{"id":2343,"date":"2012-12-01T16:50:25","date_gmt":"2012-12-01T15:50:25","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=2343"},"modified":"2012-12-04T11:58:33","modified_gmt":"2012-12-04T10:58:33","slug":"a-vida-desafia-te-no-outro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=2343","title":{"rendered":"A Vida desafia-te no Outro"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><strong>O que \u00e9 que a Vida faz de ti<\/strong> <strong>e que queres fazer da tua Vida?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio Justo<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 meses encontrei um par de amigos embebidos um do outro: Ele esbelto e nobre, todo le\u00e3o, ela jeitosa e distinta, fazia lembrar uma gata persa. Viveram alguns meses primaveris mas j\u00e1 se nota neles o desgaste rotineiro, com o nevoeiro outonal a apontar para um inverno j\u00e1 sem folhas e com poucos vislumbres de nova primavera. Os dois s\u00e3o personalidades nobres e extraordin\u00e1rias, jovens ainda! Como todos, sofrem porque n\u00e3o notam que o que querem mudar e combatem no outro \u00e9 a pr\u00f3pria parte (polo) ainda oculta que cada um de n\u00f3s traz em si, sem se aperceber dela. Homem e mulher s\u00e3o dois polos duma mesma realidade: o Homem integral, a humanidade!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por vezes, perdem-se no jogo das escondidas, num tactear temeroso de interpreta\u00e7\u00e3o rec\u00edproca de gestos e inten\u00e7\u00f5es. \u00c9 certo que o gato, quando quer o carinho de algu\u00e9m, n\u00e3o se vem logo p\u00f4r no colo da pessoa. Primeiro come\u00e7a por encostar-se \u00e0s coisas que se encontram em redor dele, para se fazer notar, \u00e0 espera que se lhe passe a m\u00e3o, para, poder ent\u00e3o, prostrar-se a seus p\u00e9s. Neste rodeio esconde o seu orgulho e satisfaz a necessidade de maneira formal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Depois das intimidades primaveris est\u00e3o a acentuar a parte superficial (fenomenol\u00f3gica) do ser (o ego), num jogo fatal de distanciamento e aproxima\u00e7\u00e3o no tapete do pensamento. Ela ama-o profundamente mas tem medo de ser desiludida duma imagem de homem distante; ele ama-a tamb\u00e9m mas tem medo da desilus\u00e3o duma imagem de mulher distante. Chego a ter a impress\u00e3o que os dois se vingam, um no outro, da m\u00e3e (da mulher e do homem) em repara\u00e7\u00e3o duma inf\u00e2ncia inocente perdida. Adoram a m\u00e3e em actos de feminidade e masculinidade distorcidas. Nos intervalos lambem as feridas. Enquanto o cord\u00e3o umbilical subsistir, maior ser\u00e1 o desejo de liberdade e maiores ser\u00e3o as estrat\u00e9gias inconscientes para se n\u00e3o libertar da m\u00e3e (da fixa\u00e7\u00e3o num s\u00f3 polo). O corte do cord\u00e3o umbilical levar\u00e1 \u00e0 constru\u00e7\u00e3o dum eu n\u00e3o dependente, dum eu que integra o outro nele mesmo. Doutro modo este ser\u00e1 sempre um obst\u00e1culo a uma uni\u00e3o que se tornaria, inconscientemente, num obst\u00e1culo \u00e0 simbiose primeira e que se quer manter \u00e0 custa duma autonomia simulada. Na rela\u00e7\u00e3o, nuns acentua-se mais a necessidade de se definirem pela demarca\u00e7\u00e3o, noutros pela simbiose.