{"id":1953,"date":"2011-10-13T18:50:01","date_gmt":"2011-10-13T17:50:01","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1953"},"modified":"2011-10-13T18:50:01","modified_gmt":"2011-10-13T17:50:01","slug":"com-o-pecado-nasceu-a-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1953","title":{"rendered":"COM O PECADO NASCEU A CULTURA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: large;\"><strong>A ruptura \u00e9 o princ\u00edpio do progresso<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio Justo<\/strong><\/p>\n<p>O cinismo hodierno quer-se branquear apresentando o pecado como algo fora de moda e que o reconhec\u00ea-lo constituiria um acto opressor. Pensa que ao destruir a consci\u00eancia da culpa se livra dela. V\u00ea no Deus criador um velho desmancha-prazeres. Por isso faz guerra a Deus no equ\u00edvoco de que acabando com Ele acabam com a culpa, com o mal. Ainda acredita, com Rousseau, que o Homem no seu estado natural \u00e9 bom e que s\u00f3 a cultura o estragou e corrompeu. \u201cO homem \u00e9 bom por natureza. \u00c9 a sociedade que o corrompe&#8221; , dizia ele. Esta vis\u00e3o corresponde \u00e0 atitude regressiva de Ad\u00e3o que, depois de seguir o acto racional da companheira Eva, teve remorsos e para evitar o inc\u00f3modo do medo quis desculpar-se para voltar \u00e0 \u201cvis\u00e3o beat\u00edfica\u201d animal de que gozava antes de seguir a racionalidade de Eva. Revela-se imaturo para assumir a coragem da culpa, aquela que o tornou Homem.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p><strong>Sem culpa\/d\u00edvida n\u00e3o temos homem nem cultura.<\/strong> <strong>A culpa torna-se numa d\u00edvida \u00e0 vida transmitida e quem acordou o Homem para a cultura foi Eva, atrav\u00e9s dum acto proibido.<\/strong> Por isso o parceiro ainda son\u00e2mbulo ter\u00e1 que a seguir sempre, na esperan\u00e7a duma natureza desperta. O Homem no estado natural n\u00e3o passaria do tempo em que era homin\u00eddeo, sem cortar o cord\u00e3o umbilical com a natureza. Ignora o salto do animal irracional para o animal racional, na alegoria de Eva, que ao distanciar-se da natureza se descobriu como ser diferente do ambiente que a circundava. Ao descobrir-se diferente reconheceu o criador que a projecta para l\u00e1 do horizonte da m\u00e3e terra e a ajuda a evoluir e a distanciar-se da irmandade homin\u00eddea para a reconhecer e seguir o pr\u00f3prio caminho. J\u00e1 n\u00e3o lhe chega o tecto das estrelas sobre a cabe\u00e7a; \u00e0 imagem do criador que criou a terra, o Homem cria a cultura e com ela um tecto metaf\u00edsico que o distingue dos irm\u00e3os animais e o ajuda a orientar-se nela. A natureza precisa duma atmosfera que a protege e o Homem precisa duma metaf\u00edsica que lhe d\u00e1 perspectiva. Como o Sol no c\u00e9u da natura assim Deus no c\u00e9u da cultura. <strong>O Verbo criou o mundo e o Homem criou a palavra, seu horizonte.<\/strong> Todos falam mas no falar \u00e9 que se distinguem. No que entendemos sobre a natureza e as coisas \u00e9 que est\u00e1 a diferen\u00e7a. Esta identifica-nos mas n\u00e3o \u00e9 suficiente para nos definir; implica a outra parte de n\u00f3s que \u00e9 a diferen\u00e7a que nos torna diferentes. Fatal \u00e9 o facto da teoria da evolu\u00e7\u00e3o se ficar pela diferencia\u00e7\u00e3o. Aqui parece que Rousseau n\u00e3o compreendeu que a maldade\/culpa humana \u00e9 natural, que n\u00e3o \u00e9 mais que a d\u00edvida da raz\u00e3o \u00e0 natureza irracional. A tarefa est\u00e1 em reconhecer natura e cultura como met\u00e1fora, como a chance de, com elas, nos tornarmos n\u00f3s com o todo.