{"id":1423,"date":"2009-08-23T20:17:00","date_gmt":"2009-08-23T19:17:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1423"},"modified":"2009-08-23T20:17:00","modified_gmt":"2009-08-23T19:17:00","slug":"animais-e-plantas-%e2%80%93-nossos-companheiros-de-viagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1423","title":{"rendered":"ANIMAIS E PLANTAS \u2013 NOSSOS COMPANHEIROS DE VIAGEM"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight:bold;\"><\/span><span style=\"font-weight:bold;\">Deus tamb\u00e9m est\u00e1 nos Animais<\/span><br \/>Ant\u00f3nio Justo  <br \/>Regresso de f\u00e9rias, resta na minha consci\u00eancia um mau sabor a natureza desprezada! Enquanto me espregui\u00e7ava no jardim da minha casa da Branca, ouvia o sofrimento a ecoar pelo monte de S. Juli\u00e3o fora. Aqui, a natureza, atada a um cadeado, numa \u00e2nsia de liberta\u00e7\u00e3o, ladrava infeliz, para o ar, os pecados e os erros de quem a aprisiona; de quem aprisiona a natureza num c\u00e3o. Acol\u00e1 projectos humanos que desrespeitam e ferem a fisionomia e o brilho da paisagem. Enfim, uma desfeita \u00e0 natureza numa natureza cada vez mais desfeita.<\/p>\n<p>Deus criou o homem \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a e criou a natureza a espelhar a imagem do homem. No Homem e na Natureza se revela a imagem de Deus e na natureza se encontra e reflecte a imagem do Homem. Uma m\u00e1 vis\u00e3o e um mau trato da natureza implica uma m\u00e1 vis\u00e3o e um mau trato do ser humano e de Deus, diria hoje Tom\u00e1s de Aquino. Imagem e realidade encontram-se numa rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca e m\u00fatua.<\/p>\n<p>A natureza encontra-se doente porque o esp\u00edrito humano se encontra atrofiado e enfermo numa rela\u00e7\u00e3o doentia de objectiva\u00e7\u00e3o e mercantiliza\u00e7\u00e3o da vida. O Homem sofre ao ser reduzido a mercadoria e a natureza sofre ao ser reduzida, por falta de consci\u00eancia natural, por falta de dignidade humana; falta esta que o leva a desprezar o seu corpo, a natureza. <\/p>\n<p>O Homem encontra-se atado ao cadeado das necessidades imediatas, \u00e0s cadeias do governo e do emprego e por isso n\u00e3o sofre ao amarrar o c\u00e3o \u00e0 sua casota, reduzindo-o \u00e0 sua imagem de animal \u00fatil. O Homem instrumentaliza-se a si mesmo ao instrumentalizar a natureza, escraviza-se ao torn\u00e1-la escrava e n\u00e3o senhora.<\/p>\n<p>O processo de desnaturaliza\u00e7\u00e3o do Homem acentuou-se com o mecanicismo materialista e com o racionalismo exacerbado. A urbaniza\u00e7\u00e3o da sociedade distanciou mais o ser humano de si mesmo e do seu bi\u00f3topo natural. Com a desespiritualiza\u00e7\u00e3o da natureza processa-se a demoniza\u00e7\u00e3o do Homem e consequentemente a falta de horizonte da natureza e do Homem. <\/p>\n<p>O olhar perturbado do homem ao reunir em si todos os olhares de todos os animais, de todas as plantas, de toda a natureza, perturba a sua vis\u00e3o individual. O homem torna-se paulatinamente num ser estranho e desnaturado, vivendo sem respeito pelas outras criaturas com se tamb\u00e9m elas n\u00e3o tivessem direito a uma vida condigna. Ao deixar de contemplar os horizontes espirituais de si mesmo, deixa de admirar a paisagem natural e come\u00e7a a desconsiderar as esp\u00e9cies. N\u00e3o s\u00f3 se torna cego mas deixa tamb\u00e9m de ouvir a voz das esp\u00e9cies. Conhece a sua cidade mas desconhece a sua terra, o seu lar. Uma vida em segunda m\u00e3o, desnatura-se e atrai\u00e7oa a natureza, desconsidera o seu bi\u00f3topo natural refugiando-se em substitutos virtuais, em ideologias, moralismos ou fobias.