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Os dois sofrem de dores que por mim passaram e passam: as dores que geram a diferen\u00e7a das esta\u00e7\u00f5es e deixam a voz do vento (tempo) nos cora\u00e7\u00f5es<\/strong>. Ele sofre porque a queria mas nota que ela resiste a ser \u00e0 maneira como ele a gera: \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a ou pior ainda \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de suas ideias e ideais. No seu sofrer, ele refugia-se nas alturas intelectuais da \u00e1guia, cada vez mais distante da natureza e mais queimado pelo sol da raz\u00e3o, n\u00e3o se apercebendo dele pr\u00f3prio, devido a tanto ver.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ela, hipersens\u00edvel, sofre praticamente da mesma raz\u00e3o. S\u00f3 que desce ao profundo dos sentimentos e, encharcada de tanta emo\u00e7\u00e3o, por vezes, pouco v\u00ea al\u00e9m dela, devido ao nevoeiro emocional que a envolve.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se n\u00e3o fosse o problema comum, realizariam neles o para\u00edso terreal antes da queda de Ad\u00e3o! Um problema conhecido de cada um, numa vida de espreita atr\u00e1s do tempo \u00e0 espera do pr\u00f3prio momento. Os dois sofrem como c\u00e3es de orelhas pendentes e de desejos castigados, e fingem coragem e soberania de um perante o outro: aquela soberania constru\u00edda que os impede de se encontrarem porque ainda n\u00e3o descobriram os opostos a descobrir, neles mesmos. Concebem a vida e o outro como dia com sol sem amanhecer nem anoitecer. N\u00e3o seria oportuno adiar a vida numa concep\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o chega viver um dia de cada vez! De facto, o nosso futuro pode ser atropelado pelo presente e afogado na cisma de porqu\u00eas e de solu\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Na resson\u00e2ncia da viv\u00eancia quero descer \u00e0 cave da vida e, contigo homem contigo mulher, fazer uma caminhada que \u00e9 vossa e minha. Quando falo de ti, \u00e9s tu e ele, ela e tu, e eu tamb\u00e9m! Em n\u00f3s se juntam os polos opostos dum acontecer mais abrangente mas que persistimos em esquecer! Esquecemos a lei da complementaridade duma realidade maior \u00a0e de que somos uma parte!<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Para possibilitares o verdadeiro encontro com ele\/ela, ter\u00e1s de te concentrar no teu \u00e2mago e deixar de viver na e da distrac\u00e7\u00e3o para te poderes reconhecer no todo e consequentemente nela\/nele tamb\u00e9m. Ao encontrares-te no todo j\u00e1 \u201ctens\u201d o outro que ent\u00e3o descobres em ti. Ele deixa de ser objecto, desejo ou projec\u00e7\u00e3o. A\u00ed no encontro descobres a humanidade, a tua plenitude, passando a sentir o prazer da resson\u00e2ncia da feminidade e da masculinidade (do eu e do tu no n\u00f3s), tudo em ti mesmo: os polos que pareciam antag\u00f3nicos ao serem reconhecidos como parte essencial de ti mesmo geram novas energias e uma criatividade de auto-realiza\u00e7\u00e3o. A mesmidade ilimitada que surge da viv\u00eancia da ess\u00eancia de si, de Deus e mundo no pr\u00f3prio centro, o eu-n\u00f3s espiritual, entra na resson\u00e2ncia da rela\u00e7\u00e3o pessoal e tudo compreende e supera. <strong>Ent\u00e3o torna-se natural reconhecer a pr\u00f3pria vulnerabilidade e nudez e deixar-se envolver e entregar ao outro; ent\u00e3o torna-se natural perdoar e pedir perd\u00e3o, desculpar e pedir desculpa; o perd\u00e3o limpa e purifica o nosso esp\u00edrito e fomenta a maturidade e a metanoia. As feridas causadas pelo querer ter raz\u00e3o revelam-se ent\u00e3o como sombras que encobrem o outro e n\u00e3o passavam, muitas vezes, de formas de autopuni\u00e7\u00e3o.