{"id":2221,"date":"2012-04-21T13:54:10","date_gmt":"2012-04-21T12:54:10","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=2221"},"modified":"2012-04-21T13:54:10","modified_gmt":"2012-04-21T12:54:10","slug":"25-de-abril-%e2%80%93-o-despertar-duma-ilusao-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=2221","title":{"rendered":"25 de Abril \u2013 O Despertar duma Ilus\u00e3o (1)"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><strong><br \/>\n<\/strong><strong><\/strong><strong><\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"font-size: x-large;\"><strong>Gera\u00e7\u00e3o 68 \u2013 Revolu\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica e Religiosa<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio Justo<\/strong><\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o come\u00e7a no esp\u00edrito para s\u00f3 depois ganhar express\u00e3o pol\u00edtica. J\u00e1 antes do 25 de Abril and\u00e1vamos todos \u00e0 procura de bilhetes para a liberdade.<\/p>\n<p>Em 1959, Jo\u00e3o XXIII responde \u00e0 \u00e2nsia do mundo por inova\u00e7\u00e3o e emancipa\u00e7\u00e3o convidando todo o mundo ao \u201caggiornamento\u201d, \u00e0 mudan\u00e7a. Dos USA surgiam rajadas de ventos anunciadores da \u00e2nsia de emancipa\u00e7\u00e3o expressa na m\u00fasica Pop, Rock, Blues, Rolling Stones, Beatles, etc. no movimento hippie e no desejo de emancipa\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p><strong>O mapa do tempo e dos sentimentos p\u00fablicos eram determinados pela baixa press\u00e3o sovi\u00e9tica e pela alta press\u00e3o americana.<\/strong> Na altura o mundo encontrava-se todo em ebuli\u00e7\u00e3o. Sob o cen\u00e1rio da \u201cguerra fria\u201d, proliferavam os cen\u00e1rios das fronteiras ideol\u00f3gicas. As palavras de ordem da altura eram: \u201cProibido proibir\u201d, \u201cabaixo o Estado\u201d, \u201cseja realista, pe\u00e7a o imposs\u00edvel\u201d, \u201cn\u00e3o confie em ningu\u00e9m com mais de 30 anos\u201d.<\/p>\n<p>Este clima, al\u00e9m de fomentar \u00e2nsias e aspira\u00e7\u00f5es, favorecia a constitui\u00e7\u00e3o de <strong>redes revolucion\u00e1rias desde Moscovo, Cuba, \u00c1sia, Am\u00e9rica latina, Arg\u00e9lia at\u00e9 \u00e0 MPL (Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola), \u00e0 Frelimo (Frente de Liberta\u00e7\u00e3o de Mo\u00e7ambique) e ao Movimento dos Capit\u00e3es, depois MFA (Movimento da For\u00e7as Armadas portuguesas). <\/strong><\/p>\n<p>O movimento revolucion\u00e1rio servia-se tamb\u00e9m da arte para conseguir atingir a juventude e a burguesia p\u00f3s-guerra. Fermentavam a massa social de ent\u00e3o como os WikiLeaks, os Piratas, o Facebook , mainstream, a Internet e a ofensiva cultural \u00e1rabe no Ocidente fermentam a de hoje.<\/p>\n<p>Manifestava-se a reac\u00e7\u00e3o a uma jerarquia repressiva adversa a um novo sentimento de vida. <strong>Era o esp\u00edrito prolet\u00e1rio contrariador do estilo burgu\u00eas a afirmar-se; os filhos da segunda grande guerra formam ent\u00e3o uma gera\u00e7\u00e3o contestat\u00e1ria, a gera\u00e7\u00e3o 68. <\/strong><\/p>\n<p>Na sua fuga \u00e0 culpa e aos ressentimentos provocados pela segunda guerra mundial, a nova gera\u00e7\u00e3o manifesta-se extremamente sens\u00edvel \u00e0 paz, \u00e0 liberdade e a tudo o que lhe \u00e9 pr\u00f3prio; inicia <strong>uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o de emancipa\u00e7\u00e3o que envolve todas as camadas sociais<\/strong> e se manifesta no desenvolvimento tecnol\u00f3gico, na revolu\u00e7\u00e3o sexual, p\u00edlula, droga, etc. Arrumam tamb\u00e9m com Deus pois n\u00e3o querem reconhecer pai nem m\u00e3e.