{"id":2190,"date":"2012-02-13T18:13:46","date_gmt":"2012-02-13T17:13:46","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=2190"},"modified":"2012-02-13T21:05:59","modified_gmt":"2012-02-13T20:05:59","slug":"acordo-ortografico-segue-a-via-popular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=2190","title":{"rendered":"ACORDO ORTOGR\u00c1FICO SEGUE A VIA POPULAR"},"content":{"rendered":"<p><strong>Um acordo de empobrecimento da l\u00edngua e de interesses geoestrat\u00e9gicos<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio Justo<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n<p>O assunto n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, atendendo \u00e0s diferentes grafias (europeia, brasileira e africana) e aos interesses pol\u00edticos, econ\u00f3micos e culturais a elas subjacentes<strong>. O Acordo ortogr\u00e1fico vem beneficiar a grafia brasileira em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 grafia luso-africana da l\u00edngua portuguesa. Na sua forma possibilita assim uma maior concorr\u00eancia, salvaguardando sobretudo interesses geopol\u00edticos e econ\u00f3micos do Brasil.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O maior problema na g\u00e9nese e no processo do acordo, encontra-se, a meu ver, num <strong>esp\u00edrito simplicista e vulgar, em via desde h\u00e1 d\u00e9cadas, na pol\u00edtica cultural ocidental. <\/strong><strong><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O maior problema manifesta-se na acentua\u00e7\u00e3o e na supress\u00e3o das chamadas consoantes \u201cmudas\u201d, acabando-se assim com uma diferencia\u00e7\u00e3o etimol\u00f3gica insubstitu\u00edvel para a boa compreens\u00e3o das palavras.<\/p>\n<p>Para se perceber um pouco o fundamento dos que questionam o acordo e para se ter uma ideia da riqueza da exactid\u00e3o das palavras, apresento a etimologia das diferentes palavras portuguesas<strong>: facto, fato, fado e feito. As palavras portuguesas facto e feito v\u00eam da palavra latina factu (do verbo facere=fazer); a palavra portuguesa fado vem da palavra latina latim fatu. A palavra portuguesa fato (roupa exterior do homem) vir\u00e1 do germ\u00e2nico fat. A palavra facto (realidade, verdade) \u00e9 usada em todos os pa\u00edses lus\u00f3fonos excepto no brasil que usa a palavra fato para designar facto e fato.<\/strong> Deu-se assim um empobrecimento da l\u00edngua muito embora em benef\u00edcio do povo com menos forma\u00e7\u00e3o. (Apresento no final do artigo o exemplo de palavras provenientes do mesmo \u00e9timo latino para melhor se compreender a presen\u00e7a dum c ou dum p mudo na palavra, que levam \u00e0 pronuncia\u00e7\u00e3o aberta da vogal precedente). (Infelizmente em muitos dicion\u00e1rios virtuais j\u00e1 se abdica da diferencia\u00e7\u00e3o. For\u00e7as de interesse e ideologias procuram apagar os vest\u00edgios que os n\u00e3o servem. Isto acontece tamb\u00e9m no que respeita \u00e0 disponibilidade de termos e de sin\u00f3nimos no l\u00e9xico).<\/p>\n<p>Angola e Mo\u00e7ambique ainda n\u00e3o ratificaram o Acordo Ortogr\u00e1fico e naturalmente t\u00eam raz\u00f5es muito v\u00e1lidas para o n\u00e3o fazerem tal como os brasileiros e outros ter\u00e3o as suas para o fazerem. <strong>O \u201cJornal de Angola\u201d ao lamentar o empobrecimento etimol\u00f3gico dum acordo ortogr\u00e1fico que se orienta pelo portugu\u00eas falado ou pronunciado, mostra o bus\u00edlis dum acordo que se orienta por um simplicismo redutor, trai\u00e7oeiro e mercantilista.<\/strong> Aqui os Angolanos manifestam-se contra a corrente entr\u00f3pica ao exigir que \u201cos que sabem mais t\u00eam o dever sagrado de passar a sua sabedoria para os que sabem menos\u201d para n\u00e3o baixarem o seu n\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O problema acentuou-se pelo facto de muitas objec\u00e7\u00f5es n\u00e3o terem sido resolvidos j\u00e1 na g\u00e9nese que prepararia o acordo ortogr\u00e1fico. Comete um grande erro quem parte para um acordo com base apenas no portugu\u00eas falado. De lamentar seria naturalmente se n\u00e3o houvesse um acordo em defesa da l\u00edngua. Por muitos erros que se cometam \u00e9 melhor um acordo que nenhum; a n\u00e3o ser que se defenda a hegemonia do ingl\u00eas.