{"id":1408,"date":"2009-05-18T18:47:00","date_gmt":"2009-05-18T17:47:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1408"},"modified":"2009-05-18T18:47:00","modified_gmt":"2009-05-18T17:47:00","slug":"teresa-de-calcuta-discutia-com-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1408","title":{"rendered":"Teresa de Calcut\u00e1 discutia com Deus"},"content":{"rendered":"<p>Um grito de ang\u00fastia contra o comodismo da justi\u00e7a<br \/>Ant\u00f3nio Justo<br \/>                        Entre o Desespero e a Esperan\u00e7a!<br \/>O \u201canjo dos pobres\u201d viveu e vive, na \u00cdndia, junto dos que moram do lado sombrio da vida e que dela s\u00f3 conhecem os dias do calv\u00e1rio. A Nobel da Paz, que tudo deu pelos pobres, era assolada por um desespero t\u00e3o tenebroso que n\u00e3o deixava lugar para uma r\u00e9stia de sol. Na ang\u00fastia das sombras partilhadas ela pedia contas a Deus. Custa-lhe ter de verificar que a vida n\u00e3o se identifica com o mundo, que ela apenas se expressa nele. \u00c0 superf\u00edcie, sempre bem disposta e com um sorriso nos l\u00e1bios, expressava a harmonia do agir com Deus na cria\u00e7\u00e3o. O seu interior por\u00e9m era fustigado com tempestades de d\u00favidas que se manifestavam na discuss\u00e3o existencial com Deus. Num livro, com as cartas de Madre Teresa, est\u00e1 documentada a sua zanga com Deus. Numa das cartas ela escrevia: \u201c O lugar de Deus na minha alma est\u00e1 vazio \u2013 em mim n\u00e3o est\u00e1 Deus\u201d. No sentir de Teresa manifesta bem a sensibilidade do Homem do s\u00e9culo XX e a sua express\u00e3o crist\u00e3 contempor\u00e2nea. A sua autenticidade tem a ver com o nosso tempo.<\/p>\n<p>A noite escura de Teresa \u00e9 muito diferente da \u201cnoite escura\u201d de Jo\u00e3o da Cruz. Para a melhor compreender teremos de ter presente o cen\u00e1rio existencialista do mundo moderno. A era moderna que apela para as luzes da raz\u00e3o \u00e9 por outro lado a era das trevas do esp\u00edrito, com muitos luzeiros que espalhados pelo mundo lhe v\u00e3o dando energia e um pouco de calor. A queixa de Teresa \u00e9 sinal da confian\u00e7a ofendida no meio do mutismo do mundo, \u00e9 a queixa contra a pretensa raz\u00e3o. Tamb\u00e9m Deus \u00e9 responsabilizado pela vida n\u00e3o vivida. Quando chega a hora dos tiranos serem derrubados e quando chega a hora do direito dos pobres, a era da gra\u00e7a? Onde est\u00e1 Deus, por onde anda a raz\u00e3o? Com Deus morreu a raz\u00e3o! Os mesmos que mataram um mataram a outra. Todo o mundo actua sem ter notado nada.<\/p>\n<p>A sua simpatia e identifica\u00e7\u00e3o com os pobres n\u00e3o tinham limites. A mis\u00e9ria e a pobreza do mundo n\u00e3o a deixavam indiferente. Em 1961, apesar de j\u00e1 ter alcan\u00e7ado muito, a n\u00edvel institucional, em benef\u00edcio dos pobres, a d\u00favida acompanha-a: \u201cDomina uma tal escurid\u00e3o que eu efectivamente n\u00e3o posso ver nada.