{"id":1462,"date":"2010-01-11T13:47:00","date_gmt":"2010-01-11T12:47:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1462"},"modified":"2010-01-11T13:47:00","modified_gmt":"2010-01-11T12:47:00","slug":"a-republica-vive-em-estado-de-divorcio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1462","title":{"rendered":"A REP\u00daBLICA VIVE EM ESTADO DE DIV\u00d3RCIO"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight:bold;\">                 AINDA A RESPEITO DE SARAMAGO E DOS SARAMAGOS <span style=\"font-weight:bold;\"><\/span><\/span><br \/>Ant\u00f3nio Justo<br \/>Com a fuga de D. Jo\u00e3o VI para o Brasil acentua-se a desnacionaliza\u00e7\u00e3o das nossas classes dirigentes. Os invasores napole\u00f3nicos, violadores do povo e da na\u00e7\u00e3o, at\u00e9 s\u00e3o saudados por uma delega\u00e7\u00e3o da ma\u00e7onaria portuguesa. Com as invas\u00f5es napole\u00f3nicas e as lutas civis, estabiliza-se o desassossego em Portugal. Se antes se vivia na \u201capagada e vil tristeza\u201d, (1) passa-se a viver na instabilidade dum estado ocupado por um partidarismo de car\u00e1cter mercen\u00e1rio e envergonhado do povo e da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ofuscados, s\u00f3 v\u00eaem o progresso e as luzes no estrangeiro que copiam e importam sem considera\u00e7\u00e3o pelo g\u00e9nio portugu\u00eas. O povo continua fiel \u00e0 p\u00e1tria e no respeito pelos que se aproveitam dela. <\/p>\n<p>Um certo esp\u00edrito trai\u00e7oeiro das nossas elites \u00e9 j\u00e1 cr\u00f3nico! Com a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de 1383 contra a usurpa\u00e7\u00e3o estrangeira e seus mercen\u00e1rios portugueses, o povo portugu\u00eas mostrou-se democrata e patriota, virtudes que faltavam j\u00e1 ent\u00e3o a uma boa parte da aristocracia. A de hoje, n\u00e3o baseada j\u00e1 nas alian\u00e7as de sangue, \u00e9 pior porque, mais generalizada e alargada nas organiza\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas com as correspondentes redes das fam\u00edlias partid\u00e1rias, tem uma motiva\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o cultural mas apenas econ\u00f3mica. Um Pa\u00eds de voca\u00e7\u00e3o universal tornou-se cada vez mais num Estado opinioso, de categorias. <span style=\"font-weight:bold;\">\u00c9-se uma na\u00e7\u00e3o sem povo e uma na\u00e7\u00e3o sem Estado: um Estado ocupado, uma na\u00e7\u00e3o a reboque!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight:bold;\">           \u00c0s dinastias das fam\u00edlias reais seguem-se a dinastias partid\u00e1rias<\/span><\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Europeia possibilita o monolitismo partid\u00e1rio \u00e0 semelhan\u00e7a das fam\u00edlias nobres durante as monarquias. Estas desempenharam grande papel no apuramento e alargamento da cultura europeia. Enquanto antes dominava um certo elitismo cultural fomentado pelo clero e pela nobreza hoje vulgariza-se o esp\u00edrito prolet\u00e1rio transportado pelos novos-ricos que substitu\u00edram a alta burguesia.<\/p>\n<p>Os soberanos legitimavam o seu poder atrav\u00e9s do sangue; hoje os governantes legitimam o seu poder na ideologia confirmada n\u00e3o por fam\u00edlias de sangue mas pelas fam\u00edlias ideol\u00f3gicas. Se antes era o sangue e da terra, hoje \u00e9 a ideologia e o Estado. Se antes o povo era explorado pelas fam\u00edlias reais, hoje \u00e9-o pelas fam\u00edlias partid\u00e1rias. <span style=\"font-weight:bold;\">No palco da na\u00e7\u00e3o e no tr\u00e1fico das influ\u00eancias, dan\u00e7am sempre os mesmos \u201cmaiores\u201d, os dan\u00e7arinos do poder, independentemente dela ser monarquia ou rep\u00fablica. Uma pequena percentagem de 2% da na\u00e7\u00e3o \u00e9 que decide o que \u00e9 justo e o que se deve crer e fazer.