{"id":2746,"date":"2014-04-25T14:41:00","date_gmt":"2014-04-25T13:41:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=2746"},"modified":"2014-04-25T14:43:58","modified_gmt":"2014-04-25T13:43:58","slug":"a-revolucao-comunista-em-portugal-e-a-contra-revolucao-moderada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=2746","title":{"rendered":"A Revolu\u00e7\u00e3o comunista em Portugal e a Contra-revolu\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>O 25 de Abril \u00e9 um Marco hist\u00f3rico que introduz uma Matriz de Pensamento de Esquerda<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ant\u00f3nio Justo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O 25 de Abril \u00e9 pass\u00edvel de muitas interpreta\u00e7\u00f5es. Tal como afirma Josep S\u00e1nchez Cervell\u00f3, o objectivo do 25 de Abril (FMA) era a descoloniza\u00e7\u00e3o e a instaura\u00e7\u00e3o de um regime socialista em Portugal.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na madrugada do 25 de Abril de 74, Portugal sonhou e a 25 de Novembro de 75 acordou para uma discuss\u00e3o entre for\u00e7as radicais e moderadas que impediu uma futura guerra civil entre as for\u00e7as armadas divididas.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernando Rosas diz que a revolu\u00e7\u00e3o portuguesa \u00abfoi a \u00faltima revolu\u00e7\u00e3o de esquerda da Europa do s\u00e9culo xx\u00bb. O mesmo povo que possibilitou o in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o impediu-a depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do que observei, nos primeiros tempos da revolu\u00e7\u00e3o poderia afirmar, que o que se passava nas ruas era a express\u00e3o de um povo dominado que saia \u00e0 rua para cantar a liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Liberdade e libertinagem eram atitudes n\u00e3o claras tanto nos revolucion\u00e1rios como no povo que os aclamava. A festa foi mesmo boa e \u00e0 maneira portuguesa; mas a liberdade e a desordem eram t\u00e3o grandes que j\u00e1 assustavam os pa\u00edses vizinhos, numa \u00e9poca de caos e de inova\u00e7\u00e3o onde imperava a esquerda e a extrema-esquerda (Fase dos governos provis\u00f3rios at\u00e9 ao fim do quinto governo de Vasco Gon\u00e7alves, 19 de setembro de 1975). <strong>Entretanto M\u00e1rio Soares servindo-se tamb\u00e9m do cargo de Ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros para os contactos com o estrangeiro, conseguiu, com o Grupo dos Nove, dar for\u00e7a \u00e0 contrarrevolu\u00e7\u00e3o que inclu\u00eda tamb\u00e9m os interesses da burguesia<\/strong>. Durante o VI Governo provis\u00f3rio do 1\u00b0 ministro Pinheiro de Azevedo e do Presidente Costa Gomes d\u00e1-se o golpe militar do 25 de Novembro de 1975 propriamente manejado pelas for\u00e7as inerentes ao &#8220;Grupo dos Nove&#8221;, as for\u00e7as moderadas da esquerda e da direita; aqui d\u00e1-se o fim dos sonhos da esquerda radical (pris\u00f5es de militares e desautoriza\u00e7\u00e3o do gon\u00e7alvismo e do otelismo). O PCP, Vasco Gon\u00e7alves e as for\u00e7as revolucion\u00e1rias da esquerda, opta pela luta ideol\u00f3gica do dom\u00ednio pol\u00edtico. T\u00eam uma fun\u00e7\u00e3o de catarse no discurso pol\u00edtico. <strong>O maquiavelista M\u00e1rio Soares \u201cambicioso sem princ\u00edpios nem convic\u00e7\u00f5es\u201d como desabafa Vasco Gon\u00e7alves, p\u00f4de fortalecer os interesses dos parceiros europeus. Com o apoio dos socialistas franceses, austr\u00edacos, do SPD alem\u00e3o e da CIA americana, conseguiu endireitar a revolu\u00e7\u00e3o da esquerda radical. A Constitui\u00e7\u00e3o institucionaliza depois uma democracia partid\u00e1ria. Acaba-se a era dos l\u00edderes militares para se iniciar a dos l\u00edderes pol\u00edticos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com o come\u00e7o do 1\u00b0 Governo Constitucional (sob a chefia de M\u00e1rio Soares a 23 de setembro de 1976) inicia-se uma pol\u00edtica no sentido da integra\u00e7\u00e3o europeia<\/strong>, come\u00e7ando por devolver as terras e as casas ocupadas e as empresas nacionalizadas aos seus propriet\u00e1rios. A Europa respira fundo porque v\u00ea afastado o perigo de Portugal se tornar numa segunda Cuba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda me lembra de, na altura, haver express\u00f5es p\u00fablicas contra a Europa, mas a autoridade indiscut\u00edvel dos partidos conseguiu manter o povo nas suas fileiras, sem referendo tal como se fez com a integra\u00e7\u00e3o de Portugal na zona euro (Na altura mais que discurso pol\u00edtico reinava o discurso ideol\u00f3gico e a generalidade do povo n\u00e3o tinha ideia do que se estava verdadeiramente a passar).<strong>O povo teve, por\u00e9m, papel muito importante, logo no in\u00edcio do 25 de Abril, porque com o seu acorrer \u00e0s ruas impediu que os militares entrassem em conflito imediato entre eles.