\u201d Este estado de d\u00favida religiosa purificadora, na vida da f\u00e9 tem uma correspond\u00eancia a n\u00edvel epid\u00e9rmico na d\u00favida met\u00f3dica da filosofia. A vida tomada a s\u00e9rio n\u00e3o deixa ningu\u00e9m indiferente nem se acomoda a tabus ou explica\u00e7\u00f5es simples. Ela espica\u00e7a esp\u00edritos de grande reflex\u00e3o e pr\u00e1tica. Teresa encarnou nela a dor da pobreza e da mis\u00e9ria a brotar em tanto rosto indefeso e inocente. Ela sabe que n\u00e3o se pode considerar o mist\u00e9rio da reden\u00e7\u00e3o sem o mist\u00e9rio da trindade. Aquele tem sido muitas vezes deformado devido ao desconhecimento deste e ao dom\u00ednio dos sistemas sobre a pessoa. A Madre Teresa lan\u00e7a um grito de ang\u00fastia contra o comodismo do continuar assim. Na noite escura do sofrimento tamb\u00e9m Deus se torna escuro. A\u00ed s\u00f3 ajudam as f\u00f3rmulas, o rito!&#8230; Quando se estafa demasiadamente a responsabilidade surge o tempo do deserto, a noite fria ajudando ent\u00e3o as formas lit\u00fargicas. Estas ajudam-nos a n\u00e3o nos esgotarmos na d\u00favida, mesmo que as palavras e os gestos n\u00e3o pare\u00e7am nossos. Isto at\u00e9 que tomemos conta de n\u00f3s no amanhecer duma esperan\u00e7a radiosa. <\/p>\n<p>Quando a dor e a mis\u00e9ria nos bate \u00e0 porta e a deixamos entrar surge ent\u00e3o a viv\u00eancia do deserto e a solid\u00e3o da vida. A\u00ed, no descampado do vazio, a nossa alma alcan\u00e7a os limites do horizonte. A\u00ed se desmascara a ideia de Deus e de n\u00f3s mesmos. A folhagem das ideias corre com o vento e esvai-se na imensid\u00e3o do limite. N\u00e3o h\u00e1 mais a sombra duma \u00e1rvore, o aconchego duma ideia ou um rega\u00e7o onde nos proteger. Nesse estado torna-se presente o bramir da fome do mundo, o frio da vida no rescaldo do sol: Luz e treva na mesma dan\u00e7a. \u00c9 noite em pleno meio-dia! Do nosso ser resta a\u00ed s\u00f3 um erguer de bra\u00e7os ao c\u00e9u de prata fria e o amargo cair sobre a areia branca num sussurro de praga contra aquele Deus indiferente e distante, que nos deixa sem resposta. Apenas fica o bater de corpo naquela terra ap\u00e1tica que j\u00e1 n\u00e3o gera! Nesse momento sou j\u00e1 o desespero ajoelhado, j\u00e1 cansado do horizonte dum c\u00e9u que n\u00e3o \u00e9 meu! Torno-me terra cansada, de tanta mis\u00e9ria regada, s\u00f3 lama contaminada.<\/p>\n<p>              Oh Deus, porqu\u00ea tanta dor, porqu\u00ea tanta mis\u00e9ria? <\/p>\n<p>Num primeiro momento s\u00f3 resta o fremir do sil\u00eancio na imensidade dum c\u00e9u mudo. Depois as nuvens negras do limite. A seguir, as tempestades da alma entram em sintonia com as da natureza e da sociedade. Sucede-se-lhe a acalmia\u2026 \u00c9 a rela\u00e7\u00e3o trinit\u00e1ria a acontecer, num mesmo instante a realidade de incarna\u00e7\u00e3o-morte-ressurrei\u00e7\u00e3o a expressar-se.<\/p>\n<p>           <span style=\"font-weight:bold;\">Deus n\u00e3o precisa de s\u00fabditos nem de seguidores obedientes<\/span><br \/>Depois, no tempo da calmaria e da colheita surge talvez a pena por se ter ralhado com Deus. Alguns, mais sens\u00edveis s\u00e3o posteriormente acompanhados por uma depress\u00e3o da alma, que muitas vezes \u00e9 assistida por uma religiosidade sombria, um pietismo ran\u00e7oso que desconhece a inf\u00e2ncia do divino, que s\u00f3 aponta para o crucificado. Um mundo interior sem m\u00e3e! Um mundo que s\u00f3 reconhece o Outono e o cair das folhas n\u00e3o conhecendo a \u00e1rvore no esplendor dos seus frutos. Fixam-se naquela \u00e1rvore da cruz que