{"id":1932,"date":"2011-10-05T15:52:41","date_gmt":"2011-10-05T14:52:41","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1932"},"modified":"2011-10-06T19:22:49","modified_gmt":"2011-10-06T18:22:49","slug":"duvida-nas-crencas-laicas-e-nas-crencas-religiosas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1932","title":{"rendered":"D\u00favida nas cren\u00e7as laicas e nas cren\u00e7as religiosas"},"content":{"rendered":"<p><strong><br \/>\n <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: large;\"><strong>Raz\u00e3o Religi\u00e3o e Espiritualidade<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio Justo<\/strong><\/p>\n<p>Na pra\u00e7a cursam, em nome da Verdade, contribui\u00e7\u00f5es aparentemente evidentes mas ao servi\u00e7o da desinforma\u00e7\u00e3o. Um nexo de irreflex\u00e3o camuflada de ideia abre caminho entre pessoas muitas vezes distra\u00eddas pela melodia acompanhante.<\/p>\n<p>\u201cQuem cr\u00ea n\u00e3o sabe\u201d, \u201cA religi\u00e3o inventa, a religiosidade descobre\u201d; \u201cA religi\u00e3o alimenta-se do medo, a espiritualidade da confian\u00e7a\u201d; \u201c o esperar e a incerteza atingiram, agora, o seu fim\u201d, apregoam os barateiros do mercado. Estes sabem que as pessoas anseiam por experi\u00eancia e segredos interiores, devido ao desencantamento do mundo. As pessoas querem ser reconhecidas e ser integrais numa sociedade que as despreza e divide continuamente. O que muitas pessoas procuram \u00e9 auto-realiza\u00e7\u00e3o. As ofertas do mercado, muitas vezes, reduzem-se a medidas de fuga de si mesmos e da responsabilidade social. O objectivo da espiritualidade n\u00e3o \u00e9 auto-realiza\u00e7\u00e3o. A religi\u00e3o n\u00e3o promete a seguran\u00e7a deste mundo e est\u00e1 consciente que a f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 (s\u00f3) desejo e anseio. A f\u00e9 implica uma d\u00favida colocada ao mundo. Pressup\u00f5e aceitar trazer consigo a cruz da d\u00favida. A espiritualidade n\u00e3o implica a liberdade de fugir \u00e0 raz\u00e3o. De facto quem cr\u00ea sabe e quem sabe cr\u00ea! A felicidade surge do estrume da dor.<\/p>\n<p>Tem-se a impress\u00e3o que, na feira da espiritualidade, tudo \u00e9 bom e se adquire, de gra\u00e7a. <strong>Depar\u00e1mo-nos com frases feitas, de mistura indiferenciada, com a pretens\u00e3o de revelar verdades a saldo, com tudo inclu\u00eddo no pre\u00e7o. <\/strong>E o p\u00fablico cansado, levado pela embalagem, sem se preocupar com o que se encontra dentro dela, aceita o embrulho pelo conte\u00fado. A m\u00fasica acompanhante \u00e9 t\u00e3o encantadora e o apelo ao sentimento t\u00e3o colorido que n\u00e3o deixa lugar para a enfadonha raz\u00e3o fazer perguntas. Para os negociantes da auto-realiza\u00e7\u00e3o o conte\u00fado \u00e9 arbitr\u00e1rio e o que lhes importa \u00e9 formar opini\u00e3o atrav\u00e9s da manipula\u00e7\u00e3o. Oferecem espiritualidade wellness a pacotes. A massa que anda na rua s\u00f3 tem no bolso uns trocos de cultura. N\u00e3o tem culpa, s\u00f3 aguenta pensamento barato, porque j\u00e1 traz carga a mais na sacola; a palavrinha m\u00e1gica que tudo justifica e faz das fezes ouro denomina-se \u201copini\u00e3o\u201d; opini\u00e3o n\u00e3o precisa de fundamento nem de argumenta\u00e7\u00e3o. O fundamentar enfraqueceria a convic\u00e7\u00e3o. <strong>&#8220;A principal causa dos problemas do mundo de hoje \u00e9 que os obtusos est\u00e3o segur\u00edssimos de si, enquanto que os inteligentes est\u00e3o cheios de d\u00favidas&#8221;\u00a0 Bertrand Russel. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Os agentes do mercado ideol\u00f3gico e econ\u00f3mico est\u00e3o empenhados em baralhar e destruir os ecossistemas culturais (Na\u00e7\u00f5es, religi\u00f5es, etc.) e at\u00e9 os pequenos bi\u00f3topos individuais. S\u00f3 lhes interessa o indiv\u00edduo, a opini\u00e3o, afirma\u00e7\u00f5es superficialmente l\u00f3gicas e estat\u00edsticas. O indiv\u00edduo, fora dum sistema, perde o significado e facilmente se vence (o ecossistema protege o indiv\u00edduo dando-lhe a possibilidade duma identifica\u00e7\u00e3o integrada). Os feirantes pretendem o caos recorrendo, para isso, ao dogmatismo da pr\u00f3pria opini\u00e3o. Quer-se no Ocidente pessoas revoltadas das religi\u00f5es e da cultura; pretende-se pessoas revoltadas contra o pr\u00f3prio ecossistema cultural e para n\u00e3o se ter de argumentar basta insurgir-se contra a autoridade do ecossistema, identificando autoridade com capitalismo, com imperialismo ou abuso, sem se proceder a uma an\u00e1lise fundada das vantagens e desvantagens de cada sistema, seja ele mais capitalista ou mais socialista. <\/strong>Quer-se a vida gratuita sem contrapartida como se a espiritualidade ou a religi\u00e3o fossem o Ex\u00e9rcito da Salva\u00e7\u00e3o. Um irrealismo baseado num optimismo ego\u00edsta superficial parece pretender que a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental se torne desconfort\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: large;\"><strong>Espiritualidade n\u00e3o \u00e9 o cl\u00edmax de welness espiritual<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Quem <strong>contrap\u00f5e religi\u00e3o a espiritualidade reduz o problema \u00e0 procura do sexo dos anjos<\/strong>. Deslumbrados com o brilho do jogo das palavras afirmam a espiritualidade e negam a religi\u00e3o, esquecendo que espiritualidade \u00e9 uma qualidade do espiritual e concretamente uma determinada viv\u00eancia religiosa: a experi\u00eancia de si em rela\u00e7\u00e3o com o outro num determinado contexto. Deixam-se enganar, como se uma qualidade existisse por si, como se um sentimento fosse poss\u00edvel sem corpo, ou se a espiritualidade se deixasse reduzir a um sentimento ou orgasmo espiritual.<\/p>\n<p><strong>A religi\u00e3o incorpora o esp\u00edrito em diferentes espiritualidades. Cada ecossistema religioso (religi\u00e3o) com as suas espiritualidades<\/strong> <strong>constitui um cosmo de contextualiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fico- hist\u00f3rica, cristalizado na l\u00edngua, nos seus credos e utopias: a atmosfera do ecossistema. <\/strong><\/p>\n<p>Diria a religi\u00e3o est\u00e1 para a vela como a espiritualidade para a sua chama. A espiritualidade, a luz s\u00e3o a ess\u00eancia da religi\u00e3o. O sol, a luz \u00e9 o movimento do movimento. O facto de a fome ser verdadeira e mais profunda que o aparelho digestivo, n\u00e3o nos justifica que neguemos a boca, devido \u00e0s c\u00e1ries dent\u00e1rias que esta possa ter.<strong> Uns negam a f\u00e9, outros a raz\u00e3o como se estas n\u00e3o fossem apenas os dentes para ajudarem a digerir uma mesma realidade dura. <\/strong>Por muito espiritualizada que queiramos a boca, a realidade pressup\u00f5e nela os dentes para conseguirmos uma alimenta\u00e7\u00e3o equilibrada. A espiritualidade, tal como a religi\u00e3o, embora razo\u00e1veis n\u00e3o se deixam aplainar pela rasoura da raz\u00e3o, apenas purificar. A raz\u00e3o p\u00f5e tudo em quest\u00e3o como se o seu questionar fosse a raz\u00e3o das coisas. A raz\u00e3o sincera, como a f\u00e9 sincera questionam-se a si mesmas. Uma e outra s\u00e3o como estrelas que nos levam a olhar para mais alto, para mais longe, sem negar o passado nem se agarrar a um futuro ilus\u00f3rio.<\/p>\n<p>Seria uma regress\u00e3o na hist\u00f3ria e no desenvolvimento querer ignorar o salto dado por Eva e voltar ao indefinido primitivo por muito gratificante que essa perspectiva se ofere\u00e7a. <strong>A religi\u00e3o alerta-nos para a necessidade de religar o que a raz\u00e3o separou mas sem abdicar dela.<\/strong> A religi\u00e3o n\u00e3o se pode ficar pela cren\u00e7a est\u00e1tica num para\u00edso distante nem t\u00e3o-pouco pela opini\u00e3o individual. Ela quer acordar para o Sol que se encontra em cada \u00e1tomo de n\u00f3s em cada pessoa e institui\u00e7\u00e3o, no dia e na noite, num processo de encarna\u00e7\u00e3o e ressuscita\u00e7\u00e3o. A Realidade encarna na terra para com ela se elevar.