{"id":1399,"date":"2009-03-09T11:07:00","date_gmt":"2009-03-09T10:07:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1399"},"modified":"2009-03-09T11:07:00","modified_gmt":"2009-03-09T10:07:00","slug":"mulher-defraudada-na-sua-honra-e-dignidade-social-e-eclesiastica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1399","title":{"rendered":"Mulher Defraudada na sua Honra e Dignidade Social e Eclesi\u00e1stica"},"content":{"rendered":"<p>Liberta\u00e7\u00e3o ou Emancipa\u00e7\u00e3o?<br \/>Ant\u00f3nio Justo<br \/>Emancipa\u00e7\u00e3o continua um problema n\u00e3o resolvido na \u00e9poca moderna. A hist\u00f3ria da mulher \u00e9, em muitas culturas e subculturas, enquadrada num ambiente de culpa e vergonha. <\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 150 anos tem havido, epidermicamente, a preocupa\u00e7\u00e3o de se criar mais justi\u00e7a no trato da mulher. A nova sociedade do trabalho precisava de m\u00e3o-de-obra para satisfazer as suas necessidades. A mulher foi mobilizada tamb\u00e9m adquirindo assim, para l\u00e1 da fam\u00edlia, um lugar na sociedade. A emancipa\u00e7\u00e3o da mulher tem-se processado numa forma de servir o trabalho.<\/p>\n<p>A sociedade industrial capitalista e socialista equaciona o ser humano em termos de trabalho e de dinheiro, sem outros horizontes mitigantes poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Nesta sociedade de concorr\u00eancia, tamb\u00e9m a mulher se v\u00ea obrigada a equacionar o seu sentido, a sua emancipa\u00e7\u00e3o, em termos de trabalho, em perspectivas meramente funcionais. Assim tamb\u00e9m ela luta por um lugar, uma fun\u00e7\u00e3o na sociedade<\/p>\n<p>Relegada, na grande maioria para trabalhos considerados \u201cinferiores\u201d sente que a feminidade \u00e9 explorada pelo virilismo. Magoada no \u00e2mago do seu ser op\u00f5e-se a ser reduzida \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de servir e por isso luta pela igualdade de oportunidades. <\/p>\n<p>No princ\u00edpio \u201cDeus criou o Homem como homem e mulher\u201d, \u00e0 sua \u201cimagem e semelhan\u00e7a\u201d. O ser do homem e do seu estar social ultrapassa a masculinidade e a feminidade. Encontrando-se embora mulher e homem numa rela\u00e7\u00e3o polar n\u00e3o \u00e9 leg\u00edtimo reduzir a mulher a um papel social sexual ou laboral \u00e0 medida duma forma de Estado criado \u00e0 imagem do homem. Deus criou-os diferentes mas iguais; iguais tamb\u00e9m no servi\u00e7o m\u00fatuo do matrim\u00f3nio. A mulher n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 mulher nem o homem \u00e9 s\u00f3 homem, os dois juntos s\u00e3o a imagem de Deus. <\/p>\n<p>O seu ser pessoal, n\u00e3o suporta a redu\u00e7\u00e3o a mero indiv\u00edduo em interdepend\u00eancia. Seria machismo reduzir a emancipa\u00e7\u00e3o da mulher apenas a uma igualdade funcional de direitos. Um e outro t\u00eam a mesma dignidade humana sem qualquer prioridade de um sobre o outro, pelo que n\u00e3o pode haver reservados limitadores da ac\u00e7\u00e3o feminina: tamb\u00e9m a exclus\u00e3o da ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal para mulheres n\u00e3o pode ser legitimada com pretextos do sexo, ou pretextos culturais, j\u00e1 que estes s\u00e3o premissas provenientes da sociedade masculina, premissas dum Estado regido pela masculinidade. Estados e religi\u00f5es roubam algo \u00e0 igualdade da mulher, defraudando-a na sua dignidade humana. A equival\u00eancia de homem e mulher na dignidade \u00e9 estrutural n\u00e3o podendo esta ser reduzida a uma igualdade meramente funcional deduzida do car\u00e1cter sexual, duma forma de estar do Homem. Da\u00ed que tamb\u00e9m a Igreja Cat\u00f3lica se encontra a n\u00edvel pr\u00e1tico em contradi\u00e7\u00e3o com a sua pr\u00f3pria doutrina ao considerar a mulher apenas sob o car\u00e1cter funcional ao n\u00e3o lhe permitir o acesso \u00e0 ordem sacerdotal.