{"id":3087,"date":"2015-02-15T13:25:32","date_gmt":"2015-02-15T12:25:32","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=3087"},"modified":"2015-02-15T17:04:49","modified_gmt":"2015-02-15T16:04:49","slug":"o-uivar-dos-lobos-em-torno-da-acropole","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=3087","title":{"rendered":"O UIVAR DOS LOBOS EM TORNO DA ACR\u00d3POLE"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ff0000;\"><strong><span style=\"color: #ff0000;\">Na Esperan\u00e7a do Z\u00e9 do Telhado<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio Justo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Independentemente de interesses nacionalistas e de posi\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia da UE, <strong>Bruxelas deveria criar um imposto de solidariedade em benef\u00edcio dos pa\u00edses de economia fraca<\/strong>, tal como fez e faz a Alemanha em benef\u00edcio da antiga Alemanha de leste, que se encontrava em situa\u00e7\u00e3o pior que a Gr\u00e9cia; s\u00f3 o investimento produtivo poder\u00e1 diminuir as diferen\u00e7as.<span style=\"color: #ff0000;\"><strong><span style=\"color: #ff0000;\"> O que a Alemanha unida n\u00e3o conseguiu fazer, dentro dela em 25 anos, n\u00e3o o conseguir\u00e1 a UE em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses da margem em 50 anos<\/span><\/strong>.<\/span> Enquanto os povos de toda a Europa n\u00e3o notarem que a guerra dos especuladores financeiros em coniv\u00eancia com os Governos \u00e9 contra os povos ser\u00e3o estes explorados em favor das institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na discuss\u00e3o, em torno da Gr\u00e9cia e das suas d\u00edvidas, s\u00e3o not\u00f3rios os timbres das vozes da noite; tudo fala com opini\u00e3o segura, como se fosse t\u00e3o f\u00e1cil governar um Estado como seria governar uma casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A UE tornar-se-ia cred\u00edvel se executasse uma pol\u00edtica em favor dos povos e n\u00e3o s\u00f3 a favor das institui\u00e7\u00f5es. A n\u00edvel de na\u00e7\u00f5es seria necess\u00e1rio um governo de salva\u00e7\u00e3o nacional onde os interesses partid\u00e1rios e as ideologias fossem postos de lado para se encontrarem solu\u00e7\u00f5es orientadas apenas pelo bem-comum. Enquanto uma opini\u00e3o p\u00fablica coitadinha reagir como reage as personalidades representantes das institui\u00e7\u00f5es continuar\u00e3o a justificar a pol\u00edtica de c\u00fapulas de Bruxelas e a justificar grupos marginais que apostam em pol\u00edticas de \u201cZ\u00e9 do Telhado\u201d. Actualmente n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel uma discuss\u00e3o objectiva porque cada pessoa investe demasiado capital na sua opini\u00e3o.O aspecto positivo de que a Gr\u00e9cia se pode gloriar \u00e9 ter chamado a aten\u00e7\u00e3o para a pol\u00edtica unilateral da troika, uma pol\u00edtica contra o povo e a favor das institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto \u00e0 Gr\u00e9cia a Alemanha tem de aceitar um compromisso podre porque se a Gr\u00e9cia sa\u00edsse do Euro a Alemanha perderia os 60 mil milh\u00f5es de Euros que lhe emprestou. Portugal emprestou 1,1 mil milh\u00f5es de euros. De recordar que o perd\u00e3o de metade da d\u00edvida grega em 2012 (de 100 mil milh\u00f5es de euros), ent\u00e3o nas m\u00e3os de privados, prejudicou bancos portugueses: o BCP