{"id":1648,"date":"2011-01-10T17:30:17","date_gmt":"2011-01-10T16:30:17","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1648"},"modified":"2011-01-10T17:30:17","modified_gmt":"2011-01-10T16:30:17","slug":"felicidade-%e2%80%93-um-bem-a-descobrir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1648","title":{"rendered":"FELICIDADE \u2013 UM BEM A DESCOBRIR"},"content":{"rendered":"<p><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Na infelicidade andamos desencontrados de n\u00f3s mesmos<\/strong><\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Justo<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>Numa altura em que vivia em comunidade, foi assinalada, com surpresa, a minha afirma\u00e7\u00e3o de viver feliz mas sem gozo.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>A felicidade, a alegria interior, n\u00e3o tem raz\u00e3o para o ser. Acontece no centro de n\u00f3s mesmos, \u00e0 margem de raz\u00f5es para isso. J\u00e1 o gozo n\u00e3o; ele depende das circunst\u00e2ncias, depende tamb\u00e9m do outro. Geralmente andamos \u00e0 nossa procura, angariando fora de n\u00f3s o que est\u00e1 dentro. Distra\u00eddos esquecemo-nos que dentro e fora s\u00e3o p\u00f3los duma mesma realidade mais profunda; a verdadeira viv\u00eancia (felicidade) acontece no centro de n\u00f3s mesmos onde se encontra um tesouro soterrado.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p><strong>No cruzamento do nosso corpo com o nosso esp\u00edrito encontra-se a onda de resson\u00e2ncia com o todo, com o universo.<\/strong> No ch\u00e3o (no nivelado) do espa\u00e7o e do tempo n\u00e3o h\u00e1 s\u00f3 a dimens\u00e3o do horizontal, a linha do passado e do futuro nem apenas a linha vertical do alto e do baixo, do c\u00e9u e da terra. A Realidade \u00e9 a-perspectiva, nela tudo fl\u00fai, tudo \u00e9 complementar. Os extremos tornam-se becos sem sa\u00edda, verdadeiros desvios da Realidade. A felicidade acontece no meio, no aqui e agora duma Realidade mais abrangente entre o p\u00f3lo material e espiritual. Os extremos tocam-se e no seu limiar ressoa a onda do transcendente e do imanente. Acontece incarna\u00e7\u00e3o e ressurrei\u00e7\u00e3o numa complementaridade de ci\u00eancia arte e religi\u00e3o.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>A felicidade depende de n\u00f3s, \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito, do n\u00f3s a caminho. A felicidade \u00e9 um fil\u00e3o que jorra no nosso \u00edntimo sem passado nem futuro, sempre presente na viv\u00eancia dum presente no todo a acontecer (kairos). N\u00e3o pode ser procurada no passado nem no futuro, na recorda\u00e7\u00e3o nem na aspira\u00e7\u00e3o. Estas s\u00e3o a parte de fora de n\u00f3s, uma vis\u00e3o numa perspectiva determinada. A\u00ed, as ideias e os sentimentos circulam sem n\u00f3s e at\u00e9 mesmo contra n\u00f3s. <strong>Do mirante do nosso intelecto apenas podemos fotografar a realidade, \u00e0 margem da mesma, com as tonalidades positivas ou negativas das nossas ideias que determinar\u00e3o a matriz (o negativo) dos nossos sentimentos<\/strong>. Aquele formata grande parte da vida que passa a ser uma cisma sobre ideias e sentimentos: um depender de ideias, um viver em segunda m\u00e3o. Em vez de actores da vida tornamo-nos espectadores perante um palco de ideias positivas ou negativas. Geralmente permanecemos numa ideia positiva ou negativa ampliada num sentimento de gozo ou de sofrimento. Por isso andamos desencontrados de n\u00f3s mesmos, longe da Realidade e consequentemente distantes da felicidade.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>Assim a procura da felicidade torna-se v\u00e3 pois n\u00e3o reconhece a realidade de n\u00f3s e do mundo. De facto, a vida, tal como a natureza tem altos e baixos, vales e montanhas, Inverno e Ver\u00e3o. Ela \u00e9 mudan\u00e7a sendo-lhe subjacente a alegria de viver. A felicidade n\u00e3o est\u00e1 no pensamento como o ano, a natureza, n\u00e3o se reduz ao tempo. A vida, a felicidade encontra-se na gra\u00e7a do viver.