{"id":1605,"date":"2010-11-08T13:50:31","date_gmt":"2010-11-08T12:50:31","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1605"},"modified":"2010-11-08T13:50:31","modified_gmt":"2010-11-08T12:50:31","slug":"revolta-dos-%e2%80%98burgueses%e2%80%99-na-europa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1605","title":{"rendered":"Revolta dos \u2018Burgueses\u2019 na Europa"},"content":{"rendered":"<p><strong> <strong>Revolta dos \u2018Burgueses\u2019 na Europa <\/strong>(1)<\/strong><\/p>\n<p><strong> Elite irrespons\u00e1vel, Classe M\u00e9dia ofendida e Precariado an\u00f3nimo<\/strong><strong> <\/strong><\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Justo<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>Burgu\u00eas \u00e9 o habitante do burgo; modernamente falando, seria o cidad\u00e3o activo. Esta esp\u00e9cie, devido \u00e0 partidocracia, deixou de ser tomada a s\u00e9rio pelas novas camadas dirigentes, nos estados europeus.<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>A camada m\u00e9dia da sociedade conservadora sente-se roubada dos seus valores \u00e9ticos e do seu papel de medianeira social. <\/strong>Uma pol\u00edtica do salve-se quem puder prescinde duma classe m\u00e9dia motriz, enraizada no povo e na na\u00e7\u00e3o. Um socialismo, que at\u00e9 \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o do Euro ainda constitu\u00eda uma energia moral correctiva do capitalismo tornou-se numa for\u00e7a esquerda do oportunismo liberalista. Infiltrou-se nas estruturas do Estado e em nome da representatividade proporcional partid\u00e1ria assegurou o lugar para os seus Boys e ideologia nas grandes empresas e nas institui\u00e7\u00f5es formadoras da opini\u00e3o. Ideologia e interesses econ\u00f3micos, numa estrat\u00e9gia niveladora do seu caminho, unem-se assim numa miss\u00e3o de destruir valores que tenham a ver com economia social e com a cultura nacional. A nova elite fomenta uma cultura do esc\u00e2ndalo para no caos poder servir-se sem reservas morais.<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p>A gera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica actual, que quer representar sem trabalhar, favorece<strong> <\/strong>gente sem consci\u00eancia, movida apenas pelo desejo do dinheiro e do poder. Esta consegue evitar legisla\u00e7\u00e3o e regras que seriam necess\u00e1rias para impedir os excessos e extremismos de elites engordadas longe da cidadania e do trabalho s\u00e9rio e \u00e0 margem da sociedade e da cultura. Com o turbo-capitalismo esta mentalidade epidemia espalha-se nas c\u00fapulas por todos os continentes. Para os h\u00e1beis resta-lhes o encosto aos aparelhos dos partidos no Estado.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>Um resto de velhas elites europeias com consci\u00eancia social e cultural, que ainda se encontra por todo o lado em minoria, \u00e9, tamb\u00e9m ela, desacreditada na percep\u00e7\u00e3o popular, devido ao comportamento imoral e insocial da maioria da elite.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p><strong>A Alemanha, e com ela a Europa p\u00f3s-guerra, foram constru\u00eddas pela camada baixa da sociedade em coopera\u00e7\u00e3o com a \u201cburguesia\u201d. A riqueza criada e o bem-estar possibilitaram o desenvolvimento da democracia e dum estado social exemplar a n\u00edvel mundial. <\/strong><\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>Cidad\u00e3os ordeiros, disciplinados, com vontade de trabalhar, que fundavam pequenas e m\u00e9dias empresas, que compram casas e inscrevem os filhos nas melhores escolas, sentem o seu futuro e o futuro dos filhos amea\u00e7ados, sendo ao memo tempo difamados de \u201ctradicionalistas\u201d por essa Europa fora.