{"id":3488,"date":"2016-02-18T11:34:57","date_gmt":"2016-02-18T10:34:57","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=3488"},"modified":"2016-02-19T14:00:54","modified_gmt":"2016-02-19T13:00:54","slug":"eutanasia-entre-ideologia-consciencia-e-etica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=3488","title":{"rendered":"EUTAN\u00c1SIA ENTRE IDEOLOGIA CONSCI\u00caNCIA E \u00c9TICA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"color: #ff0000;\">Nascer Viver e Morrer mais que um Direito \u00e9 Gra\u00e7a<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por Ant\u00f3nio Justo<br \/>\nA vida \u00e9 feita de luz e sombra; a morte \u00e9 a sombra da vida; a mat\u00e9ria \u00e9 a sombra do esp\u00edrito. Afirmar a sombra sem a luz, defender a cultura da morte sem ter em conta a cultura da vida, corresponderia a um reducionismo da exist\u00eancia \u00e0 sua sombra, significaria a nega\u00e7\u00e3o da vida, porque, a que temos \u00e9 polar, \u00e9 um todo feito de dor e alegria. Se nos preocupamos s\u00f3 com a sombra perdemo-nos no abismo do ser, esquecendo que a sombra \u00e9 apenas uma ila\u00e7\u00e3o da luz e que a paix\u00e3o inclui a ressurrei\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A discuss\u00e3o sobre a eutan\u00e1sia oferece a oportunidade de se reflectir sobre a exist\u00eancia nas suas componentes, vida e morte.<br \/>\nHoje, a press\u00e3o de ligas e organiza\u00e7\u00f5es internacionais (organiza\u00e7\u00f5es da ONU, Bruxelas, certas Faculdades universit\u00e1rias, etc.), sobre a opini\u00e3o p\u00fablica e os parlamentos, \u00e9 de tal ordem que se cria, nas opini\u00f5es p\u00fablicas nacionais e parlamentos, a ideia de que seguir aquelas \u00e9 moderno e sinal de desenvolvimento. Fatal para o desenvolvimento qualitativo \u00e9 que o povo n\u00e3o pensa, segue a moda.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"color: #ff0000;\">Pr\u00e1tica na Alemanha<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Alemanha, antes de publicar a lei sobre a Eutan\u00e1sia, teve uma discuss\u00e3o p\u00fablica alargada e sem c\u00f3licas sobre o assunto; a ela seguiu-se o debate parlamentar com muita profundidade e dignidade, deixando fora o discurso ideol\u00f3gico e pol\u00edtico-partid\u00e1rio, cada deputado decidiu apenas \u00e0 luz da sua consci\u00eancia. <strong>O parlamento proibiu o suic\u00eddio assistido e criminalizou o com\u00e9rcio com a eutan\u00e1sia. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concretamente: nem indiv\u00edduos nem empresas podem funcionar como servi\u00e7os de apoio \u00e0 eutan\u00e1sia. Quem fizer neg\u00f3cio com um medicamento mort\u00edfero que entregue a uma pessoa com cancro\/doen\u00e7a incur\u00e1vel, \u00e9 amea\u00e7ando com 3 anos de pris\u00e3o. O suic\u00eddio em si n\u00e3o \u00e9 penalizado. Na Alemanha <strong>a ortotan\u00e1sia (abrevia\u00e7\u00e3o da morte desligando aparelhos e renunciando ao emprego de medicamenta\u00e7\u00e3o de prolongamento da vida) \u00e9 permitida desde que o moribundo o tenha declarado em estado consciente.<\/strong> Neste aspecto a Alemanha pronunciou-se no sentido de uma sociedade de valores crist\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"color: #ff0000;\">Pr\u00e1tica na Holanda<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Holanda, na B\u00e9lgica e no Luxemburgo a eutan\u00e1sia \u00e9 legal mas mete medo a muitos idosos que, com receio que os familiares disponham sobre eles, preferem emigrar: http:\/\/www.dw.com\/pt\/idosos-fogem-da-holanda-com-medo-da-eutan%C3%A1sia\/a-1050812<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"color: #ff0000;\">A \u00e9tica secular serve-se do relativismo como doutrina<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Plat\u00e3o defendia a <strong>eutan\u00e1sia para a pessoa in\u00fatil \u00e0 economia e \u00e0 sociedade.