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>Hoje reconhecemos a depend\u00eancia m\u00fatua do bem e do mal que fazemos. O cristianismo aponta para \u00a0o aparente hiato entre natura e cultura que se realiza na irmana\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito e mat\u00e9ria na encarna\u00e7\u00e3o. Tem sempre presente a rela\u00e7\u00e3o eu-tu-n\u00f3s, n\u00e3o se limitando ao eu e ao outro. No cristianismo, pecado \u00e9 a perturba\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o com Deus, isto \u00e9 a perturba\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria do eu-tu-n\u00f3s. <strong>A cren\u00e7a em Deus \u00e9 uma procura dele, o direccionar-se do embri\u00e3o humano para o ser em bot\u00e3o.<\/strong> <strong>A verdade acontece na procura e n\u00e3o no saber. Este serve s\u00f3 a individua\u00e7\u00e3o, como se viu em Eva.<\/strong> O problema da \u00e1rvore do conhecimento do bem e do mal, penso que estar\u00e1 no facto de s\u00f3 se terem ficado pela dicotomia do saber. Ao comer da ma\u00e7a (da raz\u00e3o) descobrem-se nus, abrem os olhos. <strong>A proibi\u00e7\u00e3o acentua a liberdade de poder transgredir. A Hist\u00f3ria da cultura humana passa a ser um processo cont\u00ednuo de tentativa e erro numa din\u00e2mica de procura-tentativa-erro-decis\u00e3o e assim por diante. <\/strong>Deus criou o mundo e o homem e com este criou a cultura e com ela a sua perspectiva. Em Ad\u00e3o e Eva encontra-se a \u201cpr\u00e9-hist\u00f3ria\u201d e a \u201chist\u00f3ria\u201d na passagem do inconsciente para o consciente. A crian\u00e7a \u00e9 desculpada (vive de gra\u00e7a, n\u00e3o peca, n\u00e3o tem culpa) enquanto n\u00e3o comer do fruto proibido, enquanto n\u00e3o alcan\u00e7ar o\u201d uso da raz\u00e3o\u201d. Em Eva a humanidade alcan\u00e7a a consci\u00eancia de indiv\u00edduo. Esta experi\u00eancia \u00e9 dura como podemos ler nos G\u00e9neses, porque a individualidade da pessoa se reconhece na desobedi\u00eancia a Deus, na d\u00edvida do indiv\u00edduo ao todo. <strong>A consci\u00eancia do \u201cpecado original\u201d pressup\u00f5e a vis\u00e3o realista do ser humano e da natureza, uma natureza na tens\u00e3o de saber-se separada para se poder unir.<\/strong><\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p><strong>Com Caim a humanidade alcan\u00e7a um outro grau de consci\u00eancia, a consci\u00eancia do poder<\/strong>. Tamb\u00e9m este estado de consci\u00eancia \u00e9 doloroso e associado \u00e0 culpa porque se adquire \u00e0 custa do assass\u00ednio de seu irm\u00e3o Abel.\u00a0 <strong>Se um progresso humano acontece no distanciamento de Deus o progresso social d\u00e1-se na culpa de se afirmar \u00e0 custa do irm\u00e3o.<\/strong> Caim (agricultor) desenvolve a consci\u00eancia de ser pol\u00edtico reconhecendo os conflitos de interesses entre os seus interesses de agricultor e os interesses de Abel\u00a0 (pastor) e o mundo da m\u00e3e. Para se afirmar na sociedade rural e pastor\u00edcia, age egoisticamente matando o irm\u00e3o Abel.