e o BPI perderam ent\u00e3o 590 milh\u00f5es de euros. Por outro lado, os problemas das institui\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias s\u00e3o saldados com o dinheiro do contribuinte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema do Euro vem das diferentes economias e diferente produtividade entre os diferentes pa\u00edses e regi\u00f5es e da diferente distribui\u00e7\u00e3o das empresas produtivas. Um mesmo euro forte para todas as economias discrimina as economias mais fracas. Por isso, como alguns ec\u00f3nomos defendem, os pa\u00edses com pouca competitividade deveriam ter ao mesmo tempo o euro e a moeda nacional (euro, dracma, etc.); deste modo, estes poderiam dar resposta \u00e0s diferentes economias e concorrer com os pa\u00edses fortes porque teriam a moeda interna com que regulariam o mercado interno de maneira aferida ao pa\u00eds; deste modo quem quisesse consumir produtos importados teria de pagar muito mais e os pa\u00edses mais fortes teriam mais dificuldade em exportar porque os seus produtos seriam mais caros<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falta uma discuss\u00e3o s\u00e9ria com propostas de programas realistas e construtivos para se conseguir uma UE menos injusta. Falta a vontade pol\u00edtica para tal; disso e dos programas econ\u00f3micos \u00e9 que valeria a pena falar. Por vezes tem-se a impress\u00e3o que um sistema financeiro falhado procura adiar a sua queda lambendo as feridas de uns e outros. De resto, quanto mais se ergue a garganta ao c\u00e9u para lamentar a situa\u00e7\u00e3o, mais a injusti\u00e7a pode agir desapercebidamente!<br \/>\n<strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\nwww.antonio-Justo<\/p>\n<p>Passo a apresentar dados que, ao lado de outros, poder\u00e3o ajudar a rejuvenescer opini\u00f5es. \u201cA Gr\u00e9cia j\u00e1 tem condi\u00e7\u00f5es muito melhores do que Portugal ou a Irlanda \u2013 prazos mais dilatados, melhores juros, car\u00eancia no pagamento desses juros. O resultado \u00e9 que enquanto n\u00f3s, com uma d\u00edvida proporcionalmente muito mais baixa (127% do PIB contra 180%), pagamos o equivalente a 5% do PIB em juros, a Gr\u00e9cia pagar\u00e1 entre 2,5% e 3,6%. Ou seja, a d\u00edvida grega \u00e9 maior mas pesa-lhes menos. E isso \u00e9 que conta. Mais: n\u00e3o somos s\u00f3 n\u00f3s que, proporcionalmente, suportamos uma carga de juros superior \u00e0 dos gregos, os italianos e os irlandeses tamb\u00e9m est\u00e3o na mesma situa\u00e7\u00e3o.\u201d Jos\u00e9 Manuel Fernandes<\/p>\n<p>Segue o artigo<br \/>\n<strong>Estou farto do choradinho dos desgra\u00e7adinhos dos gregos<\/strong><br \/>\n\u2022 Por Jos\u00e9 Manuel Fernandes &#8211; 14\/2\/2015, 19:39<br \/>\nOs problemas da Gr\u00e9cia n\u00e3o come\u00e7am agora no Syriza nem acabar\u00e3o com o Syriza. S\u00e3o problemas antigos, entranhados, que fazem do pa\u00eds um corpo cada vez mais estranho numa uni\u00e3o monet\u00e1ria como o euro.