<\/p>\n<p>Neste ambiente o mundo fervia, subindo ao c\u00e9u, por todo o lado, um grito fumarento de liberta\u00e7\u00e3o contra a intoler\u00e2ncia dos outros. <strong>O Maio quente de 68 em Paris<\/strong> <strong>torna-se o s\u00edmbolo duma aut\u00eantica revolu\u00e7\u00e3o cultural em marcha<\/strong> (apesar disso, nesse ano foi assassinado Martim Luther King e falhou tamb\u00e9m a revolu\u00e7\u00e3o checa a favor dum socialismo humano).<\/p>\n<p>Movimentos jovens de contesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica v\u00e3o surgindo por todo o lado, enquanto, paralelamente, os activistas iniciavam uma corrida \u00e0s institui\u00e7\u00f5es instalando-se nelas. A ideologiza\u00e7\u00e3o do movimento levou tamb\u00e9m \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de movimentos subversivos que viam em Guevara (assassinado em 1967) o s\u00edmbolo da resist\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>O movimento dos Capit\u00e3es de Abril catalisa nele as for\u00e7as revolucion\u00e1rias de esquerda, ent\u00e3o bem organizadas por todo o mundo, e tamb\u00e9m o desejo emancipat\u00f3rio febril da juventude num tempo de mudan\u00e7a.<\/strong> <strong>A n\u00edvel pol\u00edtico, os espertos da ocasi\u00e3o viam no movimento das for\u00e7as armadas portuguesas o melhor instrumento para transpor para a Europa (Portugal) a realidade cubana.<\/strong> Na altura, a nossa gera\u00e7\u00e3o queria mudar o mundo, seguindo ingenuamente os \u201csinais dos tempos \u201e propagados e apostando no \u201cefeito borboleta\u201d das pequenas iniciativas. Nesta atmosfera \u00e9 de compreender os erros cometidos pelos homens de Abril na esperan\u00e7a dum lugar ao sol e o envolvimento do povo desejoso duma sociedade mais livre e justa.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Ventos frescos nos Cora\u00e7\u00f5es e nas Institui\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>(Um testemunho pessoal)<\/strong><\/p>\n<p>Na altura (66-71) encontrava-me no semin\u00e1rio de Manique do Estoril onde, Hippies, Beatles, Conc\u00edlio Vaticano II (1) e personalidades pac\u00edficas faziam florir, tamb\u00e9m nos seus p\u00e1tios, as melhores rosas e os melhores cravos de esperan\u00e7as virgens de liberdade e irmandade com todo o mundo. Era o tempo da teologia da liberta\u00e7\u00e3o, das comunidades de vida, \u00a0de novas ideias e iniciativas, a era duma nova educa\u00e7\u00e3o, a germinar por todo o lado. Era um tempo jovem!<\/p>\n<p>Lembro-me de, ent\u00e3o, organizar no semin\u00e1rio de Manique do Estoril cursos de alfabetiza\u00e7\u00e3o para pessoas adultas da regi\u00e3o e, nesses cursos, seguir devotamente o m\u00e9todo de Paulo Freire. No ar havia uma simpatia pela revolu\u00e7\u00e3o cultural de Mao Ts\u00e9-Tung e por tudo que cheirasse a inova\u00e7\u00e3o (N\u00e3o se imaginava que ele seria um dos maiores ditadores e aniquiladores de povo). Fiquei com a ideia de que Portugal n\u00e3o era t\u00e3o herm\u00e9tico como se cria, quando em 1969 mandei vir da China \u201cO Livro Vermelho\u201d de Mao, tendo tido a precau\u00e7\u00e3o de, ao encomend\u00e1-lo, escrever apenas como remetente: Justo, Instituto, Manique do Estoril. Cerca de um ano depois recebi da China v\u00e1rios exemplares com o meu nome e o endere\u00e7o completos. Ent\u00e3o, fiquei estupefacto com o caso.<\/p>\n<p>O processo revolucion\u00e1rio da gera\u00e7\u00e3o 68 pensava-o ent\u00e3o, numa perspectiva conciliar de religioso, como a continua\u00e7\u00e3o genu\u00edna da grande revolu\u00e7\u00e3o iniciada por Cristo (JC) com a diferen\u00e7a que o JC n\u00e3o pretendia como o nazismo, o socialismo, o turbo-capitalismo e o maometanismo impor uma forma de vida \u00e0 humanidade. O que observava l\u00e1 fora via-o como consequ\u00eancia do esp\u00edrito revolucion\u00e1rio pelo bem e pelo bem-comum que se encontrava dentro dos muros do semin\u00e1rio. Este esp\u00edrito, aliado a um esp\u00edrito de