reprime a vivacidade e a alegria de viver, aquela \u00e1rvore sem Cristo, talvez s\u00f3 presente na seiva. Sim, tamb\u00e9m Cristo se chateou da figueira que naquela altura n\u00e3o tinha figos! Ele sabe por\u00e9m que Deus n\u00e3o \u00e9 aquele comerciante e mesquinho castigador. Deus n\u00e3o precisa de s\u00fabditos e de seguidores obedientes nem quer uma religi\u00e3o consolada e alimentada por um sentimento de culpa. Ele \u00e9 a seiva da \u00e1rvore inteira. N\u00e3o precisa de pastores reduzidos a c\u00e3es de guarda. <\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil apoderar-se de Deus para depois se ir lanchar com ele ou ir encurral\u00e1-lo nalgum lugar ou nalguma ideia. A experi\u00eancia da \u201cnoite escura\u201d n\u00e3o \u00e9 prova \u00e0 f\u00e9 como pensam os que pretendem fazer de Deus um tentador. A\u201dnoite escura\u201d \u00e9 crise pura. \u00c9 a noite do monte das oliveiras onde n\u00e3o h\u00e1 salvadores. Nela se compartilha a dor dos pobres, a calidez do universo; ela \u00e9 dor seca de solid\u00e3o sem sentimento, \u00e9 a mesma dor do Jesus abandonado, uma dor fria sem consolo, sem Deus. \u00c9 f\u00e1cil n\u00e3o tomar a s\u00e9rio a dor da aus\u00eancia de Deus refugiando-se no argumento de que \u201cEle l\u00e1 sabe\u201d. Porqu\u00ea tanta discri\u00e7\u00e3o na liberta\u00e7\u00e3o dos miser\u00e1veis. Por que \u00e9 que n\u00f3s homens n\u00e3o reconhecemos a dignidade dos fazemos inconsol\u00e1veis? <\/p>\n<p>A dor n\u00e3o conhece t\u00e3o-pouco um Jesus invejoso de premeio. Jesus \u00e9 a dor do mundo; quem a sofre e assume participa directamente na reden\u00e7\u00e3o do mundo, torna-se co-redentor e art\u00edfice da cria\u00e7\u00e3o. A\u00ed no abismo da escurid\u00e3o, se gera a luz e o que se faz \u00e9 obra de Deus, o mist\u00e9rio trinit\u00e1rio a acontecer. O pobre \u00e9 o rosto de Deus que se mostra no Filho, no Homem, no crente e no descrente.<\/p>\n<p>Teresa n\u00e3o se deixa prostituir, permanece fiel a si mesma e deste modo reconhece a seiva divina a brotar nela e na humanidade. Tem tempo para se ocupar com Deus e com as suas imagens. Sabe que \u201ca noite escura\u201d tamb\u00e9m \u00e9 a hora de Deus, pese isto embora a muitos sacerdotes do povo. Fora do aconchego da tradi\u00e7\u00e3o o sentir religioso \u00e9 diferente e tem por companheiro a d\u00favida\u2026 A ora\u00e7\u00e3o, por vezes, j\u00e1 n\u00e3o obedece \u00e0 f\u00f3rmula; o acesso a Deus torna-se mais privado perdendo o car\u00e1cter de audi\u00eancia. Em Teresa transparece tamb\u00e9m a consci\u00eancia do nosso tempo. Antigamente, numa mentalidade dualista, confian\u00e7a e medo eram express\u00f5es da proximidade ou distanciamento de Deus. O Deus trinit\u00e1rio por\u00e9m nunca se encontra longe ou perto. Ele est\u00e1 sempre presente quer na paix\u00e3o quer na ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>                               A vida fala no sil\u00eancio<br \/>As pessoas encontram-se demasiadamente ocupadas com mandamentos, devo\u00e7\u00f5es, ideias sobre isto e aquilo, sobre Deus e o diabo, n\u00e3o podendo questionar-se a si, questionar Deus, a vida e o mundo. Distraem-se e s\u00e3o distra\u00eddas! Fazem de tudo roupagem para se cobrirem ou enfeitarem como se a vida fosse um teatro de jardim infantil. No desejo de se ser encoberto pela ramagem do jardim, repete-se o momento em que Ad\u00e3o foge \u00e0 pergunta de Deus \u201cAd\u00e3o onde est\u00e1s?