{"id":2729,"date":"2014-04-21T10:37:15","date_gmt":"2014-04-21T09:37:15","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=2729"},"modified":"2014-04-21T11:08:23","modified_gmt":"2014-04-21T10:08:23","slug":"repensar-a-revolucao-recriar-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=2729","title":{"rendered":"REPENSAR A REVOLU\u00c7\u00c3O &#8211; RECRIAR PORTUGAL"},"content":{"rendered":"<p><strong>Quadrag\u00e9simo Anivers\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o dos Capit\u00e3es de Abril<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ant\u00f3nio Justo<\/strong><br \/>\nComemoramos o quadrag\u00e9simo anivers\u00e1rio da revolu\u00e7\u00e3o dos capit\u00e3es. No imagin\u00e1rio popular permanece a imagem de armas a dar \u00e0 luz cravos. Quem foram os vencedores e os perdedores da na\u00e7\u00e3o? Numa data de \u00eanfase de mitos e feitos da revolu\u00e7\u00e3o, a sociedade precisaria de cabe\u00e7a fresca para a avaliar e melhor entender a realidade em que se encontra e, a partir da\u00ed, melhor poder construir um Portugal moderno e mais justo para todos. Os revolucion\u00e1rios de Abril eram, de uma maneira geral, pessoas idealistas a quem faltava o sentido da complexidade da realidade nacional e internacional bem como a compet\u00eancia para avaliarem da dificuldade do empreendimento da descoloniza\u00e7\u00e3o e da democracia. Embora os actores do 25 de Abril lutassem contra a ditadura e a repress\u00e3o, em defesa da igualdade e da sua liberdade, n\u00e3o conseguiram, no geral, criar uma sociedade mais justa, porque imbu\u00eddos do esp\u00edrito sovi\u00e9tico, sob o ardil dos \u201cIdeais de Abril\u201d. Assim, embora, a nova ordem trouxesse melhorias exteriores, a viol\u00eancia, a corrup\u00e7\u00e3o e o poder instalaram-se em nome de uma nova ideologia pretensiosamente popular. Vindos de um Portugal enevoado, vislumbraram a beleza do arco-\u00edris num horizonte risonho que logo quiseram reduzir \u00e0 faixa vermelha dos descampados alentejanos. <strong>Sob o lamir\u00e9 dos \u201cideais de Abril\u201d conseguiu-se confundir de tal modo o povo que, este, at\u00e9 hoje, ainda n\u00e3o se deu conta do que estava realmente por tr\u00e1s dos \u201cideais de Abril\u201d<\/strong> e se resumiam originalmente na institui\u00e7\u00e3o de uma ditadura popular, \u00e0 maneira sovi\u00e9tica, chinesa ou cubana. Os ideais da revolu\u00e7\u00e3o resumidos no programa do MFA parecem n\u00e3o ser entendidos para poderem continuar a ser sublimados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Antes t\u00ednhamos os liames da nobreza e da burguesia, hoje temos a confiss\u00e3o partid\u00e1ria e dos irm\u00e3os.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De uma burguesia que vivia dos caseiros passou-se a uma burguesia partid\u00e1ria que vive das benesses e privil\u00e9gios de um Estado irrespons\u00e1vel, sem esp\u00edrito laboral mas explorador dos contribuintes. O que o Estado recebe dos empres\u00e1rios s\u00e9rios e do povo trabalhador desperdi\u00e7a-o nas mordomias e na economia, incrementando pessoas sem personalidade \u00e9tica nem compet\u00eancia empresarial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A economia, a cultura e os M\u00e9dia precisariam de enquadramentos que lhes possibilitassem a forma\u00e7\u00e3o de for\u00e7a pr\u00f3pria para, deste modo, adquirirem uma certa independ\u00eancia da pol\u00edtica. S\u00f3 assim, se poderia criar, na na\u00e7\u00e3o, um equil\u00edbrio de for\u00e7as competitivas entre eles, que os tornaria em correctivos uns dos outros e possibilitaria a recria\u00e7\u00e3o de um estado que n\u00e3o fosse incubador do parasitismo. <strong>Urge<\/strong> s<strong>uperar a Rep\u00fablica burguesa-partid\u00e1ria e antipatriota.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cultura prom\u00edscua da Mediania e do Desenrasca<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema de Portugal \u00e9 a sua pequenez; nas suas elites acontece como nas irmandades ma\u00e7\u00f3nicas: toda a boa gente se conhece e se encontra sempre na disposi\u00e7\u00e3o de fazer bem ao amigo; isto num pa\u00eds de filhos e enteados! Temos uma elite portuguesa prom\u00edscua mas fechada, vinda de v\u00e1rios sectores (economia, justi\u00e7a, pol\u00edtica) formada por relativamente pouca gente e onde todos se conhecem e se apoiam reciprocamente; <strong>este factor proporciona o suborno e a corrup\u00e7\u00e3o institucional; possibilita uma esp\u00e9cie de mafia de luvas brancas, uma elite democr\u00e1tica de tesoura na cabe\u00e7a, tamb\u00e9m envolvida nos Media.