<br \/>\nEscolho algumas frases quase ao acaso. Frases de uma esp\u00e9cie de \u201cdiscurso \u00fanico\u201d sobre a Gr\u00e9cia em que esta \u00e9 sempre apresentada como v\u00edtima. Vive-se \u201cuma grave crise humana\u201d, escreve-se na carta que 32 personalidades enviaram ao primeiro-ministro. E, claro, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para qualquer \u201cdiscurso punitivo\u201d, a Gr\u00e9cia n\u00e3o tem culpa de nada. A chanceler Merkel, como sentenciou M\u00e1rio Soares, \u00e9 que a \u201crespons\u00e1vel principal pela desgra\u00e7a da Gr\u00e9cia \u201c. Tudo por causa de \u201cuma pol\u00edtica destruidora\u201d, explicou de seguida o professor Lou\u00e7\u00e3, como agora \u00e9 apresentado. E, tamb\u00e9m, por causa do \u201cdel\u00edrio especulativo\u201d que criou \u201cuma pilha de d\u00edvida\u201d, algo que se aplica certamente a um pa\u00eds onde 80% da d\u00edvida \u00e9 hoje detida pelos seus parceiros europeus, pa\u00eds que tamb\u00e9m paga as menores taxas de juro e at\u00e9 beneficia de um per\u00edodo de car\u00eancia. Claro que tudo isto coincide e refor\u00e7a o que Alexis Tsipras diz que sempre que tem um microfone pela frente: \u201cdevastaram o Estado\u201d e \u201ccriaram uma enorme crise humanit\u00e1ria\u201d. Quem o ouve diria que fala do Darfour.<br \/>\nEste discurso \u00e9 cansativo e unilateral. Pode parecer muito piedoso, mas acabar\u00e1 por n\u00e3o ajudar a Gr\u00e9cia no longo prazo. E obscurece o tema que dev\u00edamos estar a debater: pode uma zona monet\u00e1ria com uma moeda como o euro fazer conviver no seu interior, sem constantes sobressaltos, crises e tens\u00f5es, pa\u00edses t\u00e3o diferentes como a Gr\u00e9cia e a Holanda, ou Portugal e a Finl\u00e2ndia?<br \/>\n\u00c9 por isso que \u00e9 importante contrariar este \u201cdiscurso \u00fanico\u201d e, sobretudo, desmontar muitos dos mitos que o alimentam.<br \/>\n1. O primeiro mito \u00e9 que a Gr\u00e9cia de hoje \u00e9 a herdeira da Gr\u00e9cia da Antiguidade, a Gr\u00e9cia que devemos a nossa civiliza\u00e7\u00e3o e que inspirou a nossa democracia.<br \/>\nEsta ideia s\u00f3 muito parcialmente \u00e9 verdadeira. A cultura grega cl\u00e1ssica nasceu e cresceu numa regi\u00e3o muito mais vasta do que a da Gr\u00e9cia actual. Basta pensar que, se de facto S\u00f3crates, Plat\u00e3o ou Tuc\u00eddides eram atenienses, Her\u00f3doto, o primeiro dos historiadores, era de Halicarnasso (hoje Bodrum, na Turquia); Arquimedes, o matem\u00e1tico, era de Siracusa, na S\u00edcilia; Tales de Mileto, o primeiro fil\u00f3sofo ocidental de que se tem not\u00edcia, era de Mileto, hoje na Turquia; Her\u00e1clito, o \u201cpai da dial\u00e9ctica, era de \u00c9feso, igualmente na Turquia; Arist\u00f3teles era de Estagira, que fica hoje na Gr\u00e9cia mas que na \u00e9poca pertencia \u00e0 Maced\u00f3nia; Euclides, o \u201cpai da geometria\u201d, era de Alexandria, no Egipto; Pit\u00e1goras, o do c\u00e9lebre teorema, se nasceu na ilha grega de Samos, desenvolveu a sua escola em Crotona, uma povoa\u00e7\u00e3o no sul de It\u00e1lia; e por a\u00ed adiante.<br \/>\nPor outro lado, se pensarmos nas famosas sete maravilhas do mundo antigo, cinco deles pertencem indiscutivelmente ao mundo grego, mas dessas s\u00f3 duas, a Est\u00e1tua de Zeus em Olimpo e o Colosso de Rodes, ficavam no que \u00e9 a actual Gr\u00e9cia. Duas estavam no que \u00e9 hoje a Turquia \u2013 o Templo de \u00c1rtemis em \u00c9feso e o Mausol\u00e9u de Halicarnasso \u2013 e a \u00faltimo no Egipto, o Farol de Alexandria.<br \/>\nA Gr\u00e9cia moderna tem menos de dois s\u00e9culos, pois antes o seu territ\u00f3rio estava sob dom\u00ednio otomano. Quando o pa\u00eds foi criado, havia uma t\u00e3o radical aus\u00eancia de liga\u00e7\u00e3o ao passado que foi preciso inventar uma fam\u00edlia real. O nosso D. Pedro IV chegou a ser convidado para ser o primeiro rei da nova Gr\u00e9cia independente, mas como recusou o trono acabou por ser entregue a Oto da Baviera, filho de Lu\u00eds I. Est\u00e1vamos em 1832 e ele tinha apenas 18 anos.