{"id":1446,"date":"2009-10-13T10:56:00","date_gmt":"2009-10-13T09:56:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1446"},"modified":"2009-10-13T10:56:00","modified_gmt":"2009-10-13T09:56:00","slug":"deus-na-terra-e-os-anjos-no-ceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1446","title":{"rendered":"DEUS NA TERRA E OS ANJOS NO C\u00c9U"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight:bold;\"><\/span><br \/><span style=\"font-weight:bold;\">                         N\u00e3o creio em Deus, Deus cr\u00ea em mim<\/span><br \/>Ant\u00f3nio Justo<br \/>Eu sou eu e o que a minha linguagem possibilitou, o que a minha l\u00edngua fez de mim! Nas met\u00e1foras do meu sonho se formou a paisagem que avisto do mirante do meu ser: o fora de dentro e o dentro de fora, num vaiv\u00e9m ondulante de mar\u00e9s envolventes! Mar e terra no nevoeiro a erguerem-se! Da qualidade do espelho em que me vejo e formo depende a imagem que de mim fa\u00e7o e da realidade. A linguagem, a metaf\u00edsica, tornam-se assim numa potencialidade, a janela aberta para o apartamento do meu ser. \u201cNo princ\u00edpio est\u00e1 a palavra\u201d! Assim a transcend\u00eancia s\u00f3 pode ser uma possibilidade e n\u00e3o uma limita\u00e7\u00e3o da reparti\u00e7\u00e3o de repara\u00e7\u00f5es, nem t\u00e3o-pouco um analg\u00e9sico para as intemp\u00e9ries do meu existir. A linguagem \u00e9 realidade, \u00e9 sonho, \u00e9 horizonte, \u00e9 medicina.<\/p>\n<p>O mestre de Israel, s\u00f3 palavra, curava e salvava do mal, livrava as pessoas dos preconceitos sociais tanto na rua como em suas casas; o seu contacto levava as pessoas a libertarem-se como podemos verificar no caso da prostituta e de tantos outros. Na aceita\u00e7\u00e3o est\u00e1 o primeiro passo para a cura! Ele trouxe uma nova vida e, dele, ela emanava tamb\u00e9m. N\u00e3o pregava a exist\u00eancia de Deus vivia a vida em rela\u00e7\u00e3o: uma rela\u00e7\u00e3o nobilitante e criadora expressa no amor trinit\u00e1rio. Assim transp\u00f5e a barreira do som e da vis\u00e3o entre vida e exist\u00eancia tornando presente o aqu\u00e9m e o al\u00e9m numa presen\u00e7a que \u00e9 futuro tamb\u00e9m. O existir torna-se no estar aqui e o \u201cser\u201d transforma-se em rela\u00e7\u00e3o envolvente do espa\u00e7o e do tempo no transcendente. <\/p>\n<p>Deus \u00e9 o outro, o vizinho a quem me dirijo, aquele que me possibilita e acorda para a vida. Na minha express\u00e3o para com Ele me possibilito, aprofundo o meu ser. Por outro lado Deus \u00e9, como poderemos apreender pelo mist\u00e9rio da Trindade e seu processo cont\u00ednuo de incarna\u00e7\u00e3o e ressurgimento no ser , toda a minha pot\u00eancia, o vigor do mundo a acontecer. Ele \u00e9 a paisagem de que fa\u00e7o parte, o ar que inspiro e expiro. Ele \u00e9 ao mesmo tempo o outro e a minha presen\u00e7a, a outra parte de mim mesmo. Para ele falo e nele me torno presente nos meus sentidos. Nele me torno perspectiva.<\/p>\n<p>Tal como o nascimento come\u00e7a com um grito do beb\u00e9 e da parturiente assim o verdadeiro nascimento para mim mesmo e para o mundo come\u00e7ou com um grito para Deus. A pobreza e a injusti\u00e7a do mundo estreitam tanto a vida gritando t\u00e3o alto que me acordaram para Deus e nele me descobri a mim. Nele acordei e me senti. A dor do mundo acordou-me para Ele e senti nele o mundo presente. Sem a resist\u00eancia nem a dor do mundo n\u00e3o me teria posto \u00e0 procura do Deus, do Homem, da Natureza que me puxa. Como nas l\u00e2mpadas a luz torna-se vis\u00edvel no estreito, na resist\u00eancia \u00e0s circunst\u00e2ncias da vida em fluxo. No estreito da dificuldade brota a vida tal como do ramo verde a flor. Nas suas p\u00e9talas coloridas, a flor canta a sua vida e testemunha a vida da natureza. E nesta tantas pessoas mantidas na sombra da vida n\u00e3o chegam a florir!