<\/strong> A miscel\u00e2nea e demasiada confian\u00e7a entre eles fomentam um povo desprevenido! Neste ambiente \u00e9 natural que toda a gente aspire a ter um \u201camigo\u201d de cima, uma cunha grande. Assim se fomenta uma mentalidade do viver encostado; assim se constr\u00f3i uma cultura do desenrasca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Estado portugu\u00eas tem servido de encosto e de plinto de lan\u00e7amento das pessoas a ele encostadas; estas geralmente vindas dos partidos, sem experi\u00eancia laboral nem tradi\u00e7\u00e3o laboral familiar, s\u00e3o lan\u00e7adas tamb\u00e9m nas finan\u00e7as e nas grandes empresas onde o Estado\/Partidos asseguram lugares para os seus. <strong>Uma tal situa\u00e7\u00e3o conduz a uma economia sabotada, dependente dos parasitas do sistema, s\u00f3 podendo produzir pobreza ou gente remediada.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da burguesia econ\u00f3mico-cultural-pol\u00edtica tem-se dado sob o signo da mediania. <strong>O poder econ\u00f3mico e pol\u00edtico encontra-se, tal como antes do 25 de Abril, nas m\u00e3os de poucos que exercem a hegemonia sobre Portugal<\/strong>, nos diversos \u00e2mbitos sociais. Os l\u00edderes econ\u00f3micos e pol\u00edticos sofrem todos do mesmo mal; um problema de mentalidade, que atravessa todas as camadas da sociedade portuguesa, e vai do partido comunista, ao Bloco de Esquerda, ao PSD, ao PS, etc. Da\u00ed a falta de solu\u00e7\u00e3o. <strong>N\u00e3o h\u00e1 grupos propriamente concorrentes; a concorr\u00eancia d\u00e1-se apenas a n\u00edvel de rua, na demagogia partid\u00e1ria, num discurso manipulador e apelativo<\/strong> para um povo que n\u00e3o existe, porque tamb\u00e9m distra\u00eddo por noticiadores mais preparados para anunciar a banha da cobra do que para descrever a situa\u00e7\u00e3o real do pa\u00eds. Na Idade M\u00e9dia as grandes fam\u00edlias nobres estavam familiarmente interligadas, hoje s\u00e3o substitu\u00eddas pelos grandes grupos financeiros e pelas irmandades ideol\u00f3gicas e partid\u00e1rias a n\u00edvel europeu. Cada qual, na sua \u201cfam\u00edlia\u201e defende o seu feudo. <strong>A economia portuguesa n\u00e3o pode ser produtiva porque al\u00e9m de ter de manter a burguesia partid\u00e1ria com os seus tent\u00e1culos polvo, tem de reservar lugares de direc\u00e7\u00e3o para os amigos dos partidos ou das irmandades.<\/strong> Temos uma economia com empresas na depend\u00eancia do Estado que tem de dar lugares de emprego a gente da pol\u00edtica sem voca\u00e7\u00e3o nem forma\u00e7\u00e3o empresarial. Juntamos os defeitos da sociedade socialista aos da capitalista. A classe pol\u00edtica serve-se desavergonhadamente do Estado e da sociedade porque tem a sua rede de amiguinhos em todo o lugar. Neste ambiente n\u00e3o s\u00e3o precisas grandes discuss\u00f5es p\u00fablicas tem\u00e1ticas de fundo, basta vitamina c, lan\u00e7ar areia para o ar, ou culpar o estrangeiro, defeito que parece termos herdado da cultura mourisca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Consequentemente, as novas gera\u00e7\u00f5es (p\u00f3s 25 de Abril) receberam uma heran\u00e7a de gra\u00e7a que agora desemboca na crise. Acordamos num jardim zool\u00f3gico muralhado quando sonh\u00e1vamos a liberdade de passarinhos sem gaiola nem fronteiras. Equivoc\u00e1mo-nos ao pensar que o sonho era realidade e que a realidade era sonho. Julg\u00e1vamos que era poss\u00edvel uma sociedade s\u00f3 de acad\u00e9micos e de dan\u00e7arinos do poder, numa colectividade de cigarras sem formigas, \u00e0 maneira do conto de fadas da \u201cMulher, a Galinha e os Ovos\u201d; entregues \u00e0 dan\u00e7a e ao simplismo, os valores morais tornaram-se aleat\u00f3rios e demos cabo das boas escolas comerciais e industriais de ent\u00e3o. A revolu\u00e7\u00e3o, nascida mais da ideologia do que da realidade, desprezava o trabalho manual. A discrimina\u00e7\u00e3o do trabalho manual em rela\u00e7\u00e3o ao intelectual e a aposta na constru\u00e7\u00e3o do estado sem ter em conta a na\u00e7\u00e3o levou-nos ao estado em que nos encontramos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O 25 de Abril envelheceu deixando, os mais velhos, desiludidos dos marxistas, maoistas, comunistas, anarquistas que queriam uma mudan\u00e7a radical. Constatou-se que o sonho era s\u00f3 para alguns, como podemos verificar nas suas posi\u00e7\u00f5es, remunera\u00e7\u00f5es e pens\u00f5es.