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>De repente, levantam-se aos milhares, a qualquer pretexto, por toda a Europa. Na Fran\u00e7a a pretexto da reforma, na Alemanha, B\u00e9lgica, Holanda e pa\u00edses n\u00f3rdicos a pretexto da integra\u00e7\u00e3o dos estrangeiros e de projectos de prest\u00edgio, que as gera\u00e7\u00f5es futuras t\u00eam de suportar.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>Esta burguesia trabalhadora, que convive com o precariado social, levanta agora a voz da classe m\u00e9dia amea\u00e7ada por oligarquias desenraizadas da sociedade e por um precariado que a pol\u00edtica perdeu de vista. Frank A. Meyer consegue sintetizar bem a sua situa\u00e7\u00e3o real ao afirmar na revista \u201cCicero\u201d: <strong>\u201cOs alem\u00e3es \u2018honestos \u2018(dignos) sentem-se ignorados, desprezados, postergados, abandonados \u00e0 direita e \u00e0 esquerda\u201d. <\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p>O laissez faire e o individualismo grassante, manifestos em elites, precariado e jornalismo liberal de esquerda dominante, t\u00eam olhado, com desd\u00e9m, o \u201cburgu\u00eas\u201d honrado e empenhado. Este deixou-se levar pela enxurrada do turbo-capitalismo liberalista, e sente-se em maus len\u00e7\u00f3is, come\u00e7ando agora a acordar e a protestar.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>Uma Alemanha cujo segredo da sua alta tecnologia vem do desenvolvimento feito nas pequenas e m\u00e9dias empresas, que cobrem todo o territ\u00f3rio, sente-se amea\u00e7ada pela elite dos super-ricos da globaliza\u00e7\u00e3o e por novas gera\u00e7\u00f5es, com m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o escolar, que, uma vez subidas \u00e0s c\u00fapulas, n\u00e3o poder\u00e3o garantir a produtividade at\u00e9 agora conseguida pelas elites surgidas da burguesia do p\u00f3s-guerra. 1949 e 1989 s\u00e3o marcos da \u00e9poca contempor\u00e2nea que determinam a pol\u00edtica n\u00e3o s\u00f3 da Alemanha mas tamb\u00e9m da economia europeia e mundial. O fogo-de-vista da gera\u00e7\u00e3o 68, com as suas vantagens e desvantagens, deve-se em grande parte ao \u201cmilagre econ\u00f3mico\u201d e a uma atitude de revolta contra a velha sociedade que se desacreditara na guerra mundial. Esta situa\u00e7\u00e3o impediu e impede\u00a0 uma reflex\u00e3o s\u00e9ria sobre um individualismo an\u00f3nimo que se afirmava e afirma, contra a comunidade (institui\u00e7\u00e3o) e desprezava, por outro lado, a responsabilidade individual. A partir da queda do muro de Berlim e do socialismo real desaparece o correctivo socialista, desenvolvendo-se um capitalismo feroz aliado a uma ideologia liberalista meramente econ\u00f3mica. Atempadamente, o chanceler Kohl fomentou uma pol\u00edtica favorecedora do grande empresariado alem\u00e3o para este partir duma posi\u00e7\u00e3o forte para a nova concorr\u00eancia global a n\u00edvel de gigantes. Assim compensa muitas ced\u00eancias feitas \u00e0 Uni\u00e3o Europeia a troco da uni\u00e3o alem\u00e3.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>Segue-se uma nova gera\u00e7\u00e3o de \u201cboys\u201d da pol\u00edtica. Desenvencilhada de antigas convic\u00e7\u00f5es, op\u00f5em-se \u00e0 pol\u00edtica americana e atrela-se aos lobistas da economia. Aproveita-se de temas quentes como meio de agregar o povo em torno de emo\u00e7\u00f5es adequadas ao momento pol\u00edtico mas sem uma estrat\u00e9gia integral.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>\u00c9 a hora da ideologia! Um miserabilismo sentimental aliado a um \u201crespeito\u201d alem\u00e3o por um multiculturalismo de paralelismo cultural (no caso, gueto germ\u00e2nico\/gueto isl\u00e2mico) veio de encontro \u00e0 filosofia isl\u00e2mica e procurou considerar os estrangeiros como pessoas melhores do que os alem\u00e3es, devido \u00e0 sua diferen\u00e7a, exotismo e desconvencionalismo.