<\/strong> A for\u00e7a partid\u00e1ria esteve extremamente presente conseguindo domar \u00e0 sua maneira, o caos \u201cdemocr\u00e1tico\u201d de um povo que ent\u00e3o se sentia \u00e0 solta, de ocupa\u00e7\u00e3o em ocupa\u00e7\u00e3o. Nesta altura ainda n\u00e3o havia verdadeiramente l\u00edderes onde o povo se pudesse alinhar, isso s\u00f3 veio a acontecer com a organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria que conseguiu alinhar e chamar a si um povo j\u00e1 de si desalinhado. <strong>Cantava-se, ent\u00e3o, que o povo \u00e9 quem mais ordena, o que em parte acontecia at\u00e9 ao 25 de Novembro; este mesmo povo que repetia a cantiga dos revolucion\u00e1rios cantava depois a cantiga dos Partidos organizados.<\/strong> Aqueles que queriam uma revolu\u00e7\u00e3o \u00e0 maneira russa, de Mao Ts\u00e9-Tung ou cubana perderam logo nas Elei\u00e7\u00f5es para a Constituinte, obtendo a maioria o PS com 37,8% e o PPD com26,3%). O povo optou pela democracia representativa. Depois manteve-se uma discuss\u00e3o extremista e muitas das palavras que se hoje ouvem contra o fascismo s\u00e3o saudades frustradas de um tempo em que a revolu\u00e7\u00e3o de caracter totalit\u00e1rio foi de facto impedida por M\u00e1rio Soares e pelas for\u00e7as inerentes ao grupo dos nove.<br \/>\nFoi um golpe de estado feito pelos capit\u00e3es e n\u00e3o pela hierarquia militar superior. Decisivo no sentido de impedir a divis\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o militar foi a ac\u00e7\u00e3o dos intermedi\u00e1rios Ant\u00f3nio de Esp\u00ednola e Francisco Costa Gomes, tornados chefes de estado at\u00e9 \u00e0s elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 1976. O que temos \u00e9 fruto da democracia de manifesta\u00e7\u00f5es de interesses muito embora numa democracia formal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos, que antes atribu\u00edam todo o bem adquirido ao 25 de Abril, responsabilizam-no agora, fazendo dele um bode expiat\u00f3rio de todo o mal, tal como foi feito outrora com o regime de Salazar. Tamb\u00e9m houve uma hiperboliza\u00e7\u00e3o do 25 de Abril como tudo se devesse a ele e n\u00e3o fosse poss\u00edvel desenvolvimento hist\u00f3rico sem ele e como se n\u00e3o houvesse outros Estados na altura em condi\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s nossas e, apesar de n\u00e3o terem tido revolu\u00e7\u00e3o, conseguiram acompanhar o desenvolvimento dos tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os que fizeram a revolu\u00e7\u00e3o aproveitaram-se dela (vejam-se os partidos e seus membros relevantes que reservaram o amanhecer de Abril para eles e o anoitecer para a maioria); a falta de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e c\u00edvica que n\u00e3o se pode adquirir s\u00f3 na rua acentuou a dicotomia entre a Hist\u00f3ria e o mito!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Instalou-se uma Partidocracia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pol\u00edtica, como \u201cactividade nobre de servir os outros e governar o que \u00e9 de todos\u201d, tem um sen\u00e3o: \u00e9 obra de pessoas habituais e votada e criticada por 90% de quem n\u00e3o entende de pol\u00edtica nem de governa\u00e7\u00e3o. Assim, em vez de uma democracia orientada para o povo, como \u00e9 o caso da Su\u00ed\u00e7a, instalou-se uma partidocracia todo-poderosa e incontrol\u00e1vel. <strong>Torna-se c\u00ednica a forma como os nossos democratas falam dos privil\u00e9gios do clero e da nobreza na Idade M\u00e9dia e se reservam para si privil\u00e9gios que a plebe democr\u00e1tica n\u00e3o tem.<\/strong> Seria l\u00f3gico que ganhassem mais mas que estivessem sujeitos aos mesmos direitos e deveres que o normal do cidad\u00e3o e de institui\u00e7\u00f5es sociais. Marinho Pinto, baston\u00e1rio dos advogados, relata, entre muitos privil\u00e9gios dos partidos, os seguintes: os partidos pol\u00edticos est\u00e3o isentos de IRC, IVA, IMI, imposto de selo, imposto de doa\u00e7\u00f5es e sucess\u00f5es, isentos de imposto sob patrim\u00f3nio, de imposto de autom\u00f3vel, de imposto municipal de transmiss\u00e3o de im\u00f3veis, de taxas de justi\u00e7a e de custas judiciais. \u201cTudo privil\u00e9gios adquiridos \u00e0s escondidas\u201d. Cada voto rende para os partidos 3,1 Euros por ano. O MRPP, devido aos votos recebe mais de 15 mil euros por m\u00eas; o PSD vencedor das elei\u00e7\u00f5es ir\u00e1 receber entre as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es e as pr\u00f3ximas 38 milh\u00f5es de euros; o PS vai receber mais de 28 milh\u00f5es; O CDS\/PP 13 milh\u00f5es; PCP e o VERDE mais de 10 milh\u00f5es; Bloco de Esquerda mais de 6 milh\u00f5es; e n\u00e3o parlamentares como PCTP\/MRPP mais de 777 mil euros e o Partido dos Animais e da Natureza recebe mais de 730 mil euros. Al\u00e9m disso os partidos parlamentares receberam mais de 8,3 milh\u00f5es de euros para as despesas da \u00faltima campanha eleitoral a dividir entre os partidos segundo os resultados obtidos. Cada grupo parlamentar tamb\u00e9m ter\u00e1 direito a uma subven\u00e7\u00e3o anual para encargos de assessoria aos deputados no correspondente a cerca de 2.000 euros por cada deputado; a Assembleia da Rep\u00fablica paga as remunera\u00e7\u00f5es dos funcion\u00e1rios dos grupos parlamentares 2 milh\u00f5es e 550 mil euros por ano; o PS recebe 2milhoes 104mil euros o CDS 1 milh\u00e3o e 200 mil e o PCP 865 mil euros o bloco de esquerda 631 mil; e os Verde 244 mil euros. Al\u00e9m dos 24 milh\u00f5es de Euros ainda h\u00e1 verbas de 18 milh\u00f5es e 500 mil euros para apoiar as campanhas