<\/strong> Na antiguidade era comum a pr\u00e1tica do homic\u00eddio contra as crian\u00e7as deficientes. Hitler procedia de igual modo, desde que a doen\u00e7a fosse atestada por tr\u00eas m\u00e9dicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nalgumas sociedades ocidentais e em sociedades materialistas comunistas regista-se uma tend\u00eancia para a elabora\u00e7\u00e3o de leis (pena de morte, aborto, eutan\u00e1sia e outras) que se baseiam apenas numa <strong>filosofia utilit\u00e1ria e pragmatista<\/strong>, muitas vezes elaboradas contra os pr\u00f3prios ideais da Constitui\u00e7\u00e3o. Parte-se de um princ\u00edpio de liberdade como posse e de vida como produto na pra\u00e7a do mercado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De uma maneira geral, os defensores da eutan\u00e1sia fundamentam a sua opini\u00e3o no materialismo que relativiza a vida humana, n\u00e3o a aceitando como valor m\u00e1ximo e negam-lhe qualquer sentido metaf\u00edsico, reduzindo a exist\u00eancia a mero processo de for\u00e7as biol\u00f3gicas naturais. Pretendem um diagn\u00f3stico e uma decis\u00e3o sem a an\u00e1lise das suas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sequ\u00eancia de uma \u00e9tica secular (laica) a \u201ceutan\u00e1sia selecionadora ou eug\u00e9nica\u201d ser\u00e1 aplicada a rec\u00e9m-nascidos no sentido da selec\u00e7\u00e3o social. Como se fala hoje da eutan\u00e1sia falar-se-\u00e1 amanh\u00e3 da purifica\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, do povo ou da ra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Querem uma \u00e9tica pragm\u00e1tica servidora do momento e da ocasi\u00e3o, chegando at\u00e9 a contestar o imperativo categ\u00f3rico de Kant: a f\u00f3rmula sumula do desenvolvimento da \u00e9tica e do conviver humano (&#8220;Age como se a m\u00e1xima de tua a\u00e7\u00e3o devesse tornar-se, atrav\u00e9s da tua vontade, uma lei universal.&#8221;).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O <strong>reducionismo relativista e materialista<\/strong>, de que pecam muitos defensores da eutan\u00e1sia, \u00e9 al\u00e9rgico ao pensamento integral e complexo; refugiam-se na ilus\u00e3o de querer construir uma realidade semelhante a um rio com a \u00e1gua mas sem o leito.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"color: #ff0000;\">\u00c9tica religiosa<\/span> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00e9tica crist\u00e3 bem como a moral das religi\u00f5es em geral (budismo, indu\u00edsmo, juda\u00edsmo e isl\u00e3o) \u00e9 contra a eutan\u00e1sia e contra o matar. O valor \u00e9tico e moral da integridade e dignidade humana tem prioridade sobre princ\u00edpios econ\u00f3mico-pol\u00edticos subsidi\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A \u00e9tica crist\u00e3, uma \u00e9tica da excel\u00eancia, que se aperfei\u00e7oou, crivando as viv\u00eancias dos diferentes povos e culturas ao longo dos s\u00e9culos, considera a vida como bem maior e, como tal, a promover e defender e, consequentemente, n\u00e3o a interromper. Na B\u00edblia o rei Saul (Samuel 31, 1 a 13) pediu a morte e, como o escudeiro o n\u00e3o matasse, Saul atirou o corpo sobre a espada para se matar mas os des\u00edgnios divinos revelaram-se mais fortes, tendo ele sido finalmente morto por um filisteu. Jesus at\u00e9 recusou, livremente, o hissope.