<br \/>\nA Gr\u00e9cia que hoje conhecemos nasceu assim por vontade das grandes pot\u00eancias europeias \u2013 Reino Unido, Fran\u00e7a e R\u00fassia \u2013, que a criaram na Confer\u00eancia de Londres. Tudo para, algumas d\u00e9cadas passadas, voltar a perder a soberania, j\u00e1 que o pa\u00eds declarou bancarrota em 1983 (tr\u00eas anos depois de Portugal) e foi obrigado a ficar sob a tutela dos credores. Uma Comiss\u00e3o Financeira Internacional instalou-se em Atenas e passou a controlar directamente o or\u00e7amento de Estado. Era a troika desses tempos, mas com menos cerim\u00f3nia e menos piedade: 10% da popula\u00e7\u00e3o acabou por emigrar.<br \/>\nA hist\u00f3ria l\u00e1 prosseguiu, com momentos de gl\u00f3ria e de trag\u00e9dia, mais uma bancarrota em 1932, mas sempre com um tra\u00e7o distintivo, bem definido pelo historiador grego Nicolas Bloudanis: \u201cna Gr\u00e9cia o Estado s\u00f3 funciona de forma intermitente\u201d. Pior: \u201cde cada vez que o Estado funcionou menos mal, tratava-se de um Estado autorit\u00e1rio onde as liberdades pol\u00edticas e civis estavam limitadas. (\u2026) Na mem\u00f3ria colectiva grega o Estado \u00e9 um Estado autorit\u00e1rio de que conv\u00e9m desconfiar\u201d.<br \/>\nFoi este pa\u00eds que em 1974 saiu, tal como n\u00f3s, de uma ditadura, mas que, ao contr\u00e1rio de n\u00f3s, beneficiou desde o primeiro momento de uma esp\u00e9cie de \u201cvia r\u00e1pida\u201d para a ades\u00e3o \u00e0 ent\u00e3o CEE. Alguns l\u00edderes dessa \u00e9poca, como o presidente franc\u00eas Giscard d\u2019Estaing, achavam que a Europa n\u00e3o seria Europa sem uma Gr\u00e9cia que viam como genu\u00edna herdeira da Gr\u00e9cia da Antiguidade Cl\u00e1ssica. Foi ilus\u00e3o que durou pouco tempo: fazendo jus \u00e0 sua real natureza de pa\u00eds entre o balc\u00e2nico e o levantino, a Gr\u00e9cia logo tratou de se opor \u00e0 entrada de Portugal e Espanha, amea\u00e7ando com um veto que s\u00f3 foi ultrapassado quando Bruxelas enviou ainda mais dinheiro para Atenas. Um pa\u00eds solid\u00e1rio, portanto.<br \/>\n2. O segundo mito \u00e9 que, se \u00e9 verdade que os gregos cometeram erros e falsificaram as contas, toda a culpa da situa\u00e7\u00e3o actual \u00e9 dos alem\u00e3es e das suas \u201cpol\u00edticas punitivas\u201d.<br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o e n\u00e3o. Os gregos n\u00e3o cometeram apenas alguns erros que, com paci\u00eancia e pedagogia, certamente ultrapassariam. Os gregos sempre actuaram de acordo com uma cultura pol\u00edtica que pouco ou nada tem a ver com a da Europa Ocidental e, se algum erro maior fez a Europa, esse erro foi permitir a sua ades\u00e3o \u00e0 moeda \u00fanica, fechando os olhos a todas as evid\u00eancias e ao mais elementar bom-senso.