para a assembleia da rep\u00fablica, assembleias legislativas dos A\u00e7ores e da Madeira parlamento europeu e depois ainda h\u00e1 outra verba para as aut\u00e1rquicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Mudan\u00e7a de padr\u00f5es de pensamento: da matriz de pensamento de direita passou-se para a matriz de pensamento de esquerda<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passaram-se j\u00e1 40 anos depois do canto de Gr\u00e2ndola Vila Morena na R\u00e1dio Renascen\u00e7a a 25 de Abril de 1974. <strong>Numa altura de crise e em que as conquistas de Abril e os valores da civiliza\u00e7\u00e3o crist\u00e3 s\u00e3o sistematicamente destru\u00eddos por for\u00e7as da esquerda e da direita, a comemora\u00e7\u00e3o da \u201crevolu\u00e7\u00e3o dos cravos \u201e pode tornar-se c\u00ednica.<\/strong> Canta-se hoje o 25 de Abril como outrora se cantavam as proezas da Constitui\u00e7\u00e3o de Salazar em 1933. O processo revolucion\u00e1rio ca\u00f3tico interrompido por M\u00e1rio Soares e pelas for\u00e7as em torno do \u201cGrupo dos nove\u201d deu origem a outro processo que embora avan\u00e7ado, \u00e9 escuro e muito mais corrupto que o anterior. O 25 de Abril deu-se na confus\u00e3o de for\u00e7as militares e partid\u00e1rias continuando amb\u00edguo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O 25 trouxe-nos a paz e a democracia e direitos sociais e sindicais e criou a plataforma para o progresso em diversos campos contribuindo para o melhor bem-estar das pessoas, especialmente nos sectores da sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o mas n\u00e3o conseguiu a suficiente inclus\u00e3o<\/strong> que entusiasticamente se propunha; pelo contr\u00e1rio fomentou a diferen\u00e7a dos mais ricos e dos mais pobres. Quanto aos pobres manteve-os no assistencialismo, que os mantem a pouco mais que a p\u00e3o e \u00e1gua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O alarido em torno da m\u00fasica de Abril conseguiu a grande ades\u00e3o popular mas n\u00e3o envolveu depois o povo no processo c\u00edvico. H\u00e1 defici\u00eancias que se devem \u00e0 falta de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do povo mais configurado para a \u201cres privada\u201d do que para a \u201cres publica\u201d; isto explica-se pela falta de responsabilidade da classe pol\u00edtica tamb\u00e9m ela demasiadamente condicionada por influ\u00eancias de grupos al\u00e9rgicos \u00e0 ger\u00eancia do seu comportamento na pra\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A situa\u00e7\u00e3o em que nos encontramos e o estado de corrup\u00e7\u00e3o estatal\/partid\u00e1ria \u00e9 t\u00e3o grave que n\u00e3o seria respons\u00e1vel um discurso que pretende ajustar contas com a direita ou com a esquerda. Neste sentido, j\u00e1 h\u00e1 muito deveria haver coliga\u00e7\u00f5es de maiorias governamentais de salva\u00e7\u00e3o nacional formadas pelos partidos mais fortes. A palavra de ordem s\u00f3 pode ser de reconcilia\u00e7\u00e3o, responsabiliza\u00e7\u00e3o e metanoia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A situa\u00e7\u00e3o portuguesa n\u00e3o pode ser desintegrada da matriz econ\u00f3mica da EU a que nos unimos e que vincula esquerda e direita, como a economia dos USA e da China que n\u00e3o nos deixa produzir artigos concorrentes em termos de pre\u00e7o. A globaliza\u00e7\u00e3o capitalista liberal com a fal\u00eancia dos bancos\u2026 e a m\u00e1 administra\u00e7\u00e3o dos governos levaram Portugal \u00e0 bancarrota, pondo-o nas m\u00e3os dos credores. A riqueza desenfreada de alguns provoca a dessolidariza\u00e7\u00e3o social do Estado. A n\u00edvel de infra-estruturas, apesar da crise econ\u00f3mica, Portugal \u00e9 um dos pa\u00edses mais avan\u00e7ados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>25 de Abril \u2013 O Despertar de uma Ilus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O 25 de Abril foi um acenar de revolu\u00e7\u00e3o que deixou no ar um aroma de cravos e liberdade. Seguiu depois a pol\u00edtica dos embu\u00e7ados que ocuparam a Rep\u00fablica sob a m\u00e3o duma mafia de luvas brancas e invis\u00edvel que contamina a vida do Estado e da Na\u00e7\u00e3o. D\u00e1-se a repeti\u00e7\u00e3o do que tinha acontecido na primeira rep\u00fablica com a sua maneira de estar e fazer jacobina ma\u00e7\u00f3nica e ideol\u00f3gica aliada a um conservadorismo pedante de atitude medieval.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQuem se deita com crian\u00e7as acorda molhado!\u201d O que se deu em Portugal ocorre tamb\u00e9m noutros pa\u00edses atendendo ao facto da pol\u00edtica ser uma quest\u00e3o da \u201cres p\u00fablica\u201de 90% do povo n\u00e3o estar preparado para ser verdadeiramente \u201cser pol\u00edtico\u201d mais predisposto para a aliena\u00e7\u00e3o do que para a realidade e a utopia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Golpe de Estado deu oportunidade \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o cultural (movimento 68) em via nos USA, Alemanha, Fran\u00e7a, etc. O 25 de abril vulgarizou-a ent\u00e3o por todas as camadas sociais do povo portugu\u00eas. O 25 de Abril torna-se socialmente tamb\u00e9m no ve\u00edculo pol\u00edtico e social do Movimento 68. Despertou-nos da Bela Adormecida para um mundo fandango.