<\/span><\/p>\n<p>Portugal ainda n\u00e3o se tinha restabelecido do jugo espanhol e do susto do tratado de Berlim, para passar a ser confrontado com a cumplicidade de portugueses com o jugo franc\u00eas e as arbitrariedades inglesas, a que se acomodou, sublimando-os com a aboli\u00e7\u00e3o da monarquia e a importa\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. \u00c0s dinastias das fam\u00edlias reais seguem-se a dinastias das fam\u00edlias partid\u00e1rias.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o golpe de estado de 1974, que floriu na democracia de Abril, trouxe um grande corte \u00e0 alma do pa\u00eds. Os novos dan\u00e7arinos do poder entregaram, irresponsavelmente, as zonas de influ\u00eancia portuguesa ultramarinas aos sovi\u00e9ticos. Desta vez a ideologia marxista de alguns portugueses \u00e9 prazenteira e generosa, (como sempre) para com os irm\u00e3os de atitude pol\u00edtica: tudo \u00e0 custa do pa\u00eds e de seus interesses e tamb\u00e9m em desproveito da situa\u00e7\u00e3o nas \u201cregi\u00f5es ultramarinas\u201d, antigas col\u00f3nias. A vontade de liberdade nacional que esteve na origem de Portugal e a resist\u00eancia contra o predom\u00ednio espanhol deu lugar ao oportunismo de alguns internacionalistas que desconhecem ou desprezam a terra. Ao esp\u00edrito navegador, e consequente prest\u00edgio nacional, sucede o esp\u00edrito lacaio de se quererem mostrar bons dentro das suas fam\u00edlias europeias implementando leis e costumes a n\u00edvel nacional sem olhar a custos nacionais. Assim h\u00e1 um div\u00f3rcio entre a \u00edndole portuguesa e a vida que lhe \u00e9 imposta. Gil Vicente j\u00e1 outrora conhecia os v\u00edcios das nossas elites admoestando-as: \u201cN\u00e3o queirais ser genoveses, sen\u00e3o muito portugueses\u201d.<\/p>\n<p>A alma portuguesa, antes vocacionada a realizar a ideia da globaliza\u00e7\u00e3o inerente ao catolicismo, v\u00ea-se fustigada pelos ventos cicl\u00f3nicos provenientes da Fran\u00e7a e da R\u00fassia, n\u00e3o encontrando mais apoio em si pr\u00f3pria. Deixou de ser a incubadora e a express\u00e3o da ideia europeia, que realizou nos Descobrimentos, para passar a andar \u00e0 deriva das suas tempestades e ideologias aproveitadas por alguns portugueses. Se o primeiro papel correspondia ao esp\u00edrito portugu\u00eas, o segundo j\u00e1 n\u00e3o. (2)<\/p>\n<p>Se antes se era obrigado a prestar vassalagem depois passou a admirar-se a vilanagem. Esta experi\u00eancia encontra-se bem documentada no saber popular: \u201cSe queres conhecer o vil\u00e3o, mete-lhe a vara na m\u00e3o\u201d. Um povo sonhador virado para a terra n\u00e3o confia nos sonhos da vila nem nos correspondentes representantes. Por isso murmura baixinho: \u201cEles comem tudo e n\u00e3o deixam nada\u201d. Estes bandeirantes internos persistem em construir a cidade contra o campo. Da prov\u00edncia s\u00f3 lhes interessam as auto-estradas para dela desfrutarem a paisagem e depois regressarem \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o, com um vago sentimento portugu\u00eas resumido a um misto de cheiro a caldo verde, bacalhau, roj\u00f5es e salpic\u00f5es. Portugal, atr\u00e1s das modas, continua a viver do passeio entre \u201ca cidade e as serras\u201d, parodiando o progresso.  <\/p>\n<p><span style=\"font-weight:bold;\">             O Desconsolo do Desassossego num Povo sossegado<\/span><\/p>\n<p>A implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica foi sentida em Portugal mais como um div\u00f3rcio de si mesmo, mais como uma imposi\u00e7\u00e3o de alguns estrangeirados do que algo nascido do pr\u00f3prio h\u00famus. <span style=\"font-weight:bold;\">Se de Castela \u201cnem bons ventos nem bons casamentos\u201d, agora, de fora, s\u00f3 ventos em favor dos cata-ventos.<\/span><\/p>\n<p>Para o portugu\u00eas de sucesso \u201cn\u00e3o h\u00e1 pai\u201d nem sequer m\u00e3e. Esperto, permanece sempre crian\u00e7a na consci\u00eancia de que \u201cquem n\u00e3o berra n\u00e3o mama\u201d; por isso se encosta j\u00e1 n\u00e3o \u00e0s saias da m\u00e3e nem do padre, mas a qualquer saia que lhes possibilite agarrar-se para olhar e subir! Por isso procura o seio da prostituta, a chucha do Estado, da ideologia e da Europa. Consolo encontra-o na companhia dos leit\u00f5es irm\u00e3os e reconhecimento basta-lhe o dos compadres \u2018da sua terrinha\u2019. Todos vivem, longe da p\u00e1tria, mas vivem bem no odor da saudade, dum patriotismo puro de antenas viradas para o distante. (3) <\/p>\n<p>Jos\u00e9 Saramago \u00e9 bem o s\u00edmbolo deste Portugal das elites estrangeiradas. Saramago tal como \u201cCaim\u201d s\u00e3o aquela parte de Portugal que continua a apostar na afirma\u00e7\u00e3o do progresso pela contradi\u00e7\u00e3o, na luta ingl\u00f3ria do progresso contra a tradi\u00e7\u00e3o. O g\u00e9nio portugu\u00eas \u00e9 por\u00e9m Adamastor e Velho do Restelo na tarefa de ultrapassar o Cabo Torment\u00f3rio. Na resposta do Adamastor \u00e0 pergunta do Gama \u201cquem \u00e9s tu?\u201d reencontrar-nos-emos todos como portugueses genu\u00ednos e o medo das Tormentas e dos tormentosos se dissolver\u00e1 para dar lugar \u00e0 vista de T\u00e9tis presente na alma do povo.<\/p>\n<p>\u00c9 de superar aquela atitude t\u00edpica portuguesa documentada na reac\u00e7\u00e3o de Saramago, aquando da publica\u00e7\u00e3o do Livro pol\u00e9mico do Evangelho de Jesus Cristo, retirando-se para Espanha. Quando n\u00e3o se est\u00e1 bem emigra-se para o interior ou para o exterior, facilitando assim o prolongar do viver num estado de gra\u00e7a e de irresponsabilidade aos mandarins. Safa-se o indiv\u00edduo na afirma\u00e7\u00e3o contra o pa\u00eds e contra o cidad\u00e3o!<\/p>\n<p>Cada um arranja-se como pode! Cada um vive para cada qual no \u201cpaci\u00eancia\u201d, no \u201cque fazer!\u201d, no \u201ctenho \u00e9 de cuidar da minha vidinha!\u201d, no \u201cn\u00e3o levantar ondas\u201d, no \u201celes l\u00e1 sabem!\u201d e \u201ca vida \u00e9 assim\u2026 safe-se quem puder!\u201d Um \u201cpovo de brandos costumes\u201d prolonga e tolera assim o intoler\u00e1vel!<span style=\"font-weight:bold;\"> A toler\u00e2ncia sem car\u00e1cter, sem qualidades, torna-se indiferen\u00e7a.<\/span> O medo torna-nos todos iguais, sem qualidades pr\u00f3prias; torna-nos apenas bons para servir outros!<br \/>Assim a na\u00e7\u00e3o continua a viver dividida nas coutadas dos mandarins e seus afins e nos baldios sombrios do povo. <span style=\"font-weight:bold;\">Um povo \u00e0 balda em nome da na\u00e7\u00e3o!