<\/strong> Urge pedir perd\u00e3o tamb\u00e9m a n\u00f3s mesmos para podermos reconciliar os opostos e assim viver em paz connosco e com os outros. Torna-se importante pensar e questionar o pr\u00f3prio pensamento, para o poder ent\u00e3o sentir. Torna-se importante ordenar a hipersensibilidade para se poder integrar a racionalidade do outro. <strong>Como se v\u00ea, somos todos muito iguais e muito diferentes; somos constela\u00e7\u00f5es onde acontece e se cruzam o eu, o tu e o n\u00f3s.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Contas com o soalheiro da vida alegre mas n\u00e3o com o escuro da dor. <strong>A dor, por\u00e9m, \u00e9 a brisa que te leva para l\u00e1 do tu e do eu, o lugar onde o tempo descansa e se perscruta a eternidade. <\/strong>Quando chegas a esse lugar, o passado e o futuro descansam para dar lugar ao brilho da luz imortal a cintilar no teu interior. Quando a chuva cai e o vento norte zune no teu ser, procura descer as escadas da medita\u00e7\u00e3o at\u00e9 ao teu interior. Uma vez l\u00e1, sentes o calor da energia divina a subir em ti. Ent\u00e3o os nevoeiros do medo, da agress\u00e3o come\u00e7am a evaporar-se como o orvalho em manh\u00e3 risonha. A paz e a alegria penetram em ti e tu emerges num agora eterno. Ent\u00e3o as preocupa\u00e7\u00f5es, desejos e receios n\u00e3o passar\u00e3o dum bater distante de ondas \u00e0 superf\u00edcie dum mar profundo. Nesse oceano a minha alma ganha asas, chora, fala e canta e leva-me com ela ao cimo da montanha donde avisto o meu corpo, o meu ego, e sinto uma for\u00e7a maior que o puxa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na dificuldade, reservo alguns momentos para mim e come\u00e7o por inalar a for\u00e7a positiva, a gra\u00e7a divina, que sinto a soprar em mim. Ent\u00e3o o meu eu profundo e superior (ipseidade) \u2013 a minha perman\u00eancia e a subsist\u00eancia do mundo em mim &#8211; ilumina as dificuldades. Passo do pensamento e das sensa\u00e7\u00f5es para o estado da intui\u00e7\u00e3o. A\u00ed na cave do meu ser surge a fonte do bem e a energia da afirma\u00e7\u00e3o que transforma a disposi\u00e7\u00e3o negativa em humor positivo fazendo reconhecer e sentir o aroma e o colorido da vida. A\u00ed inspiro o bem, o belo e o amor num exerc\u00edcio de autossugest\u00e3o que me leva a sentir o amor universal. Passadas as camadas do ego entro no meu \u00e2mago que participa do ser divino, o meu eu espiritual. Neste estado da minha ipseidade brota a vida eterna, a sabedoria e a for\u00e7a \u2013 a vida divina envolta no meu ser terreno.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para embarcar e me compadecer com o outro com Deus e com o universo, n\u00e3o chega a introspec\u00e7\u00e3o, o discernimento; tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1ria a f\u00e9: a for\u00e7a positiva ascendente. No fluxo dos acontecimentos tamb\u00e9m o JC (Jesus) desceu aos infernos onde se encontram os indefesos e desamparados para os levar ao bem. Tamb\u00e9m eu, tamb\u00e9m tu descemos com ele para nele erguer a vida. \u00a0A experi\u00eancia da paci\u00eancia revela que tudo passa e que a gra\u00e7a, a benevol\u00eancia, tudo sustenta. O des\u00e2nimo leva-nos a olhar para o ch\u00e3o, prendendo-nos a ele. Fomos, por\u00e9m, feitos para andarmos direitos e quando ca\u00edmos nos levantar.