<\/p>\n<p>Na polaridade pr\u00f3pria do ser terreno n\u00e3o se podem reduzir a voca\u00e7\u00e3o do Homem (Mulher e Homem) a uma profiss\u00e3o como se os dois tivessem apenas uma rela\u00e7\u00e3o funcional. <\/p>\n<p>N\u00e3o seria hoje, uma das tarefas da mulher, o momento de repetir o gesto de Eva, chamando o homem \u00e0 aten\u00e7\u00e3o de olhar para cima, para a \u00e1rvore da liberdade? Acordar, de novo o companheiro para a vida. Se na cena b\u00edblica a mulher o acordou da animalidade para a racionalidade, hoje ela ter\u00e1 de o acordar do seu viver em segunda m\u00e3o, da sua cama da cultura, n\u00e3o permitindo que ele continue a ser cuco a p\u00f4r ovos em ninho alheio! <\/p>\n<p>Emancipa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se reduz apenas ao querer participar na competi\u00e7\u00e3o organizada pelo homem; nesse caso seria um mal-entendido da liberta\u00e7\u00e3o.. Emancipa\u00e7\u00e3o come\u00e7aria por questionar a corrida e pretender investigar para onde vai a corrida. Doutro modo a mulher apenas fortalecer\u00e1 o sistema masculino, um sistema de corrida em que todos ficam pelo caminho, estafados, sem saberem para onde corriam. N\u00e3o chega fazer do caminho sentido. Isso \u00e9 masculino. O especificamente feminino ser\u00e1 preocupar-se com o produto, com o processo na perspectiva final do parto!&#8230;<\/p>\n<p>A emancipa\u00e7\u00e3o implica um processo de liberta\u00e7\u00e3o das estruturas da viol\u00eancia, que se torne liberta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m para o homem e liberta\u00e7\u00e3o dos \u00eddolos masculinos.<\/p>\n<p>A emancipa\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e uma revis\u00e3o da vida humana sob a perspectiva do olhar fecundo da mulher n\u00e3o interessada apenas numa satisfa\u00e7\u00e3o ocasional sempre repetida, mas numa correc\u00e7\u00e3o de perspectiva de futuro, o que implicaria uma rectifica\u00e7\u00e3o dos valores. Valores femininos, de que se sente a falta no modelo de sociedade em pr\u00e1tica. <\/p>\n<p>O homem parece continuamente precipitado na correria ao orgasmo, na realiza\u00e7\u00e3o do her\u00f3i, do conquistador, numa correria de destrui\u00e7\u00e3o, duma ventania que passa, num instinto de morte a fugir a si mesma. Enquanto o homem se esgota no acto, a mulher repousa na ac\u00e7\u00e3o com a for\u00e7a da paci\u00eancia da vida que na sua gesta\u00e7\u00e3o, ac\u00e7\u00e3o criadora, implica a paci\u00eancia da gravidez que se realiza no viver. Naturalmente que a ventania masculina tamb\u00e9m \u00e9 importante, mas, sem a persist\u00eancia, sem a continuidade feminina, s\u00f3 realiza conquistas, devasta\u00e7\u00f5es, utopias de embalar para n\u00e3o sentir o cont\u00ednuo morrer. Se o homem traz nele o tanatos (a morte), a mulher traz nela a vida; um e outro s\u00e3o insepar\u00e1veis. Trata-se da uni\u00e3o dos dois, na viv\u00eancia consciente da tens\u00e3o polar entre os dois na realiza\u00e7\u00e3o dum terceiro ser: o n\u00f3s. O homem precisa de adquirir a paci\u00eancia para sentir a vida a realizar-se nele e n\u00e3o se contentar com o sentimento da vida a passar. Uma actividade feminina mais presente unida a uma virilidade mais paciente poderiam parir um outro tipo de sociedade em que a humanidade, a complac\u00eancia estivessem em casa. <\/p>\n<p>Num primeiro momento a feminidade educaria a masculinidade conduzindo a sociedade para um novo caminho. Ent\u00e3o a massa morta do povo passaria a levedar um novo estar, um novo ser. N\u00e3o se trata do amolecimento do masculino, ou de se criar um homem maricas decadente, nem uma mulher macho, um virago. Trata-se de conseguir a uni\u00e3o da privacidade \u00edntima com o p\u00fablico representativo. O mundo tecnol\u00f3gico e partid\u00e1rio seriam mitigados por uma maior presen\u00e7a duma cultura de arte, literatura e ideias, passando da ortodoxia de que se apoderou o homem para uma ortopraxia. N\u00e3o \u00e9 suficiente que o homem continue a instrumentalizar o feminino, servindo-se do er\u00f3tico da mulher para melhor expressar e transportar a sua masculinidade na cultura e sociedade.