\u201d Ad\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9, ele apenas est\u00e1 por a\u00ed perdido!<\/p>\n<p>O medo escurece o caminho para Deus, para n\u00f3s pr\u00f3prios levando-nos a viver do outro lado de n\u00f3s, na seguran\u00e7a. A\u00ed n\u00e3o se vive, criam-se intervalos da vida: trabalha-se, reza-se, canta-se, chora-se e baila-se. \u00c9 a pegada dum s\u00f3 p\u00e9 a que falta a do outro!&#8230;<\/p>\n<p>Deus n\u00e3o se zanga da nossa zanga com Ele. Ele n\u00e3o \u00e9 ultrajado sozinho. Isto corresponderia a uma ideia estranha dum Deus n\u00e3o trinit\u00e1rio que veria a Sua bondade condicionada ao sacrif\u00edcio e \u00e0 penit\u00eancia. Muito ate\u00edsmo e arrog\u00e2ncia nesta ideia de Deus, a ideia dum Deus vingativo, como se Deus se alimentasse da penit\u00eancia, do desagravo e da dor. Como se Ele e n\u00f3s n\u00e3o estiv\u00e9ssemos imbu\u00eddos no mesmo mist\u00e9rio!&#8230; A n\u00f3s parece fazer-nos jeito abusar da ora\u00e7\u00e3o para alcan\u00e7ar milagres, para nos agarrarmos a alguma coisa materializada, como se ele n\u00e3o fosse vida, como se ele fosse um estranho! Nas m\u00e3os de Deus est\u00e3o as nossas m\u00e3os, numa ac\u00e7\u00e3o comum.<\/p>\n<p>Cada esta\u00e7\u00e3o tem a sua viv\u00eancia, a sua verdade, a sua cor. Numa \u00e9 a altura da alegria e do louvor, noutra o momento da indigna\u00e7\u00e3o, o suspiro do total abandono no calv\u00e1rio. Sim tamb\u00e9m nos Slums e nos Puffs, na mis\u00e9ria da hero\u00edna e de SIDA, tamb\u00e9m a\u00ed se encontra a Paix\u00e3o por acabar, a\u00ed \u00e9 o momento do abandono, o instante do ate\u00edsmo profundo. Aqui na sombra da P\u00e1scoa, na Paix\u00e3o do ser humano, a\u201dnoite escura\u201d \u00e9 processo, \u00e9 Domingo \u00e0 Sexta-feira. Somos Cristo a sofrer!<\/p>\n<p>Na amargura da necessidade e da d\u00favida surge o vazio, a aus\u00eancia. \u201cMeu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?\u201d O sil\u00eancio, a mis\u00e9ria tornam-se insuport\u00e1veis. Deus em tudo e em todos questiona-se a si mesmo. N\u00e3o precisa de defensores, de c\u00e3es de guarda, gordos e cientes do seu Senhor, de c\u00e3es de guarda anafados e cientes do seu estado no Estado. Estes est\u00e3o alheios a Deus e ao mundo, estes lavam as m\u00e3os num povo toalha, sim, num Deus toalha. Estes desconhecem a natureza de Cristo e separam tudo para melhor mandarem, mandarem de fora, n\u00e3o de dentro onde a Realidade acontece.<\/p>\n<p>No momento do abandono n\u00e3o se sabe o que se faz nem o que se diz, \u00e9 o momento do vazio. A vida tamb\u00e9m fala no sil\u00eancio; a resposta est\u00e1 no sil\u00eancio, mesmo quando Deus se cala. Deus \u00e9 mais que meu vizinho! No meu vizinho encontro esse mais.