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>A realiza\u00e7\u00e3o de desejos \u00e9 apenas como a brisa que passa, que movimenta as folhas na sua superf\u00edcie dando-lhes o gozo da frescura. A mesma brisa, por\u00e9m, no Inverno acentua o sentimento do frio presente. Se reconhecemos, no nosso ser, o ser da temperatura, o frio e o calor ser\u00e3o apenas momentos da sua realidade. <strong>Se no Inverno nos tornamos infelizes por n\u00e3o termos o Ver\u00e3o procuramos fora de n\u00f3s o que est\u00e1 dentro de n\u00f3s, o ver\u00e3o e o Inverno, o gozo e o sofrimento. <\/strong>N\u00e3o podemos colocar a nossa felicidade no aparecer das folhas primaveris porque ent\u00e3o a sua perda no Outono trar\u00e1 consigo a lamenta\u00e7\u00e3o. O acto de dar \u00e0 luz \u00e9 processo, faz parte integrante do acto da gera\u00e7\u00e3o e da gesta\u00e7\u00e3o. \u201cNo princ\u00edpio era a Informa\u00e7\u00e3o (o Verbo) e esta se fez carne\u201d constatava Jo\u00e3o e Paulo tinha a experi\u00eancia do \u201cCristo (o Outro) vive em mim\u201d.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p><strong>O gozo e o sofrimento s\u00e3o como o ir e vir, como a melodia, em tom maior ou menor, do acenar das folhas das \u00e1rvores no passar do vento<\/strong>. Tamb\u00e9m n\u00f3s, como o tempo e o vento, sempre em fuga descontente, fugimos \u00e0 mudan\u00e7a na procura dalguma folha fixa. De n\u00f3s e da realidade registamos apenas a fuga, a passagem, as folhas puxadas pelo vento que caem no Outono, sem percebermos que na sua queda se abre um novo horizonte, que no cair da folha se mostra o ser da \u00e1rvore. O sentimento profundo da felicidade acontece na mudan\u00e7a, na metan\u00f3ia e n\u00e3o num momento cristalizado duma queda aparente. Nela a melodia da felicidade trespassa os tons do gozo e da dor.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>Num registo linear da vida somos levados a registar apenas os momentos de alegria e de sofrimento, numa realidade mais profunda. N\u00e3o somos s\u00f3 palco; somos mais que o tempo, mais que as esta\u00e7\u00f5es do ano, mais que obriga\u00e7\u00f5es e necessidades do dia a dia. Somos mais do que o clima e o tempo que parece e aparece.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>Partindo duma pedagogia dial\u00e9ctica para dominar o dia a dia, e chegarmos \u00e0 felicidade h\u00e1 que come\u00e7ar por abdicar de ideias e de sentimentos negativos e esperar pelo despertar da Primavera em n\u00f3s. Ent\u00e3o vir\u00e3o os passarinhos abrigar-se nos nossos ramos, nas hastes da nossa natureza e far\u00e3o nelas os seus ninhos. E n\u00f3s, como parte da sua melodia, ingressados no seu esp\u00edrito, estaremos, ent\u00e3o, preparados para tomar decis\u00f5es na resson\u00e2ncia com o todo.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>Estamos chamados a dar \u00e0 luz a realidade e n\u00e3o s\u00f3 a pens\u00e1-la a partir do de fora dela. Ser\u00e1 preciso ger\u00e1-la no nosso interior e libertar-se dela, num acto de partilha e liberta\u00e7\u00e3o, como o da parturiente\u2026 Para isso h\u00e1 que mobilizar a vontade na descoberta da ess\u00eancia do nosso ser e descobrir o ciclo das pr\u00f3prias depend\u00eancias e h\u00e1bitos. Ent\u00e3o reconheceremos em n\u00f3s a ess\u00eancia da natureza com as suas esta\u00e7\u00f5es \u00e0 superf\u00edcie, o nosso ser de \u00e1rvore que para dar novos frutos (alegria) perde as folhas (sofrimento) arrastadas pelas ventanias do Outono. Pressup\u00f5e-se um processo de desprendimento de ideias e de desapego de sentimentos, um deixar de ter e possuir para ser. Abertura e desprendimento n\u00e3o significam engolir sem mastigar mas pressup\u00f5em uma atitude de reconhecimento e agradecimento perante tudo e todos. Tudo \u00e9 oferta, e, uma vez em sintonia com o todo tornamo-nos benevolentes, passando a aben\u00e7oar-nos ao aben\u00e7oarmos o mundo.