<br \/>\nDe facto n\u00e3o deve haver em nenhum outro pa\u00eds do euro h\u00e1bitos pol\u00edticos t\u00e3o clientelares e nepotistas como os da Gr\u00e9cia. Durante d\u00e9cadas os dois principais partidos, o PASOK e Nova Democracia \u2013 que s\u00e3o tamb\u00e9m os dois principais respons\u00e1veis pela situa\u00e7\u00e3o a que o pa\u00eds chegou -, como que pertenciam a duas fam\u00edlias, os Caramanlis e os Papandreou. Mas n\u00e3o eram apenas os partidos que se estruturavam em torno de grandes fam\u00edlias, o pa\u00eds tamb\u00e9m os seguia de acordo com o mesmo tipo de tradi\u00e7\u00e3o. Como descrevia na \u00e9poca o mesmo Nicolas Bloudanis, na Gr\u00e9cia \u201cn\u00e3o se votava por ideologia\u201d \u2013 at\u00e9 porque verdadeiramente esses dois partidos pouco se diferenciam ideologicamente \u2013, votava-se em fun\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios materiais (e dos empregos) que podiam ser distribu\u00eddos. O que nem sequer \u00e9 demasiado estranho, pois se apesar de tudo os gregos n\u00e3o foram totalmente absorvidos pelos otomanos isso deveu-se \u00e0 sua fidelidade a duas velhas tradi\u00e7\u00f5es culturais: a rouspheti, ou dispensa rec\u00edproca de favores e de protec\u00e7\u00f5es, e a mesa, ou rede de contactos e conhecimentos. O terreno era pois prop\u00edcio ao suborno e \u00e0 cunha.<br \/>\nA vit\u00f3ria do Syriza pode ter a virtude de quebrar, pelo menos em parte, estas l\u00f3gicas ancestrais, l\u00f3gicas que se entrela\u00e7am com a corrup\u00e7\u00e3o e a fuga aos impostos. Mas, em contrapartida pode fazer regredir o pouco que, apesar de tudo, tinha evolu\u00eddo na abertura da economia. Basta recordar que, antes do resgate, a Gr\u00e9cia mantinha centenas de empresas nacionalizadas na d\u00e9cada de 1980, quando na Europa j\u00e1 se privatizava, o que fazia com que o Estado empregasse directamente 45% da popula\u00e7\u00e3o activa. O poder dos pol\u00edticos gregos sempre se baseou muito na distribui\u00e7\u00e3o de sinecuras e convivia bem com sindicatos poderosos que tinham garantido que, nalgumas empresas do Estado, se chegassem a pagar-se 18, 20 ou mesmo 22 ordenados por ano. O n\u00famero de funcion\u00e1rios p\u00fablicos tamb\u00e9m era imenso: o dobro da m\u00e9dia europeia em propor\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Para al\u00e9m disso, eram pagos acima da m\u00e9dia: um relat\u00f3rio da OCDE anterior ao resgate indica-nos que um ter\u00e7o do total do dinheiro pago em sal\u00e1rios em toda a economia grega era s\u00f3 para pagar aos funcion\u00e1rios p\u00fablicos.<br \/>\nSe este era o quadro geral, todos nos recordamos da hist\u00f3ria dos 45 jardineiros que tratavam dos quatro arbustos de um dos hospitais p\u00fablicos de Atenas. Ou do Instituto para a Protec\u00e7\u00e3o do Lago Kopais, um lago que est\u00e1 seco desde 1930. Ou de as filhas dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos falecidos enquanto estas ainda eram menores receberem uma pens\u00e3o vital\u00edcia.<br \/>\nE se o Estado gastava desta forma, e tinha mais funcion\u00e1rios do que qualquer outro, n\u00e3o foi preciso chegar a austeridade para n\u00e3o funcionar minimamente. Ainda hoje, por exemplo, entidades como a Transparency Internacional combatem situa\u00e7\u00f5es como as que eram pr\u00e1tica corrente nos hospitais, onde s\u00f3 com subornos se conseguia uma consulta a tempo e horas, e s\u00f3 com subornos muito maiores se chegava \u00e0 mesa de opera\u00e7\u00f5es. Era esse o sistema institu\u00eddo e todos sabiam como ele funcionava.