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>O sentimento de culpa alem\u00e3o, que se expressa, nos meios liberais e de esquerda, na vergonha de ser alem\u00e3o, \u00e9 usado por SPD, Verdes e FDP, para levar a \u00e1gua aos seus moinhos e como chibata de domestica\u00e7\u00e3o das massas. Os conservadores, por razoes econ\u00f3micas e interesse no petr\u00f3leo \u00e1rabe e em investimentos em zonas estrat\u00e9gicas fecham os olhos ao que acontece na na\u00e7\u00e3o e no povo.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>Contra o sentimento patri\u00f3tico e contra o cidad\u00e3o insurge-se, tamb\u00e9m, o esp\u00edrito internacionalista da ocasi\u00e3o. Ofendida por uma opini\u00e3o publicada leviana, a calasse m\u00e9dia, come\u00e7a a desforrar-se por toda a Europa. Tabus impostos por arranjos de pol\u00edticos e publicistas, acompanhados do bem-estar econ\u00f3mico, impediam a burguesia de falar abertamente e de expressar-se. Uma estrat\u00e9gia ideol\u00f3gica que fazia dos estrangeiros os melhores cidad\u00e3os, revela-se agora como perigosa para os instalados e para os que se aproveitam do sistema social. O burgu\u00eas europeu n\u00e3o quer ser um Z\u00e9 entre muitos outros Z\u00e9s ao contr\u00e1rio do que pretende o turbo-capitalismo. Questiona o povo cigano e o povo \u00e1rabe na sua tradi\u00e7\u00e3o de gueto e de explora\u00e7\u00e3o do estado social e revolta-se contra as chefias. O problema n\u00e3o s\u00e3o os estrangeiros nem os dependentes; as elites \u00e9 que se est\u00e3o a tornar-se no problema e com elas os fazedores de opini\u00e3o.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p><strong>N\u00e3o h\u00e1 que ter medo dos alem\u00e3es.<\/strong> N\u00e3o s\u00e3o mais racistas do que os que os consideram como tais. A oligarquia alem\u00e3 continuar\u00e1 a ter o povo na m\u00e3o, n\u00e3o fosse ela germ\u00e2nica! Devagar, ela consegue, inteligentemente integrar esquerda e direita, oligarquias e proletariado em benef\u00edcio da na\u00e7\u00e3o. A cr\u00edtica social e tem\u00e1tica faz parte duma sociedade que gosta de discutir e assim catalizar e resolver de maneira mais produtiva os seus problemas. Para tudo tem uma estrat\u00e9gia e uma medida limite: o bem do Estado e do Povo em geral! Na discuss\u00e3o tamb\u00e9m o povo aprende e tem a impress\u00e3o de ser tomado a s\u00e9rio. Todos se sentem \u00fateis!<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p>A camada m\u00e9dia burguesa moderna n\u00e3o pretende manter-se fechada nela mesma como acontecia antes da primeira guerra mundial; pretende ser privilegiada nos impostos na medida da sua produtividade e quer ter o direito a chances especiais para os seus filhos em escolas privadas querendo, ao mesmo tempo, manter a sua dist\u00e2ncia perante o Estado numa sociedade aberta.<\/p>\n<p>Precisam-se mais burgueses (cidad\u00e3os conscientes) com mentalidade de cidad\u00e3os do mundo. Precisa-se de todos os cidad\u00e3os na qualidade de esquerdos e direitos, ricos e pobres, estrangeiros e nacionais unidos na empresa comum de construir-se um Estado e um mundo mais humano e mais justo.<\/p>\n<p><br class=\"spacer_\" \/><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>antoniocunhajusto@googlemail.com<\/p>\n<p>Pedagogo e te\u00f3logo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revolta dos \u2018Burgueses\u2019 na Europa (1) Elite irrespons\u00e1vel, Classe M\u00e9dia ofendida e Precariado an\u00f3nimo Ant\u00f3nio Justo Burgu\u00eas \u00e9 o habitante do burgo; modernamente falando, seria o cidad\u00e3o activo. Esta esp\u00e9cie, devido \u00e0 partidocracia, deixou de ser tomada a s\u00e9rio pelas novas camadas dirigentes, nos estados europeus. 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