<\/p>\n<p>A Terra deixou de ser o \u00c9den onde animais e Humanidade, irmanados viviam na complementaridade e na harmonia do respeito m\u00fatuo. Ao desprezar a natureza o Homem despreza-se a si mesmo, perde a consci\u00eancia da realidade e perde o horizonte divino dum Sol que brilha para todos, sem distin\u00e7\u00e3o. Deus sentiu agrado ao criar o Homem, depois de tr\u00eas bili\u00f5es de anos de vida na Terra sem o ser humano. Este por\u00e9m n\u00e3o aceita ser parceiro de Deus e torna-se cada vez mais o desagrado da Natureza, cada vez mais alheio a Deus no sistema ecol\u00f3gico. A vida que foi dada a todos como bem comum \u00e9 arrebanhada pelo Homem sendo assim destru\u00eddo o seu sentido. N\u00e3o se trata de dispor do outro mas de todos nos encontrarmos na disponibilidade dum servi\u00e7o m\u00fatuo.<\/p>\n<p>O ser humano teima em viver em segunda m\u00e3o, criando para si um mundo virtual, o mundo das ideias que j\u00e1 n\u00e3o tem, como nos tempos b\u00edblicos, lugar para toda a cria\u00e7\u00e3o. Deus fez a alian\u00e7a com o Homem para que este continue a alian\u00e7a com a natureza. Na mesma arca, com a natureza caminhamos e \u201cconvergimos\u201d no sentido do ponto \u00d3mega de Teilhard de Chardin. O lugar privilegiado do Homem b\u00edblico \u00e9 um lugar de responsabilidade, numa rela\u00e7\u00e3o de filho adulto em rela\u00e7\u00e3o ao \u201cirm\u00e3o Sol, ao \u201cirm\u00e3o burro\u201d, ao outro. O Homem, espelho da divindade, embacia-se de tal modo que embacia os animais e as plantas. <\/p>\n<p>A for\u00e7a centr\u00edpeta do ser humano (o ego\u00edsmo) parece automatizar-se de modo a n\u00e3o reconhecer a \u00f3rbita do sistema a que pertene. Amea\u00e7a assim afundar-se em si mesmo e desequilibrar todo o sistema e toda a natureza. Esta j\u00e1 geme de rosto afogueado e protesta atrav\u00e9s dos seus elementos. A for\u00e7a centr\u00edfuga (altru\u00edsmo) ter\u00e1 de ser refor\u00e7ada para podermos fazer uma caminhada comum, se bem que em diferentes velocidades, no sentido \u00d3mega, a natureza de Cristo. O Homem e o Animal, o Homem e o seu bi\u00f3topo pressup\u00f5em uma complementaridade do ser e do existir no di\u00e1logo do eu com o tu numa plataforma comum dum n\u00f3s trinit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na natureza, podemos descobrir o brilho do nosso rosto que \u00e9 o fulgor de Deus. Ele criou e dignificou a mat\u00e9ria e todas as esp\u00e9cies na pessoa de Jesus (mat\u00e9ria) e de Cristo (divindade). \u201cN\u00e3o separem o que Deus uniu\u201d: feminilidade e masculinidade, mat\u00e9ria e esp\u00edrito, tempo e espa\u00e7o!<\/p>\n<p>Os animais e as plantas j\u00e1 existiam, por si mesmas, muito antes do Homem. Que direito tem o ser humano, pelo facto de ser o mais novo na cria\u00e7\u00e3o, de apoderar-se do que Deus j\u00e1 criara antes? A natureza j\u00e1 se encontrava toda desde o in\u00edcio a germinar na natureza de Cristo. Deus realiza-se na Natureza e n\u00e3o apenas no ser Humano. O olhar de Deus transcende em toda a natureza e d\u00e1-lhe forma. O tempo e o espa\u00e7o \u00e9 roupa que a todos nos cobre.