<\/p>\n<p>A Igreja aponta para Deus sabendo que a sua realidade se encontra no outro e n\u00e3o s\u00f3 nele. D\u00e1 uma perspectiva a uma espiritualidade n\u00e3o s\u00f3 pessoal. O facto de o Sol se encontrar em toda a natureza n\u00e3o pode ser reduzido a ela nem t\u00e3o-pouco a um seu elemento. A espiritualidade n\u00e3o \u00e9 o todo, n\u00e3o \u00e9 Deus. Se o fosse o eu n\u00e3o seria.<\/p>\n<p>A religi\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m um sistema humano organizado com regras ao servi\u00e7o duma pedagogia do divino onde as regras s\u00e3o para se dissolver tal como o sol dissolve o arco-\u00edris que ele mesmo originou. O arco-\u00edris, por\u00e9m, no seu ordenamento torna-nos conscientes para a multiplicidade da cor na luz: o humano no divino. Cada cor da verdade tem o seu momento. O orgulho duma raz\u00e3o iluminada esquece uma simples verdade: no mundo do ser a luz s\u00f3 se percebe olhando para o escuro \/ a sombra. A luz sem sombra implicaria a aus\u00eancia de todo o ser. O racionalismo puro produziria um Deus puro, indiferente ou com desprezo pela criatura. <strong>A arrog\u00e2ncia da luz dos racionalistas iluminados \u00e9 t\u00e3o perigosa como as trevas do fanatismo crente. As duas s\u00e3o fan\u00e1ticas porque excluem o outro, o diferente, de si. S\u00f3 reconhecem a pr\u00f3pria luz olhando para a escurid\u00e3o do outro, desconhecendo que a escurid\u00e3o do outro \u00e9 a sua luz.<\/strong><\/p>\n<p>A religi\u00e3o como supra-estrutura cultural acarreta consigo a divis\u00e3o e a limita\u00e7\u00e3o tal como a consci\u00eancia do eu individual pressup\u00f5e a auto-afirma\u00e7\u00e3o perante o outro (um certo confronto dial\u00e9ctico). A divis\u00e3o por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o fim mas sim o caminho para se chegar \u00e0 uni\u00e3o. Institui\u00e7\u00f5es como pessoas, no seu processo de individua\u00e7\u00e3o (afirma\u00e7\u00e3o e demarca\u00e7\u00e3o), obedecem a din\u00e2micas semelhantes. Tal como o indiv\u00edduo n\u00e3o termina em si mesmo tamb\u00e9m a sociedade n\u00e3o deve ser fim de si mesma; encontram-se num processo a caminho da comunidade num horizonte aberto (Alfa-Omega). As religi\u00f5es s\u00e3o sociedades com diversas espiritualidades em cada uma delas a caminho da unidade \/ comunh\u00e3o. A religi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais que uma ponte destinada a religar o separado, tal como a raz\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m uma ponte para o criado cient\u00edfico, s\u00e3o perspectivas cpomplementares da mesma realidade. O Cristianismo \u00e9 mais que uma religi\u00e3o; nele Religi\u00e3o e espiritualidade n\u00e3o est\u00e3o em contradi\u00e7\u00e3o e Deus e Homem tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p>Cada religi\u00e3o, com o respectivo Deus e correspondente mundivid\u00eancia de Homem e mundo, faz parte dum sistema de ecossistemas naturais e culturais, com express\u00e3o pr\u00f3pria mas com necessidade de interpreta\u00e7\u00e3o e de desenvolvimento. Para se poder falar com propriedade de termo, em quest\u00e3o de espiritualidades e de religi\u00f5es, teria de ser feita uma hermen\u00eautica das diferentes religi\u00f5es e culturas bem como das diferentes espiritualidades e \u00e9ticas.<\/p>\n<p>L\u00f3gica e dial\u00e9ctica habitam na mesma casa, n\u00e3o se podendo afirmar que religi\u00e3o \u00e9 l\u00f3gica e espiritualidade \u00e9 dial\u00e9ctica como pretendem manipuladores de conceitos metendo tudo no mesmo saco.<\/p>\n<p>A religi\u00e3o como a raz\u00e3o alimentam o ego para que este se torne semente numa terra (bi\u00f3topo) fecunda e ser \u00e1rvore na floresta da comunidade humana.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Te\u00f3logo e Pedagogo<\/p>\n<p><a href=\"mailto:antoniocunhajusto@googlemail.com\">antoniocunhajusto@googlemail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Raz\u00e3o Religi\u00e3o e Espiritualidade Ant\u00f3nio Justo Na pra\u00e7a cursam, em nome da Verdade, contribui\u00e7\u00f5es aparentemente evidentes mas ao servi\u00e7o da desinforma\u00e7\u00e3o. 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