<\/p>\n<p><strong>O acordo ortogr\u00e1fico beneficia os que falam pior a l\u00edngua.<\/strong> Por outro lado a l\u00edngua n\u00e3o se mantem dependente de quem a melhor pode falar: padres, juristas, linguistas e m\u00e9dicos pelo facto de saberem a l\u00edngua m\u00e3e, o latim.<\/p>\n<p><strong>O acordo \u00e9 necess\u00e1rio para possibilitar a afirma\u00e7\u00e3o do idioma portugu\u00eas no contexto internacional sem se atrai\u00e7oar a alma dos diferentes povos a veicular num portugu\u00eas de afirma\u00e7\u00e3o global.<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n<p>Os peritos que elaboram os acordos ortogr\u00e1ficos deveriam dominar bem o latim e o grego; especialmente o latim.<\/p>\n<p>O portugu\u00eas \u00e9 uma das l\u00ednguas chamadas rom\u00e2nicas, com a sua origem no latim, sendo uma evolu\u00e7\u00e3o deste. O latim na sua express\u00e3o cl\u00e1ssica manifesta um alto n\u00edvel intelectual e na sua express\u00e3o popular (l\u00edngua falada pelo povo: sermo vulgaris, cotidianus, plebeius, rusticus), com a sua riqueza fon\u00e9tica e morfol\u00f3gica, cria termos novos para expressar voc\u00e1bulos por ele desconhecidos do latim erudito.\u00a0 Deste modo enriquece a l\u00edngua, tal como hoje acontece com o portugu\u00eas vulgar (provincianismos, e outras formas de forma\u00e7\u00e3o, entre elas, os neologismos\u2026).<\/p>\n<p>A l\u00edngua latina suplantou as l\u00ednguas dos povos vencidos relegando, muitas vezes, as destes para dialectos. Na pen\u00ednsula ib\u00e9rica, s\u00f3 o basco lhe resistiu. A l\u00edngua latina abandonada a si mesma no povo, sem disciplina gramatical, na sua evolu\u00e7\u00e3o, deu lugar a diferentes falares ou falas que depois deram origem a l\u00ednguas. Um desses falares foi o galaico-portugu\u00eas (tamb\u00e9m l\u00edngua dos poetas) que, devido a circunst\u00e2ncias pol\u00edticas, deu origem aos idiomas, galego e portugu\u00eas. A evolu\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas j\u00e1 se pode documentar em monumentos e documentos notariais a partir do s\u00e9c. VII num latim b\u00e1rbaro (l\u00edngua falada pelo povo). A partir do s\u00e9c. XII os poetas apoderaram-se desse falar (galaico-portugu\u00eas) que no s\u00e9c. XVI se estabilizou no portugu\u00eas e no galego. A partir de ent\u00e3o temos o portugu\u00eas moderno como podemos ver em Cam\u00f5es.<\/p>\n<p>O latim afirmou-se por todo o lado. Na nossa l\u00edngua, encontram-se tamb\u00e9m com certa frequ\u00eancia, termos de povos invasores\u00a0 (cerca de 600 palavras usuais germ\u00e2nicas e cerca de 600 palavras usuais \u00e1rabes).<\/p>\n<p>O vocabul\u00e1rio da l\u00edngua portuguesa formou-se principalmente atrav\u00e9s do latim vulgar que se vai modificando atrav\u00e9s da fon\u00e9tica e da deriva\u00e7\u00e3o de termos populares; uma outra forma de forma\u00e7\u00e3o da l\u00edngua foi a via erudita que de proveni\u00eancia latina e grega se manteve mais pr\u00f3xima do padr\u00e3o original latim e grego. O portugu\u00eas tem uma fase arcaica que vai do s\u00e9c. XII ao seculo XVI e uma fase moderna come\u00e7ada no s\u00e9c. XVI (Cam\u00f5es).<\/p>\n<p>Para melhor se poder compreender as diverg\u00eancias no que respeita ao acordo ortogr\u00e1fico e apelar ao respeito pela etimologia da l\u00edngua, passo a dar exemplos da forma\u00e7\u00e3o de termos em que o mesmo \u00e9timo latino origina duas palavras diversas. O Acordo Ortogr\u00e1fico nas suas coordenadas gerais deixa-se orientar mais pela via popular ou vulgar. De notar que, hoje como ontem, as pessoas mais simples t\u00eam tend\u00eancia para n\u00e3o mastigar as palavras, ao contr\u00e1rio do que acontece no falar das pessoas mais eruditas.\u00a0 A maior trai\u00e7\u00e3o ao portugu\u00eas e \u00e0 alma do falante d\u00e1-se por\u00e9m na redu\u00e7\u00e3o das pessoas verbais (eu tu ele (ela,voc\u00ea), n\u00f3s v\u00f3s, eles (voc\u00eas). A l\u00edngua em vez de evoluir e de se diferenciar embrutece seguindo o princ\u00edpio da in\u00e9rcia, ao eliminar o v\u00f3s e ao evitar at\u00e9 o tu na linguagem falada (como j\u00e1 adverti noutros textos). Assistimos a um empobrecimento geral em quest\u00f5es culturais. A ignor\u00e2ncia n\u00e3o nota o que perde, ganha sempre!