{"id":1433,"date":"2009-09-19T22:45:00","date_gmt":"2009-09-19T21:45:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1433"},"modified":"2016-12-05T11:05:48","modified_gmt":"2016-12-05T10:05:48","slug":"a-oracao-do-cao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1433","title":{"rendered":"A ORA\u00c7\u00c3O DO C\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p>Por <strong>Ant\u00f3nio Justo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho um amigo padre, o Carlos, que tinha um c\u00e3o Fiel e o respeitava tanto que lhe cedia um lugar nobre na igreja, ao lado dos ac\u00f3litos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sempre que o Carlos celebrava missa, l\u00e1 estava o c\u00e3o, de patas juntas, juntinho ao altar. Em atitude recolhida juntava a prece animal \u00e0 dos humanos. Da mesma igreja, da mesma comunidade, os mesmos louvores e preocupa\u00e7\u00f5es pareciam elevar-se juntos ao c\u00e9u com o incenso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era de admirar tanta sintonia e solidariedade numa natureza n\u00e3o afeita a comungar da inoc\u00eancia animal. Naquela freguesia, mais habituada \u00e0 rotina e ao folclore das festas lit\u00fargicas, aquela atitude de solidariedade j\u00e1 presente no pres\u00e9pio e recordada no Natal, foi considerada inteiramente fora de esta\u00e7\u00e3o. A atitude do padre, que n\u00e3o a do Fiel, provocara o sentimento de alguns fi\u00e9is, fazendo erguer aos ares a voz dalguns c\u00e3es de guarda da ordem e do pensar correcto. Um uivar canino de timbre acirrado se ergue aos c\u00e9us na pra\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cUm atrevimento\u201d, \u201cuma provoca\u00e7\u00e3o \u201c, \u201cuma falta de respeito\u201d, &#8211; murmurava o adro da sociedade. O gesto do padre provocara o sentir de parte daquela par\u00f3quia a Sul do Tejo. Com o tempo j\u00e1 se n\u00e3o distinguia entre par\u00f3quia e freguesia!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao Carlos, t\u00e3o inocente como o \u201cFiel\u201d, n\u00e3o lhe entrava na cabe\u00e7a o porqu\u00ea de tanta indigna\u00e7\u00e3o nem da tal \u201cFalta de respeito\u201d. E l\u00e1, na parte que o distinguia do c\u00e3o, o sacerdote questionava-se: \u201cFalta de respeito?\u201d De quem e do qu\u00ea?\u201d\u2026 N\u00e3o tinha o JC resgatado e irmanado toda a cria\u00e7\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele que n\u00e3o acreditava numa sociedade de trelas nem de coleiras, ele que estava habituado a alertar os fi\u00e9is para os embondeiros da sociedade que n\u00e3o deixam crescer erva nem arbusto debaixo da sua sombra, n\u00e3o podia entender o sentido dos latidos dalguns irm\u00e3os contra os mais pequeninos ali presentes no Fiel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O motivo de todo aquele desentendimento estaria na falta de sensibilidade, na falta de compreens\u00e3o do evangelho por aquele rebanho al\u00e9rgico a c\u00e3es, o que, no entender de Carlos, se resumiria numa alergia a humanidade, numa ingratid\u00e3o e falta de solidariedade para com os irm\u00e3os mais fracos da cria\u00e7\u00e3o! \u201cO que fizerdes ao mais pequenino a Mim o fareis\u2026\u201d lembra o Evangelho e o Carlos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, mais um atraso na realiza\u00e7\u00e3o da Boa Nova\u2026, mais um sinal vermelho colocado pelos \u201cembondeiros\u201d do poder e da comunidade, no curr\u00edculo duma pessoa honesta que apenas cometera o erro de ouvir a voz de uma esp\u00e9cie v\u00edtima e descontente com a sua vida de c\u00e3o. Afinal s\u00f3 lhe restava rezar e pedir a Deus que desagrave tanta descren\u00e7a e desrespeito entre as criaturas\u2026 Sozinho e s\u00f3 como o c\u00e3o, o amigo Carlos s\u00f3 encontrava consolo nas palavras que repetia em atitude meditativa: \u201cVenha a n\u00f3s o Vosso Reino\u2026\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m o Fiel, na sua postura recolhida, tinha pedido ao mesmo Criador pelos irm\u00e3os que viviam sob o jugo dum destino preso a um cadeado. Tamb\u00e9m ele, no momento da ora\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is, lan\u00e7ara um olhar para a cruz do altar, numa s\u00faplica, j\u00e1 n\u00e3o pelo p\u00e3o, mas pelo restabelecimento da dignidade animal e da \u00edntegra solidariedade, a todos comum, antes da queda do pecado original. Humilde, tamb\u00e9m ele pedia pelos senhores, pelos donos da trela para que Deus os ilumine.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQue o cora\u00e7\u00e3o una o que a raz\u00e3o desuniu!\u201d &#8211; repetia o Fiel depois de cada prece, numa ladainha de pedidos, que mais faria lembrar um exame de consci\u00eancia do que uma acusa\u00e7\u00e3o dos pecados do irm\u00e3o Homem contra a natureza, contra animais e plantas. Ele que, como o Carlos, se entrega todo inteiro ao dono, ao Senhor, em estado meditativo, j\u00e1 n\u00e3o ergue os olhos para o senhor mas para o Criador; que acabe com tanta ingratid\u00e3o e falta de respeito entre as criaturas. \u201cO justo conhece as necessidades do animal mas o interior do \u00edmpio \u00e9 cruel\u201d, j\u00e1 dizia o povo antigo no livro dos Prov\u00e9rbios 12, 10.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um mundo sem donos nem senhores, uma sociedade de c\u00e3es sem coleira seria o princ\u00edpio dum mundo novo, justo e digno\u2026um mundo de todos para todos, na perspectiva divina da complementa\u00e7\u00e3o de todas coisas criadas, feitas, sentidas e pensadas!<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\nPegadas do Esp\u00edrito no Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ant\u00f3nio Justo Tenho um amigo padre, o Carlos, que tinha um c\u00e3o Fiel e o respeitava tanto que lhe cedia um lugar nobre na igreja, ao lado dos ac\u00f3litos. 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