{"id":5564,"date":"2019-07-29T15:09:04","date_gmt":"2019-07-29T14:09:04","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=5564"},"modified":"2019-07-29T20:02:41","modified_gmt":"2019-07-29T19:02:41","slug":"uso-ou-abuso-da-linguagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=5564","title":{"rendered":"USO OU ABUSO DA LINGUAGEM?"},"content":{"rendered":"<p>O nosso esp\u00edrito do tempo tem vergonha de usar algumas palavras antigas de express\u00e3o mais conotativa e direta; por isso prefere empregar, agora, uma linguagem mais voltada para a camuflagem.<\/p>\n<p>N\u00e3o me refiro aqui \u00e0 linguagem informal ortogr\u00e1fica, um pouco embara\u00e7ada, reduzida, sem pontua\u00e7\u00f5es nem concord\u00e2ncia, que se vai usando nos nossos espa\u00e7os de comunica\u00e7\u00e3o virtual! Falo do amaciamento de palavras designadoras de profiss\u00f5es que eram demasiadamente conotadas pela situa\u00e7\u00e3o considerada pela sociedade como menos nobre, ou por atividades que continuam, mas que hoje \u00e9 preciso pegar com luvas brancas para as afidalgar. Talvez tamb\u00e9m para descarregar a consci\u00eancia de uma classe fina a que todos queremos pertencer!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esta necessidade de mudar o nome a profiss\u00f5es prec\u00e1rias, tamb\u00e9m poderia ser tomada como uma intrujice camuflada, apenas uma toalha para limpar o rosto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Em vez de criarmos palavras eufemistas para profiss\u00f5es desfavorecidas pelo sistema vigente, porque n\u00e3o lhes conferir ordenados de ministro e ent\u00e3o ter\u00edamos solucionado o problema da tal descrimina\u00e7\u00e3o transmitida pela linguagem? <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>A prop\u00f3sito, na sociedade romana antiga, ministro era o servidor! H\u00e1 evolu\u00e7\u00f5es dif\u00edceis de entender! <\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Certamente surgiriam outros problemas, mas n\u00e3o o da discrimina\u00e7\u00e3o relegada tamb\u00e9m para as palavras.<\/p>\n<p>Por outro lado, substituindo as palavras velhas por novas j\u00e1 n\u00e3o se gasta muito nos detergentes!<\/p>\n<p>A respeito disto coloco aqui o texto \u201cA nova L\u00edngua Portuguesa\u201d que, sem detergentes, circulava h\u00e1 10 anos, na Internet e que vim a saber ser de Helena Sacadura Cabral:<\/p>\n<p>A NOVA L\u00cdNGUA PORTUGUESA<\/p>\n<p>\u201cDesde que os americanos se lembraram de come\u00e7ar a chamar aos pretos \u2018afro-americanos\u2019, com vista a acabar com as ra\u00e7as por via gramatical \u2013 isto tem sido um fartote pegado!<\/p>\n<p>As criadas dos anos 70 passaram a \u2018empregadas dom\u00e9sticas\u2019 e preparam-se agora para receber men\u00e7\u00e3o de \u2018auxiliares de apoio dom\u00e9stico\u2019.<\/p>\n<p>De igual modo, extinguiram-se nas escolas os \u2018cont\u00ednuos\u201d; estes passaram todos a \u2018auxiliares da ac\u00e7\u00e3o educativa\u2019.<\/p>\n<p>Os vendedores de medicamentos, com alguma pros\u00e1pia, tratam-se por \u2018delegados de informa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica\u2019.<\/p>\n<p>E pelo mesmo processo transmudaram-se os caixeiros-viajantes em \u2018t\u00e9cnicos de vendas\u2019.<\/p>\n<p>O aborto efeminou-se em \u2018interrup\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria da gravidez\u2019;<\/p>\n<p>Os gangs \u00e9tnicos s\u00e3o \u2018grupos de jovens\u2019<\/p>\n<p>Os oper\u00e1rios fizeram-se de repente \u2018colaboradores\u2019;<\/p>\n<p>As f\u00e1bricas, essas, vistas de dentro s\u00e3o \u2018unidades produtivas \u2018e vistas da estranja s\u00e3o \u2018centros de decis\u00e3o nacionais\u2019.