{"id":1971,"date":"2011-10-26T16:11:21","date_gmt":"2011-10-26T15:11:21","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1971"},"modified":"2011-10-26T16:24:24","modified_gmt":"2011-10-26T15:24:24","slug":"religiao-nao-e-renuncia-mas-participacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1971","title":{"rendered":"Religi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 Ren\u00fancia mas Participa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: large;\"><strong>Cristianismo \u00e9 Te\u00edsmo e Panenteismo<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio Justo<\/strong><\/p>\n<p>Os dogmas da religi\u00e3o e as teorias cient\u00edficas seriam mal-entendidos se fossem reduzidos a absolutos l\u00f3gicos ou a realidades factuais. Para nos relacionarmos e desenvolvermos precisamos da linguagem, de modelos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a crian\u00e7a para poder dar as primeiras passadas precisa da perspectiva dumas m\u00e3os dispostas a ampar\u00e1-la\u2026 Ver na crian\u00e7a a confian\u00e7a como algo alienante seria reduzi-la \u00e0 sua incapacidade de se transcender a si mesma. Muitos impacientes pretendem o Homem \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a, \u00e0 medida da sua medida, \u00e0 medida da sua consci\u00eancia, como se esta fosse um dado est\u00e1tico adquirido e n\u00e3o um processo e como se cada pessoa, cada sociedade n\u00e3o estivessem sujeitas a um processo de crescimento precisando de par\u00e2metros e duma pedagogia acompanhante. Uma religi\u00e3o aut\u00eantica n\u00e3o afirma s\u00f3 o ser, n\u00e3o divide o ser do fazer.<\/p>\n<p>J\u00e1 no Sinai o Deus da B\u00edblia revela: <strong>\u201cEu sou o que sou\u201d, \u201cEu sou o acontecer\u201d (\u201c sou o tornar-se\u201d).<\/strong> Isto \u00e9 testemunhado mais tarde na espiritualidade da trindade onde Homem (natureza) e \u00a0divindade transcendem a vis\u00e3o polar da realidade, revelando a Realidade como rela\u00e7\u00e3o. A visibilidade e a invisibilidade irmanam-se. O Homem, a natureza (= Jesus) n\u00e3o terminam em si, mas fazem parte duma realidade mais abrangente o Cristo, numa rela\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o bin\u00e1ria (bipolar)mas trinaria. A descoberta do eu no tu realiza-se no n\u00f3s da divindade. S\u00f3 podemos ser reconhecidos no trajecto, sendo muito embora mais que ele! A vida \u00e9 mais que um produto da natureza, ou que um dado acabado da raz\u00e3o, a seguir o caminho ef\u00e9mero do destino. Por tr\u00e1s de tudo h\u00e1 um chamamento, um Sol que atrai e aquece. E na raiz j\u00e1 se encontra o ser e a experi\u00eancia do Sol.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que a religi\u00e3o, por vezes, se circunscreve a uma asc\u00e9tica, a uma moral que exagera a ren\u00fancia ao mundo. Afirma em demasia a filosofia grega esquecendo a m\u00edstica joanina. Desvirtua-se ao manter na sombra a realidade trinit\u00e1ria, da incarna\u00e7\u00e3o-ressuscita\u00e7\u00e3o, onde em vez da lei da contradi\u00e7\u00e3o grega se realiza a lei da complementaridade. O Pai realiza-se no Filho e este assume a mat\u00e9ria, como parte dele mesmo, desencrostando-a para a divindade fluir nela. Aqui o monote\u00edsmo mitiga-se. Re\u00fane-se o te\u00edsmo (transcend\u00eancia) com o panenteismo = tudo em Deus: Deus d\u00e1-se ao mundo na cria\u00e7\u00e3o mas mantem-se ao mesmo tempo fora do mundo. O crist\u00e3o vive no e com o mundo em Deus, vive a realidade Emanuel. Ele cr\u00ea que n\u00e3o pode adiar para depois da morte o processo da morte e ressurrei\u00e7\u00e3o em via em n\u00f3s e j\u00e1 antecipada pelo Jesus no Cristo. Sabe que o processo vital n\u00e3o se deixa reduzir ao ser fenomenal nem a caminho, permanecendo atrav\u00e9s do tempo (diacronia). <strong>A Vida \u00e9 rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 no aqui e agora do espa\u00e7o e do tempo, n\u00e3o s\u00f3 na crosta do ser, mas especialmente no ser a acontecer.