<\/p>\n<p>                      A d\u00favida \u00e9 um atalho para o meu encontro<br \/>A d\u00favida \u00e9 um pressuposto para o encontro de mim mesmo, um momento no processo de desenvolvimento. Para me encontrar tenho de me perder. A d\u00favida \u00e9 um caminhar atento e em presen\u00e7a, um caminhar em conjunto para o pr\u00f3prio encontro no encontro do outro. De facto encontramo-nos demasiadamente embrulhados para sentirmos o pr\u00f3prio corpo, a pr\u00f3pria alma, o pr\u00f3prio ser. Muitas vezes perdemo-nos e deixamo-nos enganar pelos inv\u00f3lucros das ideias de Deus, de vida, de bem, de sociedade, etc. Al\u00e9m disso h\u00e1 muito comerciante s\u00f3 interessado no neg\u00f3cio das fardas.<\/p>\n<p>A d\u00favida permite a contradi\u00e7\u00e3o, a express\u00e3o polar da vida. No decorrer do desenvolvimento, sistemas e institui\u00e7\u00f5es perdem a sua relev\u00e2ncia medianeira no encontro com a realidade que passa a ser um processo entre ipseidade e alteridade indefinida, um processo que n\u00e3o pode ser institucionalizado numa forma de vida ou de estar, mesmo a pretexto do bem e da felicidade. A vida acontece em comunidade, \u00e9 a comunidade na realidade trinit\u00e1ria. A institui\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas muleta ou tapete. <\/p>\n<p>A vida \u00e9 uma poesia, uma ora\u00e7\u00e3o sempre a ser recome\u00e7ada. A devo\u00e7\u00e3o, a ideia, a certeza reduzem-se muitas vezes a materializa\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito. Uma concretiza\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito, a mi\u00fado, tornado pedra, onde se trope\u00e7a a caminho da verdade e do bem! Nesse caminhar n\u00e3o se pode ficar entre f\u00e9 e d\u00favida no equil\u00edbrio do artif\u00edcio. Somos campo de batalha sem vencidos nem vencedores. <\/p>\n<p>Na voz dos mortos h\u00e1 uma son\u00e2ncia por Deus e na mis\u00e9ria dos que vivem sem sol na vida uma queixa que quer promessa, uma disson\u00e2ncia que quer ser integrada no concerto universal. N\u00e3o se trata aqui s\u00f3 da ac\u00fastica, da atmosfera como podem querer muitos arquitectos do institucional, do conceptual\u2026 N\u00e3o se trata s\u00f3 do existir, do estar aqui. Trata-se da vida toda universal e indivis\u00edvel, da vida toda em todos.<\/p>\n<p>Teresa, a tua experi\u00eancia \u00e9 a de muitos que, na enxurrada da vida, querem represar as cheias. Esta vontade de n\u00e3o querer n\u00e1ufragos chama por Deus para ouvir as vozes dos mudos de tanto sofrer. Na minha dor pretendo de Deus um cora\u00e7\u00e3o maior que o meu. No meu desespero quero acord\u00e1-lo. Porque deixas andar \u00e0 solta esses lontros e bem anafados que vivem do engano e a enganar? Olha, n\u00e3o v\u00eas aquela crian\u00e7a desviada, violada, assassinada, aquela mulher batida, aquele pobre com fome. Afinal, o que se passa contigo, Deus?! N\u00e3o s\u00e3o eles a outra parte de ti? Porque n\u00e3o brilha o sol da alegria deste lado? Porque fica a sombra da vida aqui. Porque devem as l\u00e1grimas dos outros dar o sal para outros temperarem a sua vida? N\u00e3o v\u00eas como os injustos vencem? Tamb\u00e9m tu fazes parte da injusti\u00e7a! Porque s\u00f3 me resta a viv\u00eancia de Job?