<br \/>\nEnquanto isto, n\u00e3o se pagavam impostos. Mais uma vez \u00e9 famosa a hist\u00f3ria de os servi\u00e7os tribut\u00e1rios utilizarem helic\u00f3pteros para localizarem as casas com piscinas para poderem cobrar a respectiva contribui\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 menos conhecido o facto de n\u00e3o existir na Gr\u00e9cia um registo cadastral minimamente funcional que permitisse, por exemplo, calcular um imposto equivalente ao IMI. Foi para tornear esse problema que esse imposto come\u00e7ou a ser cobrado com a conta da electricidade, uma decis\u00e3o tomada no tempo da troika e que levou ao incumprimento e ao corte da luz a centenas de milhares de gregos.<br \/>\nUm Estado clientelar e gigante, uma economia dependente e corporativa, um sistema pol\u00edtico nepotista e uma sociedade civil habituada \u00e1 corrup\u00e7\u00e3o e \u00e0 depend\u00eancia: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel imaginar terreno mais f\u00e9rtil para, quando o dinheiro barato da moeda \u00fanica come\u00e7ou a chegar, se terem cometido todos os excessos. Todos os nossos problemas, que eram e s\u00e3o muitos, s\u00e3o uma brincadeira de crian\u00e7as ao lado dos gregos.<br \/>\n3. O terceiro mito \u00e9 que foi o resgate que estrangulou a Gr\u00e9cia, fez crescer a sua d\u00edvida, uma d\u00edvida que agora \u00e9 impag\u00e1vel.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que quando a troika chegou a Atenas cometeu muitos erros de abordagem, alguns dos quais at\u00e9 corrigiria depois na Irlanda e em Portugal. Houve medidas de uma imensa brutalidade \u2013 basta recordar que enquanto em Portugal se preservou e at\u00e9 se actualizaram as pens\u00f5es mais baixas, na Gr\u00e9cia nem presta\u00e7\u00f5es na casa dos 300 euros escaparam.<br \/>\nMas essa \u00e9 s\u00f3 uma parte da hist\u00f3ria. A outra \u00e9 que nunca, desde a primeira hora, o governo grego, os pol\u00edticos gregos, fizeram um real esfor\u00e7o para reformarem o seu pa\u00eds. Come\u00e7avam sempre por dizer que \u201cn\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel\u201d, \u201cn\u00e3o vai funcionar\u201d, acabavam por ceder depois de culparem a Alemanha, e a seguir arrastavam os p\u00e9s. No princ\u00edpio chegou a acontecer ter havido um acordo para reduzir os sal\u00e1rios dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos, uma condi\u00e7\u00e3o imposta para a Gr\u00e9cia conseguir os primeiros empr\u00e9stimos, a lei ter sa\u00eddo e depois, nas costas do ministro das Finan\u00e7as, v\u00e1rios membros do Governo terem criado criaram novos suplementos remunerat\u00f3rios que repunham os vencimentos anteriores. Muitas leis exigidas nos acordos tamb\u00e9m foram rapidamente aprovadas no parlamento para depois ficarem meses ou anos \u00e0 espera dos decretos regulamentares. Para ver a inefici\u00eancia com que o programa foi aplicado basta lembrar que com dois resgates, mais quase dois anos de troika do que n\u00f3s e um sector p\u00fablico muito maior do que o nosso, as receitas das privatiza\u00e7\u00f5es gregas nem chegam a ser metade das conseguidas no nosso pa\u00eds.<br \/>\nN\u00e3o surpreende assim que a espiral recessiva que tantos previram para o nosso pa\u00eds e que n\u00e3o se materializou, tenha na Gr\u00e9cia provocado uma queda de 25% do PIB. Mesmo assim \u00e9 necess\u00e1rio colocar de novo as coisas em prespectiva: apesar dessa queda, o PIB per capita, em paridade de poder de compra, dos gregos \u00e9 neste momento sensivelmente igual ao dos portugueses. O nosso sal\u00e1rio m\u00ednimo tamb\u00e9m \u00e9 menor do que o grego, e muito menor ficar\u00e1 se o Syriza levar por diante as suas inten\u00e7\u00f5es.