amor e justi\u00e7a, impregnava a nossa contesta\u00e7\u00e3o interna que se expressava em iniciativas teatrais como o \u201cBom Humor\u201d, o \u201cFestival da Can\u00e7\u00e3o\u201d e os \u201cTelejornais\u201d. Na altura rebelavamo-nos contra h\u00e1bitos e autoridades eclesi\u00e1sticas legalistas e contra h\u00e1bitos como a vestidura da batina em iniciativas e teatros engendrados pelo nosso \u201cGrupo do Bom Humor\u201d. O grupo actuava em festas da comunidade e noutras ocasi\u00f5es com teatros, festivais da canc\u00e3o, telejornais em que a vida do semin\u00e1rio, acontecimentos, atitudes, superiores e personalidades eram passados a pente fino pela cr\u00edtica humoral.<\/p>\n<p>A t\u00edtulo de exemplo: Numa festa p\u00fablica de vestidura da batina, em Manique do Estoril, onde estavam presentes, tamb\u00e9m, os familiares dos seminaristas que iam receber a batina, o \u201cGrupo do Bom Humor\u201d actuou e na pe\u00e7a teatral ridicularizou tal acto, o que provocou o desconsolo e a reac\u00e7\u00e3o da ordem estabelecida. Esta tinha confiado no \u201cbom senso\u201d do \u201cBom Humor\u201d para abrilhantar a festa. Depois do espect\u00e1culo, o director do Instituto chamou a contas o Padre Conselheiro, que era o ponto de liga\u00e7\u00e3o institucional com o \u201cGrupo do Bom Humor\u201d. O sacerdote l\u00e1 se desenfiou como p\u00f4de perante o Reitor e tomou a iniciativa de chamar o grupo a contas. Interessado em descobrir quem era o respons\u00e1vel do grupo e para poder estatuir um castigo exemplar, chamou a si, um a um, cada membro do grupo. Mas, como no grupo eram todos por um e um por todos, cada qual declarou ser o respons\u00e1vel do grupo<strong>. Deste modo foi conseguido, com humor e responsabilidade, estoirar com um princ\u00edpio de toda a autoridade institucional que \u00e9: castigar um por todo o rebanho, para que o medo a\u00e7aime a manada.<\/strong> Assim o superior n\u00e3o p\u00f4de castigar nem o grupo nem ningu\u00e9m. <strong>A solidariedade dum grupo arrasa montanhas.<\/strong> Uma institui\u00e7\u00e3o que conseguira acordar o sentido da rebeldia bem canalizada e mantida dentro duma ordem conformista, sente-se agora impotente perante o esp\u00edrito da responsabilidade que ela mesma propagava. O esp\u00edrito de liberdade e de respeito pela pessoa, transmitido \u00e0 imagem da pessoa do prot\u00f3tipo JC era o mesmo que questionava as incrusta\u00e7\u00f5es de regras, autoridades e institui\u00e7\u00f5es. A liberdade da experi\u00eancia do JC dava-nos for\u00e7a e legitimidade para toda a contesta\u00e7\u00e3o. Era uma contesta\u00e7\u00e3o vinda de dentro, n\u00e3o de fora. Perante o JC encontr\u00e1vamo-nos, superiores e subordinados na mesma plataforma do Seu seguimento. <strong>Este esp\u00edrito, ajudado pelos novos ares davam-nos for\u00e7a para quebrar com as correntes do h\u00e1bito e de obedi\u00eancias cegas a que grande parte dos superiores se encostava regaladamente.<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n<p>Os mesmos ventos da mudan\u00e7a eram comuns dentro e fora dos muros, embora com diferentes motivos e objectivos. Pessoalmente, mais tarde saltei o muro e na procura de mais liberdade e menos teias de aranha ingressei em partidos diferentes de Portugal e da Alemanha. Uma coisa constatei, o esp\u00edrito de rebanho e de manada \u00e9 muit\u00edssimo maior nas institui\u00e7\u00f5es seculares do que nas religiosas. Dentro dos muros dos conventos h\u00e1 mais liberdade que fora deles, porque nos conventos, apesar de tudo a pessoa \u00e9 rei. Quem liberta o esp\u00edrito e vive dele n\u00e3o conhece o medo da autoridade nem o c\u00e1lculo da oportunidade!