<\/p>\n<p>N\u00e3o se avistam modelos concretos de sociedade que tenham respeito pela feminidade e menos ainda que a integrem. Capitalismo, Comunismo, Socialismo materialista s\u00e3o os melhores exemplos duma cultura tipicamente masculina. S\u00f3 uma mudan\u00e7a de valores, que n\u00e3o a de valores masculinos em voga, que s\u00e3o o resultado e o objectivo duma ordem masculina unilateral, garantir\u00e1 liberta\u00e7\u00e3o do homem e da mulher, em conjunto. A masculinidade foi separada da feminidade tal como a sociedade do trabalho separou a fam\u00edlia da sociedade, em detrimento da sociabilidade e da privacidade. <\/p>\n<p>O empreendimento duma sociedade humana implica esfor\u00e7os em todas as direc\u00e7\u00f5es: da filosofia para que esta d\u00ea mais relevo ao m\u00e9todo indutivo, da religi\u00e3o para que esta d\u00ea mais relevo \u00e0 feminidade divina, da economia para que esta d\u00ea mais relevo ao car\u00e1cter humano e duma pol\u00edtica menos partid\u00e1ria e mais solid\u00e1ria que reflicta o esp\u00edrito das disciplinas anteriores. Isto pressup\u00f5e o projecto duma mulher aut\u00eantica e do homem aut\u00eantico, ambos em processo aberto, sem se deixarem instrumentalizar e funcionalizar.<\/p>\n<p>Trata-se de ultrapassar o mesmo esp\u00edrito que deu forma \u00e0s sociedades dos escravos, dos senhores e \u00e0 actual sociedade do trabalho para passarmos a uma infra-estrutura, baseada no Homem feminino e masculino, geradora duma sociedade humana. Passar duma sociedade dos servi\u00e7os para uma sociedade do humano, duma sociedade que n\u00e3o se esgote no acto sexual mas se delicie tamb\u00e9m na gesta\u00e7\u00e3o!&#8230; Uma sociedade j\u00e1 n\u00e3o do homem, mas do Homem, uma sociedade gr\u00e1vida de humanidade sem lugar para poleiros baseada na m\u00edstica do galo e da galinha. A diferen\u00e7a \u00e9 uma constante na natureza que apela \u00e0 solidariedade. O que determina a ess\u00eancia ontol\u00f3gico do homem \u00e9 a mulher e o que determina a ess\u00eancia ontol\u00f3gico da mulher \u00e9 o homem, doutro modo ser\u00edamos reduzidos, uns e outros \u00e0 esterilidade.<\/p>\n<p>J\u00e1 fomos, demasiado tempo, conquistadores e her\u00f3is, talvez se aproxime o tempo em que possamos ser todos peregrinos. Ent\u00e3o Ad\u00e3o reconciliar-se-\u00e1 com Eva deixando de se afirmar pela coac\u00e7\u00e3o e de viver do sal\u00e1rio barato da obedi\u00eancia e da subjuga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Que vale a descren\u00e7a, que vale o cepticismo se se desfaz numa outra f\u00e9? Ent\u00e3o seria mais oportuno voltar \u00e0 f\u00e9 primeira numa ortopraxia.Ent\u00e3o ser\u00e1 \u00f3bvia a liberta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a emancipa\u00e7\u00e3o. Aquela constr\u00f3i, enquanto que esta \u00e9 a t\u00e1ctica de dom\u00ednio do homem: divide para reinar!&#8230;<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>Te\u00f3logo<br \/>antoniocunhajusto@googlemail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Liberta\u00e7\u00e3o ou Emancipa\u00e7\u00e3o?Ant\u00f3nio JustoEmancipa\u00e7\u00e3o continua um problema n\u00e3o resolvido na \u00e9poca moderna. A hist\u00f3ria da mulher \u00e9, em muitas culturas e subculturas, enquadrada num ambiente de culpa e vergonha. Nos \u00faltimos 150 anos tem havido, epidermicamente, a preocupa\u00e7\u00e3o de se criar mais justi\u00e7a no trato da mulher. 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