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>A alegria antecipada \u00e9 a irm\u00e3 do medo. Podem, por vezes, implicar al\u00edvio. N\u00e3o \u00e9 o outro que me pode tornar feliz ou infeliz; com ele posso ser feliz. N\u00e3o se trata de ter uma alegria, um gozo ou uma tristeza. A felicidade acontece a n\u00edvel n\u00e3o do ter mas do ser. Ela vem de dentro e n\u00e3o de fora. De fora vem o gozo e o sofrimento que se d\u00e3o no ego. Muitas vezes usamos como substitutos da felicidade o sexo, o \u00e1lcool, a comida. Procuramos apenas ter, dominar e receber reconhecimento, quando o essencial seria procurar entrar na resson\u00e2ncia com o outro.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>A felicidade \u00e9 um estado que suporta o gozo e a dor. Quem procura o gozo ou foge \u00e0 dor anda sempre dois pa\u00e7os atr\u00e1s da felicidade e tr\u00eas atr\u00e1s de si. Parte da falta e n\u00e3o da abund\u00e2ncia. A felicidade encontrada e vivida \u00e9 como o Sol que traz calor \u00e0 paisagem. No interior s\u00e1bio, de cada um de n\u00f3s, encontram-se as correntes das melhores ideias e dos melhores sentimentos. Trata-se de abrir caminho para elas e ent\u00e3o vir\u00e3o ao de fora na esta\u00e7\u00e3o apropriada. Ent\u00e3o chegar\u00e1 observar sem analisar para descrever sem explicar.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>No teatro da vida actua-se, n\u00e3o se prestam provas. Cada qual tem o seu ciclo de tempo com os seus ciclones e anticiclones, press\u00f5es e depress\u00f5es. Uma nova consci\u00eancia da realidade, na complementaridade da pequenez e da grandeza, do esp\u00edrito e da mat\u00e9ria, do eu e do outro, conduz a uma nova viv\u00eancia da Realidade una e diversa. A participa\u00e7\u00e3o na divindade conduz \u00e0 compenetra\u00e7\u00e3o do que o Evangelho descreve como experi\u00eancia do reino de Deus. A\u00ed acaba a iman\u00eancia e a transcend\u00eancia. A transcend\u00eancia emerge na cria\u00e7\u00e3o como o som musical da guitarra na harmonia das notas. A\u00ed acontece individua\u00e7\u00e3o na conson\u00e2ncia da tr\u00edade eu tu n\u00f3s. Ao tocarmos as cordas do nosso interior possibilitamos a experi\u00eancia da felicidade em n\u00f3s como resson\u00e2ncia do divino no ser que Ele tamb\u00e9m \u00e9. Uma vez entrados na casa do ser onde mora a deidade as tempestades e bonan\u00e7as das nossas ideias e sentimentos passam a ser parte integrante da vida sendo vistas e sentidas como o ru\u00eddo que o vendaval provoca ao passar no telhado, na dist\u00e2ncia do aconchego da casa.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>Para l\u00e1 do alto do conhecimento e da profundidade do sentimento h\u00e1 outros horizontes a descobrir: os horizontes da experi\u00eancia alargada da ipseidade e alteridade em tudo presente e a tudo comum. Na sua rela\u00e7\u00e3o se realiza a individua\u00e7\u00e3o, que se torna pessoa.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>Para al\u00e9m do horizonte do nosso eu descobrimos um tu possibilitador do n\u00f3s. A\u00ed no mar do mist\u00e9rio adquirimos uma dimens\u00e3o consciente da totalidade. Para l\u00e1 do horizonte do nosso eu, entramos no fluido da mudan\u00e7a realizado na f\u00f3rmula Tr\u00edade que resume a m\u00edstica ocidental. Ent\u00e3o passaremos da consci\u00eancia do di\u00e1logo para a din\u00e2mica do tri\u00e1logo. A\u00ed chegados, a nova consci\u00eancia entende a dicotomia n\u00e3o se deixa enredar nela.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pedagogo e Te\u00f3logo<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>antoniocunhajusto@googlemail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na infelicidade andamos desencontrados de n\u00f3s mesmos Ant\u00f3nio Justo Numa altura em que vivia em comunidade, foi assinalada, com surpresa, a minha afirma\u00e7\u00e3o de viver feliz mas sem gozo. A felicidade, a alegria interior, n\u00e3o tem raz\u00e3o para o ser. Acontece no centro de n\u00f3s mesmos, \u00e0 margem de raz\u00f5es para isso. 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