{"id":2741,"date":"2014-04-24T13:38:47","date_gmt":"2014-04-24T12:38:47","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=2741"},"modified":"2014-04-24T14:15:27","modified_gmt":"2014-04-24T13:15:27","slug":"40-aniversario-do-25-de-abril-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=2741","title":{"rendered":"40\u00b0 Anivers\u00e1rio do 25 de Abril"},"content":{"rendered":"<p><strong>Do que se fez e do que falta fazer<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ant\u00f3nio Justo<\/strong><br \/>\nA can\u00e7\u00e3o de Jeca Afonso, \u201cGr\u00e2ndola Vila Morena\u201d, usada na R\u00e1dio Renascen\u00e7a como palavra de ordem para dar in\u00edcio \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, expressa o ideal da liberdade e da fraternidade, que como sonho nunca poder\u00e1 ser totalmente cumprido. Quarenta anos depois da can\u00e7\u00e3o, apesar da abertura e do desenvolvimento havido, \u00e9 preciso relembra-lo e coloca-lo na ordem do dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nOutrora, na origem da Revolu\u00e7\u00e3o de Abril, o MFA &#8211; um movimento de anticolonialistas e idealistas de esquerda &#8211; dava express\u00e3o \u00e0 crise do colonialismo e \u00e0s lutas ideol\u00f3gicas entre o imperialismo sovi\u00e9tico e o imperialismo americano. Hoje, o mesmo pa\u00eds, tornou-se, de novo, o rosto da crise socioecon\u00f3mica e cultural do mundo ocidental (ver Repensar a Revolu\u00e7\u00e3o em www.antonio-justo.eu).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nPortugal, na falta de agir pr\u00f3prio, foi tamb\u00e9m v\u00edtima do estado do clima das pot\u00eancias mundiais, devido ao seu enquadramento nos centros de interesses internacionais (URSS-USA, Europa, Nato). O que aconteceu em Portugal em contextos pr\u00f3prios, acontece hoje, de maneira mais descarada, na S\u00edria, na Ucr\u00e2nia, etc.. Tudo em nome da defesa de interesses regionais mas a servir os grandes imperialismos internacionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nO golpe militar que derrubou a ditadura de Salazar viu-se indirectamente legitimado pelo apoio que o povo lhe deu; corria entretanto perigo de se tornar numa ditadura militar, no sentido de Vasco Goncalves, dado a realidade das for\u00e7as populares e burguesas portuguesas n\u00e3o serem un\u00edvocas, tal como acontecia dentro do MFA entre o ide\u00f3logo Vasco Goncalves leal a uma ideia comunista extrema (gon\u00e7alvismo) e o ide\u00f3logo Melo Antunes com os p\u00e9s mais assentes na terra portuguesa que, embora socialista, era adverso do socialismo sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nO general Vasco Gon\u00e7alves, de ideologia comunista, era, com Rosa Coutinho e Otelo Saraiva de Carvalho, um dos l\u00edderes do Movimento For\u00e7as Armadas (MFA) que encabe\u00e7ou v\u00e1rios governos provis\u00f3rios e tinha o intuito de instalar em Portugal uma ditadura popular. \u00c0 frente do V governo provis\u00f3rio o \u201ccompanheiro Vasco\u201d conseguiu determinar a nacionaliza\u00e7\u00e3o da CUF, Setenave, Covina, Pirites Alentejanas, Petroqu\u00edmica, Amon\u00edaco Portugu\u00eas, Nitratos de Portugal, bancos, seguros, transportes p\u00fablicos e dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo e implementar a reforma Agr\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<strong>Na altura a Europa temia e tremia com o desenvolvimento da pol\u00edtica portuguesa.