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Enc\u00edclica Evangelium Vitae indica: a eutan\u00e1sia \u00e9 crime contra a vida e contra a dignidade humana pois a vida, e em especial a humana, \u00e9 sagrada (inviol\u00e1vel). Uma coisa \u00e9 causar a morte (eutan\u00e1sia activa) e outra coisa \u00e9 deixar morrer; o cristianismo n\u00e3o quer a dor mas reconhece tamb\u00e9m na aceita\u00e7\u00e3o da dor, em estado consciente, a oportunidade para crescer espiritualmente, dado a vida ter v\u00e1rios est\u00e1dios e continuar depois da morte. Consequentemente a compaix\u00e3o comporta o prolongamento da vida e n\u00e3o da agonia. <strong>Os analg\u00e9sicos e a ortotan\u00e1sia, desde que n\u00e3o tenham como causa directa a morte, s\u00e3o meios importantes em muitas situa\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m na possibilita\u00e7\u00e3o de uma express\u00e3o mais condigna com a pessoa no estado moribundo. <\/strong>Neste sentido ainda h\u00e1 muito a fazer!<strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"color: #ff0000;\">Controv\u00e9rsia<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O facto de os cuidados paliativos n\u00e3o impedirem \u201cpor inteiro a degrada\u00e7\u00e3o f\u00edsica e psicol\u00f3gica\u201d, como argumentam os que querem a antecipa\u00e7\u00e3o da morte por suic\u00eddio assistido ou por eutan\u00e1sia activa (um terceiro mata), n\u00e3o \u00e9 suficientemente fundamentado, como medida geral, contra a morte natural ou contra a eutan\u00e1sia passiva (suspens\u00e3o de terapias de prolongamento da vida determinada por testamento vital \u2013 distan\u00e1sia &#8211; previsto na lei desde 2001).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em Portugal a recomenda\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia torna-se c\u00ednica quando mais de 50% pacientes terminais morrem sem poderem ter acesso aos Cuidados Paliativos,<\/strong> consignados na Lei n\u00ba 52\/2012 de 5 de setembro: cf. http:\/\/cdn.impresa.pt\/efe\/684\/8198872\/Posicao_da_APCP_-sobre-manifesto-PEut-vfinal.pdf<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A controv\u00e9rsia \u00e9 boa para o apuramento de conclus\u00f5es elevadas e para o crescimento humano intelectual e espiritual. A controv\u00e9rsia \u00e9 perniciosa quando enquadrada em posi\u00e7\u00f5es estanques que querem ver tudo regulado pela lei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um direito implica a liberdade de escolha e esta n\u00e3o \u00e9 plaus\u00edvel no nascer e no morrer.<\/strong> Fala-se do direito \u00e0 morte como se fala de um direito adquirido ou um poder outorgado a executar em plena liberdade e como se uma pessoa em est\u00e1dio terminal que d\u00e1 trabalhos estivesse isenta de qualquer coibi\u00e7\u00e3o ps\u00edquica ou social sendo-lhe indiferente o peso e o encargo que a sua situa\u00e7\u00e3o representa para os familiares e para o pr\u00f3ximo. N\u00e3o \u00e9 l\u00f3gico, em nome da liberdade, recomendar uma decis\u00e3o que exclui definitivamente uma outra alternativa posterior. O problema da liberdade para a eutan\u00e1sia vem da irreversibilidade do acto. Os actos livres implicam sempre uma alternativa possibilitadora de continuidade. <strong>A vida \u00e9 um dom, a morte \u00e9 problema e n\u00e3o solu\u00e7\u00e3o\u2026 O medo da dor, mais que da morte, leva \u00e0 conclus\u00e3o falaciosa de que o morrer \u00e9 que d\u00e1 dignidade \u00e0 vida e n\u00e3o a vida que d\u00e1 sentido e dignidade \u00e0 morte.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos adeptos da eutan\u00e1sia activa, contraditoriamente ao seu argumento de liberdade humana, recusam ao Homem a sua capacidade de liberdade negando a validade da sua subjectividade, ao alegar que o ser humano n\u00e3o pode preservar a subjetividade que o assiste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o argumento de que a vida nos foi imposta e da forma\u00e7\u00e3o que nos foi dada, consideram-nos seres condicionados que, realmente, tamb\u00e9m somos, mas n\u00e3o s\u00f3; <strong>este condicionamento n\u00e3o lhes d\u00e1 o direito de nos condicionar e formatar segundo os seus princ\u00edpios modelares, querendo-nos, para tal, reduzidos \u00e0 animalidade inicial, negando-nos uma obedi\u00eancia org\u00e2nica para nos outorgar uma obedi\u00eancia de l\u00f3gica ideol\u00f3gica.