<\/p>\n<p>A palavra latina <strong>factum<\/strong> deu origem \u00e0 palavra portuguesa <strong>facto<\/strong> por via erudita e \u00e0 palavra <strong>feito <\/strong>por via popular.<\/p>\n<p>Simplificando: do latim <strong>focum <\/strong>originou-se <strong>foco<\/strong> por via erudita e <strong>fogo <\/strong>por via popular<\/p>\n<p>do latim <strong>legalem<\/strong> originou-se <strong>legal <\/strong>por via erudita e \u00e0 palavra <strong>leal<\/strong> por via popular<\/p>\n<p>do latim <strong>matrem<\/strong> originou-se <strong>madre<\/strong> por via erudita e \u00e0 palavra <strong>m\u00e3e <\/strong>por via popular<\/p>\n<p>do latim<strong> Hispaniam<\/strong> originou-se <strong>Hispania<\/strong> por via erudita e \u00e0 palavra \u00a0<strong>Espanha<\/strong> por via popular.<\/p>\n<p>do latim <strong>jactum<\/strong> originou-se <strong>jacto <\/strong>por via erudita e \u00e0 palavra <strong>jeito<\/strong> por via popular<\/p>\n<p>do latim <strong>alienare<\/strong> originou-se <strong>alienar<\/strong> por via erudita e \u00e0 palavra <strong>alhear<\/strong> por via popular<\/p>\n<p>do latim <strong>plenam <\/strong>originou-se<strong> plena<\/strong> por via erudita e \u00e0s palavras <strong>cheia, prenha<\/strong> por via popular<\/p>\n<p>do latim <strong>oculum <\/strong>originou-se <strong>\u00f3culo<\/strong> por via erudita e \u00e0 palavra <strong>olho<\/strong> por via popular<\/p>\n<p>do latim <strong>grandem<\/strong> originou-se <strong>grande<\/strong> por via erudita e \u00e0 palavra <strong>gr\u00e3o<\/strong> por via popular<\/p>\n<p>do latim <strong>angelum<\/strong> originou-se <strong>\u00c2ngelo<\/strong> por via erudita e \u00e0 palavra<strong> anjo <\/strong>por via popular<\/p>\n<p>do latim <strong>aream<\/strong> originou-se <strong>\u00e1rea<\/strong> por via erudita e \u00e0 palavra <strong>eira<\/strong> por via popular<\/p>\n<p>do latim <strong>arenam<\/strong> originou-se <strong>arena<\/strong> por via erudita e \u00e0 palavra<strong> areia <\/strong>por via popular<\/p>\n<p>do latim <strong>atrium <\/strong>originou-se <strong>\u00e1trio<\/strong> por via erudita e \u00e0 palavra<strong> adro<\/strong> por via popular<\/p>\n<p>do latim <strong>catedram<\/strong> originou-se <strong>c\u00e1tedra<\/strong> por via erudita e \u00e0 palavra <strong>cadeira<\/strong> por via popular<\/p>\n<p>do latim <strong>conceptionem<\/strong> originou-se <strong>concep\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0 por via erudita e \u00e0 palavra <strong>concei\u00e7\u00e3o<\/strong> por via popular<\/p>\n<p>do latim <strong>delicatum<\/strong> originou-se delicado por via erudita e \u00e0 palavra <strong>delgado<\/strong> por via popular<\/p>\n<p>do latim <strong>digitum<\/strong> originou-se <strong>d\u00edgito<\/strong> por via erudita e \u00e0 palavra <strong>dedo<\/strong> por via popular<\/p>\n<p>do latim <strong>dolores<\/strong> originou-se <strong>Dolores<\/strong> por via erudita e \u00e0 palavra <strong>dores<\/strong> por via popular<\/p>\n<p>do latim <strong>directum <\/strong>originou-se <strong>directo <\/strong>por via erudita e \u00e0 palavra <strong>direito<\/strong> por via popular.<\/p>\n<p>Desta observa\u00e7\u00e3o podemos concluir que o povo simples simplifica (via popular) e os eruditos preferem a clareza.<\/p>\n<p>Com acordo ou sem ele, cada pessoa deve ter a liberdade de escrever na grafia que aprendeu.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>(Com diploma para latim e grego)<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/\">www.antonio-justo.eu<\/a><\/p>\n<p>antoniocunhajusto@googlemail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um acordo de empobrecimento da l\u00edngua e de interesses geoestrat\u00e9gicos Ant\u00f3nio Justo O assunto n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, atendendo \u00e0s diferentes grafias (europeia, brasileira e africana) e aos interesses pol\u00edticos, econ\u00f3micos e culturais a elas subjacentes. 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