<\/strong> A Nato n\u00e3o ia permitir que dentro do seu seio se criasse uma nova Cuba. A interven\u00e7\u00e3o indirecta mas maci\u00e7a dos USA e estados europeus, atrav\u00e9s do apoio a Soares e \u00e0s for\u00e7as moderadas do 25 de Abril, possibilitou a contra revolu\u00e7\u00e3o (do Ver\u00e3o Quente) que aplainou o caminho para a integra\u00e7\u00e3o de Portugal no mundo ocidental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<strong>A partir da\u00ed a revolu\u00e7\u00e3o deixou de ser um processo para se tornar num credo!<\/strong> Hoje a bancarrota de Portugal tamb\u00e9m d\u00e1 raz\u00e3o aos revolucion\u00e1rios de ent\u00e3o, dado ter falhado e a contra-revolu\u00e7\u00e3o da democracia partid\u00e1ria tamb\u00e9m. Da\u00ed a desorienta\u00e7\u00e3o e a complica\u00e7\u00e3o do enredo em torno da revolu\u00e7\u00e3o. Apesar dos hinos e louvores ineg\u00e1veis \u00e0 mudan\u00e7a hist\u00f3rica, depois de 40 anos de revolu\u00e7\u00e3o, Portugal n\u00e3o se encontra economicamente melhor em rela\u00e7\u00e3o ao grupo de pa\u00edses europeus de ent\u00e3o menos produtivos mas que tamb\u00e9m se desenvolveram apesar de n\u00e3o terem tido revolu\u00e7\u00e3o.\u00a0 Portugal entre a c\u00f3lera e a peste: de um lado o imperialismo ideol\u00f3gico marxista e do outro o imperialismo econ\u00f3mico (USA). Duas perspectivas intrag\u00e1veis para um pa\u00eds pequeno como Portugal com um corpo pequeno na Europa e o cora\u00e7\u00e3o no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<strong>O intuito de revolucion\u00e1rios influentes e do MFA era instituir uma sociedade socialista (\u00e0 imagem de Cuba e da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em nome de interesses populares.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nPortugal, embora se encontrasse em posi\u00e7\u00e3o militar vantajosa na guerra colonial, optou por um processo de descoloniza\u00e7\u00e3o que n\u00e3o fosse neocolonialista mas cometeu o erro de abandonar as col\u00f3nias a outras for\u00e7as\/ideologias colonizadoras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nVasco Goncalves e Melo Antunes eram os ide\u00f3logos das for\u00e7as armadas. A 7.04.75 o MFA tinha-se decidido pelo socialismo\/comunismo.<strong> Melo Antunes e o grupo dos nove<\/strong> (membros do Conselho da Revolu\u00e7\u00e3o: Vasco Louren\u00e7o, Canto e Castro, V\u00edtor Crespo, Costa Neves, Melo Antunes, V\u00edtor Alves, Franco Charais, Pezarat Correia e Sousa e Castro) <strong>conseguem uma tomada de posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pluralista pr\u00f3pria, contra os radicais do MFA em torno da ala comunista de Vasco Gon\u00e7alves, ao tornarem p\u00fablico o documento dos nove<\/strong> (6 de agosto de 1975) ao presidente da rep\u00fablica general Costa Gomes. Ramalho Eanes e muitos outros l\u00edderes militares apoiaram o documento. Costa Gomes, homem de esquerda, entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro tamb\u00e9m apontava para uma terceira via.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nO Documento dos nove (Melo Antunes, Vasco Louren\u00e7o, etc.) foge ao controlo do MFA no sentido de impedir o socialismo e de enveredar por uma terceira via que n\u00e3o a capitalista nem a socialista. Ao ser questionado sobre as raz\u00f5es de \u201cO Documento dos nove\u201d n\u00e3o querer que se seguisse um modelo de sociedade socialista de tipo sovi\u00e9tico, Vasco Gon\u00e7alves avisa:\u201cpergunto: que sinais de modelo sovi\u00e9tico haveria nas conquistas alcan\u00e7adas? N\u00e3o vieram todas elas a ser integradas na Constitui\u00e7\u00e3o de 1976, com a aprova\u00e7\u00e3o do Presidente da Rep\u00fablica, do pr\u00f3prio Grupo dos Nove, do PS e do PPD, al\u00e9m do Partido Comunista e do MDP\/CDE?