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>O pecado original (rebeli\u00e3o contra Deus \u2013 consci\u00eancia da individua\u00e7\u00e3o) de Ad\u00e3o e Eva associa-se, depois, ao desenvolvimento da consci\u00eancia de sociedade, o pecado social (pol\u00edtico) de Caim e Abel (rebeli\u00e3o contra o Irm\u00e3o, contra o grupo social). O Homem sente-se de princ\u00edpio condicionado ao mal ao pecado\/culpa. Para ser ele corta a rela\u00e7\u00e3o com Deus e depois dessolidariza-se socialmente matando o irm\u00e3o e consequentemente abandonando a m\u00e3e. <strong>O progresso pressup\u00f5e o abandono do seio materno e da tradi\u00e7\u00e3o que o protegia; deixa de ser uma comunidade solid\u00e1ria. Da\u00ed o seu sentimento de culpa.<\/strong> Perde a inoc\u00eancia de pertencer a um todo harmonioso e indivis\u00edvel. A inveja leva-o a assumir o poder. Culpa \u00e9 uma d\u00edvida \u00e0 vida transmitida. A raz\u00e3o procura dar um sentido ao caos. Para isso divide e separa para distinguir e afirmar-se.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: large;\"><strong>O pecado \u00e9 uma estrada para a verdade<\/strong><\/span><\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>A religi\u00e3o honesta n\u00e3o amea\u00e7a porque sabe que o que se encontra dentro tamb\u00e9m se encontra fora. Reconhece na pessoa que o \u00faltimo juiz est\u00e1 nela, para os crist\u00e3os na sua natura de Cristo. O afirmar da luz n\u00e3o justifica a nega\u00e7\u00e3o da sombra nem vice-versa. O Sol no seu trajecto (movimento que ele provoca fora dele \u2013 na sua periferia) implica a noite. Do Sol surgiu a noite dos seres, a sua sombra; esta \u00e9 mais que a sua (dele) express\u00e3o, mais que o brilho que dele reflecte.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>As esta\u00e7\u00f5es do ano constituem uma par\u00e1bola da vida revelada no livro (tempo) da vida. Sem as purga\u00e7\u00f5es (a tempestade e a escurid\u00e3o) do Outono e do Inverno, sem o descanso que a noite d\u00e1 ao dia, a vida desapareceria tal como as cores no branco. Somos mais que for\u00e7a direccionada. Toda a comunidade, toda a institui\u00e7\u00e3o tem um conte\u00fado (valores, experi\u00eancia) a transmitir atrav\u00e9s duma pedagogia, duma did\u00e1ctica. Identificar o conte\u00fado com a pedagogia seria equ\u00edvoco ou maldade.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>J\u00e1 o ap\u00f3stolo Paulo dizia<strong> \u201cOh feliz culpa\u201d<\/strong> alertando assim as pessoas para os bons frutos a colher do erro. O erro \u00e9 a estrada para a verdade. A religi\u00e3o estimula a consci\u00eancia a procurar e quer questionar para na espiritualidade experimentar o inef\u00e1vel.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>O esp\u00edrito cr\u00edtico \u00e9 muito importante para todo o desenvolvimento desde que se aplique para n\u00f3s o mesmo crit\u00e9rio que se aplica para os outros, desde que integrado num processo de responsabilidade. O adolescente tem a impress\u00e3o que os pais (a religi\u00e3o) pro\u00edbem tudo. Este sentimento est\u00e1 ao servi\u00e7o da sua individua\u00e7\u00e3o e sem ele n\u00e3o se tornaria adulto. Uma imperfei\u00e7\u00e3o n\u00e3o justifica a outra, mas, no mundo feito de imperfei\u00e7\u00f5es, \u00e9 leg\u00edtima a aspira\u00e7\u00e3o a uma imperfei\u00e7\u00e3o mais adequada. Problem\u00e1tico seria se o adolescente, para se afirmar, tivesse de rejeitar os pais. Na arena p\u00fablica digladiam-se embriagados da pr\u00f3pria raz\u00e3o. Tudo na fuga \u00e0 culpa que liberta. Tudo peca contra o outro. Ningu\u00e9m se confessa.