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Passou-se de uma matriz de pensamento paternalista de direita para uma matriz de pensamento paternalista de esquerda. Um rigorismo paternalista deu lugar a um conformismo r\u00edgido de opini\u00e3o de esquerda. Passou-se da proibi\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o individual para a liberdade de pensar em bloco. O pensamento individual e verdadeiramente aberto continua a ser uma pedra de trope\u00e7o neste sistema democr\u00e1tico.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O golpe de Estado deu-se quando me encontrava a estudar teologia e pedagogia social na Alemanha. Tive ent\u00e3o um sentimento de liberta\u00e7\u00e3o, esperan\u00e7ado em novos tempos e numa nova humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o tempo notei que a liberdade, igualdade e fraternidade que os revolucion\u00e1rios apregoavam eram as liberdades dos seus grupos de interesses n\u00e3o a de todo o povo nem para todo o povo. Tratava-se de uma liberdade querida por certas ideologias de panorama limitado \u00e0 pr\u00f3pria mundivis\u00e3o e justi\u00e7a sem ter em conta a situa\u00e7\u00e3o de cada pessoa. Vivia de encena\u00e7\u00f5es e proclama\u00e7\u00f5es duma liberdade sem corpo nem alma, duma liberdade internacional abstracta, vis\u00edvel em festas e com\u00edcios mas n\u00e3o na realidade. O atributo \u201cfacho\u201d era na altura distribu\u00eddo com proficuidade e at\u00e9 com carinho porque a palavra fascista al\u00e9m de agressiva era injusta. Em com\u00edcios, chegava-se a aguentar a liberdade de opini\u00e3o reservando-se a decis\u00e3o para horas tardias onde ent\u00e3o se protocolavam opini\u00f5es dos restantes mais iguais. Quem n\u00e3o pensasse igual era julgado como \u201cfacho\u201d e como tal de opini\u00e3o manipulada pelo antigo regime. A nova \u201ccensura\u201d (pensar politicamente correcto) marcava os seus pontos na sociedade. \u00c0 conformidade dum sistema segue-se a conformidade com o outro. Da conformidade com o novo pensar surgia a oportunidade profissional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo de Salazar incorpora uma era da ordem r\u00edgida e de regras sociais intransigentes adversas \u00e0 mudan\u00e7a. Antes havia o paternalismo da censura depois passou-se ao paternalismo das ideologias e do oportuno. Aos c\u00e3es de guarda de regras do decoro e da moral perante o povo e a juventude sucedem-se os novos c\u00e3es de guarda de ideologias. Os saneamentos efectuados nas institui\u00e7\u00f5es e a pentea\u00e7\u00e3o mental operada nas escolas e universidades deram pouca margem ao surgimento de despenteados do pensamento: aqueles que promovem a mudan\u00e7a sem lhe determinarem a orienta\u00e7\u00e3o para a esquerda ou para a direita! Dos acomodados tradicionalistas passou-se aos acomodados progressistas. Mudou-se o folclore, a atitude permanece a mesma. Antes segu\u00edamos a ordem do orgulhosamente s\u00f3s para depois seguirmos a ordem do valha tudo menos n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O discurso pol\u00edtico faz mais parte do passatempo. Assim como s\u00f3 discutimos superficialmente os tempos da primeira rep\u00fablica e de Salazar assim se branqueia o 25 de Abril. Cada \u00e9poca branqueia, irreflectidamente a sua, na procura de culpas passadas que distraiam das suas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vive-se de uma hist\u00f3ria do passado e do futuro sem olhar cr\u00edtico para o presente. Os fracos e a demoniza\u00e7\u00e3o de um sistema chegaram para justificar medidas irreflectidas e a lavagem de c\u00e9rebro aos portugueses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia um congestionamento de reformas, \u00e9 verdade. O esp\u00edrito da gera\u00e7\u00e3o 68 do ocidente empacotado no 25 de Abril a pretexto de saneamentos dos \u201d fachos\u201d e como estrat\u00e9gia de infiltra\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria iniciou a sua marcha atrav\u00e9s das institui\u00e7\u00f5es. Este processo tamb\u00e9m se deu nas institui\u00e7\u00f5es europeias pelos arautos da gera\u00e7\u00e3o 68. A revolu\u00e7\u00e3o ocidental dos jovens de 68 conseguiu chegar \u00e0 ribalta da hist\u00f3ria portuguesa e questionar h\u00e1bitos e valores j\u00e1 com musgo. Uma \u00e9poca da Hist\u00f3ria com um ambiente a solicitar o florir de pessoas e institui\u00e7\u00f5es continuava ainda manietada por regras e ordens desconformes ao esp\u00edrito que flui do mundo ocidental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste contexto, tornamo-nos todos abrilistas, consciente ou inconscientemente. Ao golpe de Estado de Abril junta-se uma revolu\u00e7\u00e3o cultural. O projecto de mudan\u00e7a social desencadeou um processo de esperan\u00e7as e ideais. \u00c0 leviandade com que se operou o processo das independ\u00eancias junta-se o erro de mera aplica\u00e7\u00e3o de ideologias internacionais j\u00e1 em processo decadente da rebeldia e do preconceito vigente contra as institui\u00e7\u00f5es: contra Deus, p\u00e1tria e fam\u00edlia. Tamb\u00e9m isto levou a nova classe pol\u00edtica a desobrigar-se tamb\u00e9m porque deixou de entender a diferen\u00e7a entre pecados sociais\/culturais mortais e pecados socias\/culturais veniais!