<strong> <\/strong>Se, por vezes, nos encontramos encerrados na caverna, ao interiorizarmos a paci\u00eancia do sil\u00eancio, notaremos o sol que nela entra e nos puxa para o alto.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O desapego das ideias e das coisas, como ensinavam os padres da igreja, ajuda a suportar a bagagem dos medos, desejos e preocupa\u00e7\u00f5es que a vida traz consigo. Ao descermos ao interior da natureza entramos em sintonia com o universo reconhecendo nela e em n\u00f3s o sol e a sombra dele num jogo alegre com o destino. Se as sombras da frustra\u00e7\u00e3o desanimam, o perd\u00e3o d\u00e1 consola\u00e7\u00e3o e paz. A \u00e1gua da vida com as suas ondas, que \u00e0 primeira vista nos parece avassalar e empurrar para a margem, tamb\u00e9m nos suporta se tentarmos mergulhar no seu interior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O sol brilha para todos. Quanto mais abrirmos as folhas do nosso ego (autoestima exagerada), dominando-o, mais o sol penetra e d\u00e1 cor \u00e0 folhagem da nossa vida fazendo aquecer e pulsar o nosso cora\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o os estames brotam do nosso gineceu, o p\u00f3len voa e a seiva corre. A sombra das ideias negativas, as preocupa\u00e7\u00f5es materiais e espirituais afrontam-nos e muitas vezes nem notamos que o que traz o dia \u00e9 o Sol.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em tempos escuros, entro no sil\u00eancio do templo e, a\u00ed, aceito as dores do corpo e das emo\u00e7\u00f5es e, ao orar, esses la\u00e7os se desfazem passando a sentir uma realidade nobre. Ent\u00e3o as tempestades das ideias observadas do interior perdem as for\u00e7as das suas ondas e o intelecto transforma-se num mar calmo. A\u00ed j\u00e1 n\u00e3o guio a vida mas a vida guia-me em mim. <strong>No meu interior abre-se uma porta que d\u00e1 para o jardim do sil\u00eancio onde vive a sabedoria.<\/strong> Dele surge a for\u00e7a que arreda a dor. Chamaria a esse lugar, o jardim da Trindade onde o material e o espiritual, a tristeza e a alegria se encontram em ac\u00e7\u00e3o inspirada e n\u00e3o na reac\u00e7\u00e3o. Uma vez chegado ao \u00e1trio do sil\u00eancio notas todas as for\u00e7as em ora\u00e7\u00e3o e sentes os entretons e riqueza de bem\u00f3is e sustenidos para l\u00e1 das vozes do ego. A\u00ed no teu interior sentes o \u201cReino de Deus\u201d, a verdade em ti. Ent\u00e3o, sentado \u00e0 margem da ipseidade j\u00e1 longe das lutas do ego ouves o rumor do mar e do tempo a dar consola\u00e7\u00e3o. A natureza levanta-se e anda e seu cora\u00e7\u00e3o brilha e pulsa no Sol que chama toda a flora a erguer-se e a segui-lo. Ent\u00e3o Deus fala, tu e ela, ela e tu, n\u00f3s, com Deus, participamos do mist\u00e9rio. Deus beija a terra no Sol e beija o Homem na intelig\u00eancia. Ent\u00e3o no encontro com a natureza, Deus reza em n\u00f3s, para l\u00e1 do nosso est\u00e1dio de deserto, savana ou floresta virgem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A dor e as dificuldades s\u00e3o a nossa escola.