<\/strong> Este reducionismo \u00e9 consequ\u00eancia de um reducionismo maior que consta de elaborar e conceber a vida em termos s\u00f3 racionais, esquecendo que <strong>a pessoa \u00e9 feita de Raz\u00e3o e Cora\u00e7\u00e3o e a raz\u00e3o pode ser enganada ou confundida por diferentes l\u00f3gicas tal como o cora\u00e7\u00e3o por diferentes emo\u00e7\u00f5es ou sentimentos.<\/strong> Nem o princ\u00edpio cora\u00e7\u00e3o nem o princ\u00edpio raz\u00e3o t\u00eam o senhorio sobre a vida ou sobre a realidade; o Homem completo consta de Raz\u00e3o e Cora\u00e7\u00e3o numa rela\u00e7\u00e3o de complementaridade. <strong>Se houve tempos em que as elites das sociedades menosprezavam as faculdades da raz\u00e3o hoje menosprezam as faculdades do cora\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A pessoa n\u00e3o pode ser reduzida \u00e0 biologia, aos padr\u00f5es de uma dada sociedade ou \u00e9poca nem t\u00e3o-pouco \u00e0 jurisprud\u00eancia; nem sequer pode ser considerada como mero objecto, dado este conceito delimitar o cidad\u00e3o a um objecto de direitos e deveres, na perspectiva da polis.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem se legitima nisto como juiz? O facto de a constitui\u00e7\u00e3o reconhecer ao Homem o direito \u00e0 vida n\u00e3o \u00e9 ela que a d\u00e1 ou a tira nem a lei criada por um parlamento pode ter poder de deliberar sobre exist\u00eancia ou n\u00e3o exist\u00eancia de uma pessoa. O apoio humano limita-se ao calor humano e \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o da dor. A pessoa tem \u201cdireito\u201d a ser feliz na vida independentemente de esta ser considerada no al\u00e9m e no aqu\u00e9m; nem sempre a sa\u00fade \u00e9 um pressuposto de felicidade como prova a exist\u00eancia de muitos deficientes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O moribundo tem direito a uma morte digna e tranquila, o que n\u00e3o inclui o direito ao abuso nem ao homic\u00eddio por compaix\u00e3o. <strong>\u00c9 dolorosa a situa\u00e7\u00e3o de familiares que assistem a moribundos ou pessoas em estado vegetativo. A sociedade deveria acarinha-los e assisti-los n\u00e3o os deixando s\u00f3s na responsabilidade e na dor. Esta pode ser uma oportunidade para se optar mais qualidade de vida.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A assist\u00eancia a moribundos \u00e9 um assunto muito delicado e controverso que n\u00e3o deveria provocar posi\u00e7\u00f5es radicais. \u00c9 insuficiente ficar-se por propostas que pretendem uma \u00e9tica temporal meramente pragm\u00e1tica sem ter em conta a experi\u00eancia secular da \u00e9tica religiosa e sem a deontologia m\u00e9dica. Este \u00e9 um assunto que n\u00e3o se pode solucionar com uma simples \u201creceita\u201d. \u00c9 louv\u00e1vel o facto de esta mat\u00e9ria, ao contr\u00e1rio de outras, estar a ser objecto de uma discuss\u00e3o na opini\u00e3o p\u00fablica antes de chegar ao parlamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A exist\u00eancia seria chata se n\u00e3o fosse o movimento; nela tamb\u00e9m a controv\u00e9rsia \u00e9 um passo no sentido da vida.