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sentido da liberdade esgotou-se no questionar a ordem antiga. A raz\u00e3o familiar, democr\u00e1tica e de opini\u00e3o \u00e9 despenteada a favor do liberalismo hist\u00e9rico da economia e do mercado. A revolu\u00e7\u00e3o apodera-se da liberdade e do sexo que oferece a belo prazer sem apelar para a responsabilidade nem para as consequ\u00eancias dos pr\u00f3prios actos. Liberta-se o instinto do animal e reduz-se a pessoa ao indiv\u00edduo inocente sem roupa, nem cabe\u00e7a na esperan\u00e7a de uma vida natural de necessidades realizadas numa sexualidade que restabelece a vida inocente de Ad\u00e3o e Eva antes da mordedura da ma\u00e7\u00e3. Agora tudo corre \u00e0 procura de auto-realiza\u00e7\u00e3o num novo Homem sem consci\u00eancia nem moral. Depois das aldeias esvaziadas de sentido at\u00e9 \u00e0 \u00faltima aldeia das Cabras, passamos a sofrer de liberdade abstracta. De recordar que na altura em que a revolu\u00e7\u00e3o andava \u00e0 solta, a \u201cjuventude\u201d da cidade, nas suas campanhas de esclarecimento popular se deslocava \u00e0s aldeias para politizar o povo (facto este que se n\u00e3o tivesse sido ao servi\u00e7o da ideologia seria uma boa iniciativa). (Neste contexto conheci um epis\u00f3dio em que se organizou a desflora\u00e7\u00e3o de virgens em grupo, sendo para o efeito escolhido democraticamente um jovem delicado para executar t\u00e3o delicado trabalho Conheci, na altura, um jovem que o fez, era ligada aos grupos de Otelo e chegou a ter v\u00e1rias metralhadoras em casa). Trope\u00e7amos na pr\u00f3pria liberdade: Uma falsa compreens\u00e3o de emancipa\u00e7\u00e3o espera agora por vingan\u00e7a. Alimentada de valores e da f\u00e9 numa democracia e numa liberdade el\u00e1stica. A dan\u00e7a da liberdade leve amea\u00e7a tornar-se numa dan\u00e7a de mortos na prepara\u00e7\u00e3o de um apocalipse que acontece ciclicamente no desenvolvimento da Hist\u00f3ria. O caldeir\u00e3o do consumo torna-se num buraco negro que engole tudo, engole a raz\u00e3o, a liberdade e equaciona a \u00e9tica em termos de mercado e consumo, num mundo que se quer ca\u00f3tico sem sujeitos individuais, sem pol\u00edticos respons\u00e1veis nem estado. Um niilismo nost\u00e1lgico quer de sujeitos funcion\u00e1rios, s\u00f3 tipos numa realidade factual meramente econ\u00f3mica. Agora \u00e9 o tempo dos nost\u00e1lgicos na procura da inoc\u00eancia perdida. Uns e outros com falta de realismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Socialismo espalhado com o aroma dos Cravos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A revolu\u00e7\u00e3o tinha outras inten\u00e7\u00f5es com o seu golpe de estado. Os seus realizadores queriam, como se pode verificar nos governos provis\u00f3rios, a mudan\u00e7a do regime autorit\u00e1rio para outro regime ainda mais autorit\u00e1rio mas de caracter popular. Encenavam-se como her\u00f3is tornando-se autoridades morais em nome duma consci\u00eancia socialista internacional pronta a sacrificar a pr\u00f3pria na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dos livros de ensino come\u00e7am a substituir-se textos de portugueses consagrados por textos da internacionalidade. A pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o deve ser a mais progressiva e mais internacional poss\u00edvel. Celebravam por toda a parte a salva\u00e7\u00e3o dum estado de sonho, dum povo liberto das heran\u00e7as do passado. <strong>Um povo que esperava liberdade foi amarrado \u00e0 manjedoura da ideologia por dan\u00e7arinos do poder que de pacientes passaram a salvadores. Organizam-se programas de reeduca\u00e7\u00e3o popular no sentido de ide\u00e1rios socialistas que queriam resgatar Portugal, expurg\u00e1-lo da p\u00e1tria para o tornar internacional e popular.<\/strong> Apresentam-se como v\u00edtimas legitimadoras duma nova identidade a criar. N\u00e3o chega lamentar e remediar o autoritarismo da ditadura anterior; precisa-se de um fascista grande para argumentar e para isso compar\u00e1mos Salazar com Hitler. Com um Salazar monstro n\u00e3o precisamos de mudar a nossa conduta; apenas a ideologia. Por mais que os erros da nova classe se levantem, nunca chegar\u00e3o \u00e0quela gravidade! E o povo acreditou nas promessas seguindo a voz do novo canto. Um povo de abelhas vai seguindo o cantar da cigarra. Queria em nome do marxismo criar uma nova sociedade com novas amarras. Os esp\u00edritos do velho regime instalam-se com mais convic\u00e7\u00e3o no novo. A vergonha dum antigo regime apressa a identifica\u00e7\u00e3o com o socialismo internacional. Chega a cor para nos dar o sentimento de perten\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O impasse em que vivemos hoje deve-se a uma liberdade gratuita, prometida e que se quer atingida sem o suor do pr\u00f3prio rosto. Uma liberta\u00e7\u00e3o de tudo mas sem saber para qu\u00ea. Um mundo de abrilistas torna-se pioneiro da liberdade prometendo felicidade. Em nome da liberdade d\u00e1-se oportunidade ao novo oportuno: <strong>novos senhores exploradores ocupam agora o lugar dos antigos.