{"id":1739,"date":"2011-03-07T11:02:19","date_gmt":"2011-03-07T10:02:19","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1739"},"modified":"2017-05-19T23:07:50","modified_gmt":"2017-05-19T22:07:50","slug":"caloiros-padrinhos-praxes-espirito-academico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1739","title":{"rendered":"CALOIROS &#8211; PADRINHOS &#8211; PRAXES &#8211; ESP\u00cdRITO ACAD\u00c9MICO"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: medium;\"><strong><strong>Ritualiza\u00e7\u00e3o e Institucionaliza\u00e7\u00e3o da Vaidade \u00e0 custa do Subordinado <\/strong><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">Tenho um amigo estrangeiro que frequentou dois semestres de estudos numa Universidade portuguesa e sofreu muito na \u201cSemana de recep\u00e7\u00e3o ao caloiro\u201d(1).\u00a0 Veio desencantado da Praxe Acad\u00e9mica (2) e do meio. A sua imagem de Portugal sofreu muito por causa de um certo \u201cesp\u00edrito reinante na universidade\u201d. Pelos vistos, na universidade que frequentou, reina um esp\u00edrito rude e uma certa arrog\u00e2ncia de classe! O pobre n\u00e3o sabia que \u201cmato n\u00e3o \u00e9 para ovelhas\u201d!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">A vida universit\u00e1ria marca o estudante numa fase importante da vida e deixa geralmente grandes la\u00e7os de amizade entre os companheiros de estudos. \u00c9 uma fase da vida especial! Nas praxes estudantis, a cumplicidade de actores na mesma ac\u00e7\u00e3o, embora, por vezes, problem\u00e1tica, vincula uns e outros no sentido de formar identidades. <strong>O ritual acad\u00e9mico, por vezes barb\u00e1rico, revela-se num grande factor de integra\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/span> As cerim\u00f3nias em torno do caloiro, al\u00e9m de promoverem o conhecimento de uns e outros, favorecem os que est\u00e3o sempre onde querem estar. Ajudam a mitigar a eventual dist\u00e2ncia de professores e a poss\u00edvel dureza da vida acad\u00e9mica. D\u00e3o oportunidade \u00e0 festa da vida!<\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">A pr\u00e1tica da Praxe chega a tornar-se num cavalo de batalha entre conservadores e progressistas. Como sempre, a ideologia entorna a vida. Importante \u00e9 manter a tradi\u00e7\u00e3o, ilibando-a de extremismos de atitudes, sem matar a tens\u00e3o, a criatividade de cada gera\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"><strong>Pr\u00e1ticas de humilha\u00e7\u00e3o do caloiro, demasiada import\u00e2ncia dada ao traje e alus\u00f5es directamente apelativas ao sexo e \u00e0 bebedeira, deveriam ser banidas dos rituais; doutra maneira d\u00e3o raz\u00e3o aos anti-praxe acad\u00e9mica.<\/strong> Esta tem a sua explica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e possui o valor psicol\u00f3gico e sociol\u00f3gico que tem; nao legitima por\u00e9m a humilha\u00e7\u00e3o nem a viol\u00eancia. Por vezes parecem impor-se aqueles que se aproveitam da praxe para se armarem em praxadores da afirma\u00e7\u00e3o pela diferen\u00e7a e pelo direito prepotente de quem se encontra \u00e0 frente: um mau exerc\u00edcio para homens e mulheres que um dia mais tarde assumir\u00e3o responsabilidade na sociedade. Apostar em valores como o respeito pelo traje, o exerc\u00edcio do poder, a import\u00e2ncia devida ao facto de se estar \u00e0 frente, n\u00e3o honram a classe.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">A dignidade humana, a distin\u00e7\u00e3o no agir acad\u00e9mico n\u00e3o podem contemporizar com atitudes ordin\u00e1rias e rebaixantes, atitudes de mau gosto ou mesmo fomentadoras do sadismo e do narcisismo, doen\u00e7a muito cultivada em Portugal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">As boas vindas aos estudantes mais novos e a ajuda \u00e0 sua informa\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o no meio acad\u00e9mico pode ser alcan\u00e7ada com ac\u00e7\u00f5es l\u00fadicas desinibidas e rituais espec\u00edficos. <strong>Mas faz\u00ea-los correr em cuecas, e submet\u00ea-los a certos ritos haka haka<\/strong> (Haca \u00e9 conhecida como performance de intimida\u00e7\u00e3o no in\u00edcio dos jogos) <strong>e outros actos ainda menos apetitosos, desvirtua o esp\u00edrito acad\u00e9mico em prepot\u00eancia neur\u00f3tica rebaixadora<\/strong>. O argumento de que ajuda a quebrar o gelo inicial n\u00e3o justifica os m\u00e9todos empregados para tal. Tamb\u00e9m nada h\u00e1 a opor aos padrinhos desde que eivados do esp\u00edrito de servir e n\u00e3o de esp\u00edrito mafioso. Doutro modo a Universidade em vez dum lugar de trabalho e de democracia torna-se na <strong>promotora de grupos de solidariedade limitada, em exemplo de tirania.