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nVasco Gon\u00e7alves refere no livro \u201eVasco Gon\u00e7alves \u2013 Um General na Revolu\u00e7\u00e3o&#8221;: \u201cRecordo ainda que o New York Times, em Setembro de 1975, noticiava que<strong> a ajuda americana ao PS para combater o Quinto Governo seria canalizada por interm\u00e9dio da CIA, por meio dos partidos socialistas e dos sindicatos sob sua influ\u00eancia da Europa ocidental. Segundo a imprensa da \u00e9poca, o Presidente Ford disse que a opera\u00e7\u00e3o tinha custado apenas dez milh\u00f5es de d\u00f3lares.\u201d E cita que Carlucci (CIA) \u00abfoi um protector das for\u00e7as democr\u00e1ticas, designadamente do PS e de M\u00e1rio Soares\u00bb.<\/strong> Os EUA estavam preocupados porque do futuro de Portugal dependiam os seus interesses estrat\u00e9gicos em tr\u00eas continentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Datas cr\u00edticas do processo revolucion\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<strong>A 28 de Setembro de 74 organiza-se uma manifesta\u00e7\u00e3o da \u201cMaioria Silenciosa\u201d contra as expropria\u00e7\u00f5es,<\/strong> etc apoiada pelo Presidente General Sp\u00ednola; Otelo Saraiva de Carvalho do COPCON op\u00f5e-se e s\u00e3o organizadas barricadas nas estradas de acesso a Lisboa. Sp\u00ednola \u00e9 obrigado a demitir alguns generais conservadores e demite-se tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nO apoio do povo ao golpe de estado do 25 de Abril conduziu ao &#8220;Processo Revolucion\u00e1rio em Curso&#8221;(PREC), que constava do per\u00edodo que iria at\u00e9 \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o Portuguesa, em Abril de 1976. A extrema-esquerda colada ao PREC e formada pelo MDP\/CDE e a UDP, de vez em quando aliadas ao PCP, queriam implantar uma rep\u00fablica popular. Em 1975 a grande maioria dos 250 Deputados da assembleia Constituinte pertenciam ao PS, PPD e CDS, e defendiam a implanta\u00e7\u00e3o de uma Democracia constitucional de cariz semipresidencialista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<strong>A 11 de Mar\u00e7o<\/strong> de 75, um grupo revolucion\u00e1rio quer eliminar militares agrupados em torno do General Esp\u00ednola. A 11 de Mar\u00e7o Sp\u00ednola assume o comando tentando um golpe de estado contra-revolucion\u00e1rio mas falha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<strong>O 25 de Novembro (Ver\u00e3o quente de 1975)<\/strong> designa o \u201cgolpe militar\u201d em que as for\u00e7as moderadas militares conseguem impor-se \u00e0s for\u00e7as militares radicais de esquerda, iniciando-se assim a contra-revolu\u00e7\u00e3o dos moderados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<strong>Com os militares moderados apoiados pelo PS e do PPD obtiveram o apoio t\u00e1tico do PC. Este confirmou que n\u00e3o convocaria manifesta\u00e7\u00f5es para essa altura; os militares mais afectos ao PS conseguem tamb\u00e9m marginalizar mais de 1000 camaradas militares ganhando assim for\u00e7a contra os (&#8216;gon\u00e7alvistas&#8217;) e contra a Esquerda Militar Radical (&#8216;otelistas&#8217;). No dia 24 s\u00e3o cortadas as estradas de acesso a Lisboa. V\u00e1rias personalidades, entre elas, M\u00e1rio Soares, deslocam-se para o Porto ao Quartel Militar Norte na espectativa de um plano contra-revolucion\u00e1rio previamente estabelecido. O presidente da rep\u00fablica decreta o estado de s\u00edtio na \u00e1rea da Regi\u00e3o Militar de Lisboa, sendo aprisionados soldados de alta patente da extrema-esquerda revolucion\u00e1ria.