<\/p>\n<p>De facto, Deus j\u00e1 me tinha visitado nos meus sonhos e nos vales e montanhas de Arouca. A pris\u00e3o da vida ofendida de que falavam os mission\u00e1rios, aquando da prepara\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa e das festas grandes da terra, nos meus tempos de crian\u00e7a, fez surgir em mim a vontade de ser, a vontade de libertar e de andar para l\u00e1 dos horizontes que amea\u00e7avam repousar nas montanhas. A esperan\u00e7a por\u00e9m avistava algo para l\u00e1 do longe, para l\u00e1 da linha do horizonte. Na minha fantasia de crian\u00e7a imaginava o caminho para a liberdade do c\u00e9u como o tra\u00e7ado dos postes de fios de alta tens\u00e3o que rasgavam caminhos sem fim atrav\u00e9s das montanhas! Por l\u00e1 seguiam as almas ao encontro dos anjos no c\u00e9u\u2026<\/p>\n<p>Nos campos ao lado, sentia a liberta\u00e7\u00e3o da cor no vermelho das cerejas e no colorido da paisagem a chamar! O amor sentia-o tamb\u00e9m num rosto de menina (Mariazinha), alargado na paisagem que interiorizava, sentado, ao sol do recolher do dia. Neste ambiente se misturava uma variedade de sentimentos e cores que se reuniam religiosamente na constru\u00e7\u00e3o de pontes que tornam a dist\u00e2ncia perto e se v\u00e3o juntar, de m\u00e3os erguidas, no c\u00edrculo do arco-\u00edris.<\/p>\n<p>A dor dos abandonados do mundo sentia-a tamb\u00e9m na geada vidrada dos amanheceres cristalinos do vale no Inverno e no vigor da vida reprimida que por sua vez se liberta nas trovoadas sonantes do Outono e da Primavera. Na natureza dos vizinhos mais pobres via, mais presente, o sofrimento mudo e os gritos da fome e da injusti\u00e7a do mundo. Ser\u00e1 que Deus anda distante? Ser\u00e1 preciso acord\u00e1-lo?<\/p>\n<p>Tudo isto provocava ventanias e tempestades num esp\u00edrito de crian\u00e7a. Da\u00ed surgia uma energia desmedida que contradizia a for\u00e7a do h\u00e1bito e do aconchego do ninho fofo da fam\u00edlia. Queria sair da roda do destino rotativo e tornar-me mission\u00e1rio do amor, ser um f\u00f3sforo apenas, para ajudar a acender a fogueira do amor, e, de lar em lar, ajudar e me aquecer!<\/p>\n<p> O sorriso daquele Sol aquecedor que afastava as tremuras do frio invernal, porque n\u00e3o h\u00e1-de ele brilhar para toda a gente, em todo o mundo? Porqu\u00ea tanta gente a tremer de frio e de medo? <\/p>\n<p>Tal como no bot\u00e3o primaveril hiberna em cada um de n\u00f3s o bot\u00e3o do esp\u00edrito, a esperan\u00e7a de levar o sol da justi\u00e7a ao outro, a outros povos. Nos pobres do mundo e nos sofredores espera Deus por ti para que lhe d\u00eas a m\u00e3o. A dignidade deles espera por n\u00f3s, aguarda ser aceite. No encontro se realiza a divindade! Deus torna-se no vizinho. O sol do amor nos levanta para a vida. Aceitar-se e aceitar \u00e9 o passo em frente a caminho de Deus em ti e no outro. Ent\u00e3o o outro \u00e9 digno n\u00e3o por ter Deus mas por o ser tal como eu em Jesus Cristo. O mesmo amor que nos gerou nos mant\u00e9m e nos d\u00e1 as boas-vindas a este mundo. No Sol que raia na natureza, tal como no amor que nos inibira, est\u00e1 presente a mesma centelha divina que nos sustenta. A imagem e semelhan\u00e7a de Deus que reflectimos esperam que em n\u00f3s se torne a imagem e semelhan\u00e7a da natureza. O ser do Homem \u00e9 processo, \u00e9 tornar-se Homem na comunh\u00e3o divina com a natureza, tal como no processo da incarna\u00e7\u00e3o: o Sol ilumina a mat\u00e9ria divinizando-a.