<\/strong> Quando \u00e0 noite me envolvo no universo, apagam-se as luzes do meu orgulho e a nuvem da humildade cobre o deserto do meu ego. Na fraqueza sinto o surgir da for\u00e7a universal que me suporta e traz ao colo. Sinto ent\u00e3o a energia das ondas em mim, o outro lado da calma. As ondas e o movimento n\u00e3o deixam que a \u00e1gua do meu oceano apodre\u00e7a. Sim, o sal da vida \u00e9 doloroso e o desenvolvimento \u00e9 esfor\u00e7o, mas imagina a \u00e1gua do mar sem sal nem movimento&#8230; O azedo faz parte da vida; ele \u00e9 o sal que a tempera e lhe proporciona dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tenho de procurar a verdade tal como o bot\u00e3o procura o sol no verde para poder brilhar no colorido das p\u00e9talas. O que muitas vezes espero do outro \u00e9 simplesmente a satisfa\u00e7\u00e3o do meu ego, aquilo que o rebaixa a ele e me opia a mim. Tal como o verde das folhas se perde para ressuscitar nas cores da flor assim deve morrer o meu ego para poder ressuscitar na realidade do novo Ad\u00e3o (o meu eu profundo e nobre). Uma vez transformado o ego, encontro-me no ch\u00e3o da divindade onde se encontram as pessoas da trindade: ela, tu e eu, no n\u00f3s abrangente do Par\u00e1clito. A\u00ed a dor passa a ser o tempero e o movimento a rela\u00e7\u00e3o entre incarna\u00e7\u00e3o e ressurrei\u00e7\u00e3o. (Para mim, a Trindade \u00e9 a f\u00f3rmula da realidade toda numa). \u00c0 desilus\u00e3o na vida emocional e \u00e0 dor na vida corporal segue o louvor (agradecimento) na vida espiritual. A cruz apenas me acorda da mat\u00e9ria para o esp\u00edrito. \u00c9 necessidade inerente \u00e0 vida onde o sol brilha e Deus nos sust\u00e9m. <strong>Quanto mais alto fica o monte do calv\u00e1rio mais se avista da vida. A felicidade n\u00e3o se encontra ao n\u00edvel do pensamento porque este \u00e9 al\u00e9rgico \u00e0 dor e esta encontra-se no seio da natureza tal como o sangue no nosso corpo. <\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A vida \u00e9 feita de dor e alegria, como o dia contem a noite. Dor e alegria s\u00e3o mais que experi\u00eancia; s\u00e3o condi\u00e7\u00e3o vital. A fuga \u00e0 dor \u00e9 uma for\u00e7a instintiva do ego; \u00e9 pris\u00e3o \u00e0 concupisc\u00eancia sem compreender a necessidade da pris\u00e3o do ter pena de si mesmo. Por tr\u00e1s dos acontecimentos h\u00e1 energias. Muitos ideais religiosos pretendem uma reac\u00e7\u00e3o positiva a diferentes situa\u00e7\u00f5es. Autonomia e autoestima s\u00e3o valores de inter-relacionamento numa realidade do n\u00f3s em que floresce o tu e o eu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As bofetadas do destino est\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o com o ego, a zona inferior do ser. A chave para se apagar as dores exteriores encontra-se no interior do cora\u00e7\u00e3o. A for\u00e7a e a vontade exercitam-se resistindo \u00e0 fraqueza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o reajas ao primeiro est\u00edmulo ou \u00e0 primeira ideia; espera um pouco, conta at\u00e9 dez, n\u00e3o resignes. Se sentes \u00f3dio, imagina o sol do perd\u00e3o que abre o horizonte. Sofre com o outro a dor que ele talvez ainda n\u00e3o sente.<\/strong> <strong>Tem compaix\u00e3o \u2013 essa qualidade de sofrer e se alegrar com a natureza no outro. Se te queres superar, ora; na ora\u00e7\u00e3o &#8211; tamb\u00e9m na ora\u00e7\u00e3o secular \u2013 encontras a resson\u00e2ncia do todo no louvor e no perd\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 dias, uma pessoa amiga de 35 anos, em S. Jo\u00e3o da Madeira, pedalava numa bicicleta, quando seu cora\u00e7\u00e3o deixou de bater. Caiu para o lado, deixando dois filhos, de tr\u00eas e cinco anos, uma mulher e uma grande casa. A dor subiu \u00e0s casas deixando, banhadas em l\u00e1grimas, a fam\u00edlia e amigos. O meu amigo Toninha \u201cdesceu aos infernos\u201d banhado em l\u00e1grimas para depois \u201csubir aos c\u00e9us\u201d e nos poder receber com um sorriso, a n\u00f3s que lament\u00e1vamos a morte do seu filho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A dor extrema leva-nos ao conhecimento \u00faltimo sobre a realidade da vida. <\/strong>No centro do eu profundo, o instinto e o ego s\u00e3o iluminados. Nestes momentos nem a religi\u00e3o apresenta solu\u00e7\u00e3o para o mist\u00e9rio da vida, apenas ajuda a recuperar energias para novas etapas num processo de cont\u00ednua mudan\u00e7a que pressup\u00f5e um cont\u00ednuo repensar e metanoia. Em momentos tr\u00e1gicos, s\u00f3 o esp\u00edrito pode mover as energias latentes em n\u00f3s. Humildade e paci\u00eancia s\u00e3o o plinto para se superar a frustra\u00e7\u00e3o, o medo e a d\u00favida. As ventanias do destino obrigam-nos a agarrar-nos ou a deitar-nos ao ch\u00e3o para depois nos erguermos. \u00c9 a lei da vida. Tamb\u00e9m as rajadas do Outono tiram as folhas velhas das \u00e1rvores para darem lugar a novas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Resta-nos a generosidade e a compaix\u00e3o. Faz bem a quem te faz mal. Ao perdoar, domestico o pr\u00f3prio ego. Na compaix\u00e3o lavam-se as feridas da lembran\u00e7a e regeneram-se as l\u00e1grimas engolidas. \u201cPerdoai, como n\u00f3s perdoamos\u201d, diz o mestre da Galileia. Endurecimento \u00e9 lei da mat\u00e9ria mas n\u00e3o do esp\u00edrito. \u00c9 preciso mudar a configura\u00e7\u00e3o da vida para poder mudar-nos a n\u00f3s e mudar a sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como a natureza segue o sol tamb\u00e9m n\u00f3s temos de formar a vontade, uma vontade superior com uma meta teleol\u00f3gica a atingir. Para isso teremos de come\u00e7ar por nos perguntar o que queremos fazer da vida e o que a vida tem feito de n\u00f3s. Para seguires a vontade superior teremos de depor as armas do ego, que s\u00e3o as armas da convic\u00e7\u00e3o e do querer ter raz\u00e3o numa realidade descontextuada. Teremos de entrar na resson\u00e2ncia universal. Para isso, al\u00e9m de procurar o bem \u00e9 necess\u00e1rio entrar no relaxe corporal e espiritual, exercitando a f\u00e9 integral. A resist\u00eancia encontra-se em n\u00f3s procurando fazer passar toda a energia da vida pelo pequeno fio de resist\u00eancia que \u00e9 o nosso ego (eu inferior). O ego serve-se das muletas do pensamento e do sentimento filtrando tudo \u00e0 sua medida, encrustando a dor. Debaixo das ondas da dor descansa impercept\u00edvel a vida interior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 preciso penetrar para l\u00e1 das crustas f\u00edsicas, m\u00e1gicas ou mentais que constituem as \u00f3rbitas do ego, para poder entrar em esferas superiores na resson\u00e2ncia da compaix\u00e3o com o universo e com Deus que constitui o centro da ipseidade (eu nobre e profundo). Atrav\u00e9s do caminho da introspec\u00e7\u00e3o que conduz \u00e0 viv\u00eancia interior, o corpo e o esp\u00edrito entram em sintonia come\u00e7ando tudo a fluir no amor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para facilitares o acesso aos reflexos da gra\u00e7a e \u00e0 paz interior coloca-te numa posi\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel, inspira profundamente (respira\u00e7\u00e3o ventral) o