<\/p>\n<p>Se todos somos a sombra da divindade, porque nos arrogamos o direito de instrumentalizar umas sombras em benef\u00edcio das outras? S\u00f3 o respeito e a consci\u00eancia do mist\u00e9rio, que nos s\u00e3o comuns, nos poder\u00e3o preservar juntos. N\u00f3s s\u00f3 sobreviveremos com a natureza. Ela pode sobreviver sem n\u00f3s. O Deus b\u00edblico criou-nos solid\u00e1rios e interdependentes. O ser humano \u00e9 a sua cabe\u00e7a. Uma \u201ccultura contra natura\u201d s\u00f3 favorecer\u00e1 a vis\u00e3o dum Homem desnaturado. <\/p>\n<p>\u201cLembra-te que \u00e9s p\u00f3 e em p\u00f3 te h\u00e1s-de tornar\u201d, recorda-nos a liturgia de quarta-feira de cinzas. Por mais que nos distanciemos da terra e do casulo, como a borboleta, teremos de voltar a ela, para com ela ressurgirmos.<\/p>\n<p>S\u00f3 uma natureza acarinhada nos acompanhar\u00e1. H\u00e1 dois anos adquiri um gato de 8 semanas. A princ\u00edpio acarinhava-o e levava-o comigo nos meus passeios da tarde a um parque perto de minha casa. Hoje quando saio de casa ele salta e acompanha-me, como se fosse um c\u00e3o, todo o caminho.<\/p>\n<p>Em conjunto, animais e plantas, conseguiremos superar a crise ecol\u00f3gica. Em conjunto tornar-nos-emos uma sinfonia, um salmo de louvor ao Senhor. Para isso teremos de aprofundar o nosso olhar teleol\u00f3gico de toda a natureza em conjunto e com ela caminhar no sentido do mist\u00e9rio da Trindade. Uma ideia de Homem e da natureza apenas racional atrai\u00e7oaria o Criador e o seu projecto. O olhar da raz\u00e3o seria insuficiente para descrever a realidade se n\u00e3o fosse complementado pelo do sentimento e da m\u00edstica. Da\u00ed surgir\u00e1 uma nova atitude perante os animais e as plantas. A dignidade humana n\u00e3o pode ser arquitectada de modo parasita em rela\u00e7\u00e3o aos animais e aos seres em geral. A hominiza\u00e7\u00e3o da natureza s\u00f3 ser\u00e1 leg\u00edtima se no sentido da diviniza\u00e7\u00e3o do Homem e da Natureza. Naturalmente que a vida, mais que uma com\u00e9dia \u00e9 um drama, mas n\u00e3o uma trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Se o mundo levou tanto tempo a dar \u00e0 luz o ser humano, n\u00e3o h\u00e1 que desesperar se o Homem adolescente ainda precisa de algum tempo para se transformar e, com ele, o mundo. Se a terra caminhou para o Homem, o Homem caminhar\u00e1 para o Esp\u00edrito no respeito de tudo o que \u00e9 vida. O ladrar do c\u00e3o pode deixar de ser uma queixa e tornar-se num louvor. Tudo depende de n\u00f3s.<br \/>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>antoniocunhajusto@googlemail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deus tamb\u00e9m est\u00e1 nos AnimaisAnt\u00f3nio Justo Regresso de f\u00e9rias, resta na minha consci\u00eancia um mau sabor a natureza desprezada! Enquanto me espregui\u00e7ava no jardim da minha casa da Branca, ouvia o sofrimento a ecoar pelo monte de S. Juli\u00e3o fora. Aqui, a natureza, atada a um cadeado, numa \u00e2nsia de liberta\u00e7\u00e3o, ladrava infeliz, para o &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1423\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">ANIMAIS E PLANTAS \u2013 NOSSOS COMPANHEIROS DE VIAGEM<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1423","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1423","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1423"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1423\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1423"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1423"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1423"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}