<\/span><\/p>\n<p>A jact\u00e2ncia, a inveja e a pequena vingan\u00e7azita s\u00e3o v\u00edcios cr\u00f3nicos que encurtam o horizonte cultural portugu\u00eas. Saramago veio a Portugal anunciar o livro \u201cCaim\u201d com frases pol\u00e9micas, provocando grande parte da sociedade portuguesa que no desconhecimento do livro s\u00f3 podia reagir \u00e0s suas provoca\u00e7\u00f5es. A parte mais s\u00e9ria, a apresenta\u00e7\u00e3o do livro, reservou-a Saramago para os espanh\u00f3is, em Madrid. <\/p>\n<p>Aqui o Nobel confidencia:\u201d Eu n\u00e3o escrevo para agradar ou desagradar. Eu escrevo para lan\u00e7ar o desassossego\u201d. A impress\u00e3o que se tem \u00e9 que o Jos\u00e9, em rela\u00e7\u00e3o a Portugal, pretendia n\u00e3o o desassossego mas a provoca\u00e7\u00e3o. Nele fala o indiv\u00edduo, o Jos\u00e9 e n\u00e3o o cidad\u00e3o!<\/p>\n<p>Fernando Pessoa no seu \u201cLivro do desassossego\u201d, uma esp\u00e9cie de di\u00e1rio da fic\u00e7\u00e3o, \u00e9 um portugu\u00eas que assume Portugal e n\u00e3o apenas uma sua parte porque muito embora querendo espalhar o desassossego o fez n\u00e3o dividindo nem apostando no ressentimento de tradi\u00e7\u00e3o republicana jacobina (4). Fernando pessoa revela conhecer os rec\u00f4nditos da alma portuguesa e respeit\u00e1-la ao dizer: \u201cO povo portugu\u00eas \u00e9, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro portugu\u00eas foi portugu\u00eas: foi sempre tudo\u201d. \u201cO bom portugu\u00eas \u00e9 v\u00e1rias pessoas\u2026 Nunca me sinto t\u00e3o portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim\u201d\u2026 O problema das nossas classes dirigentes est\u00e1 em s\u00f3 serem apenas estrangeiras desprezando a parte portuguesa, que por tradi\u00e7\u00e3o de classe esqueceram. Se at\u00e9 meados do s\u00e9culo dezanove, na qualidade de \u201cemigrantes\u201d ainda eram mediadores da cultura europeia, no s\u00e9culo XX at\u00e9 isso perderam, contentando-se apenas com as remessas econ\u00f3micas e com a gl\u00f3ria de representar \u201cl\u00e1 fora\u201d.<\/p>\n<p>Caim de Saramago n\u00e3o se submete, ele p\u00f5e Deus em quest\u00e3o, tal como j\u00e1 tinha feito Miguel Torga, no seu livro Bichos na pessoa de Vicente (o corvo), que desassossegado com o sossego que reinava na turba da Arca de No\u00e9, resolve abandon\u00e1-la em sinal de protesto perante um criador injusto que castiga os bichos por causa das maldades humanas. Vicente desafia a omnipot\u00eancia divina e verifica que Deus cede \u00e0 sua vontade de ser livre, aceita a sua revolta. Aqui Torga revela o humanismo crist\u00e3o do g\u00e9nio portugu\u00eas, mediador dum Deus amor, por cima de tudo e de todos mas com tudo e com todos; d\u00e1 a impress\u00e3o de perceber a morte de Deus em Jesus que ressurge como Homem em Cristo enquanto que Saramago se ocupa com um deus pag\u00e3o ou \u00e0 la Nietzsche.<\/p>\n<p>Tal como Caim que vagueia pelo pa\u00eds, Saramago aproveita para viajar na B\u00edblia. Ele tem raz\u00e3o quando provoca o povo a n\u00e3o aceitar sem mais a hist\u00f3ria secular e religiosa. Esta n\u00e3o pode ser aceite como se fosse p\u00e3o fabricado directamente nos fornos de Deus. Os nossos deuzitos, c\u00e1 de casa fazem o que querem porque desconhecem os No\u00e9s e os Vicentes. A B\u00edblia \u00e9 um espa\u00e7o espiritual com mans\u00f5es para todos. Interessante seria que Portugal se tornasse num espa\u00e7o geogr\u00e1fico e espiritual com lugar para todos e que todos descobrissem a sua natureza fundamental e se encontrassem na complementaridade. A verdade do outro pode ser motivo de desassossego mas n\u00e3o da sua nega\u00e7\u00e3o. Necessita-se reconhecer o advers\u00e1rio, o contr\u00e1rio para se poder entrar num processo de integra\u00e7\u00e3o. Torna-se urgente uma cultura em que a pr\u00f3pria argumenta\u00e7\u00e3o contra se possa expressar tamb\u00e9m numa argumenta\u00e7\u00e3o a favor pelo mesmo: <span style=\"font-weight:bold;\">uma cultura do \u201cn\u00e3o s\u00f3\u2026 mas tamb\u00e9m\u201d! N\u00e3o s\u00f3 mandarins mas tamb\u00e9m povo!