan\u00e7ando o universo na alma.<\/p>\n<p>\u00d3 sempre moderno e eterno cantor dos concretos absolutos, Concubina fogosa do universo disperso, Grande pederasta ro\u00e7ando-te contra a adversidade das coisas, Sexualizado pelas pedras, pelas \u00e1rvores, pelas pessoas, pelas profiss\u00f5es, Cio das passagens, dos encontros casuais, das meras observa\u00e7\u00f5es, Meu entusiasta pelo conte\u00fado de tudo, Meu grande her\u00f3i entrando pela Morte dentro aos pinotes, E aos urros, e aos guinchos, e aos berros saudando Deus!<\/p>\n<p>Cantor da fraternidade feroz e terna com tudo, Grande democrata epid\u00e9rmico, cont\u00edguo a tudo em corpo e alma, Carnaval de todas as ac\u00e7\u00f5es, bacanal de todos os prop\u00f3sitos, Irm\u00e3o g\u00e9meo de todos os arrancos, Jean-Jacques Rousseau do mundo que havia de produzir m\u00e1quinas,<\/p>\n<p>Homero do insaisissable do flutuante carnal, Shakespeare da sensa\u00e7\u00e3o que come\u00e7a a andar a vapor, Milton-Shelley do horizonte da Electricidade futura! \u00cdncubo de todos os gestos, Espasmo pra dentro de todos os objectosfor\u00e7a, Souteneur de todo o Universo, Rameira de todos os sistemas solares\u2026<\/p>\n<p>Esta fantasia de 1915 continua vibrantemente por mais de duzentos versos, e \u00e9 acompanhada por duas extravaganzas whitmanianas mais longas, \u00abOde\u00bb e Ode Mar\u00edtima, esta \u00faltima com trinta p\u00e1ginas de extens\u00e3o, e que \u00e9 a obra-prima de Campos, bem como um dos maiores poemas do s\u00e9culo. Com excep\u00e7\u00e3o das melhores partes das obras de Neruda Resid\u00eancia na Terra e Canto Geral, nada que tenha sido composto na esteira de Whitman se equipara em inven\u00e7\u00e3o exuberante a Ode Mar\u00edtima. A \u00abSauda\u00e7\u00e3o a Walt Whitman\u00bb, cuja sublime ambival\u00eancia excede D. H. Lawrence enquanto reac\u00e7\u00e3o-forma\u00e7\u00e3o whitmaniana (\u00abRameira de todos os sistemas solares\u00bb), termina aben\u00e7oando Whitman como o \u00abAmante impotente e fogoso das nove musas e das gra\u00e7as\u00bb.<\/p>\n<p>Saudando Whitman quinze anos mais tarde (em 1930, no ano da publica\u00e7\u00e3o de A Ponte, de Hart Crane), Federico Garc\u00eda Lorca escreve uma \u00abOde a Walt Whitman\u00bb, no seu surrealista Poeta em Nova Iorque, que \u00e9 muito pobre quando comparada com os cantos de Campos. Mas isto \u00e9 compreens\u00edvel, porque Lorca, ao contr\u00e1rio de Pessoa, conhecia Whitman s\u00f3 em segunda m\u00e3o, e imaginava-o um \u00abvelhote encantador\u00bb com \u00abas tuas barbas cheias de borboletas\u00bb. Pessoa-Campos, impregnado de Whitman e por ele inflamado, combate pela sua vida po\u00e9tica, em parte atrav\u00e9s da estrat\u00e9gia borgesiana (antes de Borges) de se tornar Walt Whitman, tal como o Pierre Menard de Borges se tornou Cervantes a fim de usurpar a autoria de Dom Quixote.<\/p>\n<p>Neruda percebeu, pelo menos nos seus pr\u00f3prios poemas whitmanianos, que o poeta de Folhas de Erva era evasivo, t\u00edmido, defensivo, invariavelmente metam\u00f3rfico. Tal como foi observado por Frank Menchaca, \u00abNeruda tamb\u00e9m deve ter percebido que o eu que se afirma estar francamente dispon\u00edvel em toda a parte da poesia de Whitman, em lado nenhum consegue ser encontrado\u00bb. A morte \u00e9 talvez uma parte daquele \u00ablado nenhum\u00bb, tanto em Whitman como em Neruda, mas \u00e9 um dos temas na obra de Neruda em torno do qual o Whitman que trata das feridas tende a pairar. Resid\u00eancia na Terra, que \u00e9 a culmina\u00e7\u00e3o da sua poesia inicial, mostra Neruda confrontandose com a tristeza \u00e0 maneira do Whitman eleg\u00edaco que se contempla a si mesmo como parte do movimento do mar. Neruda comentou que \u00ab\u00c9 uma poesia sem sa\u00edda\u00bb, e insistiu no facto de que sa\u00edra do desespero unicamente gra\u00e7as \u00e0s suas actividades em defesa do condenado lado republicano na Guerra Civil de Espanha. Leo Spitzer, um dos que pertencem \u00e0 dupla m\u00e3o-cheia de cr\u00edticos modernos eruditos que valem a pena, descreveu Resid\u00eancia na Terra como uma \u00abenumera\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica\u00bb, a qual seria o Whitman mais sombrio fora de controlo, o processo criativo whitmaniano reduzido ao que Spitzer apelida de \u00abactividades desintegradoras\u00bb, ou o whitmaniano indo na mar\u00e9 baixa com o oceano da vida.