<\/strong> D\u00e1-se tamb\u00e9m uma democratiza\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o, sendo agora poss\u00edvel um n\u00famero maior de exploradores do que antes. O Golpe de Estado efectuado n\u00e3o se orientava pela realidade das pessoas e da na\u00e7\u00e3o mas seguia apenas ideologias mais ou menos internacionais de fardas engomadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portugal passou a albergar, especialmente no Alentejo, muitos peregrinos e \u201crefugiados\u201d da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A revolu\u00e7\u00e3o ao ser feita em nome da esquerda tornou-se sua propriedade; este foi o seu bus\u00edlis ao esquecer que o Homem consta de uma parte esquerda e outra direita, uma parte inferior e outra superior.<\/strong> A revolu\u00e7\u00e3o tinha boas inten\u00e7\u00f5es mas ao polarizar-se desrespeita a pessoa e a na\u00e7\u00e3o, tal como fez o regime anterior. Este foi um grande erro na estrat\u00e9gia de educa\u00e7\u00e3o popular. Por isso hoje j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o povo quem festeja, quem festeja \u00e9 o partido ou os funcion\u00e1rios do Estado. A viv\u00eancia da nova era sente-se no acto da compra no supermercado e no sexo. Cai-se no v\u00edcio de uma liberdade sem vontade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O &#8220;movimento 68&#8221; resume a sua doutrina na frase \u201cdepois de Ausschwitz n\u00e3o se pode acreditar mais num Deus bom e amoroso\u201d quando a conclus\u00e3o l\u00f3gica a tirar seria: depois de Auschwitz n\u00e3o se pode acreditar mais na bondade natural do Homem. A primeira frase leva \u00e0 desculpa e \u00e0 ideologia, a segunda compromete e responsabiliza cada pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal como uma \u00e1rvore precisa de estrume no seu solo assim uma cultura precisa do h\u00famus da tradi\u00e7\u00e3o para poder desenvolver-se e do sol da esperan\u00e7a que constr\u00f3i o presente com uma panor\u00e2mica gratificante. A liberdade precisa de um horizonte e o h\u00famus de que ele se alimenta \u00e9 o cristianismo e o idealismo (idealismo pensado na alternativa de pensamento alem\u00e3o ao iluminismo franc\u00eas). Para o cristianismo cada pessoa \u00e9 um ser singular \u00fanico com uma consci\u00eancia pessoal com uma dignidade humana que o torna respons\u00e1vel e transcendente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Desencantar e dessacralizar o mito de Abril<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cada na\u00e7\u00e3o precisa dos seus ideais e dos seus mitos; de facto precisamos de utopia mas n\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o. Em nome de uma superioridade moral vendemos o mito da revolu\u00e7\u00e3o. Portugal perde a guerra do ultramar e vende-a como liberta\u00e7\u00e3o de Portugal.<\/strong> A derrota de um ultramar entregado ao bloco sovi\u00e9tico \u00e9 empacotada na cor dos cravos de Abril. Uma descoloniza\u00e7\u00e3o que j\u00e1 h\u00e1 muito deveria ter sido feita, deu-se na confus\u00e3o e na trai\u00e7\u00e3o em nome da auto-estima. Todos n\u00f3s sofremos do mito de Abril que nos levou para onde nos encontramos. Portugal ajoelhado n\u00e3o aos p\u00e9s duma civiliza\u00e7\u00e3o, mas ajoelhado aos p\u00e9s da troika que apesar de tudo, com o seu ditado, ajudou Portugal a sair da bancarrota (de que nos libertamos, esta semana, ao voltar aos mercado financeiros internacionais).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora seria \u00f3bvia a era da recupera\u00e7\u00e3o da dignidade individual assumindo responsabilidade pessoal. Primeiramente seria necess\u00e1rio desencantar os feitores da revolu\u00e7\u00e3o. Antes deix\u00e1vamos o neg\u00f3cio do Vinho do Porto nas m\u00e3os dos feitores portugueses a servi\u00e7o das quintas inglesas. <strong>Com o 25 de Abril entregamos o neg\u00f3cio da na\u00e7\u00e3o, primeiramente, a feitores da ideologia, aos representantes sovi\u00e9ticos e \u00e0 f\u00e9 no movimento 68 para depois colocarmos o nosso destino na EU.<\/strong> Abandonamos a consci\u00eancia lus\u00f3fona e de portugueses para seguirmos a an\u00f3nima internacional. Em nome da moral e contra a raz\u00e3o endinheiraram-se os novos-ricos produzidos pelo Abril \u00e0 custa do esvaziamento cultural e da auto-estima da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para come\u00e7armos de novo teremos de deixar nas ruinas do \u201cimp\u00e9rio\u201d os seus \u201cher\u00f3is\u201d, aqueles que lhe fizeram o enterro. Temos que da ruina da na\u00e7\u00e3o enferma, agora ajoelhada erguer-nos de novo como noutros tempos contra os interesses daqueles portugueses traidores que arquitectavam o seu futuro na entrega de Portugal a Castela. 1640 \u00e9 um dia do povo, agora que a liberdade individual e do povo se encontra mais que nunca amea\u00e7ada, h\u00e1 que o restaurar. Mandemos para o ferro-velho da hist\u00f3ria muitas das aquisi\u00e7\u00f5es de Abril para readquirirmos Portugal readquirindo-nos a n\u00f3s. N\u00e3o queremos j\u00e1 ideais floridos nem a libertinagem enganadora; n\u00e3o precisamos da roupa velha mas duma vontade firme para cada um se erguer. Tamb\u00e9m o entusiasmo e valores do 25 de Abril nos poder\u00e3o ajudar. <strong>Um estado que domina e mantem o povo \u00e1 trela da ideologia e das d\u00edvidas perde a confian\u00e7a.