<\/p>\n<p>Naturalmente que tu te desculpas que te encontras do outro lado das pessoas, que elas se n\u00e3o descobrem e consequentemente n\u00e3o te poder\u00e3o encontrar! E dir\u00e1s: Eles procuram-me fora deles, na estrutura, fora dos outros, por isso andam t\u00e3o perdidos e desencontrados. Quando se encontrarem, as l\u00e1grimas na face do mundo ter\u00e3o menos sal porque estas ser\u00e3o ent\u00e3o as suas\u2026 <\/p>\n<p>A dor \u00e9 tal que por vezes me separa do todo, de Ti. Ent\u00e3o encontro-me solid\u00e1rio, s\u00f3 com as v\u00edtimas, deixando de ver o seu outro lado. Dirijo-me ao seu outro lado na condena\u00e7\u00e3o da tirania na busca dum maior pulsar do que o do cora\u00e7\u00e3o humano. Como a tua outra parte \u00e9 tamb\u00e9m minha n\u00e3o posso nem quero conformar-me com a tal realidade. N\u00e3o quero ver o meu grito sufocado por ora\u00e7\u00f5es nem abafado na paz da igreja ou da pol\u00edtica. Tamb\u00e9m o desespero precisa da sua hora! A ele segue-se a liberta\u00e7\u00e3o, ou seja, a salva\u00e7\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>Aqui no canto ch\u00e3o, neste gregoriano ressoa a voz triste dos sem voz, os suspiros dos da valeta, a tal voz de Deus despercebida. Nela por\u00e9m se esvai a f\u00e9 n\u2019Ele tal como o incenso ao ser queimado, como aquelas vidas queimadas \u00e0 sombra de palavras e sistemas de que s\u00f3 o fumo parece restar, palavras m\u00e1scara que permitem que a sua alucina\u00e7\u00e3o da vida continue apenas no discurso, no texto. <\/p>\n<p>         A continuidade da injusti\u00e7a \u2013 uma constante com foros de cidadania<br \/>A persist\u00eancia da injusti\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es, a sua efic\u00e1cia nas diferentes formas de governo e nos diferentes estilos de vida individuais, \u00e9 a maior constante observ\u00e1vel no cont\u00ednuo suceder dos sistemas humanos ao longo da hist\u00f3ria. O argumento dos avan\u00e7os hist\u00f3ricos continua a ser \u00f3pio para incautos. Progresso \u00e0 custa do Homem particular e da dignidade da maioria\u2026<\/p>\n<p>A modernidade d\u00e1 continuidade \u00e0 avalanche dos sem fala, do indiz\u00edvel dos sem rosto, onde a esperan\u00e7a morreu num reino de tiranos de caras lavadas sem semblante. De resto, continuaremos a cantar cantigas de amigo procurando o rosto do homem nos segredos da natureza. Entretanto o Teu amor espalhado nas favelas continua a chamar por ti, por mim. O meu amor por ti na favela, me impede, por vezes, de te ver e de te consolar na almofada da Igreja e nos nichos da pol\u00edtica. L\u00e1 no irm\u00e3o longe tu irm\u00e3o Deus \u00e9s o meu irm\u00e3o que amo. L\u00e1 nele me poderias amar tamb\u00e9m tu que \u00e9s fr\u00e1gil tamb\u00e9m. Porqu\u00ea tanta divis\u00e3o, tanto partido, tanta religi\u00e3o? Porqu\u00ea o cidad\u00e3o a explorar o cidad\u00e3o? Nos lares reina a escurid\u00e3o, na \u00e1gora a treva, nos espa\u00e7os p\u00fablicos a confus\u00e3o. Nas cozinhas as baratas e na pra\u00e7a as ratazanas.<\/p>\n<p>Oh se o mundo se deixasse olhar, se permitisse o olhar do pobre no seu olhar! Nesse caso surgiria a caridade e ent\u00e3o aquele olhar de mendigo me (te) testemunharia. Ent\u00e3o uma \u00e9poca da gra\u00e7a surgiria onde os pobres n\u00e3o andariam mais \u00e0 merc\u00ea e a miseric\u00f3rdia n\u00e3o seria mais uma humilha\u00e7\u00e3o. Em contrapartida tu que n\u00e3o te deixas raspar do meu ser, choras desconsolado em mim, aquilo que eu n\u00e3o fa\u00e7o, aquilo que a correc\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nunca faz. Continuas incompreens\u00edvel porque n\u00e3o queres simpatia porque n\u00e3o \u00e9s poder. \u00c9s por\u00e9m exigente ao pretenderes dar-nos um novo cora\u00e7\u00e3o e um novo esp\u00edrito. <\/p>\n<p>                             Tu, Deus, \u00e9s o meu vizinho!