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ff0000;\"><strong><span style=\"color: #ff0000;\">Reflectindo<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O direito de morrer com dignidade deveria constituir um dado geral aceite, o que n\u00e3o implica desresponsabilizar a pessoa pelos actos que faz, ou tirar por lei a responsabilidade a quem mata como se estes fossem privados de consci\u00eancia e n\u00e3o houvesse meios de evitar n\u00e3o matar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto as pessoas de moral respons\u00e1vel discutem a defesa da vida, as pessoas tendentes ao poder agem contra ela, caindo no equ\u00edvoco de que na vida se pode ter tudo na m\u00e3o e de gra\u00e7a. A despenaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia revela-se um mau caminho que abre espa\u00e7o aos negociantes da morte e a uma vida mais leviana e irreflectida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A defesa da cultura da morte, do aborto, da eutan\u00e1sia parte de um princ\u00edpio hedonista e materialista da exist\u00eancia. Evita a reflex\u00e3o e a controv\u00e9rsia s\u00e9ria, preferindo uma receita que embote a consci\u00eancia popular. Ao falarem do direito a decidir sobre o pr\u00f3prio destino esquecem que o ser humano \u00e9 influenci\u00e1vel sendo dif\u00edcil poder fixar o limite entre o objectivo e o subjectivo. A vontade tamb\u00e9m est\u00e1 sujeita a medos\u2026 <strong>Faz-se da liberdade tabu esquecendo que esta \u00e9 apenas um factor importante de vida mas a vida tem muitos outros reguladores sem os quais seria imposs\u00edvel a sua express\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A religi\u00e3o transmitiu valores construtivos, optimistas e positivos contrariados agora pelo niilismo que n\u00e3o p\u00e1ra perante a destrui\u00e7\u00e3o pessoal como se a pessoa se reduzisse a uma ideia abstracta ou a uma nostalgia passageira ao servi\u00e7o de interesses e ideias fortemente encaixilhadas. <strong>Em nome da terra e da \u201crealidade\u201d, negam a sua atmosfera ou consideram-na como algo distante e pesado como se a transcend\u00eancia n\u00e3o tivesse sido o oxig\u00e9nio que mantem e desenvolve o ser humano.<\/strong> Mataram Deus e na sequ\u00eancia querem a morte do Homem espiritual. Desiludidos de Deus e do esp\u00edrito viram-se agora para a terra embrutecida \u2013 materialismo- querem a popula\u00e7\u00e3o prisioneira da \u201ccaverna plat\u00f3nica\u201d sem luz, a viver da escurid\u00e3o e da tanatofilia, como se a perspectiva da luz fosse algo contra a vida e iludisse a realidade da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Culpabilizam a religi\u00e3o de se opor a solu\u00e7\u00f5es simplicistas ou de surgir como obst\u00e1culo ao exigir reflex\u00e3o. <strong>Querem a dignidade vinculada \u00e0 circunst\u00e2ncia e n\u00e3o \u00e0 pessoa para a porem \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da ideologia em favor de um poder ad hoc.<\/strong> Demonizam, por vezes, a religi\u00e3o crist\u00e3 pelo facto de esta ver no Homem um absoluto. <strong>O poder ideol\u00f3gico secular encontra-se em rivalidade com o religioso quando, no sentido do Homem, se deveriam complementar;<\/strong> aquele constr\u00f3i a sua for\u00e7a na aquisi\u00e7\u00e3o de seguidores quando a for\u00e7a motivante e movente deveria ser o bem integral e integrante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos n\u00e3o v\u00eaem com bons olhos a ren\u00fancia que apela \u00e0 metaf\u00edsica, \u00e0 imagem do esfor\u00e7o da natureza ao tentar erguer-se na procura do Sol; <strong>n\u00e3o basta a ilus\u00e3o de que a natureza do Homem se reduz \u00e0 procura de um lugar soalheiro mas sem Sol; de facto, equivaleria a exigir do Homem uma outra ren\u00fancia: a ren\u00fancia a si mesmo<\/strong> para, na qualidade de mero elemento, se colocar \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria que, com o seu poder inerente, seria reduzido ao poder do mais forte, contradizendo a heran\u00e7a cultural e \u00e9tica judaico-crist\u00e3 e dos povos que levou a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental ao n\u00edvel em que se encontra nos seus aspectos positivos e negativos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Muitos militantes da eutan\u00e1sia revelam-se, na consequ\u00eancia, contra a consci\u00eancia humana que \u00e9 uma percep\u00e7\u00e3o din\u00e2mica de luta pela liberdade, uma luta das for\u00e7as escuras contra a luz que ilumina a \u201ccaverna\u201d plat\u00f3nica.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Consequentes na sua nega\u00e7\u00e3o de Deus e da ordem criada tornam-se t\u00e3o imateriais na sua especula\u00e7\u00e3o chegam a defender o direito de nunca se ter nascido! Esta posi\u00e7\u00e3o que consequentemente legitimaria a pr\u00e1tica da selec\u00e7\u00e3o darwinista social que motivou Hitler a mandar matar deficientes e a mandar castrar pessoas com certas doen\u00e7as heredit\u00e1rias: tudo isto em nome de uma liberdade e de uma felicidade que veria em cada deficiente um infeliz a quem seria dado o direito de se antecipar \u00e0 dor e assim voltar ao estado do n\u00e3o criado e assim, \u00e0 sua custa, a sociedade tivesse mais disposi\u00e7\u00e3o de bens materiais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A liberdade individual \u00e9 uma consequ\u00eancia da espiritualidade e do desenvolvimento humano; a liberdade humana revelou-se como for\u00e7a inclusiva e n\u00e3o exclusiva, possibilitando assim a arquitectura cultural e social a que chegamos. \u00c9 interessante verificar-se pela arqueologia que o desenvolvimento da sociedade come\u00e7ou em torno da morte (lugares de culto). A vida n\u00e3o nega a morte nem a morte nega a vida; ambas s\u00e3o duas formas de estar da exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desejo da morte assistida (eutan\u00e1sia) surge, por vezes, da falta de assist\u00eancia e solidariedade por parte da sociedade e do pr\u00f3ximo, que n\u00e3o se querem responsabilizar porque consideram a exist\u00eancia reduzida aos seus aspectos de luta primitiva e individual pela vida. Desvinculam o ser individual do ser social (zoon politikon) para que a sociedade se possa desenvencilhar, sem dores de pensamento nem custos, do que se torna inc\u00f3modo e daquilo que a poderia comprometer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestas coisas n\u00e3o chega uma pol\u00edtica do levantar a m\u00e3o no parlamento. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 bom fomentar-se a m\u00e1 consci\u00eancia, nem t\u00e3o-pouco estimular a consci\u00eancia leviana, mas sim possibilitar discuss\u00f5es p\u00fablicas s\u00e9rias e reflectidas para que, cada cidad\u00e3o se levante da massa e possa tornar-se mais consciente para se orientar e decidir com o m\u00e1ximo de conhecimento e liberdade: s\u00f3 ent\u00e3o pode ser respons\u00e1vel e tomado a s\u00e9rio nas decis\u00f5es que toma. <strong>\u00a0A discuss\u00e3o sobre a eutan\u00e1sia &#8211; mat\u00e9ria muito complexa &#8211; n\u00e3o pode ser encurtada por uma pol\u00edtica ou ideologia qualquer, at\u00e9 porque as massas abdicam da reflex\u00e3o e da pr\u00f3pria responsabilidade julgando como mat\u00e9ria segura o que se encontra legislado e dado a vida e o seu sentido implicarem uma reflex\u00e3o das diferentes disciplinas complementares, desde a bio\u00e9tica, \u00e0 medicina e \u00e0 teologia. <\/strong> A pessoa e a vida n\u00e3o devem ser relativizadas, devem ser reconhecidas como bens absolutos que, na modela\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida segundo o imperativo categ\u00f3rico kantiano, superam o poder dos Estados (A pena de morte, para um crist\u00e3o significa a usurpa\u00e7\u00e3o do estado que exerce o poder sobre algo que o supera).