<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Os oportunistas da Revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Veio depois a enxurrada da \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d do 25 de Abril e nela entra a arraia-mi\u00fada e a arraia gra\u00fada, numa viagem paradis\u00edaca, n\u00e3o atenta ao destino nem aos motivos da viagem. Era querida uma orienta\u00e7\u00e3o monocolor e pretendia-se meter a liberdade em uniformes ideol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>O autocarro de Abril partiu e o povo continuou na esperan\u00e7a de chegar a melhor. Sent\u00edamo-nos todos passageiros da liberdade, provindos dos mais diferentes meios, mas querendo construir uma sociedade com lugar ao sol para todos. Portugal estava todo inteiro, a caminho da liberdade, a caminho dum viver por viver. Ent\u00e3o, na rua, nas esta\u00e7\u00f5es olhos confidentes se trocavam numa atmosfera que se abria para um futuro risonho de espa\u00e7os abertos e na sequela dum chamamento de liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por alguns momentos fomos um povo unido e especial que atra\u00eda grupos das esquerdas dos mais diversos pa\u00edses; Portugal era a Roma do turismo pol\u00edtico de esquerda tal como era e continuou Cuba depois.<\/p>\n<p>No horizonte, aqui e acol\u00e1, nuvens de estragos se v\u00e3o acumulando. O esp\u00edrito que motivava os actores da revolu\u00e7\u00e3o era apenas pol\u00edtico sem contemplar o Homem todo nem Portugal no seu todo. <strong>Por isso o que a princ\u00edpio parecia uma revolu\u00e7\u00e3o revelou-se, com o tempo, ter sido apenas um golpe de Estado com os benef\u00edcios das mudan\u00e7as que na altura, noutros Estados europeus acontecia na normalidade.<\/strong> <strong>O ego\u00edsmo de grupos e \u201cpersonalidades\u201d da nossa pra\u00e7a, sem escr\u00fapulos, vai-se servindo da na\u00e7\u00e3o, deixando para o povo o sacrif\u00edcio da abnega\u00e7\u00e3o; mandam os santos para o deserto para se porem a si no nicho da reputa\u00e7\u00e3o. Os abrilistas ocuparam o c\u00e9u portugu\u00eas e hoje ainda t\u00eam o descaramento de desculparem a crise da na\u00e7\u00e3o na culpa dos outros. E o mesmo povo continua a ir na fita pensando que a culpa est\u00e1 neste ou naquele quando ela \u00e9 bem nossa que continuamos a dar paleio aos que encurralaram a esperan\u00e7as para si. Aquela alegria, aquela esperan\u00e7a e liberdade da rua que se julgava p\u00fablica, passaram a ser reservadas para os c\u00ednicos do poder que ocuparam o lugar que pertencia ao povo no dia-a-dia, na TV e noutros Meios de Comunica\u00e7\u00e3o social. Foi um sonho de pouca dura mas que levou o povo inocente e bom a interiorizar uma superficialidade libertina e a abdicar da dignidade, da honra e do respeito que provinham duma \u00e9tica de cunho respons\u00e1vel.<\/strong><\/p>\n<p>O povo confiante acorda agora molhado. Tamb\u00e9m deixou de ser fam\u00edlia universal com o cora\u00e7\u00e3o no mundo e nos povos ultramarinos para se tornar num canto europeu, num povo de dan\u00e7arinos de alma na rua saltando ao som de interesses an\u00f3nimos e ao ritmo da mesma cor. <strong>Cconstruiu-se uma liberdade que guarda a oportunidade para o mais forte, uma liberdade amarrada a ideologias e a interesses alheios e n\u00e3o uma liberdade de vis\u00e3o integral e respons\u00e1vel do n\u00e3o s\u00f3 mas tamb\u00e9m!<\/strong><\/p>\n<p>Organizaram-se ent\u00e3o campanhas revolucion\u00e1rias de liberta\u00e7\u00e3o e de reeduca\u00e7\u00e3o do povo. Tudo bem-intencionado e preparado para atrair a inoc\u00eancia de cren\u00e7as nobres.