<\/strong> \u201cEu sou o tornar-se\u201d. As pessoas da divindade manifestam-se pela rela\u00e7\u00e3o e n\u00f3s participamos nela.<\/p>\n<p>Deus est\u00e1 acima das culturas e da opini\u00e3o como o Sol acima da terra e das pessoas, encontra-se fora e dentro delas. A sua ess\u00eancia \u00e9 amor fogo em tudo presente. Reduzir o corpo a ve\u00edculo de luz seria desconhecer o seu ser que \u00e9 luz. A luz n\u00e3o s\u00f3 est\u00e1 em n\u00f3s como tamb\u00e9m faz parte de n\u00f3s. Seria um retrocesso separar em n\u00f3s o Jesus do Cristo&#8230; Trata-se de descobrir o nosso ser de luz. No sangue, no esperma, na seiva e na semente encontra-se o amor que expressa a exist\u00eancia do mesmo Sol. Essa luz precisa duma crusta, dum ser, dum indiv\u00edduo, duma institui\u00e7\u00e3o para poder brilhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: large;\"><strong>Individua\u00e7\u00e3o sem recorrer \u00e0 nega\u00e7\u00e3o do outro<\/strong><\/span><strong> <\/strong><\/p>\n<p>Definir \u00e9 trair, por isso somos todos traidores inconscientes duma realidade que queremos nossa.No nosso desenvolvimento de crian\u00e7a para adulto atravessamos v\u00e1rias fases com as correspondentes crises. Assim, na adolesc\u00eancia temos a necessidade de negar os pais para nos sentirmos n\u00f3s. Muitos de n\u00f3s ficamos empancados na fase adolescente do combate contra o outro. A fixa\u00e7\u00e3o na pr\u00f3pria individualiza\u00e7\u00e3o leva-nos muitas vezes a negar os outros como se para nos branquearmos precis\u00e1ssemos da negrura dos outros. \u00c9 fatal construir a pr\u00f3pria individualiza\u00e7\u00e3o, a pr\u00f3pria opini\u00e3o na nega\u00e7\u00e3o do outro. De facto aquele que j\u00e1 se encontrou d\u00e1 uma chance ao outro, tamb\u00e9m, por estar consciente de fazer parte dele. Se emperramos nele \u00e9 sinal que n\u00e3o ultrapassamos a fase da puberdade.\u00a0 Abdicamos de crescer.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora no mercado das opini\u00f5es fala-se muitas vezes, de cor, como se fosse poss\u00edvel esp\u00edrito sem corpo, intelig\u00eancia sem c\u00e9rebro, cidad\u00e3o sem estado, crente sem igreja, democracia sem partido, bem sem mal. Aleatoriamente afirma-se, muitas vezes, a pr\u00f3pria colora\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito contra a institui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 liberdade pura, nem indiv\u00edduo nu; todo ele \u00e9 pessoa com os vestidos da cultura e a colora\u00e7\u00e3o das circunst\u00e2ncias do bi\u00f3topo de que faz parte. Um sistema precisa de suportes (regras mesmo transit\u00f3rias) sen\u00e3o rui, desfaz-se no caos. A beleza da rosa s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel devido \u00e0 m\u00e3e roseira. Muitas vezes afirmamos a beleza do nosso brilho de rosa negando ao mesmo tempo o verde e os espinhos da roseira: uma contradi\u00e7\u00e3o. Em nome do colorido da liberdade n\u00e3o se pode evitar o escuro nas cores.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 racioc\u00ednio isento, s\u00f3 procura. O pensamento procura a luz tal como o embri\u00e3o procura o sol: um e outro a caminho da verdade. A realidade existe no pensamento. Para o animal a realidade n\u00e3o existe porque ele faz parte dela. Para o homem ela existe no distanciar-se dela. A religi\u00e3o quer religar a realidade criada \u00e0 Realidade perene. A liberdade em si n\u00e3o existe, ela \u00e9 vida em processo de liberta\u00e7\u00e3o em execu\u00e7\u00e3o, um estar a caminho no caminho que se n\u00e3o fica pelo caminho; \u00e9 como o sol, o amor que se encontra a caminho no bot\u00e3o \u00e0 procura do Sol. Esse mesmo sol que era embri\u00e3o se tornou em bot\u00e3o. O mesmo calor que se manifesta nas cores da flor expressa-se na devo\u00e7\u00e3o do crente e no entusiasmo do investigador cient\u00edfico ou do fil\u00f3sofo. Tudo p\u00e9talas da mesma flor.