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>Verdade e falsidade s\u00e3o dois polos do mesmo problema que passam pela opini\u00e3o, pela percep\u00e7\u00e3o intelectual. Os livros sagrados procuram expressar experi\u00eancias de vida e do sagrado em letras, num c\u00f3digo de regras, como se v\u00ea nos dez mandamentos. Revelam tamb\u00e9m o perigo que as normas tamb\u00e9m t\u00eam, o perigo de esconderem horizontes novos. \u201cO Homem n\u00e3o foi feito para o S\u00e1bado, mas o S\u00e1bado para o Homem\u201d, advertia o Mestre de Nazar\u00e9.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>H\u00e1 que ter em conta a realidade do pecado e da culpa n\u00e3o se fixando nele. O facto da jerarquia eclesi\u00e1stica ser constitu\u00edda por pessoas (limitadas) n\u00e3o nos isenta das pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es na cr\u00edtica ou louvor que fa\u00e7amos. (Abstenho-me de referir aqui os pecados da institui\u00e7\u00e3o Igreja porque esta j\u00e1 \u00e9 o bombo da festa dos de m\u00e1 consci\u00eancia e de grupos intolerantes organizados que dominam a pra\u00e7a p\u00fablica). O \u00f3ptimo \u00e9 inimigo do bom; ele tornaria a vida insuport\u00e1vel e neg\u00e1-la-ia. Verdade \u00e9 que sem partidos n\u00e3o h\u00e1 democracia por muito imperfeitos e repartidos que estes se encontrem e por muito inteiros que a perfei\u00e7\u00e3o os queira<strong>.<\/strong><\/p>\n<p>As institui\u00e7\u00f5es, como o indiv\u00edduo, correm o risco de, ao fugirem do perigo, ca\u00edrem na armadilha do medo ou de abusarem da sua situa\u00e7\u00e3o<strong>. <\/strong>O medo n\u00e3o est\u00e1 na religi\u00e3o mas no sistema sensorial do c\u00e9rebro, no sistema mais arcaico do c\u00e9rebro. Ao contr\u00e1rio, a ora\u00e7\u00e3o e a medita\u00e7\u00e3o mobilizam reservas cerebrais libertadoras dos medos artificiais. O erro, o mal s\u00e3o elementos essenciais \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o e ao desenvolvimento. (A tarefa do consciente ser\u00e1 descobrir jogos que o contorne sem o provocar). <strong>O Criador embutiu alguns erros na natureza para podermos fazer o mal quando fazemos o certo\u2026<\/strong><\/p>\n<p>\n S\u00f3 vemos o que os nossos olhos permitem ver; o que \u00e9 grave \u00e9 identificarmos o que se v\u00ea com a realidade como se esta n\u00e3o fosse mais ampla. Deus definiu-se como o \u201ctornar-se\u201d e n\u00f3s, \u201cfeitos \u00e0 sua imagem\u201d se nos definimos s\u00f3 como \u201co ser\u201d (a crosta) limitamo-nos a ser a tinta da palavra escrita mas n\u00e3o a Palavra\/acontecer.<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Te\u00f3logo,\u00a0 Pedagogo e Jornalista<\/p>\n<p><a href=\"mailto:antoniocunhajusto@googlemail.com\">antoniocunhajusto@googlemail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ruptura \u00e9 o princ\u00edpio do progresso Ant\u00f3nio Justo O cinismo hodierno quer-se branquear apresentando o pecado como algo fora de moda e que o reconhec\u00ea-lo constituiria um acto opressor. Pensa que ao destruir a consci\u00eancia da culpa se livra dela. V\u00ea no Deus criador um velho desmancha-prazeres. 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