<strong> <\/strong>Para se responder ao desejo de inoc\u00eancia procura destruir-se a vergonha. Organizam-se, at\u00e9 em rec\u00f4nditas aldeias, sess\u00f5es de desflora\u00e7\u00f5es virginais em grupo; quer-se o comunismo, tudo maninho, querem-se as meninas, menos as que t\u00eam o dono presente; procede-se \u00e0 queimada de livros de \u201cfachos\u201d, etc. O que n\u00e3o serve a ideologia de alguns deve queimar-se ou arrumar-se. \u00c0 hora da direita segue-se a da esquerda e vice-versa. Esta \u00e9 a liberdade confinada aos que agora querem ter raz\u00e3o, como se tamb\u00e9m esta n\u00e3o fosse processo e s\u00f3 pertencesse a alguns. Agora assistimos ao instinto da inoc\u00eancia a vingar-se na resigna\u00e7\u00e3o. (A gera\u00e7\u00e3o de agora tem de reparar os estragos, tem de granjear-se a honra e o respeito que lhe foi roubado).<\/p>\n<p>A liberdade desencadeada deixa no ar o som de cadeados ca\u00eddos numa revolu\u00e7\u00e3o descontrolada de libertinagem b\u00e1rbara que se satisfaz no andar na vida por ver andar os outros. N\u00e3o h\u00e1 respeito por si mesmo nem pelos outros. Tudo \u00e0 pr\u00f3pria disposi\u00e7\u00e3o. Uma liberdade adolescente, irrespons\u00e1vel, que n\u00e3o conhece nada nem ningu\u00e9m; toda ela em nome duma culpa passada. Ego\u00edsmo puro que faz do outro cliente do pr\u00f3prio sentimento. A droga \u00e9 propagada, desinibe e o sexo ajuda a ideologia. Quem trabalhava e fazia pela vida era designado de \u201cfacho\u201d. Professores exigentes eram saneados e organizam-se os exames colectivos. Uma das causas da crise portuguesa de hoje est\u00e1 nesse esp\u00edrito leviano de ent\u00e3o que levou os estudantes formados, com as notas do grupo, a ocupar os lugares de responsabilidade das nossas administra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Uma revolu\u00e7\u00e3o que prometia tanto, com t\u00e3o boa m\u00fasica e fanfarra que abria as portas ao progresso desembocou no beco sem sa\u00edda duma gula de marcha limitada a ritmos de esquerda direita; meteu assim a terceira rep\u00fablica nos caminhos da bancarrota, tal como aconteceu na primeira. <strong>Her\u00f3is da revolu\u00e7\u00e3o, que o povo ainda canta, vivem com ordenados mastod\u00f4nticos e injuriosos, como nunca na Hist\u00f3ria houve, enquanto muito do povo vegeta com ordenados de mis\u00e9ria que n\u00e3o d\u00e3o para viver nem para morrer. Tudo acontece\u00a0 e se legitima \u00e0 sombra duma democracia que querem prostituta.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Partidos, sindicatos, grupos organizados, etc. instalam-se no aparelho do Estado. Numa guerrilha \u00edmpar de aumentar o pr\u00f3prio lucro e \u201chonra\u201d agregam-se \u00e0 volta do estado como chulos \u00e0 volta do bordel.<\/strong> Por todo o lado se encontram guardi\u00f5es da revolu\u00e7\u00e3o, c\u00e3es de guarda duma liberdade oferecida n\u00e3o conquistada mas em benef\u00edcio de adeptos e advers\u00e1rios. Privilegiados da revolu\u00e7\u00e3o agarram-se todos ao vermelho da ideologia ou da parceria perdendo o sentido pela riqueza das cores.<\/p>\n<p>A consci\u00eancia da liberdade partid\u00e1ria negligencia a liberdade pessoal e a descoberta da for\u00e7a das pr\u00f3prias possibilidades. Um na ilus\u00e3o \u00e1 espera de Gudot, outros na letargia virados para D. Sebasti\u00e3o; tudo se alinha nas ordens de marcha de grupos e de organiza\u00e7\u00f5es secretas enla\u00e7adas em coutadas de compadrio e na burocracia. Compra-se o indiv\u00edduo para se afirmar a jerarquia.<\/p>\n<p>A caminhada para o futuro viu reduzido o seu horizonte ao 10 de Dezembro de 1910 e aos resqu\u00edcios liberais napole\u00f3nicos. Um tradicionalismo obediente e a f\u00e9 nas raz\u00f5es do poder n\u00e3o conseguiram quebrar o bolor dum liberalismo mafioso e dum republicanismo ultrapassado, guardados na na\u00e7\u00e3o a sete chaves em gavetas intelectuais seguidoras dos excessos do Marqu\u00eas de Pombal. A vis\u00e3o ideol\u00f3gica impede o olhar pessoal e regional. Nas pistas dum futuro em liberdade esbarramos connosco, repetiindo os erros da 1. Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>No comboio da hist\u00f3ria, numa altern\u00e2ncia de cor, continuam os mesmos lugares reservados para os da nova oportunidade; <strong>o povo continua em bicha e sempre \u00e0 chuva, sempre \u00e0 espera nas esta\u00e7\u00f5es, sempre na \u00e2nsia dum comboio com carruagens para ele.<\/strong> Esperar na desesperan\u00e7a \u00e9 a sua condi\u00e7\u00e3o independentemente da cor da governa\u00e7\u00e3o.<strong> Para se entrar no comboio dos donos da raz\u00e3o e do arrazoar, \u00e9 preciso um compartimento, um vag\u00e3o do partido, do sindicato, do compadre, do ma\u00e7\u00e3o. A Hist\u00f3ria, sem her\u00f3is, deixa-se conduzir pela banalidade do quotidiano e afasta-se cada vez mais da arraia-mi\u00fada. Esta, por sua vez, revela-se massa, sem consci\u00eancia, sempre \u00e0 espera dum revisor que lhe cobre o bilhete.<\/strong> <strong>Uma elite \u00e0 trela dum Estado dominado pela insufici\u00eancia partid\u00e1ria e grupal n\u00e3o gera civis livres nem sequer her\u00f3is. Produz acomodados e mercen\u00e1rios, gera pol\u00edticos da capitula\u00e7\u00e3o a ideologias e \u00e0 subservi\u00eancia bo\u00e7al, n\u00e3o tolera her\u00f3is nem homens bons. Um povo unido tornou-se num povo humilde sempre vencido. Povo, sempre ao toque de caixa dos oportunos e que ent\u00e3o aplaudia e agora lamenta.<\/strong><\/p>\n<p><strong>(1)<\/strong> O Conc\u00edlio Vaticano II foi anunciado pelo Papa Jo\u00e3o XXIII a 25.01.1959, iniciado em 1962 e conclu\u00eddo em 1965. Com este encontro global queria-se renovar as estruturas encrustadas e fazer-se um agiornamento de ideias e pr\u00e1ticas em todo o mundo. Por todo o mundo se organizaram iniciativas de mudan\u00e7a que as igrejas nacionais atrav\u00e9s dos padres conciliares levariam a Roma. O movimento de 68 foi uma vers\u00e3o de estilo secular a uma revolu\u00e7\u00e3o que o Conc\u00edlio iniciara antes no sentido espiritual da renova\u00e7\u00e3o do Homem todo, no sentido de metanoia de cora\u00e7\u00f5es e institui\u00e7\u00f5es, no sentido de o \u201cHomem\u201d se tornar Homem.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"mailto:antoniocunhajusto@gmail.com\">antoniocunhajusto@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/\">www.antonio-justo.eu<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gera\u00e7\u00e3o 68 \u2013 Revolu\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica e Religiosa Ant\u00f3nio Justo A revolu\u00e7\u00e3o come\u00e7a no esp\u00edrito para s\u00f3 depois ganhar express\u00e3o pol\u00edtica. J\u00e1 antes do 25 de Abril and\u00e1vamos todos \u00e0 procura de bilhetes para a liberdade. Em 1959, Jo\u00e3o XXIII responde \u00e0 \u00e2nsia do mundo por inova\u00e7\u00e3o e emancipa\u00e7\u00e3o convidando todo o mundo ao \u201caggiornamento\u201d, \u00e0 &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=2221\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">25 de Abril \u2013 O Despertar duma Ilus\u00e3o (1)<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[3,14,4,5,6,7,8],"tags":[],"class_list":["post-2221","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte","category-economia","category-educacao","category-escola","category-migracao","category-politica","category-religiao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2221","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2221"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2221\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2222,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2221\/revisions\/2222"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2221"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2221"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2221"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}