<\/strong> <strong>O Regimento da Pol\u00edcia Militar da Ajuda rende-se tendo havido 3 mortos. Melo Antunes declara na RTP que o PCP: &#8220;\u00e9 indispens\u00e1vel \u00e0 democracia&#8221;. Consolida-se o regime partid\u00e1rio. No dia 27 os Generais Carlos Fabi\u00e3o e Otelo Saraiva de Carvalho s\u00e3o destitu\u00eddos, respectivamente, dos cargos de Chefe de Estado-maior do Ex\u00e9rcito e de Comandante do COPCON; Ramalho Eanes passa a ser o Chefe de Estado-maior Geral das For\u00e7as Armadas e o COPCON \u00e9 integrado no Estado-maior e a R\u00e1dio Renascen\u00e7a \u00e9 devolvida \u00e0 Igreja. Em consequ\u00eancia de manifesta\u00e7\u00f5es contra a pris\u00e3o de Otelo e outros militares, s\u00e3o mortas quatro pessoas e outras feridas.<\/strong> (http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Golpe_Militar_de_25_de_Novembro). <strong>A partir daqui a incompatibilidade ideol\u00f3gica que se encontrava nas casernas, entre os grupos das for\u00e7as armadas, passa para a sociedade na luta entre os partidos. PS, PPD e CDS acusam o PCP de estar envolvido nas insurrei\u00e7\u00f5es de 25 de<\/strong> Novembro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nEntretanto os cravos murcharam e, com eles, o sonho. <strong>Passaram-se os tempos dos fogos-de-artif\u00edcio e o sonho da canc\u00e3o de Abril, agora nas carruagens dos partidos, continua a ser m\u00fasica, por vezes, de embalar.<\/strong> S\u00f3 a bandeira portuguesa parece ser desfraldada, por alguns, com mais for\u00e7a! O cen\u00e1rio \u00e9 pintado com cores mais escuras. Hoje tudo berra mais alto porque a realidade ensombrece os sonhos. O povo portugu\u00eas iniciou a revolu\u00e7\u00e3o sem saber que ia sozinho para a festa. <strong>Uma revolu\u00e7\u00e3o feita por utopistas num Portugal incardinado na Europa (e n\u00e3o num oceano &#8211; Cuba), n\u00e3o poderia ir longe. A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a Europa e a Am\u00e9rica tamb\u00e9m n\u00e3o permitiam uma terceira via: tal como a ideia de Salazar de um imp\u00e9rio lus\u00f3fono n\u00e3o podia ter sucesso, num mundo dividido entre os interesses sovi\u00e9ticos e os interesses americanos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nHoje encontramo-nos numa crise que, em grande parte, n\u00e3o \u00e9 nossa mas que temos de aguentar e expiar porque por muitas sa\u00eddas que tiv\u00e9ssemos em mente a situa\u00e7\u00e3o enquadrante \u00e9 esmagadora: o capitalismo liberal internacional e o socialismo n\u00e3o permitem uma terceira via. Uma perspectiva digna de sonho, no sentido de se inovar uma terceira via, seria uma uni\u00e3o, no sentido de uma confedera\u00e7\u00e3o, entre os pa\u00edses lus\u00f3fonos o que pressuporia um longo caminho e, a princ\u00edpio, menos progresso imediato mas mais humanidade e felicidade (continua no pr\u00f3ximo artigo \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o marxista e a Contra-revolu\u00e7\u00e3o moderada\u201d)<br \/>\n<strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\nFormado em Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o (Portugu\u00eas e Hist\u00f3ria)<br \/>\nwww.antonio-justo.eu<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do que se fez e do que falta fazer Ant\u00f3nio Justo A can\u00e7\u00e3o de Jeca Afonso, \u201cGr\u00e2ndola Vila Morena\u201d, usada na R\u00e1dio Renascen\u00e7a como palavra de ordem para dar in\u00edcio \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, expressa o ideal da liberdade e da fraternidade, que como sonho nunca poder\u00e1 ser totalmente cumprido. 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