<\/p>\n<p>Em termos dos heter\u00f3nimos de Pessoa, os poemas de Resid\u00eancia na Terra s\u00e3o escritos pelo elemento Caeiro preso em Campos, um Whitman encurralado dentro de si mesmo. Talvez isto seja mais evidente na conclus\u00e3o do beco sem sa\u00edda intitulado \u00abWalking Around\u00bb, que foi esplendidamente traduzido para ingl\u00eas por W. S. Merwin:<\/p>\n<p>Por isso a segunda-feira arde como petr\u00f3leo quando me v\u00ea chegar com cara de pris\u00e3o, e uiva no seu decurso qual uma roda ferida, e d\u00e1 passos de sangue ardente rumo \u00e0 noite.<\/p>\n<p>E empurra-me para certos recantos, para certas casas h\u00famidas, para hospitais onde os ossos saem pela janela, para certas sapatarias com odor a vinagre, para ruas espantosas como fendas.<\/p>\n<p>H\u00e1 p\u00e1ssaros cor de enxofre e horr\u00edveis intestinos pendurados nas portas das casas que odeio, h\u00e1 dentaduras esquecidas numa cafeteira, h\u00e1 espelhos que deveriam ter chorado de vergonha e espanto, h\u00e1 guarda-chuvas em toda a parte, e venenos, e umbigos.<\/p>\n<p>Passeio calmamente, com olhos, com sapatos, com f\u00faria e esquecimento, passo, atravesso escrit\u00f3rios e lojas ortop\u00e9dicas, e p\u00e1tios onde h\u00e1 roupa pendurada num arame: cuecas, toalhas e camisas que choram lentas l\u00e1grimas s\u00f3rdidas.<\/p>\n<p>No seu aspecto mais vigoroso, Canto Geral \u00e9 o ant\u00eddoto derradeiro para esta vers\u00e3o suicida de whitmanismo em Neruda. Roberto Gonz\u00e1lez Echevarria apelidou Canto Geral de \u00abpo\u00e9tica da trai\u00e7\u00e3o\u00bb, sombriamente prof\u00e9tica do pathos terr\u00edvel da morte de Neruda, em 23 de Setembro de 1973, doze dias depois dos massacres que tiveram in\u00edcio com o assass\u00ednio do seu amigo, o presidente Salvador Allende, pelos militares chilenos. Trai\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas um tema menor em Whitman, cujos envolvimentos pol\u00edticos s\u00e3o demasiado sobrevalorizados no mau momento da cr\u00edtica que agora atravessamos, no qual tudo tem sido politizado. Mas a trai\u00e7\u00e3o, quer da Rep\u00fablica espanhola quer do Chile pelos militares, era uma liberta\u00e7\u00e3o po\u00e9tica para Neruda, emancipando-o do lado sombrio que ele partilhava com Whitman sem possuir a capacidade preternatural de Whitman para gerar, agora e sempre, um nascer de sol para ele mesmo. A li\u00e7\u00e3o derradeira da influ\u00eancia de Whitman \u2013 em Borges, Neruda, Paz e tantos outros mais \u2013 pode muito bem ser a de que s\u00f3 uma originalidade t\u00e3o descomedida quanto a de Pessoa \u00e9 que podia ter esperan\u00e7a de cont\u00ea-la sem perigo para o eu po\u00e9tico ou para os eus po\u00e9ticos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Excerto retirado de O C\u00e2none Ocidental, tradu\u00e7\u00e3o, introdu\u00e7\u00e3o e notas de Manuel Frias Martins, Lisboa, Temas e Debates, 5.\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 2013<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>QUATRO AUTORES PORTUGUESES ENTRE OS 100 MAIORES DA HIST\u00d3RIA DA LITERATURA MUNDIAL Na segunda-feira, 14.10.2019, morreu Harold Bloom em New Haven com a idade de 89 anos; era um intelectual cr\u00edtico liter\u00e1rio americano que alcan\u00e7ou fama internacional com os seus escritos de cr\u00edtica liter\u00e1ria. 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