<\/p>\n<p>Os padres l\u00e1 na aldeia diziam que Deus se encontra \u00e0 nossa espera. Havia que irromper de si mesmo para tornar Deus presente, em mim mesmo e no mundo. Urge libertar os povos da pris\u00e3o do Egipto, da pris\u00e3o da pobreza e da injusti\u00e7a. E eu s\u00f3 me liberto, libertando! Deus \u00e9 salva\u00e7\u00e3o em n\u00f3s e encontra-se prisioneiro de n\u00f3s mesmos. No encontro com o outro, com o vizinho sentimos a fidelidade divina que nele se revela. Deus grita da nuvem da mis\u00e9ria e do sofrimento para no encontro contigo se gerar a luz, acontecer ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, de ti, do vizinho. Deste encontro surgir\u00e1 uma nova terra um novo c\u00e9u.<\/p>\n<p>A\u00ed o brilho das cores, o vermelho da vida ser\u00e1 comum \u00e0s cerejas e a toda a criatura em todo o mundo. Nessa fulgur\u00e2ncia Deus cr\u00ea em mim e o seu crer me d\u00e1 for\u00e7a e consist\u00eancia para o encontrar. O resto \u00e9 a aventura de tudo em rela\u00e7\u00e3o! Na viv\u00eancia e no testemunho surge ent\u00e3o a realidade profunda da vida que \u00e9 rela\u00e7\u00e3o e troca manifestada no calor e no amor!<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a \u00e9 a fonte de toda a possibilidade e, na divindade, tudo \u00e9 poss\u00edvel. A realidade \u00e9 o lugar limitado onde acontece a realiza\u00e7\u00e3o, de todas as potencialidades a caminho, para l\u00e1 do horizonte. O amor \u00e9 a amplitude do horizonte que tudo rejuvenesce e mant\u00e9m o futuro aberto. <\/p>\n<p>A f\u00e9 \u00e9 uma fa\u00edsca na escurid\u00e3o da tempestade cerrada. Ela possibilita a esperan\u00e7a e a pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o, acorda os nossos sentidos para a vida. Ela possibilita a aurora dum novo dia sempre a acenar. Para l\u00e1 do infinito h\u00e1 o sol a raiar e a seu caminho a minha alma a formar-se na presen\u00e7a do aqu\u00e9m e do al\u00e9m; em Jesus Cristo Deus abandonou o C\u00e9u para se tornar a vida e a cr\u00edtica do Homem.<\/p>\n<p>Uma sociedade que n\u00e3o d\u00e1 lugar \u00e0 possibilidade de Deus despede-se da humanidade. Deus \u00e9 a potencialidade das potencialidades, ele abre-lhe a perspectiva da liberdade e a amplid\u00e3o da paisagem. O distanciamento de Deus conduz ao corte com a vida e \u00e0 injusti\u00e7a entre os homens e ao distanciamento destes para com a natureza. Deus est\u00e1 presente em toda a pessoa \u00e9 a luz que procura brilhar tamb\u00e9m nas nuvens da resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Independente de todo o arrazoar: a cruz continuar\u00e1 a ser a escada do futuro e Deus a sorte dos pobres na realiza\u00e7\u00e3o do hoje atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o da humanidade de amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o creio em Deus, Deus cr\u00ea em mim!<\/p>\n<p>\u00a9Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>antoniocunhajusto@googlemail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o creio em Deus, Deus cr\u00ea em mimAnt\u00f3nio JustoEu sou eu e o que a minha linguagem possibilitou, o que a minha l\u00edngua fez de mim! 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