<\/span><\/p>\n<p>Portugal e os portugueses adiam o futuro de governo em governo, de situa\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o, na fuga \u00e0 mudan\u00e7a necess\u00e1ria de cada um. S\u00e9neca dizia que n\u00e3o ousamos, n\u00e3o por ser dif\u00edcil, mas, por n\u00e3o ousarmos \u00e9 dif\u00edcil! N\u00e3o chega sermos uma sociedade \u00e0 Robinson Crusoe. A rep\u00fablica trouxe o fim das ilus\u00f5es. Vivemos em cont\u00ednua luta cultural reduzida ao \u00e2mbito da ideologia, numa sociedade dividida que ainda n\u00e3o se encontrou. A na\u00e7\u00e3o dan\u00e7a ao ritmo de m\u00fasicas ideol\u00f3gicas dos que vivem encostados ao Estado. <span style=\"font-weight:bold;\">N\u00e3o chega ser rep\u00fablica, \u00e9 preciso tornarmo-nos estado e na\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. O problema de Portugal \u00e9 o dos seus mandarins!<\/span> Cam\u00f5es cantava o povo, \u201co peito ilustre lusitano\u201d enquanto que a nossa classe dirigente canta \u201cas modas e os ventos ideol\u00f3gicos num estilo capataz individualista cada vez mais distante da alma po\u00e9tica e sens\u00edvel do povo. Este continua a dizer pela boca de Gil Vicente no Auto da Lusit\u00e2nia: \u201cEu hei nome ningu\u00e9m e busco a consci\u00eancia\u2026\u201d e no auto das barcas admoestava de novo as elites: <span style=\"font-weight:bold;\">\u201cN\u00e3o se embarca tirania, neste batel divinal\u201d. Gil Vicente era um \u201cHomem Bom\u201d do povo, um patriota.<\/span><\/p>\n<p>Resumindo e a prop\u00f3sito da discuss\u00e3o antecipada ao livro \u201cCaim\u201d, a sociedade portuguesa \u00e9 incapaz de entrar numa discuss\u00e3o s\u00e9ria sobre o seu ser, sobre o seu marxismo e capitalismo, sobre o seu ser laico e religioso. Prefere uma guerrilha preconceituosa de trincheiras, em posi\u00e7\u00f5es de cita\u00e7\u00f5es em que se servem os usufrutu\u00e1rios do sistema. Preconceitos vivem de preconceitos. Destes se tem alimentado os her\u00f3is da pol\u00edtica e seus exclu\u00eddos. E os intelectuais independentes limitam-se a assistir ao circo de fora. Vai sendo tempo de os tradicionais inimigos do povo e os exploradores da na\u00e7\u00e3o se reunirem numa mesa redonda. Se os campos rivais se tomarem a s\u00e9rio, ao duelo seguir-se-\u00e1 o di\u00e1logo para depois formarem um dueto! N\u00e3o se trata n\u00e3o s\u00f3 de se saber quem se \u00e9 mas tamb\u00e9m de quem se vai ser. O exemplo dum pa\u00eds pequeno mas com presen\u00e7a mundial \u00e9 a Sui\u00e7a com a sua democracia directa. O regime portugu\u00eas precisaria duma correc\u00e7\u00e3o, duma democracia que corresponda mais ao esp\u00edrito portugu\u00eas, mais ligada \u00e0 terra e ao povo, com pessoas de car\u00e1cter menos partid\u00e1rio e mais \u201cHomem bom\u201d, em atitude de fidelidade \u00e0 nossa tradi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica j\u00e1 presente nas suas origens. Se queremos voltar a ser um povo her\u00f3ico teremos de redescobrir os ideais do passado grande e seguir o exemplo do povo judeu!