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez fosse melhor dizer adeus a alguns direitos para recuperarmos a nossa dignidade ultrajada numa massa de ovelhas em que a perspectiva prometida era a erva e o traseiro da \u201covelha\u201d vizinha. Para nos tornarmos cidad\u00e3os adultos teremos de deixar de ser massa partid\u00e1ria, confessional ou nacional. Ter-se-\u00e1 de sair de novo para a rua para a\u00ed se construir o nosso Abril, um Abril de liberdade para cada um. Uma rua trabalhada e enfeitada por todos mas sem ladr\u00f5es das flores e dos frutos e sem os protagonistas da na\u00e7\u00e3o apresentados na imprensa e na televis\u00e3o. Somos um povo a caminho \u00e0 semelhan\u00e7a do de Israel a realizar-se em comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RUMINAR A REVOLU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser analisada apenas sob o aspecto moral; precisa tamb\u00e9m de uma abordagem hist\u00f3rica s\u00e9ria que ainda n\u00e3o chegou \u00e0 consci\u00eancia p\u00fablica.<\/strong> Na an\u00e1lise da ditadura e da revolu\u00e7\u00e3o exigimos dos protagonistas que sejam her\u00f3is ou pelo menos pessoas admir\u00e1veis. Os que fizeram a revolu\u00e7\u00e3o revelaram-se muito normais (excepto Ramalho Eanes) e a n\u00edvel de lideran\u00e7a ser\u00e1 dif\u00edcil encontrar uma personalidade da craveira de Salazar. Seria hipocrisia continuar-se a apostar numa \u201cv\u00edtima de lavradores\u201d como dizem os Alem\u00e3es para ilibarem os restantes, quando todos faziam parte do sistema. Karl Marx dizia <strong>\u201cAs pessoas fazem a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, mas, sob circunst\u00e2ncias auto-selecionadas, n\u00e3o o fazem livremente\u201d<\/strong>. Trata-se de viver uma cultura da mem\u00f3ria com capacidade para se rever no positivo e no negativo sem passar tudo a ferro nem com heroiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 melhor uma controv\u00e9rsia honesta que contribua para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade civil cr\u00edtica na continuidade da paz civil. Entretanto o 25 de Abril tem-se tornado numa carga que transforma a mudan\u00e7a do nome da ponte Salazar para ponte 25 de Abril numa usurpa\u00e7\u00e3o. O armaz\u00e9m da mem\u00f3ria da comunidade democr\u00e1tica aguenta e deve ser resistente, na certeza de que n\u00e3o foi o 25 de Abril que inventou a liberdade, a igualdade e a fraternidade e na consci\u00eancia que cada \u00e9poca tem os seus padr\u00f5es e normas. Liberdade s\u00f3 o \u00e9 se for ao mesmo tempo uma conquista individual e social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O soci\u00f3logo Laurene Peter fala de um princ\u00edpio que pode explicar parte da situa\u00e7\u00e3o portuguesa. Fala de uma \u201csublima\u00e7\u00e3o sem barulho\u201d e de um \u201ccair pela escada acima\u201d uma pseudo-promo\u00e7\u00e3o. Segundo o Princ\u00edpio de Peter, cada funcion\u00e1rio tende a subir na carreira at\u00e9 atingir o seu gr\u00e3o de incompet\u00eancia. Enquanto n\u00e3o se atinge o grau da incompet\u00eancia ganha-se aplauso, reconhecimento e influ\u00eancia. Depois, uma vez atingido o \u00faltimo degrau, fica-se l\u00e1, em vez de se ter ficado no grau anterior onde se era criativo e competente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As novas gera\u00e7\u00f5es (p\u00f3s 25 de Abril) receberam, gratuitamente, uma heran\u00e7a que agora desemboca na crise e que \u00e9 preciso ruminar. Acordamos num jardim zool\u00f3gico muralhado quando sonh\u00e1vamos a liberdade de passarinhos sem gaiola nem fronteiras. Julg\u00e1vamos que o sonho era realidade e que a realidade era sonho. Julg\u00e1vamos que era poss\u00edvel uma sociedade s\u00f3 de acad\u00e9micos e por isso acabamos coma as boas escolas comerciais e industriais de ent\u00e3o. A revolu\u00e7\u00e3o nascida mais da ideologia do que da realidade desprezava o trabalho manual. A discrimina\u00e7\u00e3o do trabalho manual em rela\u00e7\u00e3o ao intelectual levou-nos a onde nos encontramos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O 25 de Abril envelheceu deixando os mais velhos desiludidos dos marxistas, maoistas, comunistas, anarquistas que queriam uma mudan\u00e7a radical. Constatou-se que o sonho era s\u00f3 para eles, como podemos verificar nas suas posi\u00e7\u00f5es, remunera\u00e7\u00f5es e pens\u00f5es. Tudo corria para o partido que dava mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somos todos correspons\u00e1veis. Quando um dedo da nossa m\u00e3o aponta para a responsabilidade dos outros pelo menos outros tr\u00eas apontam tamb\u00e9m para n\u00f3s. Sou cr\u00edtico porque amo o meu pa\u00eds, procurando ver o porqu\u00ea das coisas irem mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>UM ESTADO ONTEM REF\u00c9M DA NOBREZA E HOJE REF\u00c9M DOS PARTIDOS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portugal a partir do s\u00e9c. XVII nunca foi reajustado encontrando-se ciclicamente em derrocada como constatavam j\u00e1 Alexandre de Gusm\u00e3o, Antero de Quental: \u201ca nutrir pan\u00e7udos\u201d. Faliu em 1892, e depois sob penhora durante a I Rep\u00fablica tendo como consequ\u00eancia o golpe de Estado de 1926, altura em que Portugal se encontrava de novo na fal\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira rep\u00fablica desqualificou os ideais liberais e democr\u00e1ticos a ponto de chegar a produzir o prov\u00e9rbio \u201cisto \u00e9 uma rep\u00fablica\u201d com o significado de desordem e actualmente a &#8220;Isto \u00e9 uma rep\u00fablica das bananas.