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O direito de decis\u00e3o \u00e9 conferido por Deus ao indiv\u00edduo (a religi\u00e3o apenas o formaliza); nenhuma ideologia ou lei poder\u00e1 assumir-se o direito de o manipular ou de se livrar dele mesmo quando sob o pretexto de ajuda. A lei e a norma tendem a fazer de um caso todos os casos embora a consci\u00eancia de cada um seja inalien\u00e1vel.<br \/>\n\u00c9 f\u00e1cil apregoar-se como filantr\u00f3pico a oferecer \u00e0s pessoas o direito de acabarem com a sua vida ou com a vida do outro em seu nome ou das circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O cristianismo acentua a assist\u00eancia solid\u00e1ria e caritativa na morte, tamb\u00e9m com o emprego de paliativos, respeitando sobretudo a consci\u00eancia individual e a responsabilidade da decis\u00e3o reflectida de cada um. N\u00e3o chega ver as ondas da superf\u00edcie; \u00e9 preciso criar-se espa\u00e7o para se poder perscrutar e sentir o que elas encobrem das profundezas do mar.<\/strong> Esta \u00e9 a advert\u00eancia necess\u00e1ria mas sem coibir!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida \u00e9 o positivo da exist\u00eancia, \u00e9 optimista n\u00e3o se deixando perder em qualquer beco pessimista sem sa\u00edda nem t\u00e3o-pouco reduzir-se ao seu negativo. A vida chama e tem um sentido e este \u00e9 infinito; a exist\u00eancia inclui nela o Sol que dia-a-dia convida a natureza ao esfor\u00e7o do levantar-se para a luz. Que seria da borboleta se no seu est\u00e1dio de casulo, em nome do direito e da liberdade, fosse impedido o seu desenvolvimento!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A alma treme perante o vazio, mas entre os calafrios pressente, no extremo do t\u00fanel da exist\u00eancia, uma luz quente que sempre brilha e a espera!<br \/>\n<strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\nTe\u00f3logo e Pedagogo<br \/>\nPegadas do Tempo: www.antonio-justo.eu<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">Nota: Literatura sobre o assunto: https:\/\/www.passeidireto.com\/arquivo\/2271425\/eutanasia\/5;<br \/>\nhttps:\/\/antonio-justo.eu\/?p=3112 ; http:\/\/www.palopnews.com\/index.php\/cronistas\/antoniojusto\/1828-a-eutanasia-e-a-morte-organizada ;<\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nascer Viver e Morrer mais que um Direito \u00e9 Gra\u00e7a Por Ant\u00f3nio Justo A vida \u00e9 feita de luz e sombra; a morte \u00e9 a sombra da vida; a mat\u00e9ria \u00e9 a sombra do esp\u00edrito. Afirmar a sombra sem a luz, defender a cultura da morte sem ter em conta a cultura da vida, corresponderia &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=3488\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">EUTAN\u00c1SIA ENTRE IDEOLOGIA CONSCI\u00caNCIA E \u00c9TICA<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[15,4,7,8],"tags":[],"class_list":["post-3488","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura","category-educacao","category-politica","category-religiao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3488","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3488"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3488\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3493,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3488\/revisions\/3493"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3488"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3488"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3488"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}