{"id":1426,"date":"2009-08-29T22:49:00","date_gmt":"2009-08-29T21:49:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1426"},"modified":"2009-08-29T22:49:00","modified_gmt":"2009-08-29T21:49:00","slug":"a-sorte-do-mundo-na-coleira-dum-cao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1426","title":{"rendered":"A SORTE DO MUNDO NA COLEIRA DUM C\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight:bold;\"><\/span><br \/>                  <span style=\"font-weight:bold;\">Da Falta de Sintonia com a Natureza<\/span><br \/>Ant\u00f3nio Justo<br \/> Ali no monte de S. Juli\u00e3o mora um c\u00e3o, o Fa\u00edsca. N\u00e3o \u00e9 um desses caninos felizardos, dos de rega\u00e7o, mas sim um prisioneiro que v\u00ea a sua liberdade reduzida a metro e meio de cadeado. A sua casota, encostada \u00e0 casita da dona \u00e9 o espelho duma vida desalentada. A \u00fanica consola\u00e7\u00e3o que tem est\u00e1 no tacho atrasado e na voz long\u00ednqua dalgum irm\u00e3o que, ao anoitecer, o convida a unir a sua voz ao hino do p\u00f4r-do-sol. <\/p>\n<p>O Fa\u00edsca, de olhos ca\u00eddos, passa a maior parte da vida em posi\u00e7\u00e3o meditativa, a sonhar talvez a Vida que os humanos n\u00e3o pensam\u2026 <\/p>\n<p>Nas f\u00e9rias, a vida triste e negra do Fa\u00edsca passou a ser iluminada por miminhos de fim da tarde que uma turista com ele repartia nos seus passeios habituais \u00e0 natureza. Todos os dias, mal o cachorro sentia a sua passagem, logo iniciava uma dan\u00e7a de alegria acompanhada de grunhidos de amor recalcado. Um mar de vida em movimento, todo ele \u00e9 suspenso pela coleira no fim da corrente, num vaiv\u00e9m de ondas, de mar\u00e9 enchente e mar\u00e9 vazante.<\/p>\n<p>O c\u00e3o estava j\u00e1 habituado \u00e0s festinhas de Carola que me acompanhava sempre nos passeios na natureza. Um dia registou que s\u00f3 eu aparecia. Falei com ele, mas n\u00e3o lhe toquei. Ent\u00e3o, o Fa\u00edsca empoleirou-se no muro abanando a cauda e grunhindo \u00e0 espera duma car\u00edcia; espera em v\u00e3o. Apenas lhe lancei um sorriso e palavras carinhosas. Apesar da sua simpatia comunicativa, o c\u00e3o recolheu-se parecendo esconder no rosto a m\u00e1goa de todas as car\u00edcias at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o recebidas. <\/p>\n<p>No dia seguinte passei de novo com Carola que j\u00e1 de longe lhe atirava bocados de afecto timbrados por modos de m\u00e3e. <\/p>\n<p>Na noite passada ela tinha chorado a sorte do mundo na coleira do Fa\u00edsca. Tamb\u00e9m eu sentira apoderar-se de mim um nevoeiro triste que se apossava da minha consci\u00eancia. Sentira a aragem dum ar h\u00famido de culpa colectiva ainda vis\u00edvel na aura das l\u00e1grimas do seu rosto. <\/p>\n<p>Desta vez, o Fa\u00edsca abana a cauda, mas j\u00e1 n\u00e3o salta logo para o muro. O cachorro encosta-se contra o costume ao ferro da sua pris\u00e3o. Um molho de sentimentos feridos parecia ruminar a falta do dia anterior. Olha a Carola absorto numa posi\u00e7\u00e3o que revelava o sentimento duma rela\u00e7\u00e3o ofendida. Na sua imagem via a dele. A dignidade acordada naqueles furtivos encontros lembra a empatia ferida \u00e0 sombra dum eu perdido. A sua natureza de c\u00e3o sofre, naquela aus\u00eancia, toda a aus\u00eancia duma vida condensada na experi\u00eancia daquele dia. <\/p>\n<p>Depois dalguns momentos de hesita\u00e7\u00e3o, o c\u00e3o salta para cima do muro e d\u00e1 r\u00e9deas ao seu folgar. Nos seus olhos e gestos, numa entrega total, dan\u00e7a toda a criatura, sem discrimina\u00e7\u00e3o. Fa\u00edsca e Carola, irmanados na mesma admira\u00e7\u00e3o, comprazem-se repondo o estado original da cria\u00e7\u00e3o por alguns momentos. <\/p>\n<p>Pouco depois a vida continua atr\u00e1s dos muros: uma vida sem aurora para a dona e para o c\u00e3o. Ambos lambem as feridas da pobreza, do mesmo lado, no mesmo canto da vida. <\/p>\n<p> Na hierarquia da dor, o sol do bem parece n\u00e3o querer chegar aos inocentes. A mis\u00e9ria da vida teima andar de m\u00e3os dadas com a pobreza de esp\u00edrito e com a explora\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Num tempo que aos outros pertence, o Fa\u00edsca e a dona continuam a esperar pela luz do respeito que os outros faz crescer. No caso doutros \u201cFa\u00edscas\u201d, a dor resulta da crueldade e da superficialidade no viver. Apesar do queixar comum, e das queixas ladradas em casas de \u201cpessoas de bem\u201d, a vida canina continua a ser uma vida na desonra, \u00e0 medida da consci\u00eancia desonrada de quem os trata assim.<br \/>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>Pegadas dos Animais<br \/>antoniocunhajusto@googlemail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da Falta de Sintonia com a NaturezaAnt\u00f3nio Justo Ali no monte de S. 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