<\/p>\n<p>Sonho e realidade s\u00e3o partes duma Realidade maior. O reino de Deus n\u00e3o \u00e9 exclusivo nem exclui. Ele comporta tamb\u00e9m o espa\u00e7o e o tempo, \u00e9 ser aqui e agora numa perspectiva abrangente, do Alfa para o Omega, a caminho com o universo. O Sol chama\/atrai toda a natureza e, mantendo-a embora inquieta, n\u00e3o se fixa na distin\u00e7\u00e3o entre os seres que desenvolve no seu chamamento. Tamb\u00e9m n\u00f3s irradiamos o nosso sol e a nossa escurid\u00e3o que se projecta no outro, e se manifesta em aceit\u00e1-lo ou em rejeit\u00e1-lo. Quanto maior \u00e9 a escurid\u00e3o dentro de n\u00f3s mais escuro vemos \u00e0 nossa volta, fora de n\u00f3s; piores nos parecem os outros, deixando de ser pr\u00f3ximos para os vermos como advers\u00e1rios. Esquecemos que a pr\u00f3pria raiva escura n\u00e3o passa duma queixa ou duma vingan\u00e7a por um raio de luz n\u00e3o recebido.<\/p>\n<p>Muitos est\u00e3o dispostos a reconhecer Jesus com o cora\u00e7\u00e3o mas rejeitam com o intelecto uma m\u00e3e que o d\u00ea \u00e0 luz. Negam assim a realidade de que sem m\u00e3e n\u00e3o seria poss\u00edvel o filho. Sem a recorda\u00e7\u00e3o, sem a mem\u00f3ria tamb\u00e9m n\u00e3o haveria futuro, por muito que a lembran\u00e7a, \u00e0 primeira vista, pare\u00e7a perda de tempo numa \u00e9poca que quer tudo j\u00e1. No reconhecimento da m\u00e3e chegamos a ser m\u00e3e duma realidade que n\u00e3o temos em m\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 que desesperar: por tr\u00e1s duma jovem prostituta esconde-se uma boa m\u00e3e.<\/p>\n<p>Somos todo povo a caminho em tens\u00e3o entre o passado e o futuro na viv\u00eancia do kairos. Mem\u00f3ria, imagina\u00e7\u00e3o, corpo e esp\u00edrito condicionam-se n\u00e3o se excluem. O ser tamb\u00e9m n\u00e3o se reduz \u00e0 consci\u00eancia dele. A religi\u00e3o quer abrir o caminho para novas dimens\u00f5es, outras esferas. Tamb\u00e9m ela se encontra a caminho; teremos que a purificar purificando-nos. Sempre que atiramos pedras \u00a0aos outros paramos no caminho da vida, petrificamos o nosso ser.<\/p>\n<p>Fala-se da fuga ao erro como se sem ele houvesse liberdade. Fala-se de realiza\u00e7\u00e3o pessoal como se ela fosse poss\u00edvel sem realiza\u00e7\u00e3o social. O erro \u00e9 uma parte integrante de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>A sociedade corre o risco de se tornar infantil e irrespons\u00e1vel refugiando-se do stresse em \u201cverdades ad hoc\u201d pr\u00f3prias, em autonomias distantes, dum querer ser s\u00f3 pai sem m\u00e3e nem filho, numa din\u00e2mica mete\u00f3rica sem perten\u00e7a nem sistema. Vivemos numa sociedade muito acelerada multiplicando, por isso, os res\u00edduos que alguns chamam de impurezas, os naturais v\u00edcios da acelera\u00e7\u00e3o. As verdades fixas s\u00e3o produtos da mente, a Verdade \u00e9 a realidade toda din\u00e2mica a acontecer em n\u00f3s, \u00e9 processo e n\u00e3o conceito.<\/p>\n<p>O preconceito dominante n\u00e3o deixa ver para al\u00e9m das embalagens das opini\u00f5es, fica-se pelo aspecto folcl\u00f3rico dos m\u00e9dia, da ci\u00eancia e da religi\u00e3o. O conte\u00fado seria inc\u00f3modo para os donos da economia e dos pelouros p\u00fablicos e para os formadores de opini\u00e3o. Pensar \u00e9 uma arte e reflectir faz doer.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Te\u00f3logo e Pedagogo<\/p>\n<p><a href=\"mailto:antoniocunhajusto@googlemail.com\"><br \/>\n <\/a><\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cristianismo \u00e9 Te\u00edsmo e Panenteismo Ant\u00f3nio Justo Os dogmas da religi\u00e3o e as teorias cient\u00edficas seriam mal-entendidos se fossem reduzidos a absolutos l\u00f3gicos ou a realidades factuais. Para nos relacionarmos e desenvolvermos precisamos da linguagem, de modelos. 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