<\/p>\n<p>O analfabetismo desapareceu da crosta portuguesa, cedendo o passo \u00e0 \u2018iliteracia\u2019 galopante.<\/p>\n<p>Desapareceram dos comboios as 1.\u00aa e 2.\u00aa classes, para n\u00e3o ferir a\u00a0 suscetibilidade social das massas hierarquizadas, mas por imperscrut\u00e1veis necessidades de tesouraria continuam a cobrar-se pre\u00e7os distintos nas classes \u2018Conforto\u2019 e \u2018Tur\u00edstica\u2019.<\/p>\n<p>A \u00c1gata, rainha do pimba, cantava chorosa: \u00abSou m\u00e3e solteira\u2026\u00bb ; agora, se quiser acompanhar os novos tempos, deve alterar a letra da pungente melodia: \u00abTenho uma fam\u00edlia monoparental\u2026\u00bb \u2013 eis o novo verso da can\u00e7oneta, se quiser fazer jus \u00e0 modernidade impante.<\/p>\n<p>Aquietadas pela televis\u00e3o, j\u00e1 se n\u00e3o veem por a\u00ed aos pinotes crian\u00e7as irrequietas e \u00abterroristas\u00bb; diz-se modernamente que t\u00eam um \u2018comportamento disfuncional hiperactivo\u2019<\/p>\n<p>Do mesmo modo, e para felicidade dos \u2018encarregados de educa\u00e7\u00e3o\u2019, os brilhantes programas escolares extinguiram os alunos c\u00e1bulas; tais estudantes ser\u00e3o, quando muito, \u2018crian\u00e7as de desenvolvimento inst\u00e1vel\u2019.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 cegos, infelizmente. Mas como a palavra fosse considerada desagrad\u00e1vel e at\u00e9 aviltante, quem n\u00e3o v\u00ea \u00e9 considerado \u2018invisual\u2019. (O termo \u00e9 gramaticalmente impr\u00f3prio, como impr\u00f3prio seria chamar inauditivos aos surdos \u2013 mas o \u2018politicamente correcto\u2019 marimba-se para as regras gramaticais\u2026)<\/p>\n<p>As putas passaram a ser \u2018senhoras de alterne\u2019.<\/p>\n<p>Para compor o ramalhete e se darem ares, as gentes cultas da pra\u00e7a desbocam-se em \u2018implementa\u00e7\u00f5es\u2019, \u2018posturas pr\u00f3-activas\u2019,\u2019pol\u00edticas fracturantes\u2019 e outros barbarismos da linguagem.<\/p>\n<p>E assim linguajamos o Portugu\u00eas, vagueando perdidos entre a \u00abcorrec\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u00bb e o novo-riquismo lingu\u00edstico.<\/p>\n<p>Estamos lixados com este \u2018novo portugu\u00eas\u2019; n\u00e3o admira que o pessoal tenha cada vez mais esgotamentos e stress. J\u00e1 n\u00e3o se diz o que se pensa, tem de se pensar o que se diz de forma\u00a0 \u2018politicamente correcta\u2019.\u201d<\/p>\n<p>Fora de ironias! \u00c9 certo que importa n\u00e3o nos perdermos na sem\u00e2ntica nem nos factores contextuais, mas tamb\u00e9m teremos de compreender que, como vivemos num mundo cada vez mais aldeia, precisamos de um ajustamento das designa\u00e7\u00f5es profissionais a n\u00edvel internacional e de organiza\u00e7\u00f5es internacionais!\u2026. No link indicado na nota (1) pode encontrar-se todas as designa\u00e7\u00f5es para as mais diversificadas profiss\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>\u201cPegadas do Tempo\u201d<\/p>\n<p>(1) <a href=\"http:\/\/azores.gov.pt\/NR\/rdonlyres\/2750F07D-9748-438F-BA47-7AA1F8C3D794\/0\/CPP2010.pdf\">http:\/\/azores.gov.pt\/NR\/rdonlyres\/2750F07D-9748-438F-BA47-7AA1F8C3D794\/0\/CPP2010.pdf<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O nosso esp\u00edrito do tempo tem vergonha de usar algumas palavras antigas de express\u00e3o mais conotativa e direta; por isso prefere empregar, agora, uma linguagem mais voltada para a camuflagem. 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