&#8221; O regime de Salazar criou uma ditadura do \u201corgulhosamente s\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No tempo do \u201cAnt\u00f3nio Salazar\u201d o pensamento era censurado, no regime do 25 de Abril \u00e9 penteado pelo pensar politicamente correcto, propagado pelo esp\u00edrito do tempo e laqueado pelos mass media.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que se d\u00e1 com as revolu\u00e7\u00f5es portuguesas \u00e9 o mesmo que se tem dado com os governos: \u00e9 uma altern\u00e2ncia dos senhorios do Estado portugu\u00eas; antes nas m\u00e3os da nobreza e depois nas m\u00e3os dos burgueses e novos-ricos. Transmitem-se os mesmos v\u00edcios num conluio de conservadores e progressistas.<\/strong> A Ditadura Nacional (1926-1933) termina em 1933 com a Constitui\u00e7\u00e3o de 1933 e in\u00edcio da II Rep\u00fablica (Estado Novo) at\u00e9 ao golpe de estado do 25 de Abril de 1974. A Constitui\u00e7\u00e3o de 1976 estabelece a democracia partid\u00e1ria. Nesta III Rep\u00fablica repetem-se os erros tradicionais e estende os seus tent\u00e1culos de polvo partid\u00e1rio e ideol\u00f3gico governa o pa\u00eds com leis e decretos ao sabor do tempo e das influ\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes para servir nobrezas e burgueses insaci\u00e1veis, depois para servir as bocas partid\u00e1rias e de irm\u00e3os ma\u00e7\u00f3nicos bo\u00e7ais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um povo que n\u00e3o cresce organicamente vive dos golpes de Estado (revolu\u00e7\u00f5es) que al\u00e9m de ajustes de contas se revelam num acerto ao tempo.<\/strong> Vivem de uma lei fora de lei. Velhacos metem a m\u00e3o \u00e0 bolsa dos velhos e aos novos pede-se-lhes para emigrar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 beira da fal\u00eancia em 83 salvou-o a EU mas a megalomania esbanjadora de querer viver \u00e0 grande europeia mas com uma economia de terceiro mundo \u2013 uma economia de grandes para grandes &#8211; s\u00f3 que depois o desflorou com a Troika em 2011. Amoral encontra-se tamb\u00e9m ela em processo de emancipa\u00e7\u00e3o, a consci\u00eancia passa a ser opini\u00e3o destilada nos alambiques dos interesses grupais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O povo e a massa cinzenta ocupam-se, \u00e0 maneira tradicional, da compara\u00e7\u00e3o e do maldizer dos novos velhos usurpadores, esquecendo que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 de tal desespero que conduziria, a ser tomada a s\u00e9rio \u00e0s conclus\u00f5es e tr\u00e1gico fim de um Antero de Quental. Do seu olimpo sob o sol do desespero a opini\u00e3o elucidada (tuba canora) julga da justi\u00e7a social. No Olimpo tudo \u00e9 grande, nele a grandeza supera a corrup\u00e7\u00e3o, tudo passa a ser normal. Onde n\u00e3o h\u00e1 moral n\u00e3o h\u00e1 direito. Por vezes, parecemos povo, filho de pai inc\u00f3gnito continuamente a olhar para o governo, esperando reconhecer nele o pai. Diz-se o que n\u00e3o se pensa, pensa-se o que n\u00e3o se diz!<br \/>\n<strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\nFormado em Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o para Portugu\u00eas e Hist\u00f3ria<br \/>\nConfer\u00eancia proferida na sede da ARCADIA a 4 de Abril de 2014<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Faz parte do in\u00edcio da confer\u00eancia o artigo antes publicado sob o t\u00edtulo: 40\u00b0 Anivers\u00e1rio do 25 de Abril<br \/>\nwww.antonio-justo.eu<br \/>\nCopyright \u00a9 Antonio Justo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O 25 de Abril \u00e9 um Marco hist\u00f3rico que introduz uma Matriz de Pensamento de Esquerda Ant\u00f3nio Justo O 25 de Abril \u00e9 pass\u00edvel de muitas interpreta\u00e7\u00f5es. Tal como afirma Josep S\u00e1nchez Cervell\u00f3, o objectivo do 25 de Abril (FMA) era a descoloniza\u00e7\u00e3o e a instaura\u00e7\u00e3o de um regime socialista em Portugal. Na madrugada do &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=2746\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">A Revolu\u00e7\u00e3o comunista em Portugal e a Contra-revolu\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[14,4,7],"tags":[],"class_list":["post-2746","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-economia","category-educacao","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2746","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2746"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2746\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2749,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2746\/revisions\/2749"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2746"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2746"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2746"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}