<br \/>\nTudo isto mostra que, se por l\u00e1 a \u201ccat\u00e1strofe\u201d \u00e9 assim t\u00e3o grande, n\u00e3o \u00e9 por falta de riqueza, \u00e9 pela conjuga\u00e7\u00e3o de muitas destes factores de que tenho vindo a falar e que convenientemente s\u00e3o sempre esquecidos. Mais: na \u00faltima reuni\u00e3o do Eurogrupo os ministros das Finan\u00e7as da Eslov\u00e1quia, da Eslov\u00e9nia ou de Malta lembraram que mesmo sendo nos seus pa\u00edses, na altura, menor o PIB per capita, eles mesmo assim emprestaram dinheiro aos gregos. J\u00e1 alguns ministros de antigos pa\u00edses do Leste recordaram a Varoufakis que aquilo que tinham emprestado correspondia ao que gastavam em subs\u00eddios de desemprego.<br \/>\nResta o argumento final: a d\u00edvida n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel, pelo que a Gr\u00e9cia precisa ainda de mais ajuda (mais dinheiro) da Europa. Mais uma vez estamos perante uma \u201cverdade medi\u00e1tica\u201d que lida mal com a realidade dos factos. Primeiro, porque nenhum outro pa\u00eds do grupo dos que foram resgatados beneficiou at\u00e9 hoje de um perd\u00e3o de d\u00edvida como a Gr\u00e9cia j\u00e1 teve. Foi em 2012, representou cerca de metade da d\u00edvida que estava ent\u00e3o em m\u00e3os de privados e tirou do deve e haver da Gr\u00e9cia 100 mil milh\u00f5es de euros, uma quantia que, se fossemos n\u00f3s os beneficiados, nos aliviaria de muitas das nossas afli\u00e7\u00f5es. Nessa opera\u00e7\u00e3o dois bancos portugueses, o BCP e o BPI, perderam 590 milh\u00f5es de euros, dinheiro que fez muita falta ao financiamento da nossa economia.<br \/>\nMas o ponto principal nem sequer \u00e9 esse. A Gr\u00e9cia j\u00e1 tem condi\u00e7\u00f5es muito melhores do que Portugal ou a Irlanda \u2013 prazos mais dilatados, melhores juros, car\u00eancia no pagamento desses juros. O resultado \u00e9 que enquanto n\u00f3s, com uma d\u00edvida proporcionalmente muito mais baixa (127% do PIB contra 180%), pagamos o equivalente a 5% do PIB em juros, a Gr\u00e9cia pagar\u00e1 entre 2,5% e 3,6%. Ou seja, a d\u00edvida grega \u00e9 maior mas pesa-lhes menos. E isso \u00e9 que conta. Mais: n\u00e3o somos s\u00f3 n\u00f3s que, proporcionalmente, suportamos uma carga de juros superior \u00e0 dos gregos, os italianos e os irlandeses tamb\u00e9m est\u00e3o na mesma situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n4. O quarto e \u00faltimo mito \u00e9 que, liberta (de novo) de parte da d\u00edvida, a Gr\u00e9cia voltaria a crescer, a ser pr\u00f3spera e, por isso, pagaria mais facilmente o remanescente dos empr\u00e9stimos.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 nenhum pol\u00edtico que n\u00e3o goste de ter dinheiro para gastar e distribuir. N\u00e3o \u00e9 preciso ter \u201cconsci\u00eancia social\u201d, basta querer ser reeleito. Por isso a simples ideia de que haveria mais dinheiro no or\u00e7amento porque passaria a haver menos dinheiro para pagar juros \u00e9 muito tentadora. J\u00e1 \u00e9 muito menos evidente que isso induzisse um crescimento econ\u00f3mico sustent\u00e1vel e \u00e9 f\u00e1cil ver porqu\u00ea. Primeiro, temos a experi\u00eancia do passado: dinheiro barato e abundante foi o que a Gr\u00e9cia teve at\u00e9 \u00e0 crise de 2008, mas isso n\u00e3o deixou a sua economia mais forte e mais competitiva, bem pelo contr\u00e1rio. Depois, temos a evid\u00eancia das reformas que ficaram pela metade, o que significa que a Gr\u00e9cia est\u00e1 muito longe de estar em condi\u00e7\u00f5es para concorrer num mundo globalizado permanecendo, ao mesmo tempo, no colete-de-for\u00e7as de uma moeda \u00fanica. Finalmente, h\u00e1 o programa do Syriza, o poss\u00edvel retrocesso em algumas dessas reformas e o regresso a um passado pr\u00f3prio de uma economia fechada, protegida e ineficiente.