<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"><strong>Esta pedagogia do privil\u00e9gio acad\u00e9mico, de uns dominarem sobre os outros, acentua a cultura da diferen\u00e7a e do posicionamento.<\/strong> Acentua-se e ritualiza-se a posi\u00e7\u00e3o do superior e do inferior. O poder \u00e9 aqui experimentado como abuso de hierarquias e n\u00e3o como autoridade. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"><strong>D\u00e1-se uma forma inici\u00e1tica \u00e0 hierarquiza\u00e7\u00e3o da prepot\u00eancia, arrog\u00e2ncia do \u201cdoutor\u201d sobre o caloiro, o z\u00e9-povinho. A justifica\u00e7\u00e3o da lei da \u201cDura praxis, sed praxis\u201d predestina esta classe doutoral de maneira fat\u00eddica \u00e0 legitima\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia f\u00edsica e psicol\u00f3gica dos de cima contra os de baixo (dos doutores contra os caloiros).<\/strong> O direito de estado antep\u00f5e-se \u00e0 lei e aos direitos da pessoa. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">Portugal \u00e9 um pa\u00eds extremamente assim\u00e9trico. O ran\u00e7o da Hist\u00f3ria foi conservado nas universidades e transmitido por sociedades secretas e organiza\u00e7\u00f5es afins. A consci\u00eancia disso deveria responsabilizar a Universidade que contribui, na pr\u00e1tica, (resssalvem-se exemplos dignos), para a ritualiza\u00e7\u00e3o e institucionaliza\u00e7\u00e3o da humilha\u00e7\u00e3o sub-rept\u00edcia que se expressa num sentimento de superioridade \u00e0 custa do subordinado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">Uma capa de estudante n\u00e3o s\u00f3 serve para encobrir mis\u00e9rias, muitas vezes encobre instintos prim\u00e1rios e atitudes irreflectidas que relegam o caloiro para o dom\u00ednio da animalidade (besta<strong>). O caloiro aprende de maneira ritual instintiva que os direitos dependem e v\u00eam dos manda-chuvas de cima.<\/strong> O valor n\u00e3o est\u00e1 nele mas na sua capa e nas rela\u00e7\u00f5es a estabelecer! O mesmo sente no ar a m\u00e3ezinha quando, na queima das fitas, v\u00ea o seu filho passear a import\u00e2ncia de \u201cdoutor\u201d. N\u00e3o se pretende, aqui, ser-se contra as tradi\u00e7\u00f5es acad\u00e9micas, trata-se \u00e9 de as domesticar e sublimar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">O estudante portugu\u00eas, muitas vezes, est\u00e1 habituado a ser pago pelos paizinhos, n\u00e3o tendo experi\u00eancia de trabalhos em caf\u00e9s, restaurantes, padarias, como acontece, em grande parte dos estudantes na Alemanha, que assim d\u00e3o um contributo para a sua manuten\u00e7\u00e3o e experimentam a vida real, aprendendo, na pr\u00e1tica, a considerar, como colegas, os que ganham 5 ou 6 euros \u00e0 hora! <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">A raiz de certos problemas comuns a uma certa elite portuguesa j\u00e1 se pode observar num meio acad\u00e9mico artificial. Muitos paizinhos esfalfam-se para poderem manter os meninos e meninas a estudar sem que estes se tornem conscientes da realidade da vida! Uma sociedade assim\u00e9trica, em que uma parte n\u00e3o sabe da outra, corre o perigo de continuar a ser cimentada na artificialidade da honra gratuita favorecedora do parasitismo e do comodismo das nossas elites.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/span><\/p>\n<p><a href=\"mailto:antoniocunhajusto@googlemail.com\">antoniocunhajusto@googlemail.com<\/a><\/p>\n<p>www.antonio-justo.eu<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(1)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Designa-se caloiro o estudante do primeiro ano de universidade.<\/p>\n<p>(2)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Praxe s\u00e3o tradi\u00e7\u00f5es, usos e costumes especiais acad\u00e9micos; t\u00eam grande relevo como ritos inici\u00e1ticos para integrar os caloiros na vida acad\u00e9mica; estes trazem sangue novo e nova vida ao mundo acad\u00e9mico. Estas tradi\u00e7\u00f5es da Universidade de Coimbra (por ex. queima das fitas) s\u00e3o assumidas por outras academias, com variantes espec\u00edficas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ritualiza\u00e7\u00e3o e Institucionaliza\u00e7\u00e3o da Vaidade \u00e0 custa do Subordinado Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo Tenho um amigo estrangeiro que frequentou dois semestres de estudos numa Universidade portuguesa e sofreu muito na \u201cSemana de recep\u00e7\u00e3o ao caloiro\u201d(1).\u00a0 Veio desencantado da Praxe Acad\u00e9mica (2) e do meio. 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