sol e o amor e deita para fora a treva, expira os cuidados que tens em ti. Mergulha na energia divina, ela est\u00e1 em ti, est\u00e1 em tudo e cura tudo. Corpo e esp\u00edrito mesclam-se um no outro. O corpo \u00e9 express\u00e3o do esp\u00edrito tal como a natureza \u00e9 express\u00e3o do esp\u00edrito universal. <strong>Tudo surge do esp\u00edrito e se encontra a caminho dele. <\/strong>O universo vive em cont\u00ednuo dar \u00e0 luz, tu e eu, nele, tamb\u00e9m. A Terra regista no seu ser as diferentes regi\u00f5es naturais\/clim\u00e1ticas e tamb\u00e9m os ventos com as suas altas e baixas press\u00f5es que contribuem para um equil\u00edbrio de afirma\u00e7\u00e3o e repouso a caminho de nova fase. Tamb\u00e9m as pessoas variam entre o entusiasmo e a depress\u00e3o registando nelas as diferentes mudan\u00e7as. Constatado este fen\u00f3meno comum \u00e0 natureza e ao estado de alma das pessoas, h\u00e1 que intervir agindo para se n\u00e3o deixar ir na enxurrada de apenas reagir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Amiga, amigo, desce \u00e0 cave, despe-te da roupagem do ego que te n\u00e3o deixa sentir o calor e a maciez da pele do outro.<\/strong> Confia e confessa-lhe teus entusiasmos e m\u00e1goas. Desnudado e paciente transformar\u00e1s os ferimentos do outro, modificar\u00e1s aquelas dores que te fazem sofrer a ti e ao outro; elas transformar-se-\u00e3o em alegria para ti no outro. Em baixo, no ch\u00e3o da vida, nu experimentas a energia universal. Ent\u00e3o sentes a energia do movimento de rota\u00e7\u00e3o e transla\u00e7\u00e3o a convergir em ti e te descobrir\u00e1s, com o outro, a caminho do ponto Omega de Teilhard de Chardin. A\u00ed se junta a energia masculina e a energia feminina num s\u00f3 ser, o ser adulto. Ent\u00e3o as ideias negativas, que s\u00e3o o veneno do sentimento e do pensamento criam novos espa\u00e7os novas atitudes, salvando-vos um ao outro. Ent\u00e3o os g\u00e9neros n\u00e3o se juntar\u00e3o para se afastarem. Um n\u00e3o querer\u00e1 mudar o outro; n\u00e3o ser\u00e1 mais professor um do outro, mas sim aluno um do outro. Um \u00e9 a oportunidade existencial do outro para se poder desenvolver.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Desce \u00e0 cave mas descobre, ajoelhado (a), em ora\u00e7\u00e3o, na nudez assumida, a causa da resist\u00eancia dum ao outro que impede a mudan\u00e7a para uma nova ac\u00e7\u00e3o. Pela nudez passa e corre a \u00e1gua salutar que em v\u00f3s jorra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enquanto o ego for movido apenas pelas for\u00e7as centr\u00edpetas da intelig\u00eancia e da emo\u00e7\u00e3o o eu adulto e o outro ser\u00e3o desvirtuados. Ent\u00e3o ser\u00edamos meteoritos, que embora brilhantes, se encontram em queda livre, \u00e0 margem das for\u00e7as ordenadas nas \u00f3rbitras da cria\u00e7\u00e3o, faltando-lhe a liga\u00e7\u00e3o ao esp\u00edrito do todo que tudo sust\u00e9m (trindade!).