<br \/>\nUm bom exemplo daquilo de que falamos \u00e9 o que se passa no Porto do Pireu. Um ter\u00e7o foi privatizado e \u00e9 hoje gerido por uma companhia chinesa. \u00c9 eficiente, \u00e9 um modelo de organiza\u00e7\u00e3o, tem cada vez mais movimento e faz cada vez mais neg\u00f3cio. Os outros dois ter\u00e7os continuam nas m\u00e3os do Estado \u2013 e dos sindicatos \u2013 e continuam a perder clientes e movimento, sendo um espa\u00e7o sujo e por vezes degradado. Neste momento ningu\u00e9m ainda percebeu se este peda\u00e7o do porto do Pireu vai acabar por ser privatizado, como estava previsto e parece ser vontade do ministro das Finan\u00e7as, ou se tudo fica como est\u00e1, como quer o ministro da Marinha.<br \/>\nA vit\u00f3ria do Syriza talvez mude alguma coisa na cultura de nepotismo que sempre dominou a pol\u00edtica grega, pode ser que at\u00e9 consiga combater a corrup\u00e7\u00e3o com mais efic\u00e1cia e at\u00e9 ser mais diligente no combate \u00e0 evas\u00e3o fiscal. Mas essa vit\u00f3ria n\u00e3o mudou a natureza da Gr\u00e9cia nem os seus h\u00e1bitos culturais: s\u00f3 a perspectiva de que ia ganhar levou milh\u00f5es de gregos a deixarem da pagar impostos, abrindo num s\u00f3 m\u00eas um buraco de 1,6 mil milh\u00f5es de euros, buraco que tornou ainda mais dif\u00edcil a vida ao Governo que depois elegeram.<br \/>\n\u00c9 por estas e por outras \u2013 e por tudo o que distancia a Gr\u00e9cia de ser um pa\u00eds capaz de cumprir com as regras de uma uni\u00e3o monet\u00e1ria \u2013 que n\u00e3o vejo forma de esta n\u00e3o voltar ao dracma, mas cedo ou mais tarde. Sendo que nestas coisas mais cedo costuma ser melhor do que mais tarde.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Esperan\u00e7a do Z\u00e9 do Telhado Ant\u00f3nio Justo Independentemente de interesses nacionalistas e de posi\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia da UE, Bruxelas deveria criar um imposto de solidariedade em benef\u00edcio dos pa\u00edses de economia fraca, tal como fez e faz a Alemanha em benef\u00edcio da antiga Alemanha de leste, que se encontrava em situa\u00e7\u00e3o &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=3087\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">O UIVAR DOS LOBOS EM TORNO DA ACR\u00d3POLE<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[14,7],"tags":[],"class_list":["post-3087","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-economia","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3087","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3087"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3087\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3095,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3087\/revisions\/3095"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3087"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3087"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3087"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}