<br \/>\nSomos todos correspons\u00e1veis. Quando o indicador da nossa m\u00e3o aponta para a responsabilidade dos outros h\u00e1 pelo menos outros tr\u00eas a apontar para n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que resta \u00e9 acordar da utopia para a realidade: de boas inten\u00e7\u00f5es est\u00e1 o Inferno cheio. <strong>Ao irrealismo que domina a nossa matriz mental, o 25 de Abril veio acrescentar-lhe a utopia que aposta na sorte e na carta de cr\u00e9dito sem cobertura<\/strong>. Assim a terceira rep\u00fablica tornou-se no man\u00e1 dos oportunistas e num peso para o povo. Como povo com bolsa de pobres e boca de ricos continuamos a ser o melhor solo para os afortunados da vida e para uma corja de boys que proletarizam o povo e a \u00e9tica cultural que o sustenta. Estes conduziram o pa\u00eds \u00e0 depress\u00e3o desacreditando os valores do sonho de outrora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Precisam-se novos paradigmas que protejam as fam\u00edlias, o interior e a diversidade; ontem foi preciso dizer n\u00e3o \u00e0 ditadura na defesa da vontade popular, hoje \u00e9 preciso dizer n\u00e3o \u00e0 m\u00e1 governa\u00e7\u00e3o, \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, \u00e0 exclus\u00e3o social. V\u00ea-se que os valores de Abril s\u00f3 poder\u00e3o ter sustentabilidade com um plano de fundo crist\u00e3o. Sem a volta do povo e dos governantes ao esp\u00edrito crist\u00e3o que constitu\u00eda a identidade da na\u00e7\u00e3o, o futuro de Portugal ainda se tornar\u00e1 mais incerto e corrupto: se os que orientam os destinos da na\u00e7\u00e3o s\u00e3o corruptos que resta ao povo sen\u00e3o imit\u00e1-los!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O 25 de abril criou os seus pobres como o Estado Novo tinha criado os seus! N\u00e3o se encontra nenhuma forma de governo que prescinda dos pobres. Cada regime, com os seus representantes, serve-se dos pobres (povo) para se afirmar e para legitimar a continuidade da hist\u00f3ria, tal como cada um de n\u00f3s se serve da sua l\u00f3gica para levar a sua \u201craz\u00e3o\u201d avante! A Hist\u00f3ria encontra a sua continuidade nos diferentes regimes que se servem do gramado, da plataforma dos pobres! O povo continua o eterno ref\u00e9m dos regimes.<br \/>\nA Republica, e com ela, os sindicatos e os partidos, encontram-se imbu\u00eddos do esp\u00edrito antipatri\u00f3tico, sem consci\u00eancia de povo nem de na\u00e7\u00e3o. A rep\u00fablica, surgida do jacobinismo franc\u00eas e de irmandades internacionalistas desalmadas, foi dominada pelo pensamento de interesses de grupos e de individualismos inferiores e recalcados \u00e0 procura do sol burgu\u00eas. De nacional s\u00f3 t\u00eam um certo esp\u00edrito mafioso de encontrar por lugares esconsos, secretos e sombrios! O sol compensador da sua inferioridade, procuram-no no brilho que vem de fora; um fulgor corrupto de um meio, que eleva os chulos, de alardes consulares, aos camarins dos seus bord\u00e9is, onde o povo e a cultura s\u00e3o violados.<br \/>\nOs problemas n\u00e3o s\u00e3o de governos mas do desgoverno da governa\u00e7\u00e3o e da oposi\u00e7\u00e3o. Precisar-se-ia de uma mudan\u00e7a org\u00e2nica dos partidos; como a mudan\u00e7a s\u00f3 pode vir de dentro, a sociedade civil que se sente mais consciente e respons\u00e1vel, teria entrar nos partidos para possibilitar a sua mudan\u00e7a.<br \/>\nO problema da na\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 na sua corrup\u00e7\u00e3o e no Estado falido. O problema do pa\u00eds est\u00e1 no facto de n\u00e3o ter alternativa para as elites corruptas. H\u00e1 780 portugueses multimilion\u00e1rios com fortunas superiores a 25 milh\u00f5es de euros. Isto seria leg\u00edtimo se o povo andasse bem e enriquecesse nas mesmas propor\u00e7\u00f5es que eles enriquecem; o mesmo se diga dos altos funcion\u00e1rios e benefici\u00e1rios dos partidos.<br \/>\n<strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\nwww.antonio-justo.eu<br \/>\nFormado em Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o para Portugu\u00eas e Hist\u00f3ria<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quadrag\u00e9simo Anivers\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o dos Capit\u00e3es de Abril Ant\u00f3nio Justo Comemoramos o quadrag\u00e9simo anivers\u00e1rio da revolu\u00e7\u00e3o dos capit\u00e3es. No imagin\u00e1rio popular permanece a imagem de armas a dar \u00e0 luz cravos. Quem foram os vencedores e os perdedores da na\u00e7\u00e3o? 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