<br \/>De gatas terei de come\u00e7ar de novo, sem m\u00e3o a ajudar-me. Sei que \u00e9s um Deus da gra\u00e7a onde a liberdade est\u00e1 em casa e n\u00e3o na boca dos que a anunciam. No teu olhar bondoso as minhas ilus\u00f5es desaparecem. O mal e as l\u00e1grimas que a favela chora s\u00e3o, contigo, a acusa\u00e7\u00e3o do poder e da viol\u00eancia. Tu, Deus, \u00e9s o meu vizinho!<\/p>\n<p>Madre Teresa tinha raz\u00e3o em revoltar-se contra ti. Ela sabe que em teu nome, em nome do poder e do costume, se afirma e d\u00e1 continuidade \u00e0 injusti\u00e7a. Eles sabem que a tua rela\u00e7\u00e3o \u00e9 pessoal, do eu para o tu e do tu para o eu. Por isso n\u00e3o Te querem como vizinho. Ter Deus como vizinho n\u00e3o \u00e9 agrad\u00e1vel. O teu amor e a tua gra\u00e7a, nosso bem individual e comum, foram encarcerados na institui\u00e7\u00e3o e sistemas, em estados, religi\u00f5es e partidos, em cada um de n\u00f3s&#8230; Assim pode o mal andar \u00e0 solta e ganhar foros de cidadania. Teresa diz-nos que j\u00e1 chega de jogo da cabra cega, que vai sendo tempo da metan\u00f3ia.<\/p>\n<p>O homem na tentativa de tornar o povo ovelha perdeu a humanidade para passar a ser c\u00e3o, c\u00e3o de guarda do que n\u00e3o lhe pertence. C\u00e3es vadios guardando e vivendo da degrada\u00e7\u00e3o e da in\u00e9rcia do outro num campo de concentra\u00e7\u00e3o. Abstrac\u00e7\u00f5es n\u00e3o se amam! Deus \u00e9 pessoal, conhece-te pelo nome, ele \u00e9 povo mas n\u00e3o massa inerte. O amor n\u00e3o \u00e9 abstrac\u00e7\u00e3o, \u00e9 rela\u00e7\u00e3o a dois, a tr\u00eas. Tamb\u00e9m o pr\u00f3ximo \u00e9 uma singularidade, uma pessoa onde se concretiza o amor ao todo. Este come\u00e7a naquele.<\/p>\n<p>Teresa sentiu cedo o chamamento: \u201cvem s\u00ea a minha luz!\u201d Este foi o chamamento de Deus a Jesus, a cada um de n\u00f3s, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o inteira! Porque continuar a adiar a incarna\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/> 2008<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um grito de ang\u00fastia contra o comodismo da justi\u00e7aAnt\u00f3nio Justo Entre o Desespero e a Esperan\u00e7a!O \u201canjo dos pobres\u201d viveu e vive, na \u00cdndia, junto dos que moram do lado sombrio da vida e que dela s\u00f3 conhecem os dias do calv\u00e1rio. A Nobel da Paz, que tudo deu pelos pobres, era assolada por um &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1408\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">Teresa de Calcut\u00e1 discutia com Deus<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1408","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1408","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1408"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1408\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1408"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1408"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1408"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}