<\/p>\n<p><span style=\"font-weight:bold;\">O Povo portugu\u00eas, sem fidelidade a si mesmo, sem um ide\u00e1rio cultural nacional pr\u00f3prio, vai vivendo entre os complexos de inferioridade e de superioridade, entre a inoc\u00eancia e a cumplicidade num estado de consci\u00eancia mortificada.<\/span><\/p>\n<p>Continua embrulhado no discurso f\u00e1cil e na propaganda, levado pelos dan\u00e7arinos do poder ao ritmo duma dan\u00e7a leviana, sem consci\u00eancia das diferen\u00e7as expostas, sem vontade pr\u00f3pria de existir. O Povo continua a viver o destino dos outros, na m\u00e1goa de n\u00e3o ser nem estar para apenas parecer: Portugu\u00eas para Ingl\u00eas ver! A m\u00e1goa faz parte daquela caracter\u00edstica bem portuguesa que \u00e9 a saudade! A m\u00e1goa de nos seus representantes n\u00e3o ser o que \u00e9, e que provou ser nos princ\u00edpios da nacionalidade. <br \/>\u00a9 <span style=\"font-weight:bold;\">Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/span><br \/>Pegadas do Tempo<br \/>antoniocunhajusto@googlemail.com<br \/>http:\/\/antonio-justo.blogspot.com\/<\/p>\n<p>(1) Passo a citar, embora com  reservas, o que dizia Charles Dumouriez no seu livro \u201cO Reino de Portugal em 1766\u201d no primeiro cap\u00edtulo da obra: \u201c Os costumes das prov\u00edncias do Norte de Portugal assemelham-se positivamente aos dos escoceses. S\u00e3o belos homens, francos, sinceros, corajosos, cheios de preconceitos, de \u00f3dio nacional e de amor patri\u00f3tico. Eles exercem a hospitalidade: Nas prov\u00edncias de Entre-Minho-e-Douro e Tr\u00e1s-os-Montes, n\u00e3o existem albergues. No meio do pa\u00eds, ao contr\u00e1rio, e particularmente em Lisboa, os habitantes s\u00e3o ladr\u00f5es, avarentos, trai\u00e7oeiros, brutais, orgulhosos, mal-humorados e tamb\u00e9m maus de corpo como de esp\u00edrito; encontra-se contudo algumas excep\u00e7\u00f5es, e sobretudo entre a nobreza, que \u00e9 mais culta do que a nobreza espanhola, mais af\u00e1vel e comunicativa, o que devem ao grande conv\u00edvio com estrangeiros.\u201d \u2026\u201dEm pol\u00edtica n\u00e3o se trabalha nunca o suficiente com o conhecimento do car\u00e1cter dos povos, olha-se apenas os reis e os seus interesses e, frequentemente, perdem-se as negocia\u00e7\u00f5es mais essenciais por n\u00e3o ter sabido reaproximar as oposi\u00e7\u00f5es que se encontra entre estes grandes interesses e o car\u00e1cter das na\u00e7\u00f5es coma as quais se trata\u201d\u2026 <\/p>\n<p>(2) Um povo p\u00fadico sente-se ent\u00e3o defraudado por algo estranho, que tamb\u00e9m traz no cora\u00e7\u00e3o, e por ideologias estrangeiras que \u00e9 sempre obrigado a seguir sem ter interiorizado. O mesmo povo com os mesmos sintomas: dum lado, os empertigados do poder, e do outro, os saudosos das grandezas. Dum lado os sempre novos-ricos, do outro a sempre arraia-mi\u00fada. \u00c0queles falta-lhes o cultivo e a transmiss\u00e3o dum substrato comum, o cultivo de Cam\u00f5es, Gil Vicente, Ant\u00f3nio Vieira, Alexandre Herculano, Antero de Quental, Fernando Pessoa e outros. A arraia-mi\u00fada \u00e9 o tra\u00e7o cont\u00ednuo, a verdadeira caracter\u00edstica portuguesa, que apesar dos seus \u201cestrangeirados\u201d continua a ser povo fiel \u00e0 sua \u00edndole crist\u00e3, n\u00f3rdica, asi\u00e1tica, universal. Este povo de fisionomia paciente, atenciosa, boa e d\u00f3cil apesar do cont\u00ednuo mau exemplo das elites dirigentes mant\u00e9m o seu car\u00e1cter. Este encontra-se obsidiado pelo esp\u00edrito internacionalista leviano dos seus dirigentes e por uma escola