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Filho do Homem veio em Jesus e no Cristo e n\u00f3s realizamo-lo tamb\u00e9m. Nele e em n\u00f3s se re\u00fane a deidade \u00e0 criatura. Esta \u00e9 a perspectiva: agir, ser senhor\/a, e n\u00e3o apenas reagir como faz o escravo\/a. At\u00e9 a Terra reconhece que n\u00e3o \u00e9 aut\u00f3noma, reconhece e d\u00e1 lugar ao Sol no seu ser. Fazemos parte duma ordem universal e do mist\u00e9rio para o qual importa orientar o nosso saber e sentir. Se entrares em ti, no \u00e2mago do ser, o esp\u00edrito te guiar\u00e1 e n\u00e3o o ego. <strong>N\u00e3o te tornes dependente; tens a gene do divino. Aceita a ordem universal a que pertences, n\u00e3o te tornes sat\u00e9lite e menos ainda meteorito<\/strong>. N\u00e3o te sobrecarregues nem sobrecarregues o outro. Cada dia traz, para cada qual, a sua carga e esta j\u00e1 \u00e9 suficiente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O fatalismo tal como a liberdade da vontade s\u00e3o verdades condicionadas. N\u00e3o podemos andar sem meta. Como o dia, trazemos em n\u00f3s o sol e a noite, a alegria e a dor, a transitoriedade e a eternidade. N\u00f3s somos o sentido do ser!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Antes de tentares mudar algu\u00e9m ou criticar uma situa\u00e7\u00e3o ou nega-la pergunta-te primeiro qual \u00e9 o ensinamento que ela te quer dar. Admite as leis da vida. N\u00e3o fujas nem fiques na c\u00e2mara escura do teu ser. Reconhece a luz. Se te orientares pelo esp\u00edrito as mazelas perdem o brilho que o ego lhes empresta. O bem vence sobre o mal embora aparentemente pare\u00e7a o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A dor duma pessoa centrada no ego (em si mesma) \u00e9 mais forte porque n\u00e3o tem sentido. S\u00f3 o tempo a apaga.<\/strong> O que se encontra nas esferas do esp\u00edrito ultrapassa o tempo, conduz a uma maior consci\u00eancia, uma compreens\u00e3o integral dum todo complementar; nela se experimenta o sentido profundo da vida que n\u00e3o se pode confundir com o sentido dos remos que a empurram.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A dor pode purificar o ego ego\u00edsta no sentido duma identidade superior. O ego identifica-se no acontecimento e perde-se na percep\u00e7\u00e3o do mesmo. As viv\u00eancias e experi\u00eancias s\u00e3o oportunidades para dominarmos os acontecimentos sem nos tornarmos v\u00edtimas deles. Para isso, \u00e9 necess\u00e1rio andar de bra\u00e7o dado com a vida no bem e no mal, para ir mais al\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se desejas mudan\u00e7a em ti ter\u00e1s de mudar o teu ambiente, se desejas a mudan\u00e7a do outro tens de te mudar a ti primeiro. Sem mudan\u00e7a n\u00e3o h\u00e1 futuro e o presente n\u00e3o passa de recorda\u00e7\u00e3o! A decis\u00e3o \u00e9 tua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s feridas que uma pessoa tem \u00e9 necess\u00e1rio deix\u00e1-las cicatrizar, doutro modo, quanto mais se arranha nelas mais elas sangram e se apoderam de ti. Se se torna dif\u00edcil colocar os vestidos no cavide, por outro lado, tamb\u00e9m a nudez n\u00e3o \u00e9 inocente\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se queres ser tu, tenta pensar e agir a partir do n\u00f3s! Nele fomos criados e a ele voltamos! De resto, \u201cama e faz o que queres\u201d (como dizia j\u00e1 Santo Agostinho)!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/p>\n<p><a href=\"mailto:antoniocunhajusto@gmail.com\">antoniocunhajusto@gmail.com<\/a><\/p>\n<p>www.antonio-justo.eu<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que \u00e9 que a Vida faz de ti e que queres fazer da tua Vida? &nbsp; Ant\u00f3nio Justo H\u00e1 meses encontrei um par de amigos embebidos um do outro: Ele esbelto e nobre, todo le\u00e3o, ela jeitosa e distinta, fazia lembrar uma gata persa. 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