mais tendente a formar prolet\u00e1rios do que cidad\u00e3os. A classe dirigente, alheia ao g\u00e9nio inter-cultural e universal portugu\u00eas, arma-se, perante o povo, em educadora de toler\u00e2ncia, internacionalismo e democracia. Cultiva uma democracia de trazer por casa no respeito do seu gueto; como empossados n\u00e3o suportam a democratiza\u00e7\u00e3o cultural. Nos reservados sociais do Estado e da Administra\u00e7\u00e3o querem-se apelidados de senhores doutores, senhores engenheiros, senhores professores e l\u00e1 fora, na democracia de campo para a plebe reservam o tratamento prolet\u00e1rio de senhor Ant\u00f3nio, Sr. Jos\u00e9, Sr. Manuel. O trabalhador que dobre a l\u00edngua, quer-se subserviente e no respeito de sentido \u00fanico, de baixo para cima. De cima para baixo, resta o despudor transformado em sorriso benigno \u00e0 cata dum sorriso de desobriga. O povo, bem-educado, olha em contra plang\u00e9 com um sorriso amarelo do fad\u00e1rio domingueiro.<\/p>\n<p>(3) Portugal n\u00e3o tem casa sem emigrante. Quem procura trabalho vai para o estrangeiro e os saramagos vivem do estrangeiro ou do estranho povo\u2026<\/p>\n<p>(4) Ou n\u00e3o ser\u00e1 ainda a voz da m\u00e1 consci\u00eancia dos anafados que arrecadaram para eles os bens da igreja e os passais, que antes serviam indirectamente o povo? A na\u00e7\u00e3o continua a viver de tabus e de espertezas cretinas.<\/p>\n<p>Ao observar a cena cultural alem\u00e3, na qual os filhos dos pastores e as igrejas ocuparam grande relev\u00e2ncia cultural observa-se uma certa luta cultural entre a tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica e a tradi\u00e7\u00e3o protestante mas n\u00e3o o ressentimento. Em Portugal onde filhos de padres e frequentadores de semin\u00e1rios alcan\u00e7aram posi\u00e7\u00f5es relevantes na pol\u00edtica e na cultura \u00e9 mais not\u00f3rio o ressentimento e a inveja. N\u00e3o se trata aqui de defender a tradi\u00e7\u00e3o mas de nos questionarmos a raz\u00e3o porque em Portugal, para al\u00e9m dum certo patriotismo superficial n\u00e3o h\u00e1 a consci\u00eancia viva duma cultura nacional, uma cultura do cidad\u00e3o. O encosto ao republicanismo prim\u00e1rio franc\u00eas e correspondente imita\u00e7\u00e3o cultural t\u00eam acontecido em desaproveito da tradi\u00e7\u00e3o anglo-sax\u00f3nica e deste modo se tem reduzindo a universalidade do pensar portugu\u00eas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AINDA A RESPEITO DE SARAMAGO E DOS SARAMAGOS Ant\u00f3nio JustoCom a fuga de D. Jo\u00e3o VI para o Brasil acentua-se a desnacionaliza\u00e7\u00e3o das nossas classes dirigentes. Os invasores napole\u00f3nicos, violadores do povo e da na\u00e7\u00e3o, at\u00e9 s\u00e3o saudados por uma delega\u00e7\u00e3o da ma\u00e7onaria portuguesa. Com as invas\u00f5es napole\u00f3nicas e as lutas civis, estabiliza-se o desassossego &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1462\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">A